5.2 Resultatdiskusjon
5.2.2 Relasjonens betydning for sykepleien
O período da Segunda Guerra Mundial desloca o eixo da filosofia francesa de um bergsonismo hegemônico para o existencialismo. Sob a influência da leitura antropológica de Hegel realizada por Alexandre Kojève e dos ventos existenciais germânicos vindos de Martin Heidegger e Karl Jaspers, a filosofia francesa, face-a-face com as cinzas e o luto da guerra, vê seu foco dirigir-se para o drama humano, dividindo-se entre uma interpretação mais próxima do ateísmo, cuja figura mais emblemática é Jean-Paul Sartre (1905-1980), e outro do cristianismo, fundamentalmente a partir dos trabalhos de Gabriel Marcel (1889-1973)212. Nas figuras do absurdo ou da transcendência, do nada ou do outro, a questão existencial ganha o palco principal. Apesar das menções a Hegel e Heidegger, a rigor é Kierkegaard, traduzido ao mesmo tempo que Hegel, a figura principal desse cenário. A irredutibilidade da "existência" ao "sistema" é reiteradamente pontuada. A condição humana, início da história propriamente dita, não se confunde com a filosofia da natureza. Derrida assim narra o cenário:
Assim definido, o humanismo ou o antropologismo eram nessa época uma espécie de solo comum dos existencialismos, cristãos ou ateus, da filosofia, espiritualista ou não, dos valores, dos personalismos de direita ou de esquerda, do marxismo de estilo clássico. E se procurarmos pontos de referência no terreno das ideologias políticas, o antropologismo era o lugar comum, inapercebido e incontestado, do marxismo, do discurso social-democrata ou democrata-cristão213.
Nada, no entanto, de formalismo abstrato, nem de humanismo de boas intenções ou pietismo oco. Assim como o neohegelianismo de Kojève e Bataille, a ligação entre as
212 HYPPOLITE, Jean. Du bergsonisme a l'existencialisme. F1, pp. 444-445, 448-449. 213
DERRIDA, Jacques. Os fins do homem. In: Margens da filosofia, pp. 155-156. No original: Ainsi défini, l'humanisme ou l'anthropologisme était à cette époque une sorte de sol commun des existencialismes, chrétiens ou athées, da la philosophie, spiritualiste ou non, des valeurs, des personnalismes de droite ou de gauche, du marxisme de style classique. Et si l'on prende ses repères sur le terrain des idéologies politiques, l'anthropologisme était le lieu commun, inaperçu et incontesté, du marxisme, du discours social-démocrate ou démocrate-chrétien" (DERRIDA, Jacques. Les fins de l’homme (MP), p. 138).
diversas correntes da fenomenologia e do existencialismo (ou das "filosofias da existência", como as nomeia Jean Wahl) é sua relação com o concreto. Contrariando a longa tradição platônica e abstrata na filosofia, o existencialismo seria uma resposta kierkegaardiana que, centrada na existência humana, oporia a todas as tentativas de totalização típicas do pensamento filosófico a existência como transbordamento do conceito. Aquilo que romperia com o hegelianismo (modelo da totalização) seria a irredutibilidade da existência humana a qualquer tentativa de sistematização (transcendência). Logo, se de um lado as filosofias da existência seguem a "Fenomenologia do Espírito" (inspiração, segundo Jean Wahl, de Sartre e Merleau-Ponty nas suas buscas do "concreto") por outro elas, seguindo nesse tópico Kierkegaard, oporiam uma fronteira ao pensamento absoluto, à totalidade, situando-a exatamente na linha que separa o humano da natureza214.
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Derrida começa com Husserl, nada menos que o "fundador" da fenomenologia. Particularmente, depois da Dissertação de Mestrado de 1954 (publicada somente em 1990), é com um estudo minucioso e bastante cuidadoso em torno de A Origem da Geometria que será muito bem acolhido pelo meio filosófico francês, especialmente por Hyppolite e Althusser, então responsáveis pela direção da ENS. No entanto, apesar dessa relação íntima com a fenomenologia (acrescente-se obviamente Heidegger ao "pacote") o diálogo com a corrente especificamente francesa (com exceção de Levinas) foi mínimo. De fato, o biógrafo Benoît Peeters, por exemplo, registra com certa perplexidade que Derrida se encontrou apenas uma vez com Maurice Merleau-Ponty (1908-1961). Nas primeiras obras, há raras e esparsas menções a Merleau-Ponty215, a despeito de se tratar de uma recepção fundamental do
214 Por isso não é difícil entender porque Jean Wahl coloca Kant como um dos precursores do existencialismo (WAHL, Jean. Philosophies of Existence: an introduction to the basic thought of Kierkegaard, Heidegger, Jaspers, Marcel, Sartre. Traduzido por F. M. Lory. London: Routledge & Kegan Paul, 1969, pp. 3-11). Ver ainda: MOUNIER, Emmanuel. Introduction aux existencialismes. Paris: Éditions Denoël, 1947, p. 9, que traça a genealogia dos existencialismos na sua famosa árvore (Sócrates, estóicos, Santo Agostinho, São Bernardo, Pascal, Kierkegaard etc.); WALDENFELS, Bernhard. De Husserl a Derrida: introducción à la fenomenologia, pp. 63-84.
215 Na "Introdução à 'Origem da Geometria'", Merleau-Ponty é mencionado apenas uma vez, com uma longa passagem de discussão na qual Derrida defende Husserl contra sua interpretação: DERRIDA, Jacques. Introduction (OG), pp. 116-119. Nas páginas 127-128, Derrida parece fazer uma menção implícita à "fenomenologia da percepção", mostrando como Husserl não descarta o sentido científico, condenando-a a um "empirismo irresponsável". Em Force et signification, há menção casual e desta vez convergente com Merleau-
pensamento de Husserl (não apenas em solo francês) e de tantas afinidades temáticas (p.ex., o corpo, a crítica ao dualismo, a temporalidade, o invisível). Aliás, no seu último período Merleau-Ponty já havia dado início a uma reconstrução da ontologia, nas pegadas husserlianas, transpondo a exclusividade existencialista da esfera da subjetividade humana e abrindo caminho para as ciências empíricas, inclusive o estruturalismo216.
Quanto ao existencialismo cristão, praticamente nenhuma menção a Gabriel Marcel (que foi influência durante a adolescência, inclusive)217, principal filósofo dessa corrente. Finalmente, apesar de apoiado por Jean Wahl (1888-1979) na publicação das suas obras, pouquíssimas vezes o menciona explicitamente218. A razão desse afastamento, marcado por uma leitura "nova" dos alemães219, talvez esteja na demarcação de posição em relação ao filósofo que foi o protagonista da filosofia francesa no período pós-guerra: Jean-Paul Sartre220.
Ponty (DERRIDA, Jacques. Force et signification (ED), p. 22). Françoise Dastur, aluno de Derrida na Sorbonne, refere a inexistência de menções a Merleau-Ponty nessa época (PEETERS, Benoît. Derrida, p. 153 e 168). 216 BARING, Edward. The Young Derrida and French Philosophy, pp. 125-126. Curiosamente, é justamente contra a aproximação de Merleau-Ponty entre fenomenologia e estruturalismo, revisando certos postulados husserlianos, que Derrida se manifesta (DERRIDA, Jacques. Introduction (OG), pp. 116-120). Em geral, o nome de Merleau-Ponty sempre aparece ao lado de Sartre nas entrevistas com Derrida; ou seja, Derrida nunca dissociou Merleau-Ponty do existencialismo, desconsiderando seus últimos trabalhos mais próximos da ontologia (WALDENFELS, Bernhard. De Husserl a Derrida: introducción à la fenomenologia, pp. 72-74). 217 Ver: BARING, Edward. The Young Derrida and French Philosophy, pp. 57-59 e 61-67. Segundo Baring, podemos ler todo problema do "mistério" do Problema da Gênese na Filosofia de Husserl como herança de Marcel, embora não citado. Mais tarde, o tema desaparecerá a podemos interpretar seu desaparecimento - até sua recusa, em alguns momentos - como um gesto afirmativo, isto é, como uma mudança de posição. Ver ainda, DERRIDA apud CHÉRIF, Mustapha. Islam and the West: a conversation with Jacques Derrida, p. 36; DERRIDA, Jacques. Paixões, pp. 43-44.
218 Sobre Wahl e Derrida, ver BAUGH, Bruce. French Hegel, pp. 34-37 e 41. Ademais, fora da esfera tipicamente humanista da "existência", Wahl também explorou outros motivos anti-hegelianos: WAHL, François. Vers le concret: études d'histoire de la philosophie contemporaine. Paris: Librairie Philosophique J. Vrin, 1932, pp. 1-26.
219
Mais uma vez, com exceção de Levinas: Derrida declara, inclusive, que Descobrindo a existência em Husserl e Heidegger foi obra fundamental na compreensão da fenomenologia (DERRIDA, Jacques. Sobre la fenomenología. In: Palabra!, p. 66). Na Introdução à Origem da Geometria, Levinas é mencionado no entanto apenas uma vez (DERRIDA, Jacques. Introduction, p. 149, nota 1). Considerando a desconstrução como "fenomenologia do outro", ver WALDENFELS, Bernhard. De Husserl a Derrida: introducción à la fenomenologia. Trad. W. Wegscheider. Barcelona: Paidós, 1997, pp.147-149.
220 Baring mostra como a própria aproximação de Derrida com a filosofia cristã francesa já era uma manobra de contraposição à filosofia sartreana que mais tarde ganhou outros fôlegos teóricos (BARING, Edward. The Young Derrida and French Philosophy, p. 2, p. 7, 48-81), embora por vezes o próprio rótulo "cristão", passível de ser aplicado aos filósofos estudados por Derrida como contraponto a Sartre (Marcel, le Senne, Weil etc.), pode ser duvidado na interpretação que Baring faz dos escritos juvenis de Derrida. Assim, p.ex, se tomarmos Mounier como resposta cristã ao existencialismo de Sartre, podemos ver que a direção que Derrida segue é na direção do aprofundamento das questões sartrianas para questionar inclusive o humano, e não inverso (MOUNIER, Emmanuel. Introduction aux existencialisme, pp. 7-8, 13-14). Na biografia de Peeters, a recepção de Sartre é descrita como entusiasmada (PEETERS, Benoît. Derrida, pp. 61-62). Ver ainda, aproximando Derrida e Sartre, BAUGH, Bruce. French Hegel, p. 95 e 140-144 e o que o próprio afirma sobre o tema: DERRIDA, Jacques. "Ele corria morto: salve, salve - notas de uma correspondência para Temps Modernes. In: Papel Máquina, pp. 153-194; idem, Sobre la fenomenología. In: Palabra!, pp. 61-63.
Considerando que a fenomenologia francesa do pós-guerra à época estava majoritariamente associada a Sartre, era necessário a Derrida realizar sua recepção particular dos trabalhos de Husserl e Heidegger cortando decisivamente o nó existencialista da interpretação sartreana dos filósofos alemães221. Ele não deixa dúvidas quanto a isso quando,
ao desenhar o cenário da interpretação deturpada das obras dos "três H", imediatamente invoca Sartre como a figura central:
Depois da guerra, sob a designação de existencialismo, cristão ou ateu, e conjugadamente com um personalismo fundamental. Cristão, o pensamento que dominava na França apresentava-se como essencialmente humanista. Mesmo que não se quisesse resumir o pensamento sartriano no slogan "o existencialismo é um humanismo", torna-se necessário reconhecer que, em L 'être et le néant, L 'esquisse d'une théorie des émotions etc, o conceito maior, o tema de última instância, o horizonte e a origem. irredutíveis, é aquilo a que então se chama a "realidade humana". Trata-se aí, como se sabe, de uma tradução do Dasein heideggeriano. Tradução monstruosa em múltiplos aspectos, mas, por isso, tanto mais significativa. Que essa tradução proposta por Corbin tenha então sido adotada, que tenha reinado através da autoridade de Sartre, eis o que dá muito que pensar quanto à leitura ou à não-leitura de Heidegger nessa época e quanto ao interesse que havia então em lê-lo ou em não o ler dessa forma.222.
Do início da sua obra até as polêmicas em torno do livro de Victor Farias, passando inclusive pelo debate com Emmanuel Levinas, desde sempre a leitura adequada desses filósofos, sem a distorção corriqueira, pareceu fundamental a Derrida. Ele começa sua trajetória em um longo prefácio à Origem da Geometria a fim de enfrentar o problema das idealidades matemáticas (uma questão "científica"), distanciando-se dos existencialistas e, pela via reflexa, marcando a aliança que se inicia com Althusser, que na época noticiava o
221 Derrida afirma expressamente esse ponto em entrevista: "Dans l'intervalle, j'ai beaucoup plus travaillé sur Husserl. Le souci que je partageais avec pas mal de gens à l'époque, c'était celui de substituer à une phénoménologie à la française (Merleau-Ponty, Sartre), peu soucieuse de scientificité et d'épistémologie" (Entretien. In: JANICAUD, Dominique. Heidegger en France, p. 93). Ver ainda, PEETERS, Benoît. Derrida, p. 100. Sobre o existencialismo e sua relação com Heidegger, ver WAHL, Jean. Philosophies of Existence, pp. 12- 19; JANICAUD, Dominique. Heidegger en France, vol. I, pp. 55-79.
222 DERRIDA, Jacques. Os fins do homem, p. 153. No original: "Après la guerre, sous le nom d'existencialisme, chrétien ou athée, et conjointe avec un personnalisme fondamentalmente chrétien, la pensée qui dominait en France se donnait pour essentiellement humaniste. Même si l'on ne voulait pas résumer la pensée sartrienne sous le slogan 'l'existencialisme est un humanisme', on doit reconnaître que, dans L'être et le néant, L'esquisse d'une théorie des émotions, etc., le concept majeur, le thème de dernière instance, l'horizon et l'origine irréductibles, c'est ce qu'on appelle alors la 'réalité-humaine'. Il s'agit là, comme on sait, d'une traduction du Dasein heideggerien. Traduction monstrueuse à tant d'égards, mais d'autant plus significative. Que cette traduction proposée par Corbin ait alors été adoptée, qu'elle ait régné à travers l'autorité de Sartre, cela donne beaucoup à penser quant à la lecture ou à la non-lecture de Heidegger à cette époque, et quant à l'intéret qu'ily avait alors à le lire ou à ne pas le lire de la sorte" (Les fins de l’homme (MP), pp. 135-136).
claro abandono da perspectiva existencialista para retornar ao Husserl mais "científico"223, inspirado no trabalho de Jean Cavaillès, começando pelo grupo formado por Raymond Aron, Georges Canguilhem seguidos de Jean-François Lyotard, Jean-Toussaint Desant e Tran Duc Thao. A recepção de Althusser em carta pessoal (agora pública) não apenas marca a importância da leitura diferenciada de Derrida em torno de Edmund Husserl, como inclusive encoraja-o a seguir desenvolvendo a ideia de escritura, o que ocorrerá de fato nos anos seguintes224. Na realidade, na própria introdução, em uma discreta nota de rodapé, Derrida menciona a imprecisão da interpretação sartreana da obra de Husserl, confirmando explicitamente esse afastamento:
É começando por tematizar diretamente a imaginação como um vivido original na situação, sob a proteção da imaginação como instrumento operatório de toda eidética, é descrevendo livremente as condições fenomenológicas da ficção, portanto do método fenomenológico, que a lacuna sartreana se desequilibra profundamente, depois subvertendo a paisagem da fenomenologia husserliana e abandonando seu horizonte225.
Se na querela do humanismo (e da história) entre Sartre e Lévi-Strauss o pensamento francês parece ter sido separado em dois campos, sem dúvida alguma Derrida pertence ao segundo, iniciando seus escritos já no período em que o pensamento de Sartre perdia seu prestígio para o estruturalismo nascente226. Somente mais tarde, em algumas entrevistas, Derrida irá se manifestar sobre Sartre, sempre de uma forma dividida entre a admiração por
223
A aproximação com Althusser também pode explicar a distância de Merleau-Ponty que, segundo o próprio Derrida, era o "inimigo obsessivo" do primeiro por ter como horizonte uma possibilidade "não-formal" da gênese - BÓRQUEZ, Zeto & RODRÍGUES, Marcelo. Althusser y Derrida. Estrategia e implicaciones concepturales. Revista Pensamento Político, p. 200, disponível em <www.pensamientopolítico.udp.cl>. Acesso em 10.08.2013.
224 BARING, Edward. The Young Derrida and French Philosophy, pp. 41-42, 102-111, 115-136; PEETERS, Benoît. Derrida, p. 159. O interesse "epistemológico" predomina em relação ao "existencial" desde quando estudante de Louis-Le-Grand (1949), segundo a biografia de Peeters (PEETERS, Benoît. Derrida, p. 65). A carta de Althusser a Derrida pode ser lida em: <http://escriturasaneconomicas.cl/Althusser.php>. Acesso em 12.09.2013.
225 C'est en commençant par thématiser directement l'imagination comme un vécu original dans la situation, à l'aide de l'imagination comme instrument opératoire de toute éidétique, c'est en décrivant librement les conditions phénoménologiques de la fiction, donc de la méthode phénoménologique, que le trouée sartrienne a si profondément déséquilibré, puis bouleversé le paysage de la phénoménologie husserlienne et abandonné son horizon" - DERRIDA, Jacques. Introduction (OG), p. 135, nota 1, tradução livre. Sartre é mencionado novamente na p. 148.
226
Ver, por exemplo, Only in the form of rupture: an interview with Jacques Rancière. Paris, France, 2 May 2008, pp. 255-256.
alguns conceitos práticos (como o engajamento, por exemplo227) e a crítica das simplificações e equívocos que Sartre realizou ao importar o pensamento de Heidegger nos seus moldes humanistas. Na maioria das ocasiões, contudo, preferiu simplesmente manter silêncio228, e apenas no debate sobre Jean Genet na segunda coluna de Glas o filósofo existencialista realmente aparece em algum texto escrito.
Derrida está, portanto, ao lado de Heidegger e Lévi-Strauss no confronto ao humanismo, em especial do humanismo existencialista fundado em um conceito metafísico de liberdade e na cesura absoluta entre o humano e a natureza229. Tanto Heidegger na "Carta sobre o Humanismo"230 quanto Lévi-Strauss no pósfacio de "Pensamento Selvagem"
respondem forte e contrariamente a esse humanismo existencialista231. Em Heidegger, a partir do pensamento do Ser. Em Lévi-Strauss, pela descentração do humano, em especial do humano ocidental. Lembre-se, ademais, que a ligação do existencialismo com Kojève é íntima: o próprio Sartre está enredado entre Hegel e Heidegger na sua "ontologia fenomenológica"232 e Kojève já lia a Fenomenologia do Espírito como uma fenomenologia,
227 Tudo se passa, portanto, ao contrário da equivocada biografia de David Mikics, repleta de incompreensões, apesar da pesquisa e conhecimento pessoal do autor. Nela, Mikics sustenta que Derrida via em Sartre o exemplo do "profeta político" e que isso teria o encaminhado para uma via da "patologia humana em geral" da qual gostaria de se manter distante (MIKICS, David. Who was Jacques Derrida?, pp. 28-29). Exatamente o contrário: Derrida herda de Sartre justamente o engajamento político e deixa de lado todo seu sistema filosófico, fazendo uma leitura própria de Husserl e Heidegger. A palavra engagement aparece, por exemplo, diversas vezes em Spectres de Marx (p.ex., p. 41, 60, 80, 89 etc.) e outros escritos. A interpretação de Mikics poderia ser melhor traduzida no fato de que, apesar de admirar o engajamento de Sartre, Derrida sempre prezou a interpretação rigorosa dos filósofos, mas talvez isso tenha escapado ao biógrafo, que considera o autor um "cético" simplesmente pela tese da disseminação do sentido.
228 BAUGH, Bruce. French Hegel, p. 93. Em um vídeo disponível no portal Youtube, provavelmente gravação de uma sessão do seminário ou algo do gênero, Derrida é mais violento que nas entrevistas, afirmando em resposta a uma pergunta da audiência que na sua visão Sartre não representa um grande valor nem na filosofia nem na literatura, se mostrando ao fim um mau escritor, simplesmente. (Peeters também registra essa posição: PEETERS, Benoît. Derrida, p. 61). Aqui pode se ver talvez um traço menor em Derrida: se ele pode ter sido um filósofo maior que Sartre, como escritor, na literatura, Sartre o supera com distância.
229 SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo, passim. Ver, por exemplo, DERRIDA, Jacques. Spectres de Marx, pp. 114-115. Ainda: WAHL, Jean. Philosophies of Existence, pp. 6, 12-13, 57-75; BARING, Edward. The Young Derrida and French Philosophy. New York: Cambridge University Press, 2011, pp. 21-47; JANICAUD, Dominique. Heidegger en France, vol. 1, pp. 114-120.
230 Ver, HEIDEGGER, Martin. Sobre o humanismo ou Carta sobre o humanismo, pp. 47-48. 231
Já em "Tristes Trópicos", obra analisada por Derrida, Lévi-Strauss afirmava: "Quanto à corrente de pensamento que iria expandir-se com o existencialismo, parecia-me que representava o contrário de uma reflexão válida em virtude da complacência que demonstrava relativamente às ilusões da subjetividade. Essa promoção das preocupações pessoais à dignidade de problemas filosóficos implica um risco de desembocar numa espécie de metafísica para costureiras, desculpável a título de processo didático mas muito perigosa ao permitir tergiversações (...)" (LÉVI-STRAUSS, Claude. Tristes Trópicos, p. 52). Ou ainda: "A liberdade não é uma invenção jurídica nem um tesouro filosófico, ou propriedade acarinhada de civilizações mais dignas do que outras por terem sabido produzi-la e preservá-la. Resulta sim de uma relação objetiva entre o indivíduo e o espaço que ocupa, entre o consumidor e os recursos que dispõe. (...) É preciso ter muita ingenuidade ou má-fé para se pensar que os homens escolhem suas crenças independentemente da sua condição" (idem, pp. 135-136). 232 DERRIDA, Jacques. Les fins de l’homme (MP), p. 137.
além de ressaltar o gap existente entre o humano e o animal a partir da dialética entre senhor e escravo233. É portanto o humanismo existencialista o ponto de ruptura de Derrida com a fenomenologia francesa, preferindo apoiar-se diretamente nas fontes alemãs para traçar sua própria recepção234. Talvez esse seja um dos poucos sentidos em que a posição de Derrida pode ser chamada de "pós-estruturalista", uma vez que de fato somente o estruturalismo foi tão longe na crítica da cesura entre o humano e o animal - pense-se nas últimas páginas d'O
Pensamento Selvagem, em que Lévi-Strauss, em resposta a Sartre, "não vê problemas" em
comparar os humanos às formigas - permitindo questioná-la integralmente235. A Carta sobre
o Humanismo, nesse sentido, longe de incomodar Derrida, era mais algo a ser igualmente
desconstruído236, e de fato o tema irá ser retomado muitos vezes ao longo dos anos.
A debate em torno da recepção particular da fenomenologia de Husserl e Heidegger por Derrida - especialmente após o polêmico "A Voz e o Fenômeno" - não se deu
233 Problematizando a relação entre Sartre e Kojève: BAUGH, Bruce. French Hegel, pp. 98-100. Badiou forma uma imagem crítica interessante do trabalho de Sartre (reiterando a influência da leitura de Kojève, igualmente destacada por Descombes) que provavelmente Derrida subscreveria: conseguir colocar o marxismo dentro do idealismo subjetivo, reduzindo Marx a Hegel e Hegel à fenomenologia (separado o último, portanto, da Grande Lógica, trabalho que foi justamente o que influenciou Marx) - BADIOU, Alain. L'aventure de la philosophie française, p. 60.
234 DERRIDA, Jacques. Les fins de l’homme (MP), pp. 139-142. É sempre difícil colocar um ponto final no caso de um filósofo que se marcou pelas divisões: no último período em que surgem os indeconstruíveis, em especial a partir de Força de Lei, a obra de Derrida começa a se aproximar de um viés mais existencial, em especial a partir do diálogo com Levinas, Pascal e Kierkegaard (DERRIDA, Jacques. Donner la mort, pp. 58-67, 76-79; Força de Lei, pp. 17-56). Assim, se a disputa da primeira metade do século XX no pensamento francês foi entre