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L ITTERÆR ANALYSE

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O discurso do poder pastoral do escravismo norte-americano

*Dentre os teóricos da escravidão moderna, o mais perturbador e o mais consistente pensador foi certamente George Fitzhugh. Embora seu discurso esteja repleto de contradições,196 ninguém conseguiu expor de forma tão sistemática, com tamanha nitidez e engenho a teoria política do escravismo quanto ele. Autor de inúmeros artigos, e dois livros emblemáticos197, ele tinha a reputação de ser um orador inspirado e de um debatedor persistente. Com a radicalização do debate sobre a escravidão nos anos de 1850 tornaria-se uma referência para os círculos intelectuais do Sul e seria requisitado para palestras e debates no Norte. Sua potência retórica era tamanha que, segundo testemunhos, foi o autor pró-escravista que mais “despertou a ira” de Abrahan Lincoln.198 E um dos grandes abolicionistas norte-americanos da época chegou a caracterizar seus livros e artigos como o próprio “Evangelho, segundo Belzebu.”199

Fitzhugh nasceu em 4 de novembro de 1806 num pequeno condado às margens do rio Potomac, chamado Prince William. Pouco tempo depois mudou-se seguindo seu pai, um cirurgião do exército, para o condado de King George, onde sua família comprou uma plantation de 500 acres. Fazia parte de sua genealogia Lord William Fitzhugh of Bedfordshire, um advogado e rico proprietário de terras que veio para a América em 1670.200 Contudo, essa imagem aristocrática com a qual os plantadores

virginianos gostavam se revestir não poupou o autor de uma juventude marcada por dificuldades financeiras. Depois da morte de seu pai, 1829, com dívidas crescentes e um período de negócios ruins, ele foi forçado a abandonar a vida de proprietário de terras. 201

196 Genovese, Eugene. O mundo dos senhores de escravos. São Paulo: Paz e Terra, 1979. 197

Fitzhugh, George. Sociology for the South. Or, The failure of free society. Richmond: A. Morris, 1854; e

Cannibals All.Or, Slaves without masters. Richmond: A. Morris, 1857.

198 Carta de W. H. Herndon a Jesse W. Weik citada em Loewenberg, Robert J. “John Locke and the

antebellum defense of slavery” in Political Theory 13:2 (May 1985), p. 267.

199 Crane, Gregg. Race, citizenship, and law in American Literature. Cambridge: Cambridge University

Press, 2002. p. 44.

200 Davis, Richard Beale. “Chesapeake Pattern and Pole-Star: William Fitzhugh in His Plantation World,

1676-1701” in Proceedings of the American Philosophical Society, 105:6 (Dec., 1961), pp.525-529.

201 Ver.: Wish, Harvey. “Introdução” in Ante-bellum. Writtings of George Fitzhugh and Hinton Rowan

Sabe-se que nunca freqüentou um college ou uma universidade, mas sua educação o proveu de habilidades suficientes para torná-lo um advogado, atividade com a qual ganhou notoriedade local. Utilizou-se de sua energia e tenacidade para insistir junto à legislatura de seu condado para que limitasse severamente a liberdade dos negros libertos. Politicamente, considerava-se um liberal e, como muitos sulistas por volta dos anos de 1830, ele achava que a escravidão estava com os dias contados. Porém, com a recuperação da econômica agrícola gerada por novas demandas do mercado externo e por uma revolução das técnicas de plantio que proporcionaram uma espécie de renascimento intelectual sulista (além do contínuo processo de construção das diferenças seccionais) Fitzhugh transformaria-se num dos mais ativo ensaístas dessa região. E foi por meio dessa atividade que ele sairia do anonimato, tornando-se um dos mais famosos (ou no mais infame, para seus adversários) defensores da escravidão.

Seus textos só alcançariam maior repercussão a partir da década de 1850, quando tornou-se colaborador do Richmond Enquirer, uma das publicações de maior circulação no Sul. Foi isso que proporcionou a oportunidade para que, em 1854, seus artigos reunidos sob o título Sociology for the South, pudessem ser publicados por Adolphus Morris, o maior editor de Richmond. A publicação desse livro popularizou ainda mais seu pensamento. Com a ajuda de Henry Hughes, um jovem advogado do Mississipi, que no mesmo ano publicaria o seu A treatise of sociology, outro libelo a favor da escravidão, resenhas e comentários apareceriam nas principais revistas da região: Southern

Literary Messenger, Southern Quarterly Review e na prestigiada De Bow’s Review, revista

para a qual passaria a contribuir depois de seu sucesso editorial.202 Além disso, seus textos foram comentados em várias publicações abolicionistas.203

Embora nunca tenha sido protagonista das grandes discussões nacionais, o alcance de suas idéias foi suficiente para conseguir a audiência de Abraham Lincoln, então candidato ao Senado pelo Estado de Illinois. Ao que tudo indica, ele teria dito que as idéias expressas no seu famoso discurso “The house divided against itself cannot stand”, não eram uma declaração de guerra ou uma radicalização contra os Estados do Sul. Justificando a

202 Segundo Wish, o lucro desse sucesso editorial permitiu a duplicação de sua então modesta renda anual.

Ver.Idem, p. 13.

dureza de suas palavras, ele teria afirmado que pensamentos semelhantes já haviam aparecido no próprio Richmond Enquirer, o grande porta-voz do Sul, por meio do qual ele acompanhava as discussões da região. Segundo Harvey Wish, Lincoln fazia uma referência direta a um artigo de Fitzhugh, de maio de 1856204 no qual o autor se expressava em termos bastantes similares e num tom tão inflamado quanto o dele, especialmente no que tange à impossibilidade de convivência entre o Sul escravista e o Norte livre.205

Em 1857, ele lançaria seu segundo livro, Cannibals All! Or, Slaves without

masters, com o objetivo de desmascarar a assim chamada liberdade do mundo capitalista e

industrial. O livro foi novamente bem recebido no Sul, como seria de se esperar. O próprio De Bow, figura influente nos meios letrados e políticos do Sul, com um certo exagero, afirmaria em um artigo que seu autor era um dos legítimos filósofos de sua época. Por outro lado, William Garrison, que já o havia demonizado, usaria uma imagem mais romântica para descrevê-lo: “O Sr. Fitzhugh é o Dom Quixote da escravidão– mais demente apenas que seu ilustre predecessor”.206 Todas essas reações, no entanto, dão mostras de que seu pensamento finalmente repercutia para além dos limites de seu condado e de seu Estado.

A sociologia escravista

1. Um aspecto peculiar do debate sobre a escravidão norte-americana que raramente é comentado diz respeito ao fato de que os dois livros que compartilham a primazia de terem introduzido a palavra “sociologia” nos Estados Unidos (o de Fitzhugh e

204

Nesse discurso, Lincoln afirmava que o governo não poderia sustentar a divisão entre os Estados livres e escravistas indefinidamente. Reforçada pela ruptura do “Missouri Compromise”, de 1820 (que proibia a escravidão em territórios que se anexassem à União) devido à aprovação do “Nebraska Act”, em 1854 (que proibia qualquer interferência na decisão de um novo Estado tornar-se escravista); além da decisão da Suprema Corte sobre o caso Dread Scott v. Sandford, tudo isso, em sua opinião, enfraquecia a força de lei da Constituição. Assim, essa questão teria que ser resolvida em breve, e de uma vez por todas; “Either the

opponents of slavery, will arrest the further spread of it, and place it where the public mind shall rest in the belief that it is in course of ultimate extinction; or its advocates will push it forward, till it shall become alike lawful in all the States, old as well as new—North as well as South”. Seria justamente esse o teor de diversos textos de Fitzhugh, inclusive o que apareceria em panfleto lançado em 1849 e reeditado por três anos consecutivos, chamado Slavery justified, que apareceria como apêndice em Sociology for the South, em 1854. Ver.: Wish, Harvey. “Introdução” in Ante-bellum. Writtings of George Fitzhugh and Hinton Rowan

Helper on slavery. New York: Capricorn Books, 1960. pp. 9-10.

205 Fatos como esses, assim como o sucesso editorial de Fitzhugh, parecem contrariar uma visão comum até

metade do século 20, que afirmava que os defensores da escravidão, à exceção de John C. Calhoun, não haviam conseguido alcançar nem mesmo uma audiência sulista. Ver.: Morrow, Ralph E. “The proslavery argument revisited” in The Mississipi Valley Historical Review 48:1 (Jun. 1961), pp. 79-94.

206 Ver. Wish, Harvey. “Introdução” in Ante-bellum. Writtings of George Fitzhugh and Hinton Rowan

o de Henry Hughes), e talvez na língua inglesa, sejam ambos obras pró-escravistas. Isso parece indicar que a versão conservadora da nascente sociologia e o caráter reacionário de seu empreendimento intelectual (uma resposta às ‘desordens’ do mundo capitalista industrial207) foram mobilizados para a defesa de um projeto tão ou mais organicista e autoritário quanto o de Comte. Fitzhugh, por exemplo, justificava o uso dessa new-born

science (Comte cunhou o termo em 1838) porque só ela teria a capacidade de traduzir a

idéia que ele desejava expressar. Como seu desejo era demonstrar o fracasso, ou a ‘doença’ da sociedade livre, e mostrar o quanto a civilização devia à escravidão em termos de riqueza, ordem política e paz social, a sociologia com sua crítica ao conflito e à desagregação social e, sobretudo, devido à sua defesa enfática da coesão social, serviria como a ferramenta mais indicada para proceder à sua condenação sistemática às sociedades livres. Diz ele:

“We found that within the last half century, disease, long lurking in the system of free society, had broken out into a hundred open manifestations. Thousands of authors and schemers, such as Owen, Louis Blanc and Fourier, had arisen, proposing each a different mode of treatment for the disease which all confessed to exist. Society had never been in such a state before. (...) The fact that, before the institution of Free Society, there was no such term [sociology], and that it is not in use in slave countries, now, shows pretty clearly that Slave Society, ancient and modern, has ever been in so happy a condition, so exempt from ailments, that no doctors have arisen to treat it of its complaints, or to propose remedies for their cure. The term, therefore, is not only appropriate to the subject and the occasion, but pregnantly suggestive of facts and arguments that sustain our theory.”208

207

Para uma revisão radical das usuais narrativas sobre o nascimento do projeto sociológico, remeto ao extenso e instigante artigo de R. W. Connell “Why classical theory is classical” in The American Journal of

Sociology 102:6 (May, 1997), pp. 1511-1557.

208 Fitzhugh, George. Sociology for the South. Or the failure of a free society. Richmond: A. Morris, 1854.

Em seu entender, a sociologia era uma filha da sociedade industrial. Ela teria nascido pela necessidade de ‘curá-la’ do mal causado pela violência e pela fragmentação provocadas pelo estado deplorável de coisas que andam juntas com o avanço da “sociedade livre”. Por esse motivo, tal conceito seria estranho para uma sociedade escravocrata, já que só a escravidão, segundo pensava, essa instituição antiga e base fundamental sobre a qual se assentaram as grandes civilizações mundiais, teria o poder de trazer aquele estado de paz e de ordem social que manteria os estratos sociais necessariamente interdependentes e equilibrados, impedindo as crises que irremediavelmente fariam parte da rotina das sociedades livres.

Em um interessante artigo, Sharon S. Mayes faz uma minuciosa comparação entre a sociologia de Fitzhugh e a de Durkheim.209 Segundo ela “a sociologia que se originou com Durkheim e seus princípios metodológicos, que é a principal corrente da sociologia americana, é estruturalmente e ideologicamente congruente com uma visão de mundo bastante desagradável para a maior parte de nós – a visão de mundo do proprietário de escravos”.210 Seu estudo identifica pelo menos quatro grandes e preocupações e temas comuns que orientam o pensamento dos dois autores.

Primeiro, ambos acreditam que a sociedade é mais que a soma dos indivíduos. Esse, aliás, seria um dos fundamentos da crítica ao individualismo de Fitzhugh. Segundo, eles teriam uma preocupação especial com a educação e a moralidade. Como se sabe, a educação foi um tema que mobilizou a atividade política de Durkheim, que procurou por diversos meios implementar seu projeto de educação nacional. Para Fitzhugh, a educação moral era central para a manutenção da ordem social, embora diferentemente do sociólogo francês, Fitzhugh permanecesse ligado a uma concepção de educação e moral cujas fontes eram o cristianismo. Diz a autora: “Tanto Durkheim como Fitzhugh tinham preocupações com ordem moral da sociedade moderna e viam a educação moral como a única solução para um novo barbarismo que se aproximava”.211 Em terceiro lugar, e onde talvez resida a mais evidente relação, encontra-se em suas obras uma crítica fundamental às conseqüências sociais geradas pela divisão social do trabalho. Em quarto lugar, ambos

209 Meyes, Sharon S. “Sociological thought in Emile Durkheim and George Fitzhugh” in The British Journal

of Sociology 31:1 (Mar., 1980), pp. 18-94.

210 Idem, p. 79. 211 Idem, p. 85.

tendiam a considerar o socialismo a forma mais eficiente de organização social contra as desordens e patologias do capitalismo. Conforme veremos, para Fitzhugh a escravidão era o próprio socialismo em prática.

O ataque à “sociedade livre”

2. Um dos motivos que transformaram a obra de Fitzhugh num monumento do pensamento sulista foi o uso de sua retórica implacável dirigida contra a concepção de liberdade propagada pelos teóricos das sociedades industriais.212 Fitzhugh estava logicamente ligado à defesa da escravidão por meio de um procedimento comparativista. Para ele, a escravidão tinha as qualidades inerentes a seu modo de vida e ao predomínio do que chamarei aqui de “filosofia patriarcal”.213 Contudo, as virtudes desse sistema tornariam-se mais evidentes quando contrastadas pela situação social que dominava o cenário das grandes cidades e dos grandes países capitalistas de sua época.

Fitzhugh não usava o termo “filosofia patriarcal” e mesmo palavras como patriarcalismo ou patriarca não são tão freqüentes. O que caracterizo sob o nome de “filosofia patriarcal”, tal como a entendo a partir das leituras dos textos que aqui analiso, é justamente essa narrativa do poder pastoral que define a escravidão como uma instituição cuja missão é o cuidado e a tutela exercida sobre aqueles grupos humanos tidos como mais fracos, vulneráveis ou mesmo inferiores. Essa missão, ainda segundo esse pensamento, estaria a cargo de um senhor (ou de um paterfamilias) que (tal como os patriarcas do Velho Testamento, obrigados por um mandato divino) seria responsável por oferecer proteção contra a fome gerada pelo abandono, contra a violência infligida pelos mais fortes e de assistência contra a doença e a velhice. Seu objetivo seria a manutenção da vida biológica e

212

Esse aspecto é que parece interessar a Eugene Gonovese em seu longo ensaio sobre o autor, publicado em

O mundo dos senhores de escravos. O retrato feito pelo historiador, no entanto, parece exagerar as características anti-liberais de seu raciocínio, transformando-o num anti-racionalista e num anti-capitalista radical. O que, de forma alguma parece ser o caso. O socialismo escravocrata de Fitzhugh, por exemplo, está mais próximo da linhagem da literatura utópica, do que do anarquismo. Seu desejo é criar uma sociedade tão organicamente interdependente e organizada que a diferença entre liberdade e escravidão seja obliterada pela racionalidade inerente às necessidades da sobrevivência. Da mesma forma, quando Genovese afirma que Fitzhugh “exigia [a] completa destruição do sistema capitalista mundial”, ele parece subestimar sua percepção da sociedade sulista. Além de não se encontrar nenhuma afirmação do gênero em seus textos, seria difícil imaginar que um autor tão perspicaz desconhecesse a indissociável interdependência entre a economia escravista do Sul e o capitalismo internacional. Ver.: Genovese, Eugene. O mundo dos senhores de escravos.

Dois ensaios de interpretação. São Paulo: Paz e Terra, 1979.

213 Sobre a interpretação patriarcal de Fitzhugh ver.: Conner, Paul. “Patriarchy: old world and new” in

a organização da produção de seus meios de subsistência. Essa proteção oferecida pelo senhor, seria compensada pela submissão e pela obrigação à obediência. O discurso do poder pastoral do escravismo, porém, não limitaria suas preocupações apenas ao escravo; esse discurso estenderia seus tentáculos em torno de toda a unidade familiar, no qual estão incluídos as mulheres, as crianças e os agregados.

É justamente essa filosofia patriarcal, uma variante do discurso do poder pastoral, que estaria na base de sua crítica à idéia de liberdade. Em Cannibals all, por exemplo, ele ataca de forma veemente as teorias naturais da liberdade humana. “Não existe tal coisa como a liberdade natural, porque não é natural para o homem que viva sozinho sem um companheiro e uma sociedade de governo”.214 Para ele, a História havia mostrado

que a relação patriarcal era o modo de organização social que assegurava maiores garantias para o homem:

“'Tis an historical fact, that this family association, this patriarchal government, for purposes of defense against enemies from without, gradually merges into larger associations of men under a common government or ruler. This latter is the almost universal, and we may thence infer, natural and normal condition of civilized man. In this state of society there is no liberty for the masses. Liberty has been exchanged by nature for security”.215

No quarto capítulo de Sociology for the South, após uma longa e excessivamente enfática seqüência de argumentos desenvolvidos nos capítulos precedentes sobre as diferenças entre a sociedade livre (free society) e as sociedades escravistas, o autor procura definir da forma mais clara possível o que ele considerava ser as duas “filosofias” em confronto naquele momento crucial. A filosofia da sociedade livre seria aquela “adaptada para promover os interesses dos fortes, dos ricos e dos sábios”. Enquanto a

214 Fitzhugh, George. Cannibals all! Or Slaves without masters’. Richmond: A. Morris, 1857. p. 106 215 Idem, p. 108.

filosofia da sociedade escravista “pretendia proteger os fracos, os pobres e os ignorantes”.216

É nesse sentido, porque voltada para o bem comum e por não ser guiada para o lucro ou para busca da realização dos interesses puramente individuais, que ele identificaria a escravidão com o socialismo, e a filosofia do escravismo com a filosofia do socialismo. A chamada sociedade livre era egoísta e desumana. Ela deixava desamparado o trabalhador, entregue à própria sorte, acorrentando-o à escravidão da necessidade. Por isso, diria: “as pessoas do Norte [dos Estados Unidos] e da Europa são pró-escravistas em abstrato; aqueles do Sul são abolicionistas teóricos”.217 Enquanto a sociedade livre encarcera o trabalhador em sua dependência do dinheiro, sem o qual não haveria como sobreviver, a escravidão, na verdade, libertaria o escravo da necessidade e o amparava nas situações mais difíceis, mesmo quando impedido de produzir.

3. A visão de Fitzhugh sobre a sociedade livre provém de duas fontes principais. A primeira, de uma leitura crítica da moral ditada pela economia política. A segunda fonte é a adoção de uma versão que se poderia chamar de “conservadora” sobre a história da moderna Europa. É uma versão da história que, em parte, era também partilhada por socialistas utópicos, mas que aqui seria acompanhada de um elemento nostálgico de lamento pelo desaparecimento daquele mundo tão organicamente ordenado de senhores e servos do mundo feudal, que está ausente naqueles.

É fácil compreender sua crítica ao projeto moral da economia política quando temos em mente sua perspectiva do poder pastoral. Para ele, a economia política não pregava apenas um sistema econômico, mas propunha uma determinada conduta ética: “Seus autores parecer nunca dar-se conta de que eles estão escrevendo um código econômico, assim como um código ético”. Esse código seria orientado pelo princípio de que o interesse comum seria melhor atendido se cada indivíduo perseguisse seus interesses particulares. “Eles sustentam que a riqueza, a felicidade e a prosperidade nacional sejam não mais que o agregado da riqueza, da felicidade e da prosperidade individual”. Isso seria obtido “caso cada homem persiga exclusivamente seu próprio bem egoísta”. Para a

216 Fitzhugh, George. Sociology for the South. Or, The failure of a free society. Richmond: A. Morris, 1854.

p. 80.

economia política, agindo assim, cada homem em particular “está fazendo o melhor que pode para promover o bem geral”. Mas essa ética (cuja influência sobre a conduta humana seria apenas comparável ao do cristianismo, segundo o autor) esquecia-se de uma coisa:

“(...) that men eager in the pursuit of wealth are never satisfied with the fair earnings of their own bodily labor, but find their wits and cunning employed in overreaching others much more profitable than their hands. Laissez-faire, free competition begets a war of the wits, which these economists encourage, quite as destructive to the weak, simple and

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