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5. DATA ANALYSIS

5.3 C HECKING A SSUMPTIONS

“Ao que se alardeia, a pescaria de lagosta em Morro Branco atingiu nos últimos meses proporções ainda não conhecidas. Mr. Morgan, sedento de lucros cada vez maiores, estaria disposto a exterminar até o último espécime existente naquelas praias a tal ponto que o gringo teve que adquirir a Mormack dois pontões que [a] referida companhia de navegação mantinha estacionados ao longo do Mucuripe, para o transporte de lagostas. Segundo informações colhidas pela reportagem deste jornal [as] ditas embarcações chegam aqui diariamente, abarrotadas com toneladas e toneladas do pescado.Enquanto isso fomos encontrar em pleno funcionamento , nas proximidades da antiga Ponte Metálica, uma entreposta da “Pan-América” de Mr. Morgan, no qual se achavam a trabalhar quinze homens. Locupleta-se Mr. Morgan , enquanto ameaça desaparecer uma fonte de riqueza de nosso litoral,

digna de melhor aproveitamento.”68

Para concluir, a matéria de O DEMOCRATA de novo recorre à urgência da intervenção estatal:

Diante dos fatos tão graves, urge, pois, que as autoridades e

associações as quais os caso se acha afeto, adotem enérgicas providências no sentido de sustar os criminosos planos de Mr. Morgan. Que o Governo do Estado, a Assembléia, as Colônias de Pescadores ,

entrem imediatamente em ação .69

Desde o inicio das atividades de Morgan, “O DEMOCRATA” manteve acirrada campanha contrária. A capa da edição de 25-07-1957 de O DEMOCRATA, reproduzida na pagina a seguir, demonstra o quanto o jornal dedica amplo espaço “as matérias onde as atividades de Morgan aparecem como “maliciosas” e “inconseqüentes”.

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“Pontões” era balsas usadas para transportar grande quantidade de cargas de uma só vez.

68

O DEMOCRATA, 25-07-1957.

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Figura 2: capa da edição de 25-07-1957 de O DEMOCRATA

caráter anti-americanista do jornal, motivada pela sua ligação com o Partido Comunista Brasileiro e que influenciou a campanha contra Morgan. Trata-se da matéria cuja manchete anuncia “Poderoso monopólio norte-americano avança sobre a chelita do Nordeste. Uma imensa riqueza nacional em perigo de ser absorvida pelo truste”. O anunciado da matéria deixa claro o anti-americanismo característico de uma ideologia aliada à URSS. Mas nas entrelinhas das matérias de O DEMOCRATA citadas até aqui estavam uma leitura que extrapola o nacionalismo e a xenofobia. Elas também traziam um discurso que até então não havia surgido e que ganhou mais destaque a partir dos anos de 1960: a necessidade de preservação da espécime da lagosta. Embora não constassem nos jornais balanços mesurando a relação da exploração de lagosta com a redução de cardumes, já era evidente o prenúncio de escassez. Haverá, neste trabalho, uma análise posterior sobre a emergência deste discurso ‘ambientalista’, até por não ser esta a tônica principal de O DEMOCRATA e nem deste capítulo da dissertação.

Parece claro que mais do que fazer uma defesa ‘ecológica’ ou meramente nacionalista, a principal motivação de O DEMOCRATA seria influenciada pela chamada Guerra Fria, que contrapunha os interesses políticos e econômicos da União Soviética com os dos Estados Unidos, a maior potência econômica e bélica do Ocidente. A última matéria contrária a Davis Morgan encontrada em O DEMOCRATA traz trechos emblemáticos sobre esse aspecto e também quanto à xenofobia, ao medo de tudo que é ‘estrangeiro’, em particular se o ‘de fora’ viesse dos EUA. Em 22-08-1957, O DEMOCRATA saí com a seguinte manchete e matéria:

‘MR. MORGAN INTRODUZ ILEGALMENTE ESTRANGEIROS PARA EXPLORA-LOS’

“Multiplicam-se atividades ilícitas do americano das lagostas—surge agora o de uma família procedente da Argentina” “Novos estrangeiros continuam entrando ilegalmente no Ceará, trazidos por Mr. Morgan, o

famigerado súdito ianque [grifo meu] em nosso estado vem

cometendo impunemente toda sorte de atividades ilícitas.Segundo conseguiu apurar a reportâgem deste jornal, referido alienígena em dias da semana passada providenciou a vinda para Fortaleza, através da ‘Panair do Brasil’, de uma família estrangeira residente em Buenos Aires. Useiro e vezeiro[grifo meu] em matéria de calotes e falsificações (ele é suspeito entre outras atividades tais, de receptar contrabandos) Mr. Morgan tentou até burlar aquela companhia de aviação, procurando fugir ao pagamento de um adicional que é cobrado nas passagens para estrangeiros. Pretendia tirar as passagens como sendo para

brasileiros(...). “ 70

A alcunha de “famigerado súdito ianque” reforça a hipótese de que a motivação central de O DEMOCRATA em sua campanha contra Morgan era movida pelo anti-americanismo. Ele, “useiro e vezeiro”, também seria “caloteiro”, “falsificador” e “contrabandista”. O “alienígena” Davis Morgan também estaria financiando a entrada de mais “estrangeiros” no Ceará para explorá-los como supostamente fazia com trabalhadores brasileiros e os recursos naturais nacionais.

Apesar da campanha acirrada de O DEMOCRATA contra Morgan, não se registrou nenhum tipo de retaliação ou ingerência governamental nas empresas do americano ou em outras empresas que surgiram depois do sucesso da Pan- Americana na exploração de lagosta, muitas ligadas a empresários estrangeiros. O que houve, de fato, foi a proliferação de empresas do setor nos anos imediatamente seguintes a 1955. Em 1962, apenas sete anos depois de Morgan lançar os alicerces da indústria pesqueira, a pesca era feita “em larga escala por quase vinte companhias diferentes”71. Esta mesma notícia de O POVO dá conta de que a maioria dessas empresas pertencia a “estrangeiros”, sem dar maiores detalhamentos.

Se o nacionalismo e a xenofobia implícita defendida pelo O DEMOCRATA não encontraram eco popular nem surtiram efeitos imediatos nos primeiros anos da pesca da lagosta, o mesmo não aconteceria poucos anos depois, num acontecimento (a “Guerra da Lagosta”) que contrapôs a França e o Brasil e quase chegou a um conflito bélico militar. Nesse acontecimento, como veremos no capítulo II, emerge novamente o discurso ‘ambientalista’, ‘ecológico’ que à época não tinha tais denominações e que atenderam mais a anseios de empresários do que de cientistas.

Essas ou outras conotações não esvaziam de sentido uma análise de tema que se tornou tão atual e que será tratado adiante: a devastação e exploração de cardumes de lagosta nas últimas cinco décadas e os reflexos negativos para pescadores artesanais que adotaram a pesca do crustáceo como meio de vida.

70

O DEMOCRATA, 22-08-1957.

Também veremos que Davis Morgan abriu o caminho para a concorrência ao implantar a indústria da pesca respeitando o que na Economia se chama de teoria da Localização Industrial. Segundo esta teoria, o fator determinante para que um setor extrativista se estabeleça com êxito é definido, antes de tudo, pela “natureza do produto” e por sua exploração em seu local de origem72.

Morgan não teve como concorrentes apenas empresas locais. Os europeus também foram atraídos, vieram disputar mercado e, sobretudo, território de pesca. É o que se verá no próximo capítulo, onde se reforça ainda mais a tese de que através de pesca da lagosta o Brasil se inseriu num nicho do capitalismo industrial internacional onde o país estava ausente, mas que desde o século XIX era desenvolvido pelos Estados Unidos(notadamente no Estado do Maine) e por países europeus, sobretudo a França. Ou seja, em países onde tradicionalmente a lagosta compunha a gastronomia local, ao contrário do Brasil, cujos cidadãos consumiam pouca ou nenhuma lagosta. A inexistência do consumo interno pode ser um dos fatores que explicam o ingresso tardio do Brasil no mercado internacional de pesca de lagosta, mas sem dúvida não é o único. Muitos outros surgiram, o que ficou ainda mais evidente a partir da “Guerra da Lagosta”.

72

Verbete “Localização Industrial”, in SANDRONI, Paulo, Novo Dicionário de Economia, Ed. Best Seller, São Paulo, 1994.

Capítulo II