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4 Analyse

4.3 Relasjonshåndtering og sosiale mekanismer ved offshoring

Consideramos de fundamental importância a contribui- ção das diversas correntes lingüísticas, dentre elas a funcionalis- ta, para o tratamento, no ensino fundamental e médio, da relação entre gramática e discurso, ao se lidar com textos, tanto na pers- pectiva de análise quanto na de produção. Temos por objetivo oferecer uma alternativa de abordagem que explore e trabalhe a gramática e surpreenda sua emergência em textos produzidos em

+ concreto - concreto

Espaço > Tempo > Texto

item lexical (verbo pleno) item gramatical (verbo auxiliar) item gramatical (operador argumentativo)

situação real de comunicação para que o ensino de língua materna ganhe mais sentido e interesse para os estudantes.

Nossa intenção é contribuir para a formação de professo- res de português, propondo uma orientação didática e pedagógica que leve em conta o uso real da língua. A idéia que nos norteia é vincular tendências de variação e mudança com um ensino que envolva o que está de fato ocorrendo na comunicação cotidiana. Não visamos diretamente a aplicação pedagógica, masbuscamos revelar um quadro de variação e mudança lingüística que pode e deve subsidiar a prática de ensino de português. Nessa linha, nossos trabalhos podem trazer contribuições que auxiliem a via- bilizar um ensino de língua materna menos autoritário, que con- temple a variabilidade lingüística, a criatividade do usuário da língua e a mutabilidade relativa da fala.

Assim, uma vez apresentada a análise do processo de gramaticalização de ir, vamos agora fazer algumas refl exões sobre o ensino de língua portuguesa, especifi camente no que se refere ao tópico tempo futuro. Não temos a intenção de es- gotar o assunto, mas sim de tecer algumas considerações para facilitar o tratamento desse tópico em sala de aula a partir de pressupostos teóricos funcionalistas.

Os PCN (Parâmetros Curriculares Nacionais) de Língua Portuguesa são um documento ofi cial que contêm novas pro- postas para um redimensionamento do ensino do idioma ma- terno com vistas a atender a uma nova demanda, permitindo ao estudante sair da passividade consubstanciada pela atitude prescritiva do ensino de língua, materializada em memorizações e repetições de regras, o que, de certa forma, contribuía e ain- da contribui para o fracasso escolar, culminando em evasões e reprovações massivas.

Existem pontos convergentes entre a proposta contida nos PCN e o funcionalismo lingüístico. Alguns desses pontos são per- ceptíveis nos objetivos gerais de Língua Portuguesa que o documento propõe para o ensino fundamental, dos quais destacamos dois:

• utilizar a linguagem na escuta e produção de textos orais e na leitura e produção de textos escritos de modo a atender

a múltiplas demandas sociais, responder a diferentes propósitos comunicativos e expressivos, e considerar as diferentes condições de produção do discurso;

• usar os conhecimentos adquiridos por meio da prática de análise lingüística para expandir sua capacidade de monitoração das possibilidades de uso da linguagem, ampliando a capacidade de análise crítica.

Esses objetivos revelam que a proposta defende que, na escola, haja primazia do estudo da linguagem enquanto atividade discursiva, em diferentes condições de realização, tanto na ora- lidade quanto na escrita, e a atualização dos conhecimentos lin- güísticos através de atividades práticas, ou seja, o emprego da gramática no uso efetivo da língua. Tais procedimentos vão ao encontro dos pressupostos teóricos funcionalistas, que defendem a análise das estruturas lingüísticas levando-se em consideração os contextos de uso real dessas estruturas.

Os PCN procuram levar o estudante a uma participação social mais efetiva e, para isso, propõem como condição ne- cessária o domínio da linguagem enquanto atividade discursiva e cognitiva e o domínio da língua enquanto sistema simbólico, possibilitando ao estudante uma atitude refl exiva e conseqüente participação no mundo letrado.

É fato reconhecido pelos PCN e também entre os funcio- nalistas que a modalidade oral exerce uma grande infl uência nos textos escritos, principalmente na fase inicial da escolarização, devido àquela modalidade permitir uma maior liberdade quanto ao emprego de estruturas morfossintáticas e outros mecanismos próprios da linguagem oral. Isso resulta, por parte dos pesquisa- dores, em uma atenção especial a essa forma de representação da linguagem através de pesquisas que permitem uma maior com- parabilidade entre textos escritos e orais e que podem, portanto, trazer subsídios aos professores de língua portuguesa.

É considerável, em diversas áreas da lingüística, o núme- ro de trabalhos que vêm sendo desenvolvidos sobre a linguagem oral em relação à escrita. Isso se deve à percepção de que não devemos dissociar essas duas instâncias comunicativas, dan-

do somente primazia à escrita, como ainda o faz a escola. Na tentativa de apenas repassar o que está prescrito nas gramáti- cas normativas, o ensino tradicional acaba considerando como erros alguns fenômenos típicos da linguagem oral. Com esse procedimento, desconsidera-se que a língua está num contínuo processo de evolução e acaba-se taxando de “defi ciente” aque- le aluno que não consegue “aprender” o que está estabelecido nas gramáticas normativas.

Apesar de a proposta pedagógica contida nos PCN con- templar um novo horizonte no processo de ensino/aprendizagem de língua materna, os livros didáticos, em sua maioria, perpetuam uma visão conservadora da linguagem, que considera a aquisição da chamada norma culta como o fi m único do estudo da língua portuguesa levado a cabo nas escolas. Contudo, a língua possui um caráter dinâmico, que não é regido apenas por uma única nor- ma gramatical, como parece pressupor o ensino tradicional. Faz- -se necessário, então, levar em conta também estruturas lingüísti- cas emergentes, pois novos usos surgem para dar conta de neces- sidades comunicativas e cognitivas do falante, como é o caso do emprego do verbo ir na indicação de futuro.

Os novos usos de uma forma passam a integrar a gramáti- ca da língua e merecem um tratamento escolar. Segunda a teoria funcionalista, a variação lingüística é um estágio natural da traje- tória de regularização gramatical das formas lingüísticas. Levan- do em conta esse aspecto, o ensino gramatical deixaria de ser cen- trado exclusivamente na variedade padrão, que prioriza apenas um subconjunto de fatos, em detrimento das demais variantes. Ao contrário, é preciso expor o aluno a um conhecimento mais diver- sifi cado da realidade lingüística brasileira, ajustando o ensino de português a essa realidade. Cabe à escola desenvolver atividades que, contemplando a variação lingüística observada em textos reais, levem o aluno a perceber a adequação de determinados usos em determinadas situações, ou seja, a língua em uso.

A trajetória que sugerimos para o ensino de português é partir do uso ou conhecimento lingüístico que o aluno já domi- na – a conversação – para atingir o chamado uso culto ou dialeto

siderando, porém, que nenhum dos usos lingüísticos é melhor do que outro; possuem, apenas, fi nalidades distintas. A fala produzi- da em situações de interação pode servir como ponto de partida para uma consideração sobre os mecanismos produtivos de co- difi cação de sentido, já que a conversação é o uso básico da lín- gua, cujo status especial justifi ca tratá-la como a origem de todos os outros usos (CHAFE, 1994).

A linguagem é um instrumento de comunicação social pela qual o indivíduo exterioriza o pensamento como também mantém a intercomunicação, de forma ativa, com vistas a pro- duzir no outro algum efeito de sentido dentro de um contexto social, cultural e histórico numa situação específi ca de produção. Propomos quea língua viva, com suas variações, seja objeto de refl exão nas salas de aula. O professor, mais do que ensinar gra- mática, que os alunos já têm internalizada e que põem em uso quando engajados em atividades comunicativas, deve levá-los a refl etir sobre ela, fl agrando sua face instável, emergente, moldada pelo uso lingüístico cotidiano. Fiéis à nossa visão funcionalista de gramática emergente, cabe questionar a postura do professor de língua materna que tende a refrear todo movimento de mu- dança, tradicionalmente rotulado como corrupção da linguagem. Em muitos casos, esse profi ssional concebe a gramática como um organismo auto-sufi ciente, imposto pela escola em sua forma es- tática e consagrada pelos clássicos.

Em contraste, quando se trabalha com a gramática sob a perspectiva da interação e do funcionamento textual-discursivo, é possível integrar os diferentes aspectos que constituem o ensi- no/aprendizagem da língua materna. Nesse sentido, a abordagem funcional à natureza emergente da gramática pode ser uma fer- ramenta efi caz. Além de ser condicionada por fatores cognitivos inatos, a gramática é, sobretudo, uma conseqüência da interação dos usuários da língua, de que resultam padrões que se manifes- tam e se estabelecem no uso real. Nesse contexto, vale abrir espa- ço parta uma discussão sobre a natureza da linguagem em geral, e da gramática e do discurso em particular.

Mais especifi camente no caso do ensino do tempo futuro, o professor deve considerar, com seus alunos, os diversos recur- sos disponíveis em português para a codifi cação dessa categoria verbal, pois são parte da gramática da língua portuguesa. Entre eles, podem-se destacar a forma sintética (comerei), a locução perisfrástica com ir no presente do indicativo (vou comer), a lo- cução com ir no futuro do indicativo (irei comer), a locução com

ir no presente do indicativo mais estar mais verbo principal no

gerúndio (vou estar comendo) e o uso de advérbio que marca tem- po futuro com verbo no presente do indicativo (amanhã como), por exemplo. Nessa linha, é pertinente que o professor estabeleça uma diferença entre as formas verbais de tempo futuro e a cate-

goria verbal dêitica de futuro, ressaltando que a instabilidade se

dá com as formas de futuro, não com a categoria de futuro. Ao explorar as diferentes formas de realização do futuro, o professor pode focalizar como cada uma dessas estratégias de codifi cação exprime essa noção temporal e se há diferenças de sentido entre os tipos de recurso. Por exemplo, vimos que a perífrase com ir no presente do indicativo acumula outros valores (modal, aspectual, afetivo) além do puramente temporal, enquanto a forma sintética é neutra com relação a esses efeitos de sentido.

O professor pode, também, levar os alunos a relacionar cada forma de futuro com diferentes gêneros de textos orais e escritos: alguns recursos podem predominar em gêneros mais for- mais, outros em gêneros menos formais. No caso em questão, enquanto a forma sintética (comerei), eleita como a variedade padrão, é empregada em contextos mais formais, especialmente na escrita, a forma analítica concorrente (vou comer) é utilizada com maior freqüência na modalidade oral, independentemente da faixa etária e do grau de escolaridade do falante, como de- monstramos em nossa análise. Desse modo, o professor chama a atenção para a adequação das formas às situações de uso, levando os alunos a refl etir sobre os recursos que podem ser usados nos mesmos co-textos e contextos. Para exercitar e avaliar a apren- dizagem desse tópico gramatical, os alunos podem levantar as formas de futuro presentes em textos escritos de diferentes graus

de formalidade, comparando o efeito de sentido que a ocorrên- cia dessas formas acarreta em cada texto. Podem, ainda, produzir textos representativos de gêneros distintos, utilizando diferentes recursos de expressão do futuro, atentos para o contexto de uso de cada recurso. Procedimentos como esses estimulam o ensino de português através de uma refl exão sobre a língua como atividade, não apenas como estrutura.

Sugerimos, portanto, como forma de minimizar os proble- mas concernentes ao ensino de Língua Portuguesa, que o profes- sor se sensibilize para as difi culdades enfrentadas pelos estudan- tes ao se abordar em sala de aula modelos de representação da lin- guagem que não respondem às reais necessidades comunicativas de seus usuários, numa atitude prescritiva que abomina qualquer manifestação que venha transgredir os modelos clássicos consa- grados pela gramática normativa. Como alternativa mais efi caz, deve-se instrumentalizar o indivíduo não para ser um depositá- rio e reproduzir as informações que recebe, mas para que possa desenvolver sua competência comunicativa tanto na modalidade oral quanto na escrita, a fi m de que, de posse desses instrumentos, possa utilizá-los de forma coerente e efi caz tendo em vista a sua participação efetiva na sociedade.