Defender a idéia de que se formaram eixos de desenvolvimento econômico no Estado de São Paulo requer compreensão de dois aspectos que exigem respostas: uma do ponto de vista da forma e outra do processo. Doravante, se apresentará como resolver a questão da forma.
A forma pode ser percebida de duas maneiras diferentes. Uma delas é trafegar pelas rodovias que constituem os eixos, evidentemente com este propósito, ou seja, observando os aspectos da paisagem em que há interação entre unidades produtivas, infra-estruturas de transportes e a funcionalidade das cidades. Funcionalidades que proporcionam o funcionamento contínuo das atividades econômicas, principalmente as industriais. Outro aspecto a ser observado ao se trafegar por uma rodovia de um eixo são os fluxos altamente intensos de veículos. A segunda pode ser feita utilizando recursos digitais de processamento de imagens, como os programas Google Earth e Corel Draw.
A utilização de softwares que permitem que o usuário trabalhe com organização de imagens obtidas por meio de programa livre na internet, como é o caso do Google Earth resulta em ferramenta essencial às análises geográficas dos eixos. A partir da montagem de mosaicos de imagens dos eixos é possível estabelecer relações, que sem as imagens seriam muito mais difíceis e trabalhosas. As imagens disponíveis no programa Google Earth são, relativamente atualizadas e tem boa qualidade. Com imagens de satélite o pesquisador pode, com muito mais rapidez perceber as relações que envolvem distância entre as unidades produtivas, tamanho dos tetos das unidades produtivas, distância entre as cidades do eixo, qualidade e capacidade das infra-estruturas etc. Assim, compreende-se que as ferramentas da informática podem ser utilizadas para melhorar as investigações científicas, além de facilitar a sua exposição para outros pesquisadores e outras pessoas.
No percurso da iniciação científica surgiram as primeiras idéias de se utilizar imagens do Google Earth para elaborar figuras que seriam úteis na investigação sobre os eixos. Desta forma, foram montadas as primeiras figuras, no entanto ao longo da iniciação científica e após a realização do primeiro trabalho de campo foi possível aperfeiçoar as figuras dos mosaicos
de imagens dos eixos. No mestrado a busca pelo aperfeiçoamento do trabalho feito com imagens continua, até porque poderão servir a outros pesquisadores em outros tipos de pesquisa, porém, caberá a eles adaptar os mosaicos às suas pesquisas.
Feitas essas considerações apresenta-se a forma de montagem das imagens e, posteriormente, como contribuem para a identificação dos eixos de desenvolvimento econômico.
A primeira etapa para se elaborar uma figura utilizando imagens de satélite é localizar a área de investigação por meio do programa Google Earth, em seguida deixar na tela do computador a imagem do local onde se quer começar a coletar a primeira imagem para a montagem do mosaico. O mosaico é montado a partir do encaixe de imagens do eixo sucessivas, ou em seqüência. Após escolhida a primeira imagem a compor o mosaico, há que se fazer a cópia da imagem através da tecla print screen e em seguida colá-la em um documento aberto no programa Corel Draw. Duas preocupações devem estar presentes ao se coletar a primeira imagem, a) o usuário, a partir do momento que coleta a primeira imagem, não deve alterar mais a altitude do campo de visão (distância entre o observador e o terreno) que fica indicada no lado direito abaixo na imagem gerada no programa; b) também não deve mais aumentar ou diminuir o zoom, ou a altitude do campo de visão, para não alterar a escala (fica do lado esquerdo abaixo), que deve ser aproximadamente a da primeira imagem, em cada mosaico, para evitar distorções no tamanho de uma imagem em relação à outra.
Se o local a ser mapeado possuir uma densidade muito grande de grandes superfícies23 construídas que precisam constar na imagem final, deve-se deixar o campo de visão da imagem numa altura em que seja possível visualizar os elementos importantes da imagem com certa nitidez.
Assim, mantendo-se coerência entre o campo de visão e a escala pode se continuar a coleta das imagens. Para obter a segunda imagem deve-se posicionar o cursor do mouse, que deverá estar habilitado na ferramenta de arrastar, na extremidade esquerda da tela e em seguida arrastá-lo até a extrema direita da tela. Feito isso, deve-se repetir o método de coleta da segunda imagem de maneira semelhante ao utilizado para a primeira imagem. Esse procedimento deverá ser repetido até a última imagem da área desejada.
23 Grandes superfícies são entendidas como os tetos das edificações, que nas imagens se destacam, quando
comparadas com os outros tetos, como o das casas, por exemplo. Lembrando que as unidades produtivas, ou de serviços ligados a reparos em veículos (oficinas) ou de venda de veículos (concessionárias), bem como de depósitos (de transportadoras ou redes de lojas) possuem grandes tetos.
No Corel Draw, após se ter colado a segunda imagem, basta uma breve observação das duas imagens para notar que elas se complementam em uma das extremidades. Ou seja, um dos lados da primeira imagem certamente encaixará em um dos lados da segunda imagem. Depois que a identificação das imagens for feita basta encaixá-las lado a lado conforme mostra a figura 6. Para aumentar ou diminuir o tamanho das imagens com a finalidade de se adequar ao tamanho da página de impressão deve-se terminar a colagem e em seguida selecionar todas as imagens de uma só vez e aumentá-las ou diminuí-las, conforme se queira. Para que o mosaico não fique muito grande (o que dificultaria sua apresentação em trabalhos impressos) há que se tomar o cuidado de não colocar quantidades exageradas de imagens para não comprometer os detalhes na análise, uma vez que os detalhes é que podem ser mais importantes.
Ao final deste trabalho apresenta-se um mosaico por meio do qual é possível visualizar todas as superfícies construídas ao lado das rodovias integrantes dos três eixos analisados. Feito isso, o passo seguinte é delimitar no Corel Draw, tendo as imagens do Google Earth como base as grandes superfícies (tetos das edificações), rodovias ruas e avenidas. O processo de montagem está exemplificado nas figuras 6, 7, 8 e 9.
Após a concretização da montagem do mosaico as imagens colocadas num documento do Corel Draw são utilizadas como base para a organização (desenho) da localização das grandes superfícies construídas e do traçado da rodovia. Nos desenhos elaborados ou a ser elaborado o teto de cada grande superfície foi delimitado com a cor preta, é necessário frisar que em cada delimitação se procurou corresponder ao máximo o tamanho real, considerando, logicamente, a altitude do campo de visão. Em cada figura a rodovia que constitui o eixo é tracejada na cor vermelha, as principais avenidas que margeiam a rodovia e as principais ligações entre a rodovia e a cidade, também, estão tracejadas na cor vermelha.
No caso dos mosaicos feitos para representação dos eixos foram elaborados muitos, pois há grande quantidade de unidades produtivas próximas à rodovia, principalmente nos trechos entre Limeira e Jundiaí no eixo do complexo Anhanguera-Bandeirantes (SP 330) e (SP 348) respectivamente e no trecho de Jacareí e São José dos Campos no eixo da BR 116. Para áreas onde existem poucas unidades produtivas, a altitude do campo de visão pode ser maior do que nas áreas densas. Exemplos de áreas menos densas podem ser constatados na parte em que a rodovia Anhanguera (SP 330) corta a cidade de Araras, Porto Ferreira e Pirassununga no eixo da SP 330.
Figura 6: Mosaico de imagens da rodovia – SP 330 atravessando a cidade de Campinas – SP.
Figura 7: Mosaico de imagens da rodovia – SP 330 atravessando a cidade de Jundiaí – SP.
Figura 8: Mosaico de imagens da rodovia SP 330 atravessando a cidade de Jundiaí com contornos sobre as grandes superfícies e sobre as rodovias.
Figura 9: Mosaico concluído representando o município de Jundiaí sem imagem do Google Earth.
Em praticamente todas as figuras elaboradas visualiza-se a concentração de grandes superfícies margeando a rodovia. Assim, conclui-se que há intensa relação entre as atividades produtivas e as rodovias, lembrando que também é ao lado dessas rodovias que estão instalados cabeamentos de fibra ótica. Conforme verificado nas imagens e nas oportunidades em que se trafegou pelos eixos há predomínio de empresas de grande porte instaladas próximas as rodovias, como a General Motors localizada no eixo da BR 116, da Gerdau no eixo da SP 280, ou da Goodyear localizada no eixo da SP 330.
Após se ter organizado os mosaicos para melhor investigar os eixos de desenvolvimento econômico, houve um avanço no sentido de melhor compreendê-los do ponto de vista da forma. Pode-se perceber e relacionar o tamanho dos tetos das unidades industriais de cada cidade. Uma das relações que se pode fazer é que em municípios com sedes urbanas maiores como Campinas e São José dos Campos há tetos muito grandes não observados em outros municípios com sedes urbanas menores, e esta possibilidade diminui ainda mais nos municípios com sedes urbanas menores e distantes da capital. Há algumas poucas exceções, como em Mirassol, um dos municípios mais distantes da capital, pertencente ao eixo da rodovia SP 310.
Convém salientar que essa metodologia de identificação de eixos é bastante útil para o planejamento dos trabalhos de campo. Por meio da montagem dos mosaicos as atividades do trabalho de campo são facilitadas pelo fato de que é possível saber previamente os locais onde há os maiores adensamentos de grandes tetos e os locais que provavelmente estão localizados os distritos ou parque industriais nos municípios. É possível, ainda, identificar os locais em que há empresas localizadas em áreas rurais, obviamente que apenas com o trabalho de campo é possível fazer a confirmação de que tipo de empresa se trata. Alguns exemplos de empresas industriais localizadas em áreas rurais são Nestlé, no município de Cordeirópolis, Federal Mogul no município de Araras, e Citrovita, no município de Matão.
O método de montagem de imagens por meio do programa Google Earth, certamente, não deve ser considerado como uma possibilidade de se explicar totalmente a localização industrial em determinados municípios do Estado de São Paulo e nem como “retrato da realidade”. Por outro lado, há que se reconhecer que é um poderoso aliado no planejamento de trabalhos de campo e como um indicador relativamente eficiente da localização dos estabelecimentos industriais e comerciais em muitos municípios do Estado de São Paulo. Essa
metodologia de estudo dos eixos de desenvolvimento econômico já recebeu críticas24 com o argumento de que não servem como aliado para uma pesquisa geográfica, em razão de que se trata de imagens antigas, algumas podendo ter quatro ou cinco anos, apesar de algumas serem recentes (a maioria das imagens utilizadas é datada de 2008 em diante). Os argumentos que apontam que as imagens disponíveis no Google Earth são muito antigas se chocam com outra metodologia de análise da dinâmica industrial no espaço que, provavelmente, é tão imprópria quanto a apresentada neste item. Trata-se da utilização de dados secundários disponibilizados por órgãos públicos ou não, como o IBGE e a Fundação SEADE.
Os dados secundários utilizados na maioria dos estudos que analisam a dinâmica industrial, inclusive pelos que tem como escala de análise espaços de dimensões menores do que o que se investiga nessa pesquisa, são oriundos de respostas dadas pelas empresas aos órgãos elaboradores ou organizadores dos dados. Assim, considerando o tempo em que os dados são organizados e disponibilizados para os pesquisadores pode-se concluir que podem ser tão desatualizados quanto as imagens do Google Earth. Além disso, resta registrar que a metodologia que se utiliza de entrevistas ou questionários para se levantar informações também não podem ser consideradas “retratos da realidade”, uma vez que não está isenta de informações afirmações incompatíveis ou distorcidas pelos investigados ou por pouco comprometimento com a pesquisa, ou por temor de que se trata de investigação da polícia ou da Receita Federal/Estadual. Também não está isenta de respostas induzidas pela forma que o pesquisador elabora as questões ou pela forma que conduz a entrevista.
Essas reflexões sobre as metodologias de pesquisa não significam a descrença desse pesquisador na ciência, mas que se a metodologia desenvolvida utilizando imagens do Google Earth não traz avanço às pesquisas que se comprometem a investigar a dinâmica industrial no espaço, as outras metodologias são tão problemáticas quanto a que se elaborou. Na verdade, considera-se que o pesquisador não deveria desprezar nenhuma dessas metodologias, o mais correto é combiná-las da forma mais conveniente para a problemática de cada pesquisa.
Para finalizar, é necessário deixar claro que não se tenha feito uma reviravolta em se tratando de metodologias, mas que se trouxe uma contribuição metodológica para os estudos da localização e da dinâmica industrial. Outro ponto que têm-se como positivo nessa metodologia de identificação dos eixos é o fato de utilizar ferramentas acessíveis para a maioria dos pesquisadores nas universidades brasileiras, ou seja, utilização de um programa
24 As críticas foram recebidas durante a avaliação do trabalho apresentado no VII workshop “O Novo Mapa da
gratuito e disponível na internet, como é o Google Earth, e de outros programas certamente disponíveis nos laboratórios dos grupos de pesquisa da maioria das universidades e faculdades como é o caso do Corel Draw, o Adobe Ilustrator que também pode ser utilizado como alternativa ao Corel Draw.
Os espaços mais importantes do ponto de vista da densidade industrial e comercial serão apresentados ao longo do texto conforme a necessidade, por meio de figuras elaboradas a partir de imagens do Google Earth.