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5. DATA ANALYSIS

5.2. P RELIMINARY A NALYSIS

“Em estaleiros americanos outras 19 unidades - em vista o

barateamento do pescado.”

“É esperado amanhã nesta capital, o primeiro barco pesqueiro da firma Indústrias Associadas da qual é sócio-gerente Mr. Davis Morgan, o conhecido americano que pesca lagostas nas praias de Beberibe e Cascavel. Conforme é do conhecimento público, Mr. Morgan conseguiu autorização do Governo Brasileiro para explorar a pesca no Ceará. Para isso adquiriu uma frota de vinte barcos pesqueiros para desenvolver essa indústria em larga escala. (...) O restante da frota(...) virá logo em seguida, pois em todos os barcos estão sendo montados modernos

equipamentos em estaleiros americanos”.59

Pela primeira vez é anunciado concretamente o desenvolvimento “em larga escala” da nova indústria da pesca da lagosta, que se utilizaria de “modernos equipamentos” vindos de estaleiros americanos. Pelo menos por parte da imprensa liberal, Davis Morgan não teria mais tratamento de ‘ilegal’ e ‘clandestino’, mas sim de empreendedor e pioneiro no desenvolvimento de determinado setor ainda adormecido na região.

Assim a imprensa liberal dá inicio à elaboração e difusão de um discurso onde o que vigorava era uma interpretação parcial sobre o que seria “moderno” e onde já se anunciavam mudanças nas relações de trabalho na pesca. Uma análise mais acurada dessas fontes vai revelar, posteriormente, que, nos jornais dos anos de 1950 e 1960, é rara e mesmo nula a presença de pescadores proferindo este ou qualquer outro discurso na definição sobre o que foi a

58

Id. Ibidem.

59

‘modernização’ da pesca na ótica do trabalhador. Talvez isso se deva ao fato de que, com a pesca industrial, veio também o aprofundamento da divisão do trabalho da categoria, o fortalecimento da interposição dos negociantes entre os produtores e o mercado, e as novas funções que passariam a ter a tecnologia.

A melhora na acolhida ao empreendimento de Davis Morgan pode ser melhor compreendida considerando o contexto em que ela acontece: a década de 1950. Num livro de Antonio Luiz Macedo e Silva Filho 60, se constata que Fortaleza não se diferenciou de outras grandes cidades brasileiras, onde se iniciava, ainda na primeira metade do século XX, a formação de uma “sociedade de consumo com todo o seu corolário de sedução e exclusão, conjugando o desejo de parecer – e quando possível, ser – moderno”. Ainda mais se a ‘modernidade’ , se a ‘novidade’ viesse dos Estados Unidos, que adotam, nos anos de 1940, a política de aproximação com a América Latina e, em especial, com o Brasil.

Ora, Fortaleza foi, ao lado de Natal, uma das bases americanas no Nordeste brasileiro durante a Segunda Guerra e não são poucos os estudos sobre este período e a influência da passagem dos militares pela cidade. O próprio Morgan, pelo pouco que se sabe dele, era militar reformado nos EUA. Mas como aqui a intenção não é traçar a biografia de Morgan, é melhor se ater a observações de Silva Filho.

Segundo ele, houve “uma necessidade imperiosa de recorrer aos modelos e às perspectivas estrangeiros como referendo para erigir o moderno na periferia do capitalismo”, lugar do Brasil numa época em que a grande indústria apenas começa a se estabelecer. A chegada de Davis Morgan e do novo aparato tecnológico que seria o embrionário da pesca industrial no país, e a subseqüente aceitação do americano e de sua atividade pela parcela liberal da sociedade pode sim ser entendida no cenário proposto por Silva Filho, onde ainda prevalecia um certo “estigma do colonizado” no contato com novos referenciais sociais ou econômicos61.

Apesar da referência a Silva Filho, é preciso considerar que Fortaleza era permeável à influência empresarial estrangeira desde o século XIX, quando se

60

FILHO, Antonio Luiz Macedo Silva e, Paisagens do Consumo:Fortaleza no tempo da Segunda

Grande Guerra, Museu do Ceará/Secretaria Estadual da Cultura e do Desporto, Fortaleza, 2002 61

deu o início do processo de “cosmopolitismo modernizante” (PONTE) na cidade. “A base desse processo foi a dinamização das relações capitalistas, destacando o estabelecimento de firmas estrangeiras. Foram tantas que chegaram a possuir, já no início de 1870, 40% dos estabelecimentos comerciais então existentes” 62.

Eram, sobretudo, empresas ligadas à exportação de algodão e produtos agropecuários, mas também a incremento de negócios financeiros e a inovações tecnológicas, como estradas de ferro e navegação. Entre essas empresas, Ponte cita a Gradvhol & Filhos, a Boris Freres & Cia (fundada em 1868, com sede em Paris), Benoit Levy & Dreyfyss, Felix Liabastres & Cia, e os negociantes britânicos Robert Singlehustr, John Wlliam Studart, Hery Ellery, Alfred Harvey, Richard Hugges e Chaley Hardy. “A produção historiográfica cearense(...) não tem dúvida em considerar os empreendedores estrangeiros uma dádiva para a redenção econômica, como também não olvida o papel exercido por tais grupos na afirmação do processo civilizatório da Capital” 63.

Mas se é verdade que nos anos de 1950se deu a consolidação da moderna sociedade de consumo fortemente influenciada pelo modelo norte- americano, deve-se considerar que os anos imediatamente seguintes à Segunda Guerra são também os de emergência da chamada “Guerra Fria”, que por décadas opôs o “Ocidente”, representado pelo capitalismo, ao “Leste”, tendo a frente a União Soviética. Essa disputa teve reflexos no estabelecimento da indústria da pesca da lagosta no Brasil, o que se constatou na pesquisa nas páginas de O DEMOCRATA, periódico ligado ao Partido Comunista que circulou

em Fortaleza por cerca de 20 anos, até 196064.

Desde o início das atividades de Morgan, O DEMOCRATA veiculou acirrada campanha contrária ao americano, sob pretexto de estar defendendo ‘interesses nacionais’ contrariados por um ‘gringo’. Em sua edição de 26-06-1957, numa matéria sobre sessão da Assembléia Legislativa, há o seguinte relato sobre as atividades de Morgan:

“MORGAN SE COMPLETA: QUASE 800 MIL QUILOS DE LAGOSTA