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Religion i Phenomena – resultat av analysen

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3.1 R UBEN E LIASSEN – P HENOMENA (2002)

3.1.2 Religion i Phenomena – resultat av analysen

Uma genealogia da “democracia racial”

O tema da “democracia racial” aparece como um dos mais controversos problemas provenientes da leitura freyreana da história nacional. Em certo sentido, podemos dizer que esse sintagma condensa os principais aspectos de uma interpretação do universo de relações escravistas construída a partir da lógica e dos conceitos do discurso pastoral.388 As próprias controvérsias do passado e do presente em torno do tema evidenciam uma tensão aparentemente inconciliável entre uma perspectiva pastoral que se expressa por meio do topos do cuidado (e do que chamei de tese do “amor colonial”) e uma outra perspectiva que enfatiza questões relacionadas à cidadania e expressa-se no vocabulário dos direitos.

A história desse termo, no entanto, parece mais complexa do geralmente se supõe. O termo, por exemplo, é atribuído a Gilberto Freyre, mas, como espero mostrar, sua autoria não é algo fácil de se definir. Ainda hoje persistem as discussões sobre quando e em que contexto ele foi formulado pela primeira vez; além disso, a pouca atenção que biógrafos e exegetas da obra freyreana tem dispensado a seu pensamento político colabora para que leituras lineares (e mesmo anacrônicas) dos termos que o compõem sejam mobilizadas para sustentar interpretações sobre o significado da expressão. Essa observação é especialmente importante porque, se admitirmos que o conceito de “democracia” no século 20 esteve longe ter um sentido unívoco e que o conceito de “raça” foi do céu ao inferno em menos de um século, a expressão “democracia racial” perde seu caráter auto- evidente ou transparente e torna-se então uma expressão enigmática, cuja significação só pode ser compreendida na história.

No capítulo que se segue, gostaria de explorar essas lacunas sobre a historicidade e a trajetória do termo. Começo localizando no contexto do debate nacionalista das décadas de 1920 a 1940 a relação de intertextualidade que proporcionou as condições e o vocabulário para que a locução “democracia racial” (e também seus cognatos

mais comuns como “democracia étnica”, “democracia social e étnica” e outros) viessem à tona na forma como continuam sendo utilizadas hoje. Em seguida, procuro analisar a relação entre o conceito de “democracia” e “raça” no pensamento político de Gilberto Freyre, sem evitar seus textos pró-colonialistas onde essa relação foi realizada com mais minúcia e nos quais o autor pernambucano expôs com mais nitidez seus pressupostos. Meu intuito não é mais que explorar o vocabulário da linguagem política que dá sustentação à tese da “democracia racial”.

Genealogias da “democracia racial”

1. No ano 2000, o antropólogo Hermano Vianna publicou um artigo no suplemento Mais! do jornal Folha de São Paulo.389No texto, Vianna faria uma afirmação dúbia que é importante para os objetivos deste capítulo: segundo o autor, e essa era a tônica de seu texto, Gilberto Freyre nunca havia escrito “a expressão ‘democracia racial’, com ou sem aspas” em Casa-Grande & Senzala. Ditada em um tom um tanto sensacionalista, a observação ainda assim é correta: o termo não aparece nessa obra.390 Contudo, quando

deixa de complementar com a informação de que Freyre utilizou o termo sim, em diversos textos e em diversas ocasiões, ele dá a impressão de que a expressão “democracia racial” seria apenas um efeito da “leitura apressada, tendenciosa ou burra de Casa Grande &

Senzala”,391 conforme sugere.392

389 Naquele momento, Vianna era da opinião de que “hoje em dia, ninguém é louco a ponto de escrever que o

Brasil é realmente uma democracia racial. Seria linchado em praça pública”. Estava equivocado, como o prosseguimento do debate nacional demonstraria. Ver.: Vianna, Hermano. “Equilíbrio de antagonismos”.

Folha de São Paulo, Suplemento Mais!, 2000, pp. 20-22.

390 Uma das conseqüências da dubiedade da afirmação de Vianna pode ser observada em matéria publicada

em 09/06/2006, da autoria de Caetano Veloso. A afirmação do primeiro de que Gilberto Freyre nunca havia escrito o termo democracia racial em Casa-grande & senzala transformou-se, para o segundo, na seguinte sentença: “Sem nunca ter escrito a expressão "democracia racial", Freyre é freqüentemente xingado por causa dela.”.

391 Vianna, Hermano. “Equilíbrio de antagonismos”. Folha de São Paulo, Suplemento Mais!, 2000, pp. 21-

22.

392 A argumentação de Vianna parece se encaminhar no sentido de condenar a leitura do Brasil como uma

“democracia racial”. Contudo, pretende eximir Casa-grande & senzala e seu próprio autor, de qualquer responsabilidade em relação ao uso do termo. Creio ser questionável o argumento de Vianna, de que a ausência do termo “democracia racial” na referida obra signifique que ela não tenha dado origem a tal noção. Sobretudo se a considerarmos inserida no conjunto da trilogia, onde a caracterização de uma “democracia racial” fica mais explicita, especialmente nas teses de Freyre sobre a inserção do mulato na sociedade imperial em Sobrados e Mucambos. Tanto é assim que, na versão norte-americana do livro, Freyre acrescentou no parágrafo final a afirmação, para que não restasse equívoco, de que o Brasil “is becoming more and more a racial democracy (...)” (Freyre, Gilberto. The mansions and the shanties. New York, Knopf. 1963, p. 431.).

2. Apesar de sua defesa pouco consistente de Gilberto Freyre, o mérito do artigo de Vianna foi ter chamado a atenção dos estudiosos, pois o texto evidenciava que a história do termo, a despeito de seu domínio público, permanecia relativamente pouco conhecida. Assim, alguns anos depois, Antonio Sérgio Guimarães faria uma primeira tentativa de historicização e análise do termo. Segundo ele, a primeira forma da expressão – “democracia social e racial” – teria surgido em 1944, num artigo de Roger Bastide, fruto de um encontro com Gilberto Freyre, em Recife. E, alertando para o fato de Freyre não “ter cunhado” o termo, ressalta que essa seria “uma tradução livre de Bastide das idéias expressas por Freyre em suas conferências na Universidade da Bahia e Indiana”.393 Pois em 1943, na Universidade de Indiana,394 Freyre já teria falado em “democracia étnica”;

voltando a repetir a expressão em uma conferência na Faculdade de Medicina da Bahia, no mesmo ano, quando falou tanto em “democracia social”, como em “democracia econômica”, “democracia sócio-psicológica” e “democracia étnica”.395

3. Em seguida, Levy Cruz fez um levantamento também minucioso trazendo novidades e complementando informações que já apareciam no texto de Guimarães. A primeira ocorrência encontrada de um termo correlato à “democracia racial” coincide com a “ethnic democracy”, que Guimarães já havia mencionado. Contudo, ele encontraria uma ocorrência do termo “racial democracy” em um texto publicado em 1949,

Brazil, racial amalgamation and problems. E, novamente, em 1950, em um discurso

parlamentar em protesto ao episódio de racismo ocorrido em um hotel de São Paulo, que recusou hospedar Katherine Dunhan.396

393

Guimarães, Antonio Sérgio. Classes, raças e democracia. São Paulo: Editora 34, 2002, p. 167. As conferências realizadas por Freyre na Universidade de Indiana foram publicadas originalmente como Brazil:

an interpretation. New York, Knof, 1945, e traduzidas ao português como Interpretação do Brasil (Aspectos

da formação social brasileira como processo de amalgamento de raças e culturas). Rio de Janeiro: José

Olympio, 1947 – e reeditadas pela Companhia das Letras em 2001. Em 1963, o livro, com o acréscimo de quatro novos capítulos foi publicado nos Estados Unidos com o título de New world in the tropics com sua respectiva edição em língua portuguesa, em 1971.

394 Contudo, na “Introdução” a Interpretação do Brasil, Freyre afirma que as “conferências foram

pronunciadas a convite da Fundação Patten na Universidade do Estado de Indiana, durante o outono de 1944”, e não em 1943, como afirma Guimarães. Ver.: Freyre, Gilberto. Interpretação do Brasil. São Paulo: Cia das Letras, 2001 [1947], p. 55.

395 Guimarães, Antonio Sérgio. Classes, raças e democracia. São Paulo: Editora 34, 2002, p. 150.

396 Cruz,Levy. “Democracia racial: uma hipótese”. in Quintas, Fátima (org.). Evocações e interpretações de

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