6 Empirical Results
6.2 Relationship between CARs and firm characteristics
Para manter suas tradições, os bolivianos fazem festas típicas, principalmente festas religiosas mostrando como é grande a devoção desses imigrantes à Virgem Maria. No calendário festivo, sengundo Silva (1997), as festas marianas apresentam grande notoriedade no mês de agosto, como a festa em devoção à Virgem de Urkupinã (padroeira de Cochabamba), realizada no sábado ou domingo mais próximo do dia 15 de agosto, dia da Virgem, e também como a festa da Virgem de Copacabana (padroeira nacional).
Segundo Silva (2006), esta festa vem ganhando destaque dentro da igreja católica desde 1994, ano em que missionários bolivianos trouxeram uma imagem da Virgem de Copacabana que foi introduzida solenemente na Igreja Nossa Senhora da Paz, sede da Pastoral do Imigrante Latino-Americano, e desde então as festas ganham relevância dentro e fora da comunidade boliviana.
Além das festas religiosas, todo domingo é realizada uma feira cultural na Praça Kantuta, no bairro do Pari. Nessa feira, as barracas vendem comidas e bebidas típicas da Bolívia (como a salteña e o suco de pera), roupas, cartões telefônicos, cds e dvds bolivianos e até mesmo realização de cortes de cabelo como podemos notar na figura 13:
Figura 13 - Feira Cultural na Praça Kantuta, no Pari.
A praça foi batizada pelos próprios bolivianos com o nome de uma flor típica do altiplano andino que apresenta as cores da bandeira da Bolívia: verde, vermelho e amarelo. Em 2004, a prefeitura paulistana oficializou o nome para Praça Kantuta. Ela chega a receber duas mil pessoas por final de semana, dentre as quais 90% são bolivianos, segundo o site Bolívia Cultural.
Figura 14 – Flor Kantuta, do Altiplano Andino.
Fonte: Bolívia Cultura, 2013.
O dia das mães e o dia das crianças também são datas muito comemoradas pelos bolivianos. Nessas comemorações as ruas do Brás, (como a Rua Coimbra e a Rua Bresser) ficam tomadas por barraquinhas e quase não se tem espaço para andar. A rua torna-se o local de reencontro com a cultura nacional, lugar onde existem os elementos veiculadores de identidades, caso dos alimentos e das danças (SILVA, 2006).
Existem também as festas que acontecem nas casas dos migrantes, as festas privadas, que ocorrem somente entre a família e os amigos, como a comemoração do primeiro corte de cabelo,
do batizado, finados, fim do luto, etc., mostrando como as festas, mesmo as mais íntimas, estão inseridas na cultura boliviana.
Silva (1997) expõe a importância das festividades no processo de identificação própria:
Com efeito, são nos momentos específicos, como as celebrações [...] que os sentimentos de pertença a uma origem comum são explicitados e até exacerbados, dando-se uma sobre-ênfase a aspectos da tradição cultural e itens da cultura material (SILVA, 1997, p. 179).
É através das festas religiosas, ou seja, a partir da recriação de práticas culturais num contexto interétnico que os bolivianos irão se descobrir como grupo. Portanto, estas festas religiosas, estão trazendo à metrópole uma nova dinâmica ao lidar com o outro migrante.
Stuart Hall (2006), diz que as culturas nacionais, além de serem compostas pelas instituições culturais, apresentam também seus símbolos e representações. Num contexto de imigração, quem parte leva consigo suas crenças, suas danças, suas comidas, suas roupas, suas tradições, ou seja, leva seus traços culturais.
Os jogos de futebol também são eventos bastante agregadores e definem a inserção da comunidade no espaço da cidade. Segundo a prefeitura, existem mais de 800 times bolivianos de futebol organizados em cerca de 30 ligas, que realizam jogos semanais em diversas quadras municipais e Centros Desportivos Municipais espalhados pelos bairros da Móoca, Penha Brás, São Mateus, entre outros (CYMBALISTA; XAVIER, 2007).
Figura 15 – Bolivianos esperando para jogar futebol na quadra do Parque da Mooca.
Fonte: Losco, 2013. Os imigrantes bolivianos que vivem na cidade de São Paulo recriam sua cultura nacional através das festas e das feiras culturais e do futebol que se espalham cada vez mais pelas ruas dos bairros centrais paulistanos.
Silva (2006), diz que neste novo contexto, de um novo país, não é possível reproduzir todo o complexo de sua cultura, devido a isso, os imigrantes selecionam alguns traços da sua cultura e os reproduzem no novo espaço de vida.
Para muitos imigrantes as festas são uma oportunidade de ressocialização na própria cultura que lhes eram familiares no país de origem, e que no país de destino ficaram de certa forma “adormecidas” (SILVA, 2006, p.187).
Desta maneira, as festas realizadas por eles passam a ser um espaço privilegiado, no qual este complexo cultural é recriado com novos significados, no qual se torna local de encontro com o grupo étnico (SILVA, 2006).
Segundo Bueno (2008), a festa supõe o acolhimento do ‘outro’, dentro de uma expansividade coletiva. A função primordial da festa é criar e estabelecer relações, o que vem de encontro com a tendência de suprimir os vínculos sociais da modernidade. “As festas são ocasiões para as pessoas se reunirem e delas saírem fortalecidas. Nelas se instala o clima da descontração, despreocupação. A festa tem a leveza e nela se conecta com o ‘outro’” (BUENO, 2008, p. 51 e 52).
Para esses migrantes, as festas se tornam uma chance de voltar a se sentir bolivianos, encontrar suas raízes e seus valores, assim como nos relata uma boliviana em um trecho de sua entrevista que será mostrada no decorrer do trabalho, que já está há 27 anos em São Paulo, diz o seguinte: “Se você sair do Brasil e for para outro país, se ouvir uma música brasileira, você vai se sentir bem. Isso ajuda muito”.
No entanto, as festividades bolivianas interferem na territorialidade da cidade e somente a tolerância não é capaz de resolver os conflitos étnicos e o preconceito, já que estes imigrantes são frequentemente relacionados ao trabalho escravo, à pobreza e à falta de cultura.
Tolerância é uma palavra densa e estratificada, que surge para traçar uma fronteira para a barbárie, a guerra, o ultraje, o escárnio. Desde sempre oposta ao fanatismo, ao ódio sistemático, à militarização das ideias e das consciências, favoreceu a evolução do espírito e as relações humanas pacíficas. Apesar disso, com excessiva frequência a tolerância foi identificada com os significados de suportar, de concessão, compreensão, indulgência, moderação, conciliação. O termo tolerância nunca alcançou (talvez não pudesse) o sentido de pleno reconhecimento da alteridade e da diversidade. Limitou-se a expressar uma genérica “coexistência pacífica” que não contempla a titularidade dos direitos, a origem dos poderes, a reciprocidade das obrigações, ficando, antes, muito aquém disso (MALDONATO, 2004, p.53).
Como Maldonato expõe, a “coexistência pacífica”, a tolerânica, não irá permitir que se reconheça o outro enquanto ser. É necessário parar de ver só o lado ruim e enxergar a riqueza das festas, o brilho inserido em cada movimento das danças típicas bolivianas, os sabores, os valores e as tradições. E desta maneira, a imigração boliviana será inserida no cotidiano da metrópole, assim como as imigrações italianas, japonezas e libanesas.