Tratar de modelo dialogal de argumentação evidencia superficialmente uma redundância, mas esperamos desfazer esse mal-entendido. Mas vale ressaltarmos que o próprio Plantin reconhece a necessidade de determinar as bases de seus estudos sobre argumentação em posicionamentos já consagrados, como os de Perelman & Olbrechts-Tyteca e Toulmin, uma vez que a diversidade desse campo de investigação pode tornar difícil a abordagem, como também admitiram os proponentes da Nova Retórica. Nesse contexto, aquele estudioso crítico da argumentação inicia seus trabalhos de pesquisa considerando os estudos dessa área produzidos desde o final da Segunda Grande Guerra, fundados em meio à crise do discurso político, ao aparecimento dos regimes totalitários e das formas modernas de propaganda.
De acordo com Plantin (2008, p. 63), os modelos dialogais foram desenvolvidos em uma “perspectiva lógica do diálogo”, contexto em que surgiram os modelos pragmático- conversacionais – a pragmadialética. É exatamente no diálogo, situação interacional, que os interlocutores argumentam; a situação propicia que isso aconteça. O teórico acrescenta:
Segundo o modelo dialogal, a situação argumentativa típica é definida pelo desenvolvimento e pelo confronto de pontos de vista em contradição, em resposta a uma pergunta. Em tal situação, têm valor argumentativo todos os elementos semióticos articulados em torno dessa pergunta (PLANTIN, 2008, p. 64-65).
Antes de assentar a teoria do modelo dialogal, Plantin (1996, p. 19-20) tenta inscrever o estudo da argumentação num quadro teórico, deixando mais claros a redefinição do domínio desse processo e o modo como o seu objeto pode ser circunscrito e possibilitar uma teorização. As decisões atinentes a essa redefinição é que, segundo ele, nortearão a construção de cada proposta teórica para o entendimento do que é argumentação. Mas o estudioso chama atenção para o fato de o sistema semântico da língua, refletido sobre a argumentação, oferecer
16 Cf. PLANTIN, C. Ensaio de argumentação comparada: a argumentação teológico-jurídica no Islã. In: ____. A Argumentação – História, teorias, perspectivas. São Paulo: Parábola, 2008. p. 127-144.
“esboços de teorias” necessários à organização do arcabouço teórico crítico e dialogal e para o fato de considerar as oposições que apresenta como definidoras de questões relevantes para o universo dos estudos da argumentação. As respostas dadas a tais questões são definidoras dessa ou daquela teoria, incompreensíveis até que se esclareça a sua problematização.
Observemos o quadro seguinte, elaborado por nós com base na discussão proposta por Plantin17.
Quadro 1 – Base teórica dos estudos argumentativos
Tipo de atividade
Argumentação - atividade linguística
Argumentação - atividade de pensamento
Foco na argumentação A língua (langue) é argumentativa
A palavra enunciada é argumentativa Alguns discursos são argumentativos
Objeto de estudo
O discurso monológico é objeto do estudo da argumentação
A situação dialógica é o objeto do estudo da argumentação
Norma A norma argumentativa é a eficácia A norma argumentativa é a verdade
Finalidade Construção de um consenso Desenvolvimento de uma dissensão
Vejamos que a primeira questão, que, na visão plantiniana, é a do estatuto da argumentação como atividade, diz respeito à linguagem. A prática argumentativa, acompanhada por uma atividade de pensamento, é de natureza linguística, o que faz com que essa prática seja objeto das ciências da linguagem. Mas a argumentação, que deixa marcas no discurso, é uma atividade de pensamento do âmbito das ciências cognitivas. Essa tentativa de Plantin em dimensionar esses aspectos é louvável, mas não é suficiente para evitar as contradições ou ambiguidades que os próprios termos “argumentação”, “linguagem” e “pensamento” carregam.
Onde está a argumentação é a segunda questão a ser considerada para a teorização da argumentação. Se a argumentação está na própria língua, há uma orientação para uma concepção saussureana de língua – objeto fora de contexto; tem-se neste caso uma propriedade semântica das frases. Se a argumentação está no discurso, oriundo de situações pragmáticas, é possível considerar que a palavra é um elemento argumentativo, que age sobre o outro, e que alguns discursos têm natureza argumentativa, pois esta será encontrada em certos modos de organização dos discursos; tem-se neste caso uma propriedade do discurso.
O estudo da argumentação pode se fundamentar no discurso monológico, tomado aqui no sentido oferecido pela retórica clássica: “um conjunto de atos de linguagem planificados, finalizados, que se dirigem a um público num quadro institucional preciso” (PLANTIN, 1996, p. 9). E pode se basear numa situação dialógica, em que se faz uso dos instrumentos dados pela própria análise da interação verbal.
O processo da argumentação pode ser normatizado pela eficácia ou pela verdade. Essa questão, numa teoria geral, permite que avaliemos se há ou não uma boa argumentação. Se a eficácia dá o tom ao jogo argumentativo, o discurso deve influenciar o outro por meio da persuasão. Se é a verdade que orienta o fazer argumentativo, a descoberta do verdadeiro é assegurada.
Outra questão importante, de acordo com as opções teóricas descritas por Plantin, é o propósito da atividade argumentativa, que pode ser tanto a busca pelo consenso – a discordância é entendida como um defeito, portanto a argumentação não está bem construída – como a construção da dissensão, o que pode contribuir para a produção de opiniões divergentes, profícuas ao estabelecimento do contradiscurso.
A relevância dos trabalhos desse teórico está, entre outros, no fato de, ao tratar da avaliação dos argumentos, Plantin (2009) estender seu julgamento a uma proposta de categorizar as teorias da argumentação como críticas e não críticas. Nestas, a argumentação é compreendida no processo geral de argumentação ou como modelo positivo do discurso racional. Já nas críticas, a argumentação é dada como crítica do discurso e, acreditamos, deve ser considerada de acordo com as condições pragmáticas que emolduram esse processo.
Na perspectiva crítica da argumentação, o discurso argumentativo é definido “como um discurso que pretende levar a aceitar um enunciado”, com base em outros (PLANTIN, 1996, p. 29). Essa concepção se contrapõe a uma definição retórica da argumentação, em que esta é permeada pelo incerto e duvidoso enquanto a demonstração é marcada pelo rigor. Em sua análise sobre a lei do verdadeiro, o estudioso esclarece que as normas de natureza científica podem fornecer dados que possibilitem colocar à prova o discurso argumentativo. Busca-se na ciência um sistema de fatos passíveis de comprovação e de normas de encadeamento capazes de elucidar o próprio discurso. Vencida a prova, há demonstração; caso contrário, há argumentação, uma argumentação “aparente”. A figura a seguir, onde D é um dado discurso, mostra esse papel da norma científica, a qual filtra, de modo norteador, o objeto do discurso argumentativo, porque orienta os participantes desse jogo para a descoberta da verdade.
Figura 1 – Possibilidades de orientação do discurso argumentativo
Fonte: PLANTIN, 1996, p. 30 – Adaptado
É com base nessa mesma perspectiva crítica que o teórico introduz aos estudos sobre argumentação uma dimensão dialogal quanto àquilo que o argumento faz no confronto organizado de dois discursos. O que propõe Plantin (2008) é que se repense a prática da argumentação, desencadeada quando se põe em dúvida um ponto de vista, em um quadro no qual a enunciação “está situada contra o pano de fundo do diálogo” (p. 63). O modelo dialogal plantiniano pretende suportar os aspectos dialogal, polifônico e intertextual do discurso, porque reconhece que na argumentação há, sem qualquer dúvida, os aspectos enunciativo e interacional. Plantin18 insiste que o modelo dialogal da argumentação cobre, ao mesmo tempo “o dialogal propriamente dito, o polifônico e o intertextual, a fim de insistir em um aspecto da argumentação, o da articulação de dois discursos contraditórios”.
Como vimos na seção anterior, Plantin relê as teorias tradicionais para orientar seus estudos. Baseado no que ele chama de modelos monologais, esse teórico reconhece que dos diálogos autênticos podem ser retirados os corpora para análise. Ciente de que esses modelos podem suscitar a operacionalização de uma maneira de processar esses dados, entende que estes não podem ser redutíveis a um par de enunciados produzidos por um só locutor. Os discursos, antagônicos, até podem estar distanciados.
Propondo um enfoque basicamente descritivo, Plantin (1998) discute os aspectos relativos à interação argumentativa, com uma perspectiva de análise do discurso em interação. Para o estudioso, a comunicação é plenamente argumentativa se uma oposição discursiva estabelece um problema em forma de pergunta-questão e se são claramente distintos os papéis actanciais do Proponente, do Oponente e do Terceiro, aquele que duvida. Sem esses
18 Op. cit., p. 66.
D é uma argumentação em língua natural
D é uma argumentação aparente D é uma demonstração
Sistema de normas científicas
elementos, não se configura uma situação argumentativa, mas também é importante analisar o modo com esses papéis são estabelecidos.
É preciso que haja um discurso de domínio, que orientará um sujeito a propor contradizendo aquele discurso de poder. Esse sujeito exerce a função (P), base do jogo argumentativo. Se o interlocutor apoia a proposta, se adotou um ponto de vista favorável a ela, fará intervenções que o identificarão com a figura do Proponente. Mas a proposta pode se chocar com oposições presentes nos contradiscursos e o interlocutor assume uma postura negativa em relação à proposta, configurando-se o papel de Oponente. E ainda a proposta pode provocar dúvidas em um interlocutor, o Terceiro, que deixa entrever no discurso uma pergunta gerada a partir da contradição que emerge do discurso/contradiscurso. Nesse contexto nasce a noção de pergunta argumentativa.
Pergunta → Argumento → Conclusão = Resposta à pergunta
Essa parece uma organização simplista para um processo tão complexo como a argumentação, mas Plantin (1998, p. 28) reconhece que as perguntas relativas a uma oposição discursiva nem sempre estão estabelecidas, porque têm uma história. O autor ressalta que se pode contradizer qualquer enunciado, porém isso deve ser feito substancialmente, o que fará da oposição discurso/contradiscurso uma situação argumentativa valorosa para análise, porque causou o efeito desejado.
Devemos destacar que é a figura do Terceiro que toma corpo na teoria da argumentação plantiniana e que revigora os estudos nesse âmbito. O Terceiro, eliminado na argumentação dialética, silenciado – porque colocado em segundo plano – na argumentação retórica, viabiliza a estabilidade da questão da qual emerge o contradiscurso, validando o jogo argumentativo, e assume um papel sistêmico nas situações de interação argumentativa, constituindo situações “trilógicas”1920.
Se considerarmos como lugar argumentativo toda situação em que um debate pode ser organizado, permitindo-se que questões sejam tratadas em função das normas de dada cultura, haveremos de considerar também que a orientação para a argumentação emerge de um contexto histórico social, no qual devemos situar o momento em que a questão a ser debatida surge. Isso nos leva a compreender a concepção de argumentação de Plantin (1998, p. 46)
19 Plantin (1998, p. 31) utiliza o adjetivo “trilógico”, entre aspas, para referir-se à configuração dada ao jogo
argumentativo que envolve os três papéis actanciais já mencionados, e achamos adequado o retomar.
como “modo de interação de discursos contraditórios problematizados por uma pergunta- questão”21. Segundo ele, essa concepção22:
(...) ofrece um ámbito más amplio los estúdios de la argumentación. Se se trata del estúdio de la forma y del grado de argumentación de una situación de comunicación concreta. El discurso, el contradiscurso y la pregunta son los elementos fundamentales cuya presencia o ausência y cuyo modo de articulación permiten esta evaluación (PLANTIN, 1998, p. 46-47).
Considerando esse complexo e amplo contexto, o estudioso crítico da argumentação propõe um trabalho sobre argumentação, qual seja, descrever a configuração do objeto, com base em dadas questões23, que devem configurar numa primeira fase da análise dos discursos e que sintetizamos no quadro a seguir.
Quadro 2 – Proposta básica de análise argumentativa
Análise argumentativa básica
MONÓLOGO - estatuto do contradiscurso - dúvida sobre a posição defendida
DIÁLOGO
- papéis argumentativos
- condições de produção de interação - alianças e suas manifestações
- possibilidade de mudanças de papéis - estabilidade da pergunta
- orientação para a argumentação - natureza do lugar de argumentação - funcionamento dos turnos das palavras
Plantin defende que, em se tratando de um monólogo que fundamenta um dado posicionamento, se postula que essa fundamentação responde a uma oposição implícita e que há uma possibilidade de dúvida em alguma parte do discurso contrário. Isso gera algumas questões a serem esclarecidas, as quais no quadro anterior organizamos como categorias de análise do discurso argumentativo. Devemos buscar averiguar, nesse caso de análise, qual o estatuto que o monólogo concede ao contradiscurso, a quem se empresta a voz, como se apresentam em cena o Oponente e o Terceiro.
21 Tradução nossa.
22 Nossa tradução: (A concepção de argumentação...) oferece um âmbito mais amplo para os estudos da
argumentação. Trata-se do estudo da forma e do grau de argumentação de uma situação de comunicação concreta. O discurso, o contradiscurso e a pergunta são os elementos fundamentais cuja presença ou ausência e cujo modo de articulação permitem essa valoração.
No tocante às situações de interação argumentativa – dialogal e dialógica –, a análise deve se voltar a investigar em que papéis os atores intervêm, como a interação é produzida em se considerando a presença ou ausência do Oponente, quem estabelece as alianças e como elas se organizam, se há possibilidade de os atores mudarem de papéis. Devemos investigar ainda se a pergunta está estabilizada uma vez que pode sofrer mudanças enquanto ocorre o jogo argumentativo; se podem advir outras perguntas da primeira; se a finalidade da interação é o tratamento dado à questão e se esta está orientada; qual a natureza do lugar em que se dá a argumentação; como funciona o turno de palavras, como se relacionam o lugar argumentativo e os papéis actanciais. Plantin (1998, p. 47) ainda afirma que essa tarefa pode ser aplicada utilizando-se um ponto de vista diacrônico (quando a pergunta apareceu?) ou sincrônico (onde a questão é debatida?)
Em princípio, esse teórico acredita que, numa situação de argumentação, o interlocutor se alinha com o locutor, o que já nos levou a considerar o subsistema do engajamento da Teoria da Avaliatividade (MARTIN & WHITE, 2005) como instrumental para nossa análise, esclarecido no capítulo seguinte. Mas os instrumentos dessa teoria, acreditamos, nos ajudarão a lidar com as situações fortemente argumentativas, apoiadas num desacordo que “não é instantaneamente reparado no decorrer da interação em que surgiu; é tematizado na interação; pode ser levado para um lugar argumentativo específico” (PLANTIN, 2008, p. 69). Então, o que podemos dizer é que, se o conflito é a razão de ser da situação de interação, é ele que orienta o desenrolar, embora não possamos esquecer que o discurso está situado histórica e socialmente; ele está no discurso do outro. Mesmo Plantin corrobora essa ideia.
Nesse modelo, como já dissemos, a noção de questão argumentativa se torna o foco principal. A questão argumentativa é dialógica, porque interativa, e se organiza com base em três pilares, que devem ser analisados funcionalmente. Têm-se os papéis actanciais de Proponente, de Oponente e de Terceiro, exercidos por pessoas concretas (atores), que podem ocupar qualquer posição argumentativa. A proposta de análise do discurso argumentativo de Plantin trata de uma interação passível de problematização, mas, ao mesmo tempo, polarizada numa questão, que deve evidenciar a oposição dos discursos. Nessa perspectiva, confrontar ideias não significa confrontar posicionamentos pessoais, por isso a prática argumentativa se organiza num contexto pragmático configurado a partir de estratégias discursivas que dão destaque ao processo interacional. É nessa medida que entendemos ser possível avaliar o potencial argumentativo de textos que não são tipicamente argumentativos, bastando que a diferença entre posições seja problematizada em uma pergunta, uma questão, e que os papéis
dos actantes possam ser distinguidos. Isso quer dizer que “uma situação linguística dada começa assim a ser argumentativa quando nela se manifesta uma oposição de discurso”24. Com base nisso, podemos perceber que esse teórico se interessa também pelos sistemas de coenunciação. Segundo ele, a “polemicidade não é inerente à situação argumentativa” (PLANTIN, 2008, p. 80) por considerar que diferentes posições actanciais podem ser assumidas, sem que os argumentadores se identifiquem com uma delas e sem que surjam “forçosamente” antagonismos entre eles.
Em um trabalho em homenagem a Plantin, Grácio (2008, p. 132) afirma que ainda se pode questionar, numa análise proposta a partir do modelo dialogal daquele teórico, o que faz uma questão se tornar polo da argumentação. Esse avanço quanto ao entendimento do processo de problematização talvez nos levasse a uma discussão sobre autoria, a qual não pretendemos nos deter por considerar que a análise das condições de produção do discurso, do contexto pragmático, seja suficiente para rever o modelo dialogal de Plantin. Mas concordamos com Grácio quando afirma que o “assunto em questão é o polo semiótico da argumentação, o que se revela como a esfera de relevância de que tira sentido a argumentatividade dos enunciados” (p. 133).
Outro aspecto importante na teoria da argumentação de Plantin é o tratamento que dá às pessoas e aos afetos. Conforme afirma, o universo da argumentação pura foi redefinido a partir da rejeição dos afetos e do comprometimento das pessoas com o que dizem. Assim, o discurso argumentativo precisava ser impessoal, concepção que ainda permeia muitos estudos, principalmente os didáticos.
O estudioso acrescenta que, numa proposta monologal, aderir a um discurso é concordar com o interlocutor, como acontece na dialética e na retórica, em que os interlocutores são silenciados, desconsiderados ou deixados a segundo plano. Já numa abordagem crítica do discurso, a inserção de actantes no processo argumentativo é complexificada: quem concorda com quem, quem discorda de quem, quem põe em jogo uma dada questão são questões não estabilizadas. Em busca de uma nova retórica, como já vimos, Perelman e Olbrechts-Tyteca (2005) deixam em evidência a necessidade de haver certo contato entre os interlocutores, embora a figura do orador se configure mais relevante, pois para eles o auditório, o ouvinte, nada mais é do que aquele que deve ser persuadido. Parece ser exatamente por isso que os estudiosos da retórica afirmam ser necessário “ter apreço pela adesão do interlocutor, pelo seu consentimento, pela sua participação mental” (p. 18).
Em seu estudo, Plantin (2008) propõe, então, que uma análise do discurso argumentativo procure formas de tratar a questão dos afetos, das emoções. Para ele, essa análise deve se apoiar em um modelo coerente da construção discursiva que permeia a mútua influência dos interlocutores, sem dissociá-la “do conteúdo lógico do discurso” (p. 126). Este é um aspecto que precisamos muito aprofundar, porque envolve uma questão de natureza metodológica.
Apesar de criticar o tratamento dado ao ethos por Ducrot, na Teoria da Argumentação na Língua, afirmando que essa deixa de ser uma categoria do âmbito do discurso para ser apenas uma categoria de descrição geral, o próprio teórico crítico da argumentação (PLANTIN, 2008, p.113-114) não estabelece as categorias para a análise das emoções, mas, como entendemos que os interlocutores – actantes, para Plantin – ocupam espaços sociais, circunscritos na história, e que deixam marcas sintático-semânticas e pragmáticas no texto, cremos na possibilidade de rever essa proposta.
A questão dos afetos, que podem inclusive ser manifestados através de um ethos, não é abarcada nos estudos argumentativos realizados pelos teóricos modernos. Segundo o crítico da argumentação25, essa é uma questão de natureza metodológica que requer atenção:
Poderíamos distinguir globalmente três tratamentos da emoção em argumentação; por um lado, uma visão dos afetos como essencialmente falaciosos; em seguida, uma teoria do paralelismo, que encapsula as emoções em um “módulo emocional”, paralelo ao “módulo lógico”. Podemos por fim, defender a tese da indiscernibilidade, segundo a qual é impossível construir um ponto de vista, um interesse, sem a eles associar um afeto, dado que as regras de construção e de justificação dos afetos não são diferentes das regras de construção e de justificativa dos pontos de vista. Essa última posição parte da constatação da presença de um elemento irredutivelmente emocional nas situações argumentativas. Os locutores aderem a seus discursos, seus valores e interesses estão em jogo, eles duvidam, ressentem-se do estresse provocado por uma questão aberta que seria preciso regular, da irritação contra posições antagônicas, têm um sentimento de triunfo (“vencemos as eleições”), ou raiva e humilhação (“eles não entenderam nada”).
Pretendemos que a própria aplicação da teoria plantiniana da argumentação nas fábulas de Millôr Fernandes consista num avanço da teoria da argumentação crítica desse estudioso, na medida em que o narrador, papel exercido por um sujeito passível de suportar