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Rendering Performance. The performance of the rendering algorithm is quite good, especially for large

In document Interactive Shape Modeling (sider 30-37)

6. Adding topologically complex detail 1. Overview

6.6. Numerical and performance considerations There are two main difficulties in using the averaged

6.7.0.5. Rendering Performance. The performance of the rendering algorithm is quite good, especially for large

Nós tecia junto, mamãe vindia [...] Era eu, mamãe e mais as minhas irmã. É Maria (das Dores), Mª Isabel, Raimunda, a Dora, e Benedita, nós semo cinco irmã. O Miguel, meu irmão, que já é falecido, ele tecia também com a gente. Fazia esse chapéu, era. Os outro num fazio (risos), eles num quisero.191

É por meio dos significados produzidos pelas representações que damos sentido à nossa experiência e àquilo que somos [...] A representação, compreendida como um processo cultural, estabelece identidades individuais e coletivas [...] Os discursos e os sistemas de representação constroem os lugares a partir dos quais os indivíduos

189 Entrevista com Ana Maria. Depoimento citado. 190 Entrevista com Maria Helena. Depoimento citado. 191 Entrevista com Lourdes. Depoimento citado.

podem se posicionar e a partir dos quais podem falar (WOODWARD, 2012, p. 18).

O ato de tecer entretrança as identidades, quando as mulheres de/da fibra juntam-se a sua mãe e irmãos ou aos filhos no tecer, cada um passa a ser um pouco o outro, constroem-se no/pelo outro, na relação, dessa forma, as representações criadas pela tessitura desvelam identidades individuais e coletivas dessas mulheres.

Na formação de suas identidades há um processo de negociação, ou seja, essa identidade é constituída sempre na relação, é uma marcação simbólica relativa ao outro. É na vivência das relações sociais que a arte do tecer em fibra ganha sentido como prática social (WOORDWARD, 2012), e marca as identidades das mulheres marajoaras.

Para as mulheres que vivem nas margens do Marajó das Florestas e constroem parte de sua trajetória na relação com a fibra de jupati, compartilhar memórias é uma estratégia de reafirmação de sua identidade artística e feminina. É pela memória de rastro/resíduo que essa arte vem, ao longo do tempo, (re)marcando seu espaço. O aprendizado feito pela visualidade e oralidade, as cosmologias que regem o processo produtivo, a criatividade de seus Enfeites e Caminhos, e as relações construídas nesse processo são importantes para a construção dessas identidades. Lembrar todo esse processo é necessário tanto para confirmar suas identidades como para possibilitar a continuidade desse saber-fazer. E essa arte é, para além das referências pessoais, um ato coletivo, assim precisa do outro na sua (re)construção. Nesses quadros, Lowenthal (1998, p. 81) é esclarecedor: “Partilhar e validar lembranças torna-as mais nítidas e estimulam sua emergência; os conhecimentos que somente nós conhecemos são evocados com menos segurança e mais dificuldade”.

Muitas vezes par lidar com a descontinuidade, com a dinamismo e a diluição do presente, algumas comunidades, e aqui incluo as mulheres de/da fibra que vivem às/nas margens dos furos do Urucuzal, Seringueiro, Pirarara, Chaves e da Vila de Nazaré, buscam o retorno ao passado - mesmo que, como é o caso dessas mulheres, esse retorno não seja pensado intencionalmente - através de cosmologias, histórias, tradições e paisagens. Quando relembram, reconstroem-se e se ressignificam, reafirmam-se perante a si mesmas e perante aos outros. Nas palavras saudosas de Dona Amélia o passado vem à tona como uma afirmação das

mudanças, da vida que antes, segundo ela, era melhor, no que se refere ao fazer em fibra: “Nesse tempo era muito animado, vô lhe dizê! Todos os filho dela (Dona Nazaré) trabalhavo, faziu chapéu, o caso deles era chapéu. Aqueles chapéu branco, só mermo branco, e era colorido, de praia. Era uma festa! Quem mais fizesse mais ganhava!”192 Já as lembranças de Dona Isabel marcam-na pela resistência, suas

memórias mostram que apesar das dificuldades e mazelas vividas em sua infância e em sua vida adulta, ela conseguiu, criar seus filhos e deixar a eles uma herança cultural, econômica e simbólica, que é o saber-fazer em fibra.

[...] E aí assim, eu fiquei moça, fiquei moça naquilo fazendo (a fibra). Aí arrumei esse home que está comigo, pai dos meus filho [...] Aí, mas aí que foi ficar feio, né? Se ele podia me sustentar. Ele era imbarcadista, ele andava num navio, navio grande. Ele andava no navio, aí me dexava na casa da mamãe, mas de primero ele ainda deixava dispesa avortado (em quantidade), me tratava bem! Mas depois dus certos tempos, comecei afilhar, tê filho, tê filho, e sempre trabalhando no mato, ele num parava, né? Ele chega em casa como hoje, passava dois dia só lá em casa e ia embora [...] E eu sempre no mato trabalhando [...] tinha filho, quarentava, ia pro mato trabalhar [...] Contanto, pra bem dizê, quem criô os meus filho foi eu! Ele só passava, trazia... só vinha dexar o filho [...] quando chegava o piqueno já com oito dia que nasceu. Era assim, a minha vida era... foi muito ruim quando arrumei home! Depois ele num começo a me dá nada! A fibra já passei pros filho, já eu já num tecia. Tenho quatro filha. Entreguei tudo pra elas! [...] Pra sustentar meus filho! ! [...] Todu trabalham, a mãe com todos filho. Fazem qualquer piqueram de fibra! Já vendem até em Belém! E dá dinhero! Chapelinho jitó, bunitinho! [...] Se num fosse eu, minha mãe e Deus me ajudar, que estava sempre boa, graças a Deus [...] Agora graças a Deus tá indo tudo bem, graças a Deus. Tudo colocado! Eu ganho meu dinhero, me apusento, né? Sô apusentada. Minhas filha tudo trabalho, trabalho delas, tão tudo se sustentando, umas já tem marido [...] Sabe que tá melhor, né? Pra mim tá melhor, já tô nessa idade... o que eu prospero mais daqui, só isso. De está vivendo na minha casa, só eu e Deus. Passando bem graças a Deus! Eu passo bem. Eu recebo meu dinhero compro minha dispesa graande! E dá até pra mim dá pro meus filho.193

As Obras dessas mulheres são índices de suas identidades, pois marcam, trazem impressas pelas mãos no ato de tecer, em seus Enfeites e Caminhos, os seus traços; muitas vezes imperceptíveis ao olhar desatento, mas visíveis a quem domina essa arte. Esse aspecto constrói, de certa forma, uma relação de poder, pois a qualidade da Obra é reconhecida e respeitada entre elas. Algumas se referem a

192 Entrevista com Dona Amélia. Depoimento citado. 193 Entrevista com Dona Isabel. Depoimento citado.

outras por essa qualidade e assim marcam a importância daquela mulher entre elas, como ouvi de Socorro quando fala da Obra de sua cunhada: “[...] A minha cunhada, a Lourdes, ela mora também lá no Urucuzal, mas ela faz uns chapéu, só tu vendo!”194 Outras reafirmam-se e reafirmam seu núcleo familiar quando dizem da

qualidade da produção. É o que observei na narrativa de Dona Parusquinha que faz questão de contar como ela, sua mãe e irmãs eram solicitadas pela qualidade de suas Obras:

Nós era mais castigadas, porque nós fazia bem, sabe? Os outro faziu aquela... dez, quinze chapéu, mas ia vê... num valia a pena nem de pagar, era tudo mal feito, mal cabado. O pessoal pra fazê um seuviço, aí tem que argunizar (organizar) o seuviço e acabar, pra mostrar o préstimo dele ou dela. Pra mostrar, né? Pro Brasil, pra fora, pra vê como é que tá saindo a obra boa, especiar, né? Aqui, como é que ente trabalha. Então, por isso que, nós tinha muita incomenda! Olha, veio incomenda de Macapá pra nós! [...] De Macapá veio incomenda pra nós, já penso! Porque nós trabalhava bem, né?195

A estética dos Enfeites e Caminhos também é outro marcador de identidade, por mais que essa arte seja um fazer coletivo, compartilhado, ela carrega em si a individualidade de cada uma dessas mulheres, a escolha das cores e os tipos de

Enfeites e Caminhos usados na composição da Obra são índices identificáveis entre

elas. Assim, aqui trago novamente uma afirmação de Dona Beata para reiterar esses aspectos. Quando Dona Beata se depara com uma Obra exposta sobre a mesa em uma das oficinas desenvolvidas durante a pesquisa, ela rapidamente identifica a artista e diz: “Isso é obra da Rosinha, né?”196

Dessa forma, as memórias dessas mulheres são fundamentais para o fortalecimento do sentido de identidade, delas dependem inteiramente a continuidade desse saber-fazer. “Saber o que fomos confirma o que somos” (LOWENTHAL, p. 83, 1998). “Aqueles que trazem mais de seu passado para o presente” confirmam sua própria identidade e enriquecem o presente com os resíduos amplificados do passado (EHMAN, 1974, p. 339 apud LOWENTHAL, p. 84,

194 Entrevista com Socorro. Depoimento citado.

195 Entrevista com Dona Parusquinha. Depoimento citado. 196 Entrevista com Dona Beata. Depoimento citado.

1998). “[...] Todos precisam de suas lembranças. Elas evitam a miséria da insignificância” (BELLOW, 1970, p. 190 apud LOWENTHAL, p. 84, 1998).

Esse Caminho percorreu a arte do saber-fazer de mulheres marajoaras nas reentranças dessa artesania, apresentando o processo produtivo em suas relações cotidianas, comerciais e simbólicas. Mostrou como essas mulheres se entrelaçam, em relações de afeto, penúria e poder. E como no movimento da memória (re)constroem e (re)ssignificam suas identidades de artistas da fibra que vivem no Marajó das Florestas.

O III Caminho comporá a Obra dessas mulheres através do entendimento de que arte é essa. Como se constrói seu processo criativo na relação com a tessitura dos Enfeites e Caminhos e que significados estes têm na vida dessas mulheres. Mapearei as origens dessa arte no diálogo com heranças estético-formais indígenas e analisarei os trançados em seus aspectos icônicos, indiciais e simbólicos.

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