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RELEVANCE TO CLINICAL PRACTICE:

Um pouco mais complexo que o exemplo apresentado é a obra

Oedipus rex, de Igor Stravinsky. Evidentemente, não pretendemos esmiuçá-

la; faremos apenas breve passeio sobre um aspecto levantado pelo analista e musicólogo Joseph Straus em seu livro Introdução à teoria pós-tonal (Straus, 2013).

O mito de Édipo, enredo da obra, é largamente conhecido, tendo sido inúmeras vezes recontado ao longo da história. De toda forma, faremos

breve resumo da trama, a fim de facilitar a compreensão da análise que virá em seguida.

O Rei Édipo de Tebas procura desvendar a razão pela qual sua cidade sofre da peste, fome e tragédias imputadas pelos deuses. Ele é considerado por seus súditos como o mais sábio dos homens, visto ter decifrado o enigma da esfinge que aprisionava Tebas a tantas tragédias, como peste, por exemplo. Édipo ordena, então, que Creonte dirija-se ao templo de Apolo a fim de saber o motivo da maldição que se abatia sobre Tebas. Ao retornar, Creonte informa Édipo que a maldição só seria quebrada se se fizesse justiça, castigando o assassino de Laio, antigo rei de Tebas. O oráculo informa também que o regicida encontra-se na cidade. Édipo ordena ampla investigação e caçada ao assassino, quando, então, Tirésias, conhecedor dos mistérios do oráculo, é chamado para depor diante do rei. Este último ordena a Tirésias que diga quem é o assassino de Laio. Tirésias reluta, mas, finalmente, revela que o assassino é o próprio Édipo, que se recusa a acreditar, alegando que se trata de um complô de Tirésias e de Creonte para tomar-lhe o trono. Tirésias também profetisa que, ainda naquele dia, o rei receberia grande revelação.

Ao relatar à Jocasta, sua mulher, irmã de Creonte e ex-mulher de Laio, o que acontecera, ela procura tranquilizar-lhe, dizendo que outra profecia dos deuses já havia sido enganosa, visto que Laio recebera-a anos antes, dizendo que seria morto por seu próprio filho e, a fim de evitar o cumprimento desta, ordenou-lhe a eliminação. A prova de que a profetiza se enganara era que Laio teria sido morto por salteadores numa encruzilhada.

A história, então, começa a fazer sentido para Édipo, pois ele matara um homem, tempos atrás, numa encruzilhada idêntica à que Jocasta descrevera. Édipo, que também recebera uma profecia, a de que mataria seu pai e se casaria com sua mãe, começa a se atormentar, quando um

mensageiro, vindo de Corinto, traz ao rei a nova de que seu pai, Políbio, estava morto. O mensageiro, tendo sido informado do ocorrido, revela a Édipo que ele não era filho legítimo de Políbio: ele mesmo fora a pessoa que entregou Édipo ainda bebê ao rei. Finalmente, o servo de Laio, responsável por eliminar a criança, revela que não o fizera. Toda a história vem à tona, sendo então revelada a Édipo. Jocasta se mata, Édipo fura os próprios olhos, amaldiçoando-se.

Straus apresenta uma perspectiva bastante interessante. Para ele, o principal conteúdo explorado pela obra na versão de Stravinsky é a oposição

ocultação vs. revelação. A passagem do oculto para o revelado provoca a

transformação do sujeito Édipo que, anteriormente, acreditava ser o salvador de Tebas e o legítimo rei: ele, portanto, ignorava. Verbalmente, esta ignorância é figurativizada através da cegueira simbólica, o desconhecimento de própria procedência e identidade. Posteriormente, ele se sanciona furando os próprios olhos, eis sua cegueira física.

O momento escolhido para a análise dessa revelação, da perspectiva musical, é aquele em que o mensageiro e o servo relatam a Édipo os detalhes sobre sua origem. Em seguida o rei manifesta-se:

Natus sum quo nefastum est, Cuncubui cui nefastum est, Kekidi quem nefastum est, Lux facta est!

Eu nasci de quem a lei divina proibia, Eu casei com quem a lei divina proibia, Eu matei a quem a lei divina proibia Tudo agora se tornou claro!

O primeiro trecho (nº de ensaio 167) marca a saída de cena do servo (pastor de ovelhas) e do mensageiro de Corinto (terra de Políbio). Dá-se, então, uma curiosa relação entre duas sonoridades: uma alternância de centralidades entre as tríades de Si menor e Ré menor, em que o Si aparece polarizando a melodia que, gradativamente, resolve-se em Ré pelo aparecimento de Dó# e Fá#. Há ainda uma alternância fundamental entre Fá natural e Fá#, como se observa no número de ensaio 167.

Nesse período, tal choque, segundo Straus, nada mais é que a ressonância de uma oposição que já vinha se construindo ao longo de toda peça:

Primeiro, há uma ideia de Si versus Ré, uma ideia com ressonância simbólica durante toda peça. O Ré está geralmente associado com momentos de revelação, como quando o partor e o mensageiro revelam a verdade para Édipo. O Si, em contraste, está associada à cegueira de Édipo, tanto a cegueira simbólica de sua ignorância como a cegueira real que ele mais tarde inflige sobre si mesmo (Straus, 2013, p.191).

Como se vê, homologa-se aos conteúdos de revelar vs. ocultar figuras do plano de expressão musical. Muito interessante também é o fato de que o pastor e o mensageiro têm suas melodias com base em Ré dórico, de forma bastante direta e sem maiores complexidades. Édipo, por sua vez, no momento de sua fala, instaura-se justamente o Si, que criará todo o sentido de ambiguidade e de choque entre as sonoridades citadas. Vejamos a linha melódica dos pastores nos compassos precedentes, números de ensaio de 163 a 167:

Em Édipo, contudo, o choque de polarizações cristaliza-se com a entrada em Si, acrescentando-se o Fá# e o Dó# e viabilizando, assim, uma construção melódica também em Ré.

A resolução do embate dá-se com a afirmação de Fá# e, portanto, Si menor, coleção34 que, mais uma vez segundo Straus, traz consigo os

conteúdos associados à cegueira de Édipo.

Como vemos, as escalas e as coleções de acordes, bem como as oposições sonoras, figurativizam os conteúdos que, no plano verbal, foram figurativizados de outra forma. Ambos os planos de expressão, porém, apresentam-nos os mesmos conteúdos, articulando-se na construção de uma semiose sincrética e semissimbólica.

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