Cabe inicialmente fazer as seguintes perguntas: o que Foucault entende por Política? Qual o significado para o filósofo do Collége de France sobre Política? O que ele resgata deste
conceito, e qual a transformação que Foucault faz a respeito deste termo? Será se o “resgate” que Foucault faz deste termo subjaz a partir de uma concepção dedutiva? Antes de mais nada, usando o recurso bibliográfico, o artigo intitulado Um silencio de Foucault sobre o que é a
Política (2013) de Diogo Sardinha, o autor nos revela que Foucault não tenta definir a Política ao modo de uma “brutal” dedução no que diz respeito a filosofia clássica de Aristóteles a Hegel, por exemplo, no sentido da definição do conceito, isto é, da unidade múltipla do conceito, logo a última pergunta que nós lançamos neste parágrafo vai de encontro com o pensamento de Foucault. À segunda pergunta usamos Sardinha (2013, p. 98) para entendermos esta concepção de Foucault sob a noção de Política, de tal forma que possa ajudar-nos neste item. Eis, então, que nos últimos comentários do professor Foucault ele nos diz sobre a Política em um outro Curso, que é justamente o Curso de 1978-79, o Nascimento da biopolítica do qual Foucault resume o quadro teórico a possível “definição” de como pode ser articulado o termo Política. Para isso, posso deixar nas palavras do próprio professor dos Sistemas de Pensamento do
Collège de France tal perspectiva, eis a citação:
Et ce sont tous ces différents arts de gouverner, ces différents types de manière de calculer, de rationaliser, de régler l’art de gouverner qui, en se chevauchant les autres, vont faire, en gros, l’objet du débat politique depuis le XIXᵉ siècle. Qu’est-ce que c’est que la politique, finalement, sinon à la fois le jeu de ces différents arts de gouverner avec leurs différents index et le débat que ces différents arts de gouverner suscitent? C’est là, me semble-t-il, que naît la politique. Bon, eh bien voilà. Merci22
(FOUCAULT, 2004b, pp. 316-317).
Esta citação de Foucault não podemos tomar ao “pé da letra” e interpretá-lo de tal modo que a Política se resume nesta definição. Podemos dizer que o filósofo francês toma como investigação esta ideia de Política a partir do século XIX com o intuito de problematizar o jogo de verdade que existe na Política (SARDINHA, op. cit.). Quer dizer, o jogo de entrada e de saída da verdade, o jogo de entrada e saída do cálculo em que a tecnologia de racionalização usa para o controle dos corpos, para o controle da vida, para o controle dos vários poderes que se instalam no século XIX a partir desta nova arte de governar, por isso, a política ao modo de Foucault subjaz à maneira de uma resistência à governamentalidade (SARDINHA, p. 98).
22“E são todas essas diferentes artes de governar, esses diferentes tipos de modos de calcular, de racionalizar, de
ajustar a arte de governar que, na medida em que se sobrepõe entre si, constituirão, de modo geral, o objeto do debate político desde o século XIX. O que é a política, afinal, senão ao mesmo tempo o jogo dessas diferentes artes de governar com seus diferentes índices, e o debate que estas diferentes artes de governar suscitam? Parece- me ser aí que nasce a política. Bom, é isso aí. Obrigado” (FOUCAULT, 2004, p. 316-17 apud SARDINHA, Um
Dentro desse quadro reflexivo, gostaríamos de mostrar outro compasso de como Foucault entende à natureza Política, pois bem, nós nos apoiaremos na pesquisa de Diogo Sardinha para que possamos compreender nesta pesquisa a diversidade do pensamento filosófico de Foucault no que diz respeito à Política. Com efeito, Sardinha (2013, loc. cit.) diz que a definição anterior é possivelmente controversa, pois o editor Michel Senellart nos manuscritos de Foucault “encontrou” no Curso que antecede o Nascimento da biopolítica de 1979 intitulado Segurança, território e população de 1977-78 na medida em que Foucault ousou evitar dizer que a governamentalidade implica que tudo é política, que tudo, pois, se resume na política; e, continua Foucault, que tudo tem a possibilidade de nada ser resolvido em política, de outra maneira, nada é política, porém, diz o filósofo: pode de certa forma ser politizável (FOUCAULT apud SARDINHA, loc. cit.). Quer dizer, isto mostra, portanto, que existe a possibilidade de tornar-se política; isto é, “a política não é outra coisa senão – ela não é nada menos do que – o que nasce com a resistência à governamentalidade, a primeira sublevação, o primeiro enfretamento” (FOUCAULT apud SARDINHA, loc. cit.). Daí, vai ocorrer diversas interpretações a respeito desta “controversa” de Foucault, principalmente por Michel Senellart, porém, a nossa interpretação implica dizer que é impossível pensar que existe um SÓ Foucault. A filosofia de Foucault é transvertida. Ela não está em um só lugar, ela também é movimento no sentido de que ao mesmo tempo nos localizamos um conceito em um determinado lugar, tal conceito pode ser também percebido em outros lugares. O que isso quer dizer? Quer dizer que Foucault não tentará pensar um tipo de filosofia que se resume em uma mera definição. Isto implica que a política também tem que está em consonância com esta noção de transversalidade. Nesse sentido, que Diogo Sardinha (2013) nos diz que se trata do silencio
de Foucault sobre a definição de política.
O artesanato interpretativo a respeito do que Foucault pensa sobre o conceito de política, seria melhor falarmos no sentido de que existe o indizível da política; parafraseando uma ideia de Daniel Lins sobre “como dizer o indizível da cultura” (1997). Então, é importante mencionarmos como dizer o indizível da noção de política em Foucault? A nossa interpretação quer mostrar que, convém supor que existe a possibilidade de dizer ou transmitir algo da ideia de política em que não podemos dizer completamente tudo sobre a política. A saber, o indizível
da politica converge nesta pesquisa na medida em que os vários “jogos de verdades” que se pode ter da ideia de política, pois, o sentido filosófico que corresponde ao método dedutivo no que tange a política não é satisfatório para Foucault, porque ele, o filósofo, trabalha com a noção de particularidade, isto mostra muito bem a interrupção de Foucault em executar uma história
no sentido universal. Neste sentido, também é importante pensar a política a partir de sua localidade, de sua particularidade, de sua territorialidade e desterritorialidade no sentido deleuziano23 do termo. Então, Foucault elabora o Curso Nascimento da biopolítica tendo como
pano de fundo pensar, articular, problematizar, reescrever a política do século XVIII e XIX do interesse incessante pela vida; no entanto, este Curso de 1978-79 dar margem para entender a maneira de ser trabalhada a governamentalidade no século de Foucault. Mas, tais questões, vai ser objeto de controversa; que esta pesquisa vai trabalhar com mais detalhes sobre o racismo de estado no campo do biopoder e da biopolitica. Portanto, como entender o “jogo de verdades” da política em Foucault? Na verdade, podemos dizer que é uma investigação em aberto.
Sob esse aspecto, é de fundamental importância descrevermos um trecho do diálogo entre Michel Foucault e Noam Chomsky em 1971 que ocorreu em uma emissora de televisão holandesa tendo como mediador Fons Elders, pois bem, o debate foi intitulado Natureza
Humana: Justiça vs. Poder no qual mostra a noção de que Foucault logo no início da década de 70 entende a respeito de política. Vejamos os trechos do debate, principalmente a intervenção do mediador:
Pergunta de Elders:
A) Bem, vamos passar agora para a segunda parte da discussão, para a política. Antes de mais nada, gostaria de perguntar ao sr. Foucault por que ele se interessa tanto pela política, porque ele me disse que, na verdade, gosta muito mais da política do que da filosofia? (CHOMSKY, N; FOUCAULT, M. 2015, p. 46).
Resposta de Foucault:
B) Em todo caso, eu nunca me preocupei com a filosofia. Mas isso não é um problema. [Ele ri]. Sua pergunta é: por que tenho tanto interesse pela política? Porém, se eu fosse dar uma resposta bem simples, eu diria o seguinte: por que eu não deveria me interessar? Em outras palavras, que cegueira, que surdez, que densidade ideológica teria de me prostrar para impedir que eu me interessasse por aquilo que é provavelmente o tema mais crucial da nossa existência, em outras palavras, a sociedade em que vivemos, as relações econômicas em cujo interior ela funciona e o sistema de poder que define as formas e as permissões e proibições regulares de nossa conduta. Afinal de contas, a essência da nossa vida consiste no funcionamento político da sociedade na qual nos encontramos. Assim, não posso responder à pergunta: por que eu deveria me interessar pela política? Só poderia respondê-la com outra pergunta: por que não? (CHOMSKY, N; FOUCAULT, M, loc. cit.).
Pergunta de Elders:
C) Você está obrigado a se interessar, não é isso? (CHOMSKY, N; FOUCAULT, M, loc. Cit.).
23 Gilles Deleuze filósofo francês e amigo de Michel Foucault que escreveu a obra O que é a filosofia (2010) junto
Resposta de Foucault:
D) Sim, pelo menos não existe nada de estranho aqui que valha a pena perguntar ou responder. O que constitui um problema é o desinteresse pela política. Portanto, em vez de dirigir a pergunta a mim, o senhor deveria pergunta a alguém que não esteja interessado pela política, e, então, sua pergunta seria bem fundamentada e o senhor teria o direito de dizer: ‘nossa, por que diabos você não está interessado?’ [Eles riem e o público também.] (Ibid; p. 47).
Então, finalizamos este item com a seguinte pergunta: o que é política para Foucault?