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Long-term performance of repurchasing firms

6 Empirical Results

6.3 Long-term performance of repurchasing firms

[...] as identidades nacionais não são coisas com as quais nascemos, mas são formadas e transformadas no interior da representação (Stuart Hall, 2006, p. 48).

A partir de novas relações, outras culturas, costumes, cores, cheiros e sabores, novas identidades vão sendo criadas no território, o qual para Milton Santos (2001) é o local no qual todas ações, paixões, poderes, força e fraquezas ocorrem, manifestando desta maneira a existência da história do homem na Terra:

[...] não é apenas o conjunto dos sistemas naturais e de sistemas de coisas superpostas; o território tem que ser entendido como o território usado, não o território em si. O território usado é o chão mais a identidade. A identidade é o sentimento de pertencer àquilo que nos pertence. O território é o fundamento do trabalho; o lugar da residência, das trocas materiais e espirituais e do exercício da vida (SANTOS, 2001, p.14).

Com a presença dos bolivianos, oriundos de uma imigração relativamente recente, o cotidiano da metrópole se transforma, modificando-se a forma de ocupação dos territórios. Podemos dizer que novas territorialidades se constróem (BAENINGER; OJIMA, 2008) com a presença de imigrantes no país de destino. Segundo Saquet (2001), a territorialização deriva da

apropriação social de um fragmento do espaço a partir das relações sociais, das regras e normas, das condições naturais, [...] das redes e das conflitualidades que envolvem as diferenças e desigualdades bem como identidades e regionalismos, historicamente determinados (SAQUET, 2001, p. 22).

A inserção de grupos de imigrantes no dia-a-dia da sociedade de destino, formam espaços segregados na cidade, os quais podem ser denominados por guetos, áreas de segregação e enclaves residenciais (FREITAS, 2011). Tendo em vista a comunidade boliviana e sua grande concentração no bairro do Brás, em São Paulo, tem-se a possibilidade de inferir o aparecimento de um enclave étnico e em consequência uma nova forma de se ocupar o território, ou seja, uma nova territorialidade. Assim, “é pela existência de uma cultura que se cria um território, e é pelo território que se fortalece e se exprime a relação simbólica existente entre a cultura e o espaço” (BONNEMAISON, 1981, p. 251 apud Rosendahl, 2007, p.187).

Como visto anteriormente neste mesmo trabalho, o Brás não é mais o bairro da comunidade italiana, ou dos migrantes nordestinos. O bairro tornou-se o reduto dos bolivianos,

sendo sua imagem e aspecto se também foram alteradas, como podemos ver na imagem a seguir, um exemplo de como a presença andina se faz atual na localidade.

Figura 16 – Placa de Restaurante Boliviano no Bairro do Brás.

Fonte: Losco, 2013.

Para o desenvolvimento desta pesquisa, apresentou-se de extrema importância o depoimento da comunidade boliviana à respeito de sua presença em um novo território. Assim, foram entrevistas com 6 bolivianos que residem nas redondezas do bairro do Brás. O número de entrevistados se mostra diminuto devido à grande desconfiança e ao medo de se revelar imigrante. As entrevistas foram semiestruturadas e se basearam nas seguintes questões:

- Quando chegou em São Paulo? - De onde veio?

- Veio com mais pessoas? - Por que veio para São Paulo?

- Veio para trabalhar em quê? - Tem família aqui?

- Estranhou a cidade quando chegou? - Como é sua relação com os brasileiros? - Gosta do bairro em que mora?

- É o mesmo em que trabalha?

- Por quê os bolivianos vão pra esse bairro?

- A presença dos bolivianos está mudando o bairro?

- Você participa das festas bolivianas que são realizadas aqui em São Paulo? - Essas festas são importantes para a adaptação dos bolivianos recém chegados? - O que espera para o futuro?

A seguir, a reprodução de alguns trechos das entrevistas que foram modificadas para o português:

“Eu tenho 54 anos. Já faz 10 anos que estou no Brasil. Vim de La Paz, com mais duas mulheres da família. Eu vim porque meu filho (que está documentado) já estava aqui. Vim para ajudar meu ex-marido no restaurante. Aqui a gente vende comida típica boliviana. Às vezes aparecem alguns brasileiros para comer aqui, principalmente para comer peixe. Quando cheguei em São Paulo, achei a cidade bem diferente, a língua era muito difícil. Normalmente, quando as famílias se mudam para São Paulo, primeiro vem os homens e depois as mulheres. Às vezes me dou até melhor com brasileiros do que com os bolivianos. Os bolivianos vem pra cá, ganham um pouco mais e já se acham melhor do que os outros. Moro aqui no Brás, mas não gosto muito, porque tem muitos bêbados. Muitos bolivianos moram em outros bairros, mas vem para o Brás para se encontrar. De vez em quando eu participo das festas, mas nem na Bolívia eu gostava muito. A maior festa que acontece é dia 5 de agosto, no dia da Bolívia. Um dia eu quero voltar

para a Bolívia, lá tem minha família, eles estão cuidando de outro negócio lá” (Maria, trabalha como caixa em um restaurante no bairro Brás).

“Tenho 27 anos, só faz 3 anos que cheguei em São Paulo. De segunda a sexta eu trabalho numa loja de roupas. O dono é um coreano, brasileiros também trabalham lá, me dou bem com eles. Mas o que eu ganho lá é só para minha alimentação, daí, nos finais de semana trabalho para um outro boliviano, que já está à mais tempos aqui, vendendo grãos na barraquinha. Eu moro e trabalho aqui no Brás. Os bolivianos vem aqui pra comprar coisas do seu país, é o lugar que eles vão se encontrar. Eu não gosto das festas, não tenho tempo de ir, trabalho muito” (Maya, trabalha em barraquinha de comidas típicas bolivianas no Brás).

“Ah, já faz 45 anos que estou aqui. Vim pra trabalhar e me divertir. Tem muitos bolivianos aqui no Brás. Para quem gosta dessas festas, elas são importantes, só para quem gosta. Eu não tenho muito tempo para conversar. Tenta conversar com outro boliviano” (Javier, trabalha em uma loja de aviamento no Brás).

“No Brás tem muitos bolivianos, mas também tem paraguaios, peruanos e equatorianos. Se encontram todos aqui no Brás. Pode conversar com eles também” (Eduardo, dono de uma barraquinha de produtos típicos bolivianos no Brás).

“Eu tenho 52 anos. Faz 27 anos que estou no Brasil. Vim recém-casada com meu marido. Vim porque na Bolívia o que eu ganhava só dava para comer. Se eu quisesse ganhar mais dinheiro teria que sair de lá. Quando eu vim achei tudo muito diferente, o idioma era muito difícil. No começo ficava olhando o lábio das pessoas pra tentar entender o que eles estavam falando. A alimentação foi o mais diferente, o feijão de vocês é a nossa batata. Lá a gente come arroz com batata, macarrão com batata, aqui é arroz com feijão. Na época que eu vim era muito difícil encontrar outros bolivianos. Tive 2 filhas em São Paulo, hoje uma está até fazendo faculdade. Quando eu cheguei fui morar em Santo André, depois me mudei pra São Miguel, mas lá era muito perigoso. Minhas filhas me pediam pra não ir mais na escola de lá. Nos mudamos para o Brás e ficamos mais perto do nosso trabalho. Compramos uma casa lá, que agora está em reforma, enquanto isso estamos morando na Mooca. Minhas filhas encontram preconceito na escola, mas elas tentam mudar isso, gostam de mostrar a cultura boliviana para os amigps brasileiros. Elas falam que se os brasileiros conhecerem nossa cultura eles não iam ter

preconceito. Muitos brasileiros só veem o lado ruim, veem os bolivianos na Rua Coímbra jogados no chão de manhã. Na novela agora mostrou um pouco dos bolivianos, mas juntou com os peruanos e só mostrou coisa ruim. Agora eu tenho uma confecção, mas eu não contrato meus patrícios, prefiro contratar os brasileiros, pois se contrato os patrícios tenho que dar casa e comida. Se chamo os brasileiros, eles trazem a marmita e vão embora as 17:00 horas. Nas escolas lá na Bolívia aprendemos trabalhos manuais, bordados, artesanato. Quando a gente sai da Bolívia a gente já sabe costurar. Só que como muitos não têm documento, eles são obrigados a morar nessas condições, mas pelo menos não estão embaixo da ponte, pelo menos tem uma casa. Agora muitos equatorianos estão vindo pra cá também, mas ainda tem mais bolivianos. Para os que estão vindo agora é mais fácil, porque já tem bastante bolivianos aqui. Sempre vou nas festas, gosto muito. A principal festa é do dia 6 de agosto no Memorial da América Latina, lá é que é a festa, tem os desfiles. Quando eles estão dançando, todo movimento, quando eles balançam a mão, tudo, tudo tem significado. As festas e as feiras de domingo ajudam os que estão chegando agora. Se você for pra outro lugar e ouvir uma música brasileira, você vai se sentir bem. Isso ajuda muito. Eu volto pra Bolívia todo ano, mas quando chego lá, quero voltar pro Brasil, já estou acostumada aqui” (Marta, dona de confecção).

“Vim pra São Paulo em 2007, vim pelo Paraguai no porta-malas de um carro. Vi trabalhar com meu tio, que tinha uma oficina de costura aqui. Quando eu cheguei eu morava na oficina, no Brás. Em 2010 fui pra Bolívia e trouxe minha mulher. Agora tenho minha oficina e trabalho com brasileiros e bolivianos. Tenho 2 filhos que nasceram aqui no Brasil, a gente foi na Polícia Federal tirar a documentação. Agora tem um prédio do consulado boliviano junto com a Polícia Federal na Bresser com a Coímbra. Os bolivianos precisam ir lá pra pegar o atestado de antecedentes criminais para poder trabalhar legalizados no Brasil, só que demora 2 meses pro documento chegar. Sempre tem fila lá. Agora eu estou morando na Mooca, é mais tranquilo. No Brás só tem vagabundo que tira o dinheiro dos bolivianos. Às vezes vou jogar bola no Alcântara Machado, mas a maioria vai no Parque da Mooca. Antigamente eu ia nas festas, mas agora não dá por causa das crianças pequenas, eles ficam muito assustados com a diablada. A diablada imita o carnaval de Oruro, tem esse nome por causa do diablo com asas que fica assustando as pessoas. É bom ter essas festas aqui também, a gente se sente mais em casa. Não quero voltar, meu filho é brasileiro, quero criar ele aqui” (Juan, dono de confecção).

Algumas considerações podem ser reveladas a partir dos depoimentos oferecidos pelos bolivianos através da entrevista semiestruturada.

Percebe-se uma grande diferença na reação à entrevista dos bolivianos que apresentam melhores condições financeiras e dos bolivianos que ainda estão na luta por uma vida melhor. Mostrando que os bolivianos com menor renda demonstram maior receio em dar um depoimento, provavelmente devido à falta de documentação e ao medo de serem mandados de volta à Bolívia.

A identidade do país de origem não é deixada para trás no país de destino, como pode ser visto durante as narrativas. Segundo Castells (1999), a identidade é o

processo de construção de significado com base em um atributo cultual, ou ainda um conjunto de atributos culturais inter-relacionados, o(s) qual(is) prevalece(m) sobre outras fontes de significado (CASTELLS, 1999, p.22).

Sendo assim, a identidade pode ser vista como a fonte de significado e experiência de um povo (CASTELLS, 1999) e é recriada no lugar de destino. As festas típicas bolivianas realizadas em São Paulo são exemplos de como as práticas sociais são reconstruídas na nova sociedade.

Nas falas, as festas aparecem como amplo fator acolhedor dos imigrantes recém chegados, sendo que a maior delas é a festa que ocorre no dia 6 de agosto no Memorial da América Latina, juntando a comemoração à Virgem de Copacabana e o Dia da Bolívia, na qual ocorre a Diablada.

Figura 17 – Diablada no Memorial da América Latina.

Fonte: Losco, 2013. É através dessa reconstrução das práticas sociais e culturais que a comunidade boliviana consegue se reconhecer como grupo numa metrópole como São Paulo. Os bolivianos recriam novos espaços de sociabilidade:

A grande cidade de nossos dias é um inconstante mosaico de espaços de sociabilidade. A coexistência de tempos, agentes e procesos os mais díspares confere à vida metropolitana grande diversidade e riqueza de possibilidades. Possibilidades de realização do lucro, de formas de sobrevivência material imediata, de festa, não obstante a existência de normas e limites de uso e apropriação do território urbano. Cada um desses momentos de realização da reprodução social dos homens simples da metrópole contém suas formas específicas de sociabilidade (MASCARENHAS, 2009, p.102).

Como Mascarenhas (2009) afirma, a coexistência na metrópole transforma o território e novos espaços de vida são criados. As ruas da cidade ganham novas relações sociais a partir das festas e das feiras típicas.