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DET NORSKE MYRSELSKAPS REGNSKAP FOR 1967

Poderíamos considerar que o desenho é completamente desnecessário, entretanto precisamos atentar para o fato de que, segundo o texto, todos gostam da primavera, “exceto, é claro, as flores!”. A moral, que faz referência ao comportamento das flores, e o desenho estabelecem uma relação significativa; a interlocução verbal entre as personagens do desenho, assim como o não verbal, revelam a insatisfação indicada na moral. Por aparecer disposto logo abaixo da moral, o desenho acaba chamando a atenção do leitor.

Comprovemos com a leitura abaixo.

01 02 03 04 05 06 07 08 09 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 27 Os rictos da primavera

Pois é, vou aproveitar que as folhas das árvores estão voltando e que o meu telhado voou com a última ventania, pra lhes contar que Prosérpina1 foi sequestrada por Plutão. Sequestrada, ela, que não estava

acostumada a isso, berrou: “Você vai me pagar, seu bruto!”, ao que Plutão pensou lá com seus tridentes que quem ia pagar era ela, e em espécie. Chegando às Regiões Infernais, underground onde habitava, Plutão ofereceu a Prosérpina ouro, incenso e mirra e muito sexo, mas ela só aceitou mesmo este último com papel passado, primeiro porque toda mulher é chegada a um bom casamento, e segundo porque assim ela podia xingar o canalha com mais autoridade.

Enquanto isso, a mãe – dela – largava de mão a agricultura olímpica2 e ia se queixar a Júpiter que, na

época, sozinho, resolvia, como um delfim, todos os problemas nas altas paragens. Júpiter, que estava com pressa porque tinha um entrevero libidinoso com Danae e ainda ia se transformar em chuva de ouro, disse que aquilo era um caso entre homem e mulher3 e devia ser resolvido como tal.4 Mas Ceres retrucou que,

sendo assim, abandonava definitivamente a cornucópia de abacaxi, soja, milho, trigo, frutas em geral.5

Diante da ameaça desse boicote, Júpiter chamou Mercúrio, seu filho com Maia, e disse: “Meu filho, resolve essa parada aí enquanto eu vou botar minha pele de touro, pois tenho um compromisso sexual com Europa daqui a meia hora.”6 No entrementes, Plutão, já por aqui com sua mulher, Prosérpina, resolveu

devolvê-la à superfície, mas a lei jupiteriana não permitia que ninguém mais subisse depois de ter ingerido qualquer coisa lá embaixo, e Prosérpina tinha tomado umas e outras. Só depois de muitas e muitas conversações as forças de baixo e do alto chegaram a um denominador comum: Prosérpina ficava seis meses no submundo e seis cá em cima, período em que Ceres concordava em abrir sua horta à floração e frutificação incentivadas. Essa combinação entre os Altos Poderes trazia anualmente seis meses de frio horrível e consequente falta de produtos hortigranjeiros, ocasião em que o povo morria como mosca subalimentada.7

Foi sempre assim que se criou o frio, a fome e a beleza da primavera. Sempre que Prosérpina volta à superfície, está tudo esgalhado e seco, mas a mãe, Ceres, fica tão contente que sai pulando pelos prados, dando ordens a torto e a direito: “Brota, violeta!” “Abre, girassol!”, “Flora, margarida!”, “Arroxeia, quaresmeira!” É por isso que a primavera é linda e todo mundo adora a primavera. Exceto, é claro, as flores!

1. Também chamada Perefata – a que dá frutos –, filha de Júpiter com Ceres, que Júpiter seduziu disfarçado de chama. Prosérpina era tão bonita que o próprio pai tentou faturá-la fingindo-se de serpente.

2. Deixando cair a produção agrícola e desequilibrando o PNB da Hélade. 3. Já raro, então.

4. Por exemplo?

5. Mas não abandonou. Nunca abandonam.

6. Júpiter também seduziu Antíope disfarçado de Sátiro; Leda, fazendo-se de cisne, e até – epa! – disfarçou-se como Diana para fornicar com Calisto. Um senhor travesti!

7. Mas também nenhum governo pode resolver tudo ao mesmo tempo, não é mesmo?

MORAL Nem tudo é mel no reino das abelhas.

Fábula XCIII

Podemos observar que, ao se posicionar em primeira pessoa, para conduzir a narrativa – fato pouco comum na fábula de Millôr (na maioria das vezes, o narrador a usa para estreitar laços com o leitor) –, o narrador se configura de uma maneira diferente, sobremodo se levarmos em consideração que, na linha 2, utiliza o pronome “lhes”, deixando claro que está chamando o leitor. E o faz repetidamente ao utilizar sete notas de rodapé. As notas 1, 2 e parte da 6 apresentam teor essencialmente informativo. A nota 3 evidencia uma constatação do narrador, que, a nosso ver, não espera a concordância do leitor. A questão explorada em 4 não evoca do leitor um contradiscurso, por isso não constitui uma questão argumentativa. Na quinta nota de rodapé, o narrador refuta o que está no texto e endossa sua proposição. O narrador assume claramente o papel de Oponente em relação ao leitor, que, sem o conhecimento dessa postura do narrador, não colocaria a narrativa em questão. As expressões “epa!” e “Um senhor travesti!”, na nota 6, denotam, respectivamente, que o narrador não concorda, ou não aceita, o fato esclarecido e que atribui a si a tarefa de fazer o leitor concordar com ele – o uso do termo “senhor” e da exclamação não são neutros para os interlocutores. A nota 7 é iniciada por um operador que chama a atenção para uma ideia contrária, assumida pelo narrador; ao final, ele busca enfaticamente a concordância do leitor, cujo discurso como Oponente parece ser apagado, mas não é, já que o narrador investiu em convencê-lo. A questão “não é mesmo?” faz com que o narrador aceite agir como Terceiro e abre a mesma possibilidade para o leitor.

Consideremos agora a fábula LXXIII.

01 02 03 04 05 06 07 08 09 10 11 12 13 14 15 16 17 18 Otlassa

No dia seguinte, ele escreveu pro jornal: “Senhores, falam muito de assalto, e ontem a mim também aconteceu. Mas, tudo visto e examinado, não dou queixa nem exijo reparação da sociedade. Até estou profundamente agradecido às circunstâncias momentâneas – sem falar das permanentes – do meu destino. Primeiro, porque, num país rachado pelas costuras, e numa cidade onde, a qualquer hora dessas, vamos assistir a um duelo entre Jesse James e Doc Hollyday (e suas quadrilhas), esta foi a primeira vez que fui assaltado. Segundo, porque, tendo algum, até muito, dinheiro no bolso, o assaltante pôde se satisfazer com o que eu tinha e não me levou o essencial, a vida; se é que esta ainda vale alguma coisa, pois, aos 45 anos, já gastei – sem dúvida – três quartos dela. Terceiro, porque, pertencente às classes ditas privilegiadas, mesmo me levando muito, o assalto ainda me levou bem pouco. Quarto, porque, afinal, estou do lado de cá, e, ao fim e ao cabo, ainda prefiro estar do lado do cano a estar do lado do cabo, ser assaltado e não assaltante, pois na verdade fui assaltado uma só vez, num rápido momento, e logo depois voltei a ser aquilo que nós todos somos permanentemente, assaltantes; enquanto ele, por um breve instante assaltante, logo depois voltaria a ser o assaltado de sempre – a não ser que leve o ato de assaltar a tal constância, que substitua, pela dinâmica de ação, a condição social. Sem falar que corri o risco de morrer apenas uma vez, enquanto meu assaltante possivelmente já estará morto no momento em que esse prestigioso jornal publica esta. Assim, repito, esta não é uma carta de protesto pelas condições da violência vigente nesta cidade, mas um agradecimento público aos privilégios da minha vida.”

Era um cínico ou um sábio?

Um leitor desavisado, ou mesmo um leitor bem avisado acerca do inusitado na fábula de Millôr Fernandes, leria o título do texto – Otlassa – e a narrativa, sem procurar alguma justificativa especial para ele. O teor da narrativa é a importância que um cidadão dá a um assalto. O que pode justificar que o título seja a palavra assalto ao contrário é exatamente o comportamento do cidadão, que, por cinismo ou sabedoria, segundo o narrador, age de forma inusitada ante esse tipo de situação.

Entendemos que estamos diante uma situação comunicativa fundamentalmente cooperativa, em que são esperadas do leitor certas aptidões, como competência linguística e competência enciclopédica, o que, obviamente eivará a voz desse leitor. Não podemos exigir nessa cena um leitor ideal.

Ao lado do título dessa fábula, há a ilustração abaixo. Vejamos que, mais uma vez, a escrita de palavras ao contrário se repete; mas também estão, histórico-socialmente invertidos, os papéis dos interlocutores: quem identifica o assalto é o próprio assaltado.