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KAPITTEL 5: INTERAKTIVE FORTELLINGER

5.2 L ØSNING : L ESEREN

Parece contraditória a menção de possível barreira no interior do místico quando é exatamente lá que a espiritualidade encontra seu campo mais fértil e desimpedido. Então a barreira não consiste na realidade do interior, mas na mistura que ele abriga: no campo da mística, muitas aspirações inalcançáveis e outras insaciadas, visto que a espiritualidade lida com o inefável, o transcendente. Mesmo assim convém examinar o místico, enquanto ator social, como receptor e também como formador de opinião bem como as barreiras encontras em ambas as plataformas.

O místico graduado e experiente, avançado em sua influência como no caso de Eckhart, já palmilhou o caminho do recebimento passivo das influências de outros mestres – já foi simplesmente receptor. Também é igualmente receptor o grupo dos aprendizes, enquanto o outro. Em ambos os casos o interior do místico constitui outra zona de conflito, ou seja, uma nova barreira no desenrolar já conturbado no vasto mundo da experiência mística.

Há de se pensar que uma vez não adaptada à formalidade da religião, a opção mística pudesse viver em paz pelo menos consigo mesma. Mas aí estamos diante de outra crise clara e irremediável até pela própria essência mística que se metamorfoseia em função da sua individualidade.

O problema que mais oprime os místicos cristãos ou não é a dificuldade de saber lidar seriamente com a verdade objetiva de Deus e do mundo real, o que alimenta um desejo quase que incontrolável de querer olhar para dentro da humanidade limitada para descobrir e depois justificar as suas experiências classificadas como transcendentais. A maior barreira para o entendimento e a prática da espiritualidade saciada está no interior do próprio místico.

O saber precisaria moldar a conduta de todo místico autêntico, sob a bandeira do entendimento de que mística não é propriedade exclusiva deste ou daquele personagem. Kempis dizia (2003, p.138) que “quanto mais e melhor souberes, tanto mais rigorosamente serás julgado, se com isso não viveres mais santamente.” Por outro lado, ele fala de quão perigoso é ao místico confiar demasiadamente em seu próprio juízo sem levar em conta o que se pode aprender com os outros, porque a intimidade da criatura com a divindade é muitas vezes comprometida enquanto resume-se ao egocentrismo do místico. Ele diz:

Verdade é que cada um gosta de seguir seu próprio parecer e mais se inclina àqueles que participam da sua opinião. Entretanto, se Deus está conosco, cumpre-nos, às vezes, renunciar ao nosso parecer por amor da paz. Quem é tão sábio que possa saber tudo completamente? Não confies, pois, demasiadamente em teu próprio juízo; mas atende também, de boa mente, ao dos demais. Se o teu parecer for bom e o deixares, por amor de Deus, para seguires o de outrem, muito lucrarás com isso. (p.5)

Nesta área Mestre Eckhart viveu contrastes curiosos. Ensinou, às vezes, como quem não se importava com o aprendizado dos alunos visto ser-lhe assegurada a superioridade de mestre, não se preocupando, no entanto, em ser contraditório diante daqueles mesmos grupos, dedicando-lhes a atenção de quem dependia da compreensão deles para prosseguir como mestre.

A perspectiva pela qual um ser inteligente que cultiva a espiritualidade avalia sua existência é quase sempre enquadrada nas limitações da vida, enquanto criatura, com seus conceitos, valores e definições de propósitos pessoais, aonde o “eu” o é na medida em que se relaciona com o Criador. Com Eckhart não foi diferente. Ele se viu como dono do saber em certas ocasiões, mas logo se deu conta da inefabilidade divina e retrocedeu. Em alguns casos ele beira as raias da arrogância e da indiferença, mas logo se enxerga sob a perspectiva da mística cristã – só Deus é Deus.

Em O Livro da Divina Consolação (2006, p.82), por exemplo, ao falar sobre o sétimo motivo que existe para a nossa consolação, parece desdizer imediatamente seu interesse pelo consolo dos outros ao afirmar que “quem não compreende isto, culpe a sua própria cegueira, e não a mim, nem a divina Verdade ou a Bondade amorável de Deus.”

Com a mesma declaração de aparente desinteresse à reação dos seus leitores ele conclui afirmando que “a mim me basta que em mim e em Deus seja verdadeiro o que falo e escrevo” (p.86) como se a eficácia de tais conselhos não precisasse ser o resultado esperado. Tal evidência de auto-suficiência é encontrada não apenas nos textos de Eckhart, mas também nos seus sermões como, por exemplo, ao concluir o sermão 52 onde falou Sobre a Pobreza (2006, p.195) parece que não teria levado em conta se o povo compreenderia ou não ao dizer:

Quem não compreender estas palavras, não aflija o seu coração. Pois enquanto o homem não se igualar a esta verdade, não poderá entender estas palavras. Pois esta é uma verdade desvelada que aqui veio imediatamente do coração de Deus.

No entanto, e quase que com a mesma velocidade, Eckhart tem seu discurso mudado para o oposto daquela primeira ênfase, e passa a demonstrar interesse profundo pelos seus alunos e ouvintes, como que dependendo inteiramente da compreensão deles para validar sua maestria, quando no sermão 48 (2006, p.268) declara:

Hoje, no caminho para cá, vim pensando como poderia pregar-vos de maneira compreensível, de modo que me entendêsseis bem. Assim, imaginei uma comparação. Se puderdes compreendê-la devidamente, havereis de compreender o sentido e a razão de todo meu empenho, sobre o qual venho pregando já há muito tempo.

De fato, as barreiras encontradas no interior do místico são seus piores fantasmas, seus criadouros mais férteis de fenômenos inexplicáveis e posições muitas vezes contraditórias, irreconciliáveis, e incompreensíveis até pela mais devota fenomenologia. Se o místico é consciente, mas valoriza muito o empirismo em detrimento do intelecto, o resultado de sua espiritualidade não será outro que não aquele no mínimo duvidoso gerando a mística da ineficácia porque a subjetividade engole a objetividade e se esta se for, mais barreiras serão erguidas, ainda, no interior do místico.