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Dentre as várias generalizações da literatura, está a ideia de que sempre houve uma relação de confiança, de lealdade e de reciprocidade entre fazendeiro e vaqueiro (Cascudo, 1956: 27-28; Mello, 2011: 50). De um lado, o vaqueiro como o trabalhador estimado no qual o patrão deve confiar. De outro, o fazendeiro a quem o vaqueiro deveria respeitar, por lhe distribuir, como moeda de troca, prestígio político e parcela de seu rebanho. Nessa lógica, o fazendeiro foi sempre visto como o elemento dominante da relação. O que, nas palavras de Euclides da Cunha (1927 [1902]), tornou os vaqueiros sujeitos a uma “servidão inconsciente”. Por sua vez, é contrário a essa prerrogativa que o trabalho de Joana Medrado (2012), intitulado Terra de Vaqueiros, dedica-se com exclusividade à análise histórica das relações entre vaqueiros e fazendeiros (em seu caso, na comarca de Jeremoabo, sertão da Bahia), indo além da estagnação do vaqueiro como subserviente aos domínios políticos regionais. A autora parte da hipótese de que mais do que lealdade, confiança e dominação, os vaqueiros detinham os seus próprios meios de resistência, de manutenção e de recriação do “prestígio” e de sua “cultura política” (2012: 36). Em geral, a autora demonstra que, a partir do significado do vaqueiro como figura leal e obediente, a literatura clássica sempre lhe rogou uma “imagem positiva”, romântica e saudosista (idem, 126-127).

Por meio das inúmeras qualidades morais concentradas em uma única figura, minha amiga Nilda Ferraz, por exemplo, referenciava os autênticos e originais vaqueiros do passado como os reais sujeitos de sua tradição. Portanto, também em Floresta aparece essa “imagem positiva associada ao vaqueiro”, só que servindo de base para alguns moradores falarem não só de sua tradição, mas das diferenças dos vaqueiros entre si. Nomeando-os às vezes como personagem e dando-lhes certa positividade histórica, os meus interlocutores(as) extraíam reflexões e asserções sobre quem era ou não vaqueiro à

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medida que cristalizavam, como simbólico e representativo, os sujeitos do passado. Imagem pungente em suas memórias ao se lembrarem do tempo infância ou, então, da época em que existia muito gado brabo nas fazendas de familiares e conhecidos.

Alguns amigos e amigas sertanejas notaram que a imagem histórica do vaqueiro serve para pensar a posição do outro e refletir sobre si mesmos e o próprio passado. Inclusive, para pensar a história local (a de Floresta e a de suas famílias) e o Estado-nação (na forma de tradição e de cultura), criar certas virtudes a respeito da singularidade de seus costumes (enquanto sertanejos ou vaqueiros de verdade) e conferir positividade a determinados valores e personagens históricos (o vaqueiro simbólico como o antigo

homem do campo, sujeito corajoso, honrado e leal). Nesse sentido, a autenticidade formulada pelos interlocutores(as) investe na ideia de que o vaqueiro seria um trabalhador rural ao qual se direcionavam diversas qualidades que, embora fossem cristalizadas pela retórica da tradição, também ganhavam notoriedade no que se referia ao que há de mais contemporâneo. Por exemplo, ao sentimento de liberdade e às relações com os animais, ainda bastante presentes no contexto pesquisado – algo que detalharei na seção 2.1.4.

É a singularidade do vaqueiro que lida com o gado brabo (que imediatamente remete ao seu desbravamento e à sua liberdade de ação pelos campos indivisos) o elemento que o conecta diretamente ao passado, à tradição e, portanto, à verdade histórica. Nesse contexto, o vaqueiro é sempre o sujeito que tem coragem e agilidade para capturar uma rês bravia no campo. Atitude que, hoje, é uma das que mais diferencia os vaqueiros de toda a sorte de pessoas que se dizem vaqueiros mas nunca cumpriram as funções um dia necessárias. Todavia, para além dessas funções, o gosto pelo passado formula o que é o vaqueiro hoje e o que exatamente ele não é mais. E a ideia de um vaqueiro simbólico (que busquei construir com a ajuda da literatura) serve, no mínimo, de medida avaliativa e de matriz purificadora que, a partir de um gradiente qualificativo e conceitual, faz os florestanos botarem em níveis distintos de importância outros tipos de vaqueiros que não propriamente o verdadeiro que a tradição os ajuda a definir.

Assim, é possível defender nesta etnografia a ideia de que, tanto para a literatura quanto para os sertanejos, ao vaqueiro é possível investir certas qualidades, reflexões, temporalidades e características que o torna não só uma equivocidade (por permitir diversos sentidos, ser visto de diversos ângulos e de muitos lugares no tempo), mas também uma singularidade histórica (no sentido de que, embora se possa vê-lo sob diversas formas, o verdadeiro é sempre o homem do campo que um dia exerceu funções e teceu sentimentos referentes a outra temporalidade). O vaqueiro simbólico da história

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nacional, ligado ao que convencionei chamar aqui de verdade histórica, é, portanto, sui

generis, e a sua autenticidade resulta das “estratégias de essencialização” (Herzfeld, 2005

[1997]) que meus amigos e a amigas sertanejas conduziam por meio de sua “poética social”. Um método de análise, segundo o autor, das contradições sociais e de seus efeitos subsequentes diante da formalização estatal que, como um equalizador das variabilidades repercutidas no seio da “intimidade cultural”, volta-se sempre à construção de “essencialismos” e de verdades na vida cotidiana (idem, 54).

Demonstrar que em nada pode ser contrariada a autenticidade do vaqueiro é justamente fazer do vaqueiro de verdade aquele que, no passado, foi o tipo de homem do

campo que, no presente, é o referencial de como o vaqueiro deve ser e de como ele realmente é. Por isso, a literatura e o pensamento local parecem compartilhar entre si, cada um à sua maneira, da noção de um vaqueiro simbólico e representativo que a própria história nacional ajudou a construir. Vivo na memória local, porém empiricamente raro. Mas é a sua raridade e a sua singularidade que fazem com que as atuais “formas de expressão” e “formas de conteúdo” (Deleuze e Guattari, 2007 [1980]: 80) de ser vaqueiro sejam ainda mais valorizadas no presente. Pois os vaqueiros que se distanciam da verdade histórica se tornam uma cópia do vaqueiro original, um dilema, uma emulação ou, então, uma posição inversa do vaqueiro de verdade.

Dessa forma, embora as reflexões da literatura estejam contornadas de generalizações e de impressões, às vezes de cunho naturalista e culturalista (Barroso, 1930 [1912]; Cascudo, 1956; Mello, 2011), foram elas próprias que notaram a prevalência dos vaqueiros como sujeitos históricos únicos, disputando entre si a posição de ser

vaqueiro e buscando ascensão e prestígio sociais. É nesse sentido que, para Medrado (2012), o vaqueiro foi uma espécie de “bilíngue” que transitava por diversos meios e situações. Tecendo árduas críticas às perspectivas clássicas que caricaturaram o vaqueiro nordestino como incondicionalmente “leal” e “fiel” ao dono da fazenda, a autora notou que, mais do que reprodutor de valores e de costumes (e obediente a uma totalidade social), os vaqueiros no seio de suas relações com chefes e terceiros buscavam a todo instante obter prestígio e flexibilizar a sua própria posição.

Um dos principais traços a distingui-lo, tanto no seio da classe dominante quanto entre os trabalhadores em geral, era a capacidade que ele demonstrava de transitar livremente entre o mundo do dono da fazenda e aquele dos trabalhadores, tornando-se “bilíngue” experiente na arte de decodificar normas de comportamento por vezes opostas. Por isso mesmo, o vaqueiro-administrador atuava como porta-voz dos

99 interesses de um ou de outro grupo. No entanto, essa condição de “bilíngue”, longe de amortecer o conflito entre as classes, como o termo pode sugerir, fazia do vaqueiro alguém que tinha mais elasticidade e noção do funcionamento social e que podia aproveitar as frestas de comunicação em proveito próprio (idem, 127-128)

Desse ponto de vista, os vaqueiros foram uma massa de trabalhadores da qual eles próprios buscavam destaque, não só porque lhes delegavam poder político, mas porque exerciam funções variadas e circulavam por diversos meios, podendo inclusive se tornar um “vaqueiro-administrador”. Ao analisar processos civis e criminais da comarca de Jeremoabo, entre o período de 1880 a 1900, a historiadora se deparou com várias categorias de vaqueiro: “vaqueiro-administrador”, “vaqueiro-procurador”, “vaqueiro- inspetor de quarteirão” e “vaqueiro-guarda de tropa” (2012: 90-91). Percebe-se, então, que a autora também se descobriu às vezes na dificuldade de unificar o vaqueiro em uma única categoria.

Em parte, se o vaqueiro é passível de generalizações (sob a forma de vaqueiro simbólico, por exemplo – como bem o fizeram a literatura clássica e alguns interlocutores), neste caso etnográfico é impossível concentrar em uma única definição e imagem todas as características, valores e atributos que me foram dadas na forma de equivocidade (no sentido de o vaqueiro ser o oposto de uma categoria unívoca – como já tratei de explicitar aqui), de tal forma que a própria cristalização da literatura e de alguns interlocutores a respeito das virtudes de ser vaqueiro só é funcional se a tomarmos como uma dentre várias outras formas de se pensar a categoria analítica. Vejamos o que de generalizador ainda existe no cruzamento entre literatura e saber local, agora com o propósito de analisar as perspectivas a respeito da mutualidade entre vaqueiros e bois.

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