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Relationship between community participation and poverty

Consideramos a recriação necessária à escola em relação ao adolescente e abre-se, naturalmente, a importância do Outro familiar na subjetividade desse sujeito. Cabe pontuar, mesmo sucintamente, que a família é um construto social e historicamente contextualizado. A família, segundo Ariès (2006), nem sempre foi organizada por princípios sentimentais. Na época medieval, por exemplo, era mais uma realidade moral e social. Além disso, nessa relação havia a ausência da distinção entre os universos infantil e adulto, “assim que a criança tinha condições de viver sem a solicitude constante de sua mãe ou de sua ama, ela ingressava na sociedade dos adultos” (ARIÈS, 2006, p. 156). Rememoramos, também, que “Era através do serviço doméstico que o mestre transmitia a uma criança, não ao seu filho, mas ao filho do outro homem, a bagagem de conhecimentos, a experiência prática e o valor humano que pudesse possuir” (ARIÈS, 2006, p. 228).

Ao consideramos, por outro lado, a importância da relação da família junto à escola na constituição da subjetividade do estudante adolescente sob a ótica da Psicanálise, essa teoria:

[…] aborda a subjetividade como produto do triângulo edípico. Nesse sentido, a subjetividade é o resultado da relação com o outro. A criança, que nasce amparada por uma família, é a expressão dessa relação, sendo sustentada psiquicamente pelas amarras desejantes das funções parentais. Dessa maneira, deparamo-nos com a criatura humana como efeito de uma estrutura familiar desejante inconsciente, como ocupante de um lugar no desejo de cada um dos pais, dependendo, para se constituir psiquicamente, do contato com outro sujeito (ROMAGNOLI, 2004, p. 44-45).

Encontramos, nos textos de Freud (1939/1976), referência à família primeva, Moisés e o Monoteísmo; especialmente nos escritos de Totem e tabu (FREUD, 1912-1913/1976), esse psicanalista aborda os vínculos referentes à primeira família primitiva, que era marcada pela ausência da lei e pela presença de um pai soberano e incestuoso. Esse tipo de organização familiar antecede a edípica, pois Freud (1910/1976) inicia a elaboração do conceito de complexo de Édipo. Assim, parafraseando, Carvalho filho, (2008; 2010), Freud agrega na teoria psicanalítica a percepção do complexo de Édipo por meio da literatura, um novo olhar em torno do mito de Sófocles, e, também, o personagem de Shakespeare, Hamlet, e de Dostoiévski, os

irmãos Karamazov. Esses três heróis, Édipo (inconsciente), Hamlet (culpa do desejo) e irmãos Karamazov (morte do pai real), são transmutados por Freud para o psiquismo individual por intermédio do complexo de Édipo. Dessa maneira, a família é inserida na essência de uma nova ordem – a ordem simbólica.

Portanto, a respeito dessa elaboração teórica do conceito de família a partir do complexo de Édipo, Freud (1924/1980, p. 221), escreve:

As catexias de objeto são abandonadas e substituídas por identificações. A autoridade do pai ou dos pais é introjetada no eu e aí forma o núcleo de supereu, que assume a severidade do pai e perpetua a proibição deste contra o incesto, defendendo assim o eu do retorno da catexia libidinal. As tendências libidinais pertencentes ao complexo de Édipo são em parte dessexualizadas e sublimadas e em parte são inibidas em seu objetivo e transformadas em impulsos de afeição.

Tencionar uma reflexão sobre a complexidade da estruturação familiar passa, então, pela compreensão da teoria da sexualidade. Acerca dessa conflituosa controvérsia, Freud (1905/1985, p. 138) expressa:

Sem dúvida, o caminho mais curto para o filho seria escolher como objetos sexuais as mesmas pessoas a quem ama, desde a infância, com uma libido, digamos, amortecida. Com o adiamento da maturação sexual, entretanto, ganhou-se tempo para erigir, junto a outros entraves à sexualidade, a barreira do incesto, para que assim se integrem os preceitos morais que excluem expressamente da escolha objetal, na qualidade de parentes consangüíneos, as pessoas amadas na infância. O respeito a essa barreira é, acima de tudo, uma exigência cultural da sociedade, esta tem de se defender da devastação, pela família, dos interesses que lhe são necessários para o estabelecimento de unidades sociais superiores, e por isso, em todos os indivíduos, mas em especial nos adolescentes, lança mão de todos os recursos para afrouxar-lhes os laços com a família, os únicos que eram decisivos na infância.

Portanto, segundo Freud (1905/1985), na sujeição e repulsa às fantasias incestuosas efetiva-se uma das realizações psíquicas mais relevantes, entretanto, a mais penosa, do período do adolescer: o desligamento da autoridade parental, por meio do qual se instala o contraditório, tão importante para o avanço da cultura, entre a nova e a velha geração. Assim, olhar a organização familiar com base na teoria psicanalítica é procurar entendê-la a partir de suas particularidades e ter sensibilidade para perceber, no contexto familiar, o sofrimento do sintoma psíquico que cada sujeito deve suportar pela própria natureza da manutenção da sobrevivência enredada nessa teia social contemporânea.

Nesse sentido, entendemos que temos famílias singulares movimentadas, inevitavelmente, por fios de transferências com efeitos nas subjetividades dos sujeitos que as constituem. Afinal:

O território familiar torna-se resultado das experiências de seus membros em relação. Território em que são construídas realidades, formas e maneiras de se organizar e de

se colocar no mundo, que permitem a emergência de sujeitos, crenças e sintomas – o sistema terapêutico passa a ser um sistema autopoiético. O que significa afirmar que, no encontro com a família, […] pode construir e ser construído pela família, situando- se como co-construtor de realidades outras, nas quais o sintoma, se possível, não esteja presente (ROMAGNOLI, 2004, p. 44).

Desse modo, parafraseando Romagnoli (2004), a família é o lugar onde se realiza o movimento no qual a história psíquica de cada sujeito se inscreve e a subjetividade se apresenta em pulsão, energia pulsante responsável pelo funcionamento do humano. Pois:

A psicanálise freudiana declara que a pulsão é excitação interna que se expressa como manifestação psíquica. Manifestação ambígua que se inscreve no psiquismo em duas dimensões, possuindo tanto registro qualitativo quanto quantitativo: movimento de representação e de afeto, respectivamente. Inscrição qualitativa que se articula no campo das representações e dos objetos, ligados à estrutura inconsciente: circuito pulsional que ordena a excitação e regula as instâncias psíquicas. Inscrição quantitativa do afeto, da força como energia bruta que visa sempre à descarga: impetuosidade pura, irredutível a qualquer significado, correspondendo àquilo que excede, que sobra – pulsão de morte (ROMAGNOLI, 2004, p. 46).

A escola, com seus Outros adultos, interpretando Romagnoli (2004), ao escolher trabalhar com o estudante adolescente e estabelecer vínculos necessários com os familiares desses sujeitos, não pode perder a oportunidade e a capacidade de produzir territórios existenciais e de fazer a vida respirar, de gerar atmosferas. A ambiência, o inexorável da vida é a invenção, jeitos de a vida passar, e feitios de ser passando. A instituição educativa não precisa ocultar, menosprezar ou desqualificar o território existencial da família do estudante, mas se aproximar dele, para juntos construírem alguma novidade ou variações de possibilidades para o laço com o adolescente, e assim ter abertura para a organização de novos processos inventivos, escolhendo a via dos “encontros que enriqueçam os modos de subjetivação, as maneiras de existir, de estar no mundo, de fabricar o mundo, reinventando dispositivos de produção de subjetividades em todas as dimensões da vida humana” (ROMAGNOLI, 2004, p. 57).

Afinal, favorecer o laço entre escola e família em favor da organização subjetiva do adolescente passa por experimentarmos, subscrevendo Freud (1921/2011), relações de amorosidade, ou ainda expressarmos laços de sentimento. Representa, também, “a essência da alma coletiva. […] Evidentemente a massa se mantém unida graças a algum poder. Mas a que poder deveríamos atribuir este feito senão a Eros, que mantém unido tudo o que há no mundo?” (FREUD, 1921/2011, p. 34). As lutas da escola, no campo da aproximação humana, não são muito diferentes da peleja da humanidade, que, conforme Freud (1930/2010), estabelece-se na incessante batalha em torno da tarefa de encontrar um equilíbrio coerente que ofereça felicidade, entre as demandas individuais do sujeito e aquelas do grupo social; “é um dos

problemas que concernem seu próprio destino, a questão de se este equilíbrio é alcançável mediante uma determinada configuração cultural ou se o conflito é insolúvel” (FREUD, 1930/2010, p. 41).

Nessa peleja, a escola deve lembrar que o atributo mais acentuado dos ajuntamentos, ou grupos, dos adolescentes destes tempos modernos “é o fato de se constituírem em torno de um laço fraterno, claramente socializante, seja para lutar contra o tédio cotidiano, seja para expressar um determinado ideário, sendo frequentemente vinculados a determinados modelos culturais” (COUTINHO, 2009, p. 128).

Para tanto, faz-se necessário que o Outro adulto do universo escolar compreenda que, se prevalecer nos tempos e espaços escolares a interpretação do desejo desse adulto em detrimento da compreensão das demandas e necessidades da organização da subjetividade do adolescente, mais frágil e distante se tornará a possibilidade de fortalecimento e criação do laço. Por outro lado, nessa complexidade humana, “a transgressão adolescente presenteia os adultos com uma imagem que justamente eles querem reprimir. O erro dos adolescentes (erro em relação à sua própria estratégia) é pensar que para os adultos possa ser agradável encontrar uma encenação de seu próprio recalque” (CALLIGARIS, 2013, p. 41).

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