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Partindo de considerações de Cano (1998), Lencioni (1999), e Suzigan (2000), é possível dizer que no Estado de São Paulo desde o início do século XX e, mais decisivamente, a partir do meado deste século há presença e concentração de estabelecimentos industriais, mas, principalmente, na capital paulista. Num segundo momento que pode ser resumidamente indicado como as décadas de 1960 e 1970 na Região Metropolitana de São Paulo, há um significativo adensamento de estabelecimentos industriais, com destaque para a capital e a região do ABCD. No período compreendido entre fins da década de 1940 ao início da década de 1980, São Paulo e a região metropolitana concentrava mais de cinqüenta por cento dos estabelecimentos industriais do estado.

Nesse sentido, Lencioni (1999, p. 124) afirma que, “[...] durante o período de 1980 a 1985, o em torno, metropolitano, concentrou cerca de 60% da área industrial construída no período. Desse índice, 55,2% diziam respeito a novos estabelecimentos industriais e o restante da expansão de indústrias já instaladas”.

Num terceiro momento, que pode ser compreendido como iniciado em meados da década de 1970, mas que ganhou impulso em meados da década de 1980, o interior do estado passou a apresentar significativo aumento do número de estabelecimentos industriais, período que se estende pela década de 1990.

Assim,

Essa expansão industrial para o interior fez com que a participação do interior no valor da transformação industrial do Estado passasse de 25,3% para 37,1% durante o período de 1970 a 1980. Em 1987 o interior já concentrava 40% da transformação industrial do Estado. Aí concentra-se 1/5 da indústria nacional e, para se ter uma idéia melhor, o valor da transformação industrial é quase o dobro do Rio de Janeiro, que na década de 70 era o segundo espaço industrial do país (LENCIONI, 1999, p. 124).

Com essas palavras de Lencioni (1999) percebe-se que o Estado de São Paulo é o lócus principal da indústria brasileira, e dentro do próprio estado encontra-se de modo concentrado, apesar de, ao longo das décadas de 1970, 1980 e 1990 ter se constatado um maior crescimento do número de estabelecimentos no interior, principalmente da parcela do interior mais próxima da capital.

De acordo com Lencioni (1999) essa parte do território do Estado de São Paulo que apresentou aumento considerável do número de estabelecimentos industriais contribuiu para que,

Num raio de 150 km do centro metropolitano, ou seja, da cidade de São Paulo, a paisagem é marcadamente industrial. Cidades, quer de porte médio ou pequeno expandem sua área industrial. Mais além numa extensão de 250 km a mancha metropolitana mantém-se contínua e vai extensivamente se distendendo ao longo dos principais eixos de circulação (LENCIONI, 1999, p. 123).

Para melhor se compreender a abrangência desses raios, apontados pela autora, elaborou-se o cartograma da figura 3 que mostra dois raios, um com 100 quilômetros e outro com 150 quilômetros que se iniciam em São Paulo no km 11,5, sendo que o marco zero encontra-se na praça da Sé, deve-se registrar que o raio foi baseado na quilometragem da rodovia Anhanguera (SP 330), ou seja considerou as curvas e ondulações do relevo que a rodovia possui.

Figura 3: Estado de São Paulo, principais eixos de desenvolvimento econômico e áreas com influência mais forte da capital, conforme Lencioni (1999).

É interessante observar que o raio de 100 quilômetros abrange municípios como Jundiaí, Sorocaba, Campinas e São José dos Campos. Esses municípios são altamente dinâmicos do ponto de vista dos fluxos econômicos e, evidentemente, possuem grande atividade industrial e de serviços, conforme se constatou nos trabalhos de campo realizados. Por outro lado, como afirma Negri (1996), o raio de 25018 quilômetros também abrange áreas com baixa dinâmica econômico-industrial, como exemplo, a região de governo de Registro, Itapeva e Vale do Ribeira. Isto é uma evidência de que a desconcentração se pautou, sobretudo, em aumento da atividade industrial em eixos de desenvolvimento econômico que ligam o interior à capital do estado. Assim, esta metodologia para analisar o adensamento industrial na área distante entre 100, 150 ou 250 quilômetros da capital São Paulo é mais confusa do que a baseada na formação de eixos de desenvolvimento econômico, uma vez que inclui áreas que não apresentaram dinamismo industrial, como o parte do Vale do Ribeira, e deixa fora outras áreas que apresentaram significativo dinamismo, como os municípios de Araras, Leme, Pirassununga, São Carlos, Araraquara e Ribeirão Preto.

O raio maior representado na figura 3 tem distância de 150 quilômetros da capital, a forma adotada para determinar o raio foi a mesma utilizada para o raio menor, ou seja, refere- se a quilometragem da rodovia Anhanguera (SP 330). Ao invés de 250 quilômetros como indicou Lencioni (1999), preferiu-se mostrar uma área intermediária entre o raio de 100 quilômetros que possui uma paisagem eminentemente industrial e uma de 250 quilômetros em que é possível perceber que apesar da presença industrial forte, há também uma agricultura altamente mecanizada e produtiva. Porém, ainda não tão marcante como em municípios como Limeira, Araraquara, Araras, Ribeirão Preto, Pirassununga e São Carlos.

Neste caso, percebe-se que Lencioni (1999) tem uma compreensão que atribui uma fraca autonomia à dinâmica econômico-produtiva nas áreas em que se concentra o complexo produtivo da agroindústria da cana-de-açúcar, localizado, principalmente, nos municípios de Ribeirão Preto, Sertãozinho, Bebedouro e Jaboticabal, embora esse complexo esteja se expandindo para outras áreas do estado como as regiões administrativas de Araçatuba, Presidente Prudente, São José do Rio Preto e Barretos. Para a autora, apesar da grande pujança do complexo agroindustrial da cana-de-açúcar, há muita dependência de atividades presentes apenas na Região Metropolitana de São Paulo.

Por meio de observações feitas em campo, é possível afirmar que há um significativo fluxo de veículos (o VDM também pode ser comprovado por meio de estatísticas

18 É necessário não confundir que, apesar de Negri (1996) se referir a um raio de 250 quilômetros, no cartograma

disponibilizadas pelo DER-SP) e de mão-de-obra na área, um setor industrial altamente dinâmico ligados às usinas produção de açúcar e do etanol, além de significativa produção de energia elétrica19. Há, portanto, grande produção de recursos que não estão ligados a processos localizados na Região Metropolitana de São Paulo, contrariando o que aponta Lencioni (1999). É evidente que se exclui dessa relativa autonomia do setor de produção de etanol, açúcar e energia elétrica as transações financeiras e o papel da metrópole quanto aos escritórios de representação.

Há muitas empresas industriais dos ramos metalúrgico, de produção de carretas e tanques para transporte da cana-de-açúcar e do etanol, empresas especializadas em caldeiraria, tornearia e de diversos outros segmentos ligados ao funcionamento do complexo, destaca-se também a produção de agrotóxicos, como exemplo a unidade produtiva da Dow Agro Science no município de Cravinhos. No entanto, é impossível quaisquer empresas serem totalmente independentes de determinados serviços oferecidos em São Paulo, uma vez que se trata de uma cidade global, conforme estudo de Sassen (1996).

Outra autora que realizou estudo sobre a indústria no Estado de São Paulo é Selingardi-Sampaio (2009), que apresenta, em seu texto, uma tendência a reconhecer certa autonomia industrial da área do estado onde a cultura canavieira e seu complexo agroindustrial são estruturados, com destaque para a região de Ribeirão Preto.

De acordo com as palavras de Selingardi-Sampaio (2009), pode-se perceber que a formação e especialização de uma parcela significativa do espaço paulista ocorre desde a década de 1940. O essencial a registrar é que a dependência que tem o complexo agroindustrial do etanol e do açúcar da capital São Paulo, certamente, é menor do que foi há duas ou três décadas atrás.

Selingardi-Sampaio (2009) faz uma recapitulação da presença do complexo canavieiro na região de Ribeirão Preto, ao apontar que,

Na região de Ribeirão Preto, a produção sucroalcoleira iniciou seu desenvolvimento nos anos 40 e 50, ocupando a cultura canavieira, desde então, grandes extensões dos municípios de Ribeirão Preto, Sertãozinho e Luís Antonio etc. Em 1950, surgiu, no atual município de Sertãozinho, a Zanini Equipamentos Pesados, concorrente do Grupo Dedini, de Piracicaba, no setor de produção de máquinas e equipamentos para usinas de açúcar e

19 No capítulo dois serão apresentadas as empresas ligadas a manutenção do complexo agroindustrial, como as

empresas metalúrgicas fabricantes de estruturas metálicas, carretas, etc.; unidades industriais fabricantes de peças para calderaria, implementos agrícolas, agrotóxicos, etc. e muitos prestadores de serviços e empresas de comércio, como as revendas e oficinas de maquinário agrícola. Deve-se destacar, também, que há nessas regiões formação profissional destinada ao atendimento de demandas do setor sucroalcooleiro, como exemplo nas ETECs e FATECs.

destilarias de álcool; em 1992, as citadas empresas celebraram uma fusão, dando origem à DZ S.A. Engenharia, Equipamentos e Sistemas, um conglomerado industrial e de serviços (p. 424).

E ainda,

O que parece existir na região de Ribeirão Preto, na atualidade, é um conjunto de complexos territoriais agroindustriais, de abrangência local e regional – cada um com ligações produtivas em seu interior e, ainda, supostamente, com os demais –, como os de Sertãozinho, Jaboticabal, Ribeirão Preto. Nele estão instalados os setores antecedentes de produção de adubos e fertilizantes e de máquinas e implementos agrícolas para a cultura da cana, e setores posteriores a esta, com numerosas usinas processadoras de cana (p. 425).

Além da produção de máquinas e equipamentos para o complexo agroindustrial canavieiro há, também, por conta desse complexo, geração de energia elétrica numa quantidade bastante significativa ao se aproveitar o bagaço da cana, conforme demonstra estudo de Alampi (2009). Alampi (2009) realizou um estudo visando analisar as relações entre a indústria e a energia focando na produção e no consumo energético no território paulista e aponta que as usinas de biomassa (bagaço de cana-de-açúcar) estão concentradas na região de Ribeirão Preto, conforme mostra a figura 4.

Figura 4: Estado de São Paulo: usinas de biomassa (bagaço de cana-de-açúcar) potencial instalado (em kW) – 2009.

De acordo com Alampi (2009), as agroindústrias, principalmente as ligadas à cana-de- açúcar, nos últimos anos tem se tornado,

[...] empresas que participam diretamente na produção de energia elétrica a partir da queima dos resíduos que sobram de seus processos industriais. Indústrias estas que estão, nos últimos anos, mudando toda esta dinâmica do interior, não só em sua expansão, mas também nas relações que estas exercem no território que produzem/ocupam (p. 64).

Com essas reflexões não se pretende desqualificar as concepções de Lencioni (1999)20, mas apontar que a dinâmica econômica do interior do Estado de São Paulo tem apresentado alterações a partir do meado do século XX e na primeira década do século XXI. A própria localização industrial é um exemplo dessas alterações.

Desta forma, voltando a analisar a localização industrial no Estado de São Paulo basear-se nas contribuições de Sposito (2007), para o qual a localização industrial do Estado de São Paulo está marcadamente vinculada aos eixos rodoviários, principalmente os que ligam a capital São Paulo ao interior. A forma de explicar a localização industrial do Estado de São Paulo de Lencioni (1999) e de Sposito (2007) é bastante semelhante. No entanto, nota- se que enquanto Lencioni (1999) deixa transparecer que há uma primazia da capital (São Paulo) como organizadora de todo o arranjo locacional da indústria no estado, não dando a ênfase necessária, por exemplo, a dinâmica própria gerada nas regiões de Ribeirão Preto, Catanduva, Araraquara, Sorocaba e Araras, além de outras áreas mais recentes, pelas atividades das usinas de açúcar e etanol. Sposito (2007) reconhece a importância da capital, mas também reconhece a dinâmica gerada nos municípios com sedes municipais de porte médio localizadas ao longo dos principais eixos rodoviários do estado e em outras próximas como é o caso de Piracicaba.

Sposito (2007) denomina de eixos de desenvolvimento este processo de adensamento de atividades industriais ao longo dos eixos rodoviários. Ou seja, na visão de Sposito (2007), apesar de a capital do estado exercer uma grande influência nas relações espaciais, econômicas, políticas e culturais no restante do estado, não é mais conveniente apreendê-la como soberana e única na organização espacial paulista, uma vez que o crescimento e a

20 O ano em que o texto de Lecioni (1999) foi publicado poderia ser utilizado como argumento para contrapor as

idéias apresentadas, no entanto é pertinente afirmar que em 1999 o complexo agroindustrial formado na região supracitada já estava consolidado, uma vez que conforme Selingardi-Sampaio (2009) demonstrou a formação desse complexo começa ainda na década de 1940.

estruturação de cidades de porte médio ao longo dos principais eixos rodoviários promoveram relações que não são de “mão única”21. A relação entre muitas cidades de porte médio localizadas em eixos com a capital ocorre sem subordinação completa dessas cidades com a capital, um exemplo disso são as muitas cidades do interior com especialidades médicas que são referência nacional. Em São José do Rio Preto, por exemplo, há especialização em transplantes de órgãos, em Barretos e Jaú há hospitais exclusivamente para o tratamento de câncer. Outros destaques de municípios do interior são os centros de pesquisa, principalmente das universidades públicas, como é o caso dos reconhecidos tecnopólos: Campinas, São Carlos e São José dos Campos.

É possível compreender a dinâmica dos municípios localizados no eixos de desenvolvimento econômico baseado em análise da figura 5 que mostra os principais eixos de desenvolvimento econômico do Estado de São Paulo, e nesses a intensidade de características de um eixo, para o leitor isso pode ser constatado na espessura das linhas que representam cada eixo. A metodologia para se estabelecer a espessura das linhas está baseada em observações de campo nos eixos, nas estatísticas de VDM22 e nos dados sobre indústria como: número de unidades industriais, faixa de renda média, tamanho do estabelecimento e grau de instrução (RAIS, 2011). Levou-se em conta, também, a quantidade de unidades industriais instaladas nos municípios e a proximidade entre as sedes urbanas dos municípios, que é maior nas espessuras mais largas e menores nas mais estreitas. Para citar um exemplo, entre Jundiaí e Campinas, há os municípios de Vinhedo e Valinhos, tornando o trecho entre as duas primeiras cidades quase ininterrupto do ponto de vista espacial com grande concentração de unidades industriais localizadas ao longo das rodovias Anhanguera (SP 330) e Bandeirantes (SP 348), principalmente na primeira que é mais antiga.

A figura 5 mostra uma representação da forma de concentração espacial de unidades industriais nos eixos de desenvolvimento. Pela análise da figura 5 é possível perceber que a concentração industrial é maior quanto mais se está perto da metrópole e também é maior no intra-urbano, principalmente, em razão das políticas de incentivo à organização de distritos industriais em muitos municípios paulistas, como exemplo dos eixos, nos municípios de Taubaté e Araras.

21 De acordo com Pochmann (2010), “Entre 2002 e 2006, por exemplo, quase 1/3 do PIB dependeu da força dos

pequenos municípios, dada a sua contribuição decisiva na produção agrícola e quase de 40% nos produtos industrial. O peso dos municípios médios concentra-se na produção industrial (46,3%) e de serviços (35,5%). Os grandes municípios, em compensação, tenderam a se concentrar na produção de serviços” (p. 171).

22 Para exemplificar, no ano de 2010 foi registrado na praça de pedágio localizada na rodovia Anhanguera no

município de Nova Odessa, o VDM de 29.570, no sentido Norte, enquanto na praça localizada na mesma rodovia no município de Ituverava o VDM foi de 4.993, também no sentido Norte (DER – SP, 2011).

Figura 5: Representação de aglomeração industrial em eixo.

Organização: Cássio Antunes de Oliveira e Eliseu Savério Sposito, 2011.

Um dos maiores equívocos quanto à compreensão dos eixos de desenvolvimento econômico ocorre pelo fato de se cometer complicações nas análises escalares. Na verdade, se a análise ocorrer por meio de escala local (município) os estabelecimentos industriais se localizam em eixo, pois tendem a se aglomerar nas proximidades das rodovias, com exceção dos municípios que empreenderam políticas mais antigas de instalação e fortalecimento de distritos industriais, embora a maioria dos distritos industriais se localizam próximos a rodovias. Mas, se a análise ocorrer por meio de escala regional a aglomeração que aparecerá em eixos será a de municípios (que concentram estabelecimentos industriais) e não, necessariamente, a de estabelecimentos industriais. As observações de campo permitiram notar que nas áreas rurais entre as sedes urbanas existem poucos estabelecimentos industriais, isto é válido para os municípios mais distantes de São Paulo, principalmente, no eixo da rodovia Castelo Branco (SP 280). Já nos municípios pertencentes às regiões metropolitanas de

Campinas e os localizados no Vale do Paraíba (Jacareí, São José dos Campos, Caçapava, Taubaté e Pindamonhangaba) a aglomeração industrial em eixos ocorre em qualquer escala de análise, seja local (município) ou regional (vários municípios).