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1. INTRODUCTION

1.3. Relevant literature

O uso de plantas para o tratamento de problemas de saúde tem sido documentado em todas as sociedades humanas, sendo parte da cultura de cada povo. No início do desenvolvimento da medicina moderna esse conhecimento tradicional começou a ser abandonado, por ser considerado ineficiente. Mas as inúmeras pesquisas mostrando a eficiência e confiabilidade de preparações utilizando plantas reverteram esse processo. Atualmente o emprego de plantas medicinais para o tratamento de algumas doenças corriqueiras tem sido apoiado pela classe médica e por programas oficiais de saúde [STEFANELLO et al., 2006]. O Brasil possui um número muito grande de espécies vegetais nativas que são consideradas medicinais [PIO-CORREA, 1984; MORS et al., 2000; BARBOSA-FILHO et al., 2005; LIMA et al., 2006; BRANDÃO et al., 2006], mas muitas ainda não tiveram qualquer avaliação científica do seu uso medicinal, o que é essencial para que possam continuar a serem utilizadas com segurança pela população.

O bioensaio sobre o estágio larval do microcrustáceo Artemia salina ( BST ) pode ser considerado como uma ferramenta auxiliar no processo de isolamento de substâncias bioativas. É um ensaio simples, barato, eficiente, feito no próprio laboratório de fitoquímica e utilizado na determinação da toxicidade aguda de substâncias. Artemia salina é um

N N NO2 NO2 O2N DPPH 517 nm

+

RH N NH NO2 NO2 O2N

+

R

microcrustáceo muito dependente do meio onde se encontra, portanto, muito sensível a bioensaios [VINATEA, 1994].

A partir da década de 80, Mclaughlin e colaboradores passaram a utilizar sistematicamente este bioensaio como meio de se obter substâncias ativas de extratos vegetais [MCLAUGHIN, 1982; MCLAUGHLIN et al., 1993]. Em busca de substâncias com atividade pesticida e antitumoral, Mclaughlin iniciou uma triagem sistemática com extratos de diferentes espécies de famílias vegetais. Diversos trabalhos sugeriram que, para se dar continuidade ao estudo biomonitorado pelo BST, estes extratos devem apresentar toxicidade < 1000 µg/mL [MEYER, 1982].

Mais recentemente DOLABELA e colaboladores [1997] demonstraram que substâncias com toxicidade sobre A. salina com concentrações entre 80 e 250 µg/mL podem apresentar atividade anti-Tripanossoma cruzi; por outro lado, substâmcias com toxicidade de DL50< 145 µg/mL podem apresentar atividade antitumoral.

No reino vegetal, com o imenso universo de metabólitos sencundários, existem grandes possibilidades de se encontrar substâncias que exerçam vários tipos de atividades biológicas. Destacam-se os alcalóides vinblastina e vincristina, os diterpenóides como o taxol, as lactonas sesquiterpênicas como a budleína-A e a eupasserina, as quais são exemplos de substâncias com atividade antitumoral e citotóxica, encontradas na natureza [ROBBERS, 1997]. N H N OH H3COOC N N R H COOCH3 OCOCH3 HO H3CO Vimblastina: R = CH3 Vincristina: R = CHO O O O HO CH3 CH3 CH2 O O O Budleína-A

In•meras lactonas sesquiterp…nicas citotƒxicas foram isoladas durante a busca por agentes antitumorais de origem natural. Neste processo, observou-se que a ocorr…ncia de atividade citotƒxica era muito comum, e a atividade antitumoral ocorria em menor extens‚o. Os estudos realizados por KUPCHAN e colaboradores para verificar a rela•‚o estrutura- atividade citotƒxica das lactonas sesquiterp…nicas revelaram que a presen•a da por•‚o α- metileno--lactona „ essencial para a atividade e que a presen•a de grupos tais como „steres insaturados, ciclopentenona ou α-metileno--lactona aumentam a citotoxicidade. O mecanismo das atividades citotƒxica e antitumoral ocorre atrav„s de rea•Œes de α-metileno-- lactona e outros sistemas conjugados com grupos sulfidrila das enzimas que controlam a divis‚o celular, inibindo assim a s†ntese de prote†nas e do DNA [KUPCHAN et al, 1971].

As lactonas sesquiterp…nicas licnofol†deo e eremantol†deo C, isoladas de Lychnophora trichocarpha Spreng., apresentaram atividade antitumoral contra 33 e 18 linhagens de c„lulas tumorais, respectivamente [SA—DE, 1998]. Os constituintes qu†micos obtidos de Lychnophora affinis Gardn., os licnoforol†deos A e B, apresentaram atividades citotƒxica e atitumoral [L… QUESNE et al., 1982]. De Lychnphora antillana Urb. Foram isoladas as licnostatinas 1 e 2 que apresentaram atividades citotƒxica e antitumoral [PETTIT et al., 1990]. Apesar das muitas lactonas sesquiterp…nicas antitumorais e citotƒxicas obtidas de esp„cies da fam†lia Asteraceae, pouco se sabe destas atividades para as esp„cies do g…nero Lychnophora.

Eupasserina HO O O O HO O O

O O O O HO O O O O O O HO O O Licnoforolídeo A Licnoforolídeo B

Compostos bioativos são quase sempre tóxicos em altas doses. Desta maneira, a avaliação da letalidade em um organismo animal menos complexo pode ser usada para um monitoramento simples e rápido durante o fracionamento de extratos. O ensaio de letalidade para larvas de Artemia salina (Figura 6) tem sido introduzido na rotina de muitos grupos de pesquisa envolvidos com isolamento, purificação e elucidação estrutural, já que muitos laboratórios de fitoquímica não estão preparados para a realização de ensaios biológicos [McLAUGHLIN, 1991; FALKENBENRG et al., 1999; RUIZ et al., 2005]. Os cistos de Artemia salina são de baixo custo e facilmente encontrados no comércio, além de permanecerem viáveis por anos no estado seco [MEYER at al., 1982]. Essas vantagens contribuíram para a popularização do bioensaio, sobretudo a partir da década de 90.

Figura 6 - Microcrustáceo Artemia salina

O ensaio foi proposto inicialmente por [MICHAEL, THOMPSON e ABRAMOVITZ, 1956], e posteriormente desenvolvido por [VANHAECKE et al., 1981], bem como por [SLEET e BRENDEL, 1983], baseando-se na possibilidade de imobilizar náuplios de Artemia salina em culturas laboratoriais [CARBALLO et al., 2002]. A metodologia admite variações. [SOLIS et al., 1993] propõem realização deste ensaio em microplacas ao invés de tubos de

Esta metodologia tem sido empregada ainda para detectar toxicidade preliminar de algas marinhas [ARA et al., 1999], realizar triagem de toxinas fúngicas [HARWIG, SCOTT, 1971], avaliar efeitos de exposição a metais pesados [MARTINEZ et al., 1999] e pesticidas [BARAHONA; SÁNCHEZ-FORTÚN, 1999], para testes de toxicidade em materiais dentários [PELKA et al., 2000] e vários trabalhos utilizam sistematicamente o BST (Brine Shrimp Test) na avaliação prévia de extratos de plantas conhecidas como antitumorais [MEYER et al., 1982].

Vários extratos e frações de Carthamus lanatus pertencente à família da Asteraceae foram testados quanto à atividade citotóxica utilizando o BST. Observou-se que vários extratos e frações eram ativos e puderam também ser correlacionados com testes antimicrobianos [TASKOVA et al., 2002].