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Chapter 3: Theory and related literature

3.2 Related literature

As observações anteriores permitem perceber que a atividade de design tem ampla ligação com o futuro (BONSIEPE, 1997). “Exige constante observação à frente”, daí a necessidade de se considerar os aspectos sociais, culturais e econômicos de quando o produto for realmente utilizado, sendo necessário ao projetista prever os impactos das mudanças nos projetos (BACK, 1983). Neste sentido há uma ampla gama de possibilidade de atuação do projetista.

Considerando os níveis de interferência do design, segundo Manzini e Vezzoli (2002), o foco principal de atuação do design ainda é o redesign de produtos, com melhoria em termos de gastos energéticos e seleção de materiais. Há, ainda, um amplo campo para a atuação do projetista nos níveis cada vez mais complexos. Para isso, no entanto, segundo Alcantara (2003), há a dependência de informações, descobertas tecnológicas adequadas e de vontade de mudança estrutural.

Embora reconheçam as amplas responsabilidades e possibilidades da atuação do projetista na construção de um futuro sustentável, Manzini e Vezzoli (2002) lembram que há limitações consideráveis para essa atuação: o projetista pode oferecer soluções, contribuir

para o aumento do número de alternativas, mas não tem a legitimidade e os instrumentos que obriguem ou convençam a mudança de comportamento. O projetista tem que atuar em relação às demandas dos sistemas econômicos e sociais existentes. As possibilidades de reorientação dos sistemas de produção e consumo através da atividade projetual depende da existência de uma demanda [explícita ou latente] por valores positivos de qualidade ambiental na sociedade, cabendo ao projetista identificá-las e utilizá-las na criação de novos produtos e serviços. Vários outros atores, empresas, consumidores e instituições públicas têm responsabilidade para que as mudanças necessárias realmente se efetuem.

Entre as dificuldades que a prática do design ecológico tem encontrado citam-se a falta de motivação, quando os benefícios não são facilmente observáveis ou fogem ao ambiente das empresas em que os produtos são projetados, e a dificuldade na obtenção de dados precisos e de modelos adequados para a análise dos impactos. Além disso, é difícil avaliar e comparar diferentes classes de requerimentos e escalas de tempo dos elementos que compõem o sistema produto (KEOLEIAN & MENEREY, 1993). Outro problema é que a redução de impactos totais pode eventualmente aumentar os impactos locais, conflitando com os interesses locais.

Segundo Pinatti (1999), muitas vezes a dificuldade de aplicação do ecodesign está na falta de normas e legislação que regulamentem sua implementação, em restrições de clientes e do mercado.

Conforme Fiksel (1996), as empresas pioneiras no desenvolvimento de produtos com considerações ambientais têm encontrado as seguintes dificuldades: os conhecimentos necessários sobre as questões não são comuns em profissionais das atividades projetuais; a própria complexidade dos fenômenos ambientais dificulta a análise; dificuldade de entendimento e controle dos sistemas econômicos em que os produtos são produzidos, usados, reciclados e dispostos.

2.4.7 - Projeto do ciclo de vida do produto

Em qualquer nível de interferência que o projetista atue, é fundamental que considere o ciclo de vida total dos produtos. Se não for assim, as tentativas de elaboração de projetos com consideração ambiental podem apenas deslocar o impacto ambiental do produto para outra fase de sua vida, com risco, inclusive, de piorar o problema.

As fases do ciclo de vida de um produto consistem em pré-produção, produção, distribuição, uso e descarte. Considerar o ciclo de vida de um produto no projeto é considerar as entradas e saídas [inputs e outputs - fluxos de matéria, energia e emissões (box 1)] em todas essas fases, analisando suas conseqüências sobre o meio ambiente, sistemas econômico e social (MANZINI & VEZZOLI, 2002). Nessa abordagem, todas as atividades ocorridas nas fases do ciclo de vida de um produto são consideradas uma só unidade, implicando em projeto de um sistema-produto. Este é o meio mais lógico de reduzir o impacto ambiental total (KEOLEIAN e MENEREY, 1993).

As Figuras 10 e 11 mostram as fases do ciclo de um produto e as entradas e saídas envolvidas.

Box 1: Entradas e saídas envolvidos no ciclo de vida de um produto

Entradas [inputs]: energia e matérias-primas.

Saídas [outputs]: emissões atmosféricas, efluentes, resíduos sólidos, ruídos, calor, vibração, odor.

Figura 10: Fases do ciclo de vida do produto utilizando como exemplo o automóvel FFonte: Ramos (2001), p. 85

Figura 11: Entradas e Saídas do ciclo de vida do produto Fonte: Ramos (2001), p. 97

A atividade projetual que segue as considerações mencionadas denomina-se projeto do ciclo de vida do produto [Life Cycle Design_LCD]. Seu objetivo é reduzir a carga ambiental, em termos de entradas e saídas, em todo o ciclo de vida do produto, ou seja, do sistema- produto, através de uma visão sistêmica. Integra estratégias de prevenção da poluição e de conservação de recursos no desenvolvimento de sistemas-produto de forma sustentável econômica e ambientalmente. A visão sobre todo o ciclo evita que a poluição seja transferida de uma fase para outra. Seu objetivo primário é reduzir os impactos totais e o risco para a saúde causado pelo desenvolvimento do produto e seu uso, o que só pode ser alcançado em interconexão com outros ciclos de vida (KEOLEIAN & MENEREY, 1993). O projeto do ciclo de vida busca: conservação de recursos, prevenção da poluição, eqüidade no uso de

recursos ambientais, preservar a diversidade e sustentabilidade dos ecossistemas, manter a viabilidade a longo prazo dos sistemas econômicos (KEOLEIAN & MENEREY, 1993). A Figura 12 mostra como se opera a ligação entre essas metas.

Figura 12: Inter-relações entre as metas do projeto do ciclo de vida. Fonte: Keoleian e Menerey, 1993, p. 18.

A análise do ciclo de vida (ACV) é uma ferramenta fundamental para o projeto do ciclo de vida do produto. A série ISO 14000, através da norma ISO 14040 - Normas de princípios gerais e procedimentos, estabelece os elementos que devem conter uma análise de ciclo de vida: definição do objetivo e do escopo do trabalho, análise do inventário, avaliação de impacto e interpretação dos resultados (CHECHEBE, 1998). A adoção da análise do ciclo de vida, segundo o estipulado nessa norma, é facilitada, em termos de mercado, pelo seu reconhecimento e aceitação mundial.

Essa ferramenta pode ser utilizada com variados objetivos: aprimorar o desempenho de produtos e serviços, em apoio às reivindicações de rótulos ambientais, na identificação de

Conservação de recursos Viabilidade dos sistemas econômicos Prevenção da poluição Sustentabilidade dos ecossistemas Equidade ambiental

impactos ambientais associados a produtos, processos e serviços e na avaliação de projetos (PRATES, 1998); auxiliar na tomada de decisão e estabelecimento de prioridades durante o projeto do produto e processos; avaliar a seleção de componentes feitos de diferentes materiais, na avaliação da performance ambiental, por exemplo para o desenvolvimento de indicadores ambientais associados aos produtos (CHECHEBE, 1998). Esta ferramenta pode ser usada tanto para melhorar as interfaces com o meio ambiente de produtos, processos e serviços existentes [redesign], como em subsídio aos projetos fundamentalmente sustentáveis, em direção aos outros níveis de atuação mencionados por Manzini e Vezzoli (2002). Permite levantar as conseqüências do design de produtos sobre o meio ambiente, a economia e a sociedade (EPA, 199452 apud RAMOS, 2001) e identificar as fases em que esses impactos são mais significativos, orientando a seleção da estratégia a ser adotada no projeto.

Contudo, Manzini e Vezzoli (2002) lembram que o projeto do ciclo de vida é bem mais avançado em termos de definição dos conceitos a serem seguidos do que nas aplicações práticas. A limitação da ACV como ferramenta para o projeto também contribui para dificultar sua aplicação. Entre essas limitações estão o tempo elevado que geralmente é necessário para uma avaliação mais consistente, tempo este incompatível com as necessidades de mercado e também a subjetividade dos critérios utilizados na avaliação e priorização dos impactos.

Sobre o tempo, Prates (1998) sugere a utilização de uma matriz denominada Matriz de Análise do Ciclo de Vida, que tem como objetivo realizar uma ACV rapidamente, gastando “um dia para um produto e uma semana para uma fábrica.”

PRATES (1998) descreve o processo da seguinte forma:

Devem ser explicitamente tratados todos os estágios do ciclo de vida do produto em análise: Estágio 1: Escolha de Materiais;

52EPA - U.S. Environmental Protection Agency. Design for the Environment: Product Life Cycle Design Guidance Manual. Maryland : Government Institutes Inc., 1994.

Estágio 2: Manufatura;

Estágio 3: Embalagem e Transporte; Estágio 4: Uso pelo consumidor; Estágio 5: Descarte.

O sistema tem como característica central uma matriz 5 x 5 [Figura 13], em que numa dimensão coloca-se o estágio do ciclo de vida e no outro o interesse ambiental.

Interesse Ambiental Estágios do Ciclo de Vida Escolha de Material Uso de Energia Resíduo Sólido Resíduo Líquido Resíduo Gasoso Pre- manufatura (1,1) (1,2) (1,3) (1,4) (1,5) Manufatura do Produto (2,1) (2,2) (2,3) (2,4) (2,5) Embalagem e Transporte (3,1) (3,2) (3,3) (3,4) (3,5) Uso do Produto (4,1) (4,2) (4,3) (4,4) (4,5) Descarte, Reciclagem (5,1) (5,2) (5,3) (5,4) (5,5)

Figura 13: Matriz de avaliação de ciclo de vida de produto Fonte: Prates (1998)

Cada estágio é analisado e classificado com a atribuição de um índice variando de 0 [mais alto impacto] a 4 [menor impacto]. Uma vez realizada a avaliação para cada elemento da matrizes, é computada a soma dos valores dos elementos da matriz.

Para o uso na avaliação de projetos que apresentam a matriz como ferramenta para o projeto para o meio ambiente [DFE], segundo Prates (1998), depois de realizada a análise, são consultados alguns check-lists pré-definidos, com o fim de verificar onde o projeto deve ser modificado, buscando-se atingir a qualidade desejada.

Outro sistema, descrito por Ramos (2001) e Fiksel (1996), é a matriz MET [Materiais, Energia e Tóxicos], proposta pelo Programa Ambiental das Nações Unidas e que, segundo Ramos (2001), permite uma avaliação mais qualitativa. Nesta matriz, os aspectos ambientais são agrupados em três áreas principais: materiais [entradas e saídas], energia [entradas e saídas], e emissões tóxicas [saídas]. O ciclo de vida do produto é dividido em cinco fases: extração e produção de materiais, fabricação, distribuição, utilização e fim da vida do produto. Conforme Ramos (2001), com esse sistema os principais impactos ambientais são identificados rapidamente, facilitando a geração ou seleção de alternativas de projeto.