Pois bem, é importante que esta aproximação vai desembocar no conceito de biopoder e biopolítica. Gostaríamos de não fazermos no momento a diferença entre biopoder e
biopolitica, sequer exista realmente tal diferença, mas sim compreender como que, a aproximação que Michel Foucault faz da biologia e da política, principalmente a partir da segunda metade do século XVIII, uma vez que na interpretação de Foucault esta nova
governamentalidade vai instaurar-se em uma nova perspectiva de pensar a cultura ocidental no que se refere a política, a biologia, a economia etc., e, neste sentido, vai ser um modo de problematização filosófica – isto é – um modo de pensar a ontologia do presente da filosofia, quando, pois, Michel Foucault se volta para entender os mecanismos da importância da vida através do interesse político. De um poder que se volta para o controle intenso da vida da população. Onde a vida é de fundamental importância para o campo do biopoder, pois ela é um sinal de gerenciamento em vista da produção econômica.
Sob este aspecto, a filosofia seria um modo de pensar e de criticar como à vida foi importante para essa nova técnica de pensamento político, onde o biológico deve ser um campo de investigação e de busca para compor o tecido forte da sociedade econômica. Neste caso, tal aproximação quer mostrar nesta pesquisa que estes três conceitos devem ser analisados de acordo com Foucault a partir de uma analítica do poder, de modo que a biologia vai ser a disciplina que vai garantir o bom funcionamento dos corpos, que vai também deslocar os corpos improdutivos para fora do campo do biopoder que tal pesquisa descreverá com mais detalhes a partir do segundo capítulo desta dissertação. Com efeito, a política abrirá um novo horizonte de análise, pois ela vai garantir as disciplinas do poder através de suas instituições como as escolas, os hospitais, as fábricas etc. Ora, a filosofia entra como uma espécie de encontro e desencontro para o complexo de problematizações na qual é justamente isso que a nossa pesquisa toma como parte essencial desta investigação, pois a filosofia foucaultiana tem como
eixo principal denunciar a sociedade de normalização de modo que possamos entender a ideia de biopoder e biopolítica analisando, portanto, este triângulo conceitual da noção de biologia, política e filosofia de tal modo que possamos compreender como Foucault inova em sua filosofia a partir de um novo modelo de crítica. Que ele foi, e “retrocedeu” ao século XVIII e XIX para entender seu presente, isto é, o século XX, e que deixou um legado para nosso século XXI. Sob este aspecto, pensamos que tais críticas, feita pelo filósofo francês vai ser melhor trabalhado no quarto capítulo desta dissertação na medida em que envolve os pontos críticos sobre o governo econômico de populações de que são os contornos desta nova
governamentalidade neoliberal, sabendo que a partir do segundo capítulo, e precisamente no
terceiro capítulo desta dissertação pretendemos articular as configurações de um governo
liberal – o melhor – de uma biopolítica liberal para que depois possamos articular no capítulos
quarto as construções e os monumentos de uma biopolítica neoliberal relacionando-o com o
nosso presente, de sorte que Foucault já havia feito à “pressagia” na segunda metade década de 60 do século XX na obra As palavras e as coisas a respeito do “falecimento” deste homem clássico, que nada mais é que a “morte” do homo oeconomicos I. Decerto, Foucault fará a “descoberta” do homo oeconomicus II a partir de uma nova governamentalidade do que este homem virá a tornar-se – a saber – o homem do capital econômico neoliberal, quer dizer, um operador de seus próprios recursos.
Antes de mais nada, vale ressaltar que Foucault faz a junção entre dois conceitos: o de política e o de bio24 (vida), na qual desembocará no conceito de biopolítica, e bio e poder no
conceito de biopoder e até mesmo no conceito de bioeconomia. Claro, à maneira como o filósofo francês aborda as problematizações biológicas e filosóficas vão na contramão das ideias clássicas do sentido da história biológica, do sentido da história clássica da filosofia, da história da economia, da história da política. Enfim, executa um trabalho eminentemente genealógico sobre campo biológico, sobre o campo filosófico, sobre o campo político, enganja de tal maneira estes conceitos e formula estratégias ao ponto de sempre questionar sua própria postura crítica, antes de tudo, Foucault é um grande apreciador da noção de possibilidades; entretanto, este conceito de possibilidade estar longe de ser o ponto chave na crítica foucaultiana, mas, apenas, um método usado pelo filósofo. Portanto, é em referência a estas definições que gostaríamos de pensar as objetivações foucaultianas a partir de outro filósofo contemporâneo
24 “O termo bios désignait plutôt << l avie et le vivre comme espace-temps qui se siue entre la naissance et la mort,
et la façon dont on se comporte pendant cet espace-temps >>, c’est-à-dire une forme de vie spécifiquement humaine, à la fois sociale, politique et singulièrement vécue, proprement” (BORDUAS, Le Gouvernement de l
avie dans les sociétés libérales: une lelecture critique de la perspective biopolitique chez Michel Foucault, Nikolas Rose et Giorgio Agamben, 2013, p. 2).
que é justamente o italiano Giorgio Agamben, uma vez que este filósofo soma a noção interpretativa desta pesquisa em Michel Foucault. Ora, Agamben mostra muito bem como ocorreu a relação da biologia com a ideia de política de sorte que o filósofo italiano traz para o centro filosófico tais questões em que abre o discurso no campo do biopoder. Então, vejamos como escreve o crítico de Foucault que vai fechar o item deste primeiro capítulo da seguinte maneira:
Segundo Foucault, o ‘limiar de modernidade biológica’, de uma sociedade, situa-se no ponto em que a espécie e o indivíduo enquanto simples corpo vivente tornam-se a aposta que está em jogo nas suas estratégias políticas. A partir de 1977, os cursos no
Collège de Francecomeçam a focalizar a passagem do ‘Estado territorial’ ao ‘Estado de população’ e o consequente aumento vertiginoso da importância da vida biológica e da saúde da nação como problema do poder soberano, que se transforma então progressivamente em ‘governo dos homens’ ‘(FOUCAULT, 1994, v. III, p. 719)’. ‘Resulta daí uma espécie de animalização do homem posta em prática através das mais sofisticadas técnicas políticas. Surgem então na história seja o difundir-se das possibilidades das ciências humanas e sociais, seja a simultânea possibilidade de proteger a vida e de autorizar seu holocausto’. Em particular, o desenvolvimento e o triunfo do capitalismo não teria sido possível, nesta perspectiva, sem o controle disciplinar efetuado pelo novo biopoder, que criou para si, por assim dizer, através de uma série de tecnologias apropriadas, os ‘corpos dóceis’ de que se necessitava (AGAMBEN, 2010, p. 11).