Mostramos anteriormente que a actancialização da cena enunciativa cuja tematização é a da produção instaura um destinador-julgador responsável pela verificação da competência do sujeito na construção do objeto de valor. Desejamos apresentar uma situação frequente: o ato de produzir e o ato de sancionar podem ser realizados pelo mesmo ator. O
intérprete ou compositor pode, em dados momentos, construir o objeto enquanto julga sua própria construção. A autocrítica nada mais é que o desdobramento do papel do sujeito em sujeito e destinador, realizando a tarefa do julgamento de sua própria ação. Mais do que isso, é como se o destinador dispusesse de um sujeito que realiza o papel narrativo de sancionador. Um exemplo disso seria o daquele estagiário encarregado de corrigir as redações de um grupo de alunos. O professor orienta-o sobre a correção e ele realiza a ação. Trata-se evidentemente de um sujeito, pois realiza a ação, porém esta será o julgamento da ação de outro sujeito, ou seja, uma etapa de sanção.
No caso da autocrítica do performer musical, isso pode ser percebido numa sessão de ensaios em que, ao executar determinado trecho musical ou passagem, o músico repete inúmeras vezes o trecho em questão até considerar que o resultado é condizente com suas expectativas; melhor dizendo, as expectativas de seus valores ideais, recebidas de seu destinador sócio-histórico. É, porém, de mais fácil verificação a autocrítica de um compositor em relação à sua obra verificada em manuscritos de composição.
Construíram-se através da história muitos mitos sobre o célebre compositor Wolfgang Amadeus Mozart. Alguns livros, talvez o mais famoso,
Mozart: sociologia de um gênio, de Norbet Elias, apresentam-no como um
gênio completo, portador de um dom sobrenatural. Os filmes vão mais além. Esse é o caso do de Milos Forman e de Peter Schaffer, Amadeus (1984). Salieri, compositor da corte de Joseph II, desenhado como inimigo e simultaneamente admirador de Mozart, vai às lágrimas ao verificar nos manuscritos do compositor que este último não fazia correções, ou seja, que suas obras brotavam de sua mente praticamente prontas, como que "ditadas por Deus". A concepção do gênio romântico é justamente essa: um escolhido portador de um dom sobrenatural dado por deus ou por uma força
transcendente. Isso significaria dizer que Mozart estaria de tal forma ligado a seu destinador que não haveria necessidade de uma autossanção, a obra nasceria, portanto, pronta.
Contudo, ao se analisar mais detidamente o compositor através de suas obras no tempo, percebemos que os fatos não eram exatamente esses. Realmente, Mozart iniciou sua carreira como compositor muito cedo: por volta dos cinco anos de idade; aos oito anos, principia a compor sinfonias. Não há dúvida de que o jovem contava com um talento precoce diferenciado, como se pode observar nos relatos de seu pai em suas cartas25:
! Leopold Mozart a L. Hagenauer, em Salzburgo Wasserburg, 11 de junho de 1763
A última notícia é que, indo para o órgão [da Catedral de Wasserburg] para nos divertirmos, eu expliquei a Wolferl o uso dos pedais. Ele imediatamente começou a tentar, empurrou o banquinho para o lado, preludiou, e pisou nos pedais, e isto, realmente, era como se ele tivesse praticado há muitos meses atrás. Todos ficaram atônitos, e isto é uma nova graça de Deus, tal qual muitos só recebem após muito esforço.
! Leopold Mozart a Frau Hagenauer, em Salzburgo Paris, 1 de fevereiro de 1764
Quatro sonatas do Sr. Wolfgang Mozart estão agora sendo impressas! Imagine o alvoroço que irá causar no mundo o fato de que estará impresso na capa que a obra é de uma criança de sete anos; e, quando os incrédulos são desafiados a por isso em prova (como já ocorreu), ele convida alguém para escrever um minueto, ou algo do gênero, e então ele imediatamente (sem tocar no cravo) escreve o baixo, e, se desejado, também !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
a parte do segundo violino! Em boa hora a senhora ouvirá quão boas são essas sonatas; há um andante entre elas de gosto bastante singular. E eu posso assegurar-lhe, querida Frau Hagenauer, que Deus produz milagres diariamente nessa criança. Em nosso retorno a casa (se Deus quiser) ele estará em posição de ser oficial da corte. [...] Quando ele está acompanhando um concerto público, ele transpõe árias realmente a prima vista; e em qualquer lugar ele toca dessa maneira qualquer peça que ponham diante dele, seja italiana ou francesa.
Contudo, não podemos falar de um sujeito de competência absoluta. Ainda que o treinamento intenso tenha dado a Mozart um fazer quase livre de erros na sua maturidade, é observável, em suas primeiras sinfonias, o auto grau de correções e retoques necessários à conclusão de suas obras. Vejamos o manuscrito de sua primeira sinfonia, K. 16:
A grande quantidade de correções e retoques presentes na partitura nos mostra que o processo de composição nessa fase da carreira do compositor era embaraçado por erros e necessidade de correções. É possível que muitas das correções realizadas tenham sido orientações diretas do pai, seu professor de música, porém ainda se trata de autocorreções.
Fenômeno semelhante observo, quando, ao escrever esta tese, frequentemente deparo com pensamentos contraditórios que necessitam de revisão e correção. Autossanciono-me, a partir de um destinador construído num simulacro teórico que prevê uma prova glorificante, a defesa da tese, em que a banca examinadora acionará seus destinadores para a realização do ato sancionador.
Por fim, observamos neste capítulo: (1) a existência de modos do sujeito enunciador performer musical, a partir da perspectiva de Nattiez e Harnoncourt; (2) a viabilidade de inserir a interpretação musical e suas escolhas num modelo enunciativo, tomando-se como base propostas de Greimas e Barros; (3) a verificação de que os papéis actanciais narrativos podem ser desempenhados sincreticamente quando um mesmo ator realiza várias tarefas, ou quando uma mesma função actancial é partilhada por vários atores; (4) finalmente, a viabilidade de definir modos de ação para os tipos de intérprete musical citados através desse modelo enunciativo em que se podem opor tais modos pelo tipo de destinador que o manipula.
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