4 Funn
4.1 Kvaliteter i relasjon med jevnaldrende
4.1.1 I relasjon til sine venner
Na primeira parte de nossa tese, tivemos de contentarEnos em expor sinteticamente o conteúdo de centenas de páginas da Ação (1893), desenvolvendoEo ou simplesmente elencandoEo na medida que nos permitia destacar as questões lógicas que se ocultavam adormecidas nas entrelinhas do texto. Este procedimento agora deve inverterEse. Nós nos dedicaremos, pois, à análise paciente de dois textos breves de Blondel, O ponto de
partida da investigação filosófica e O princípio elementar de uma lógica da vida moral.
Nosso objetivo, como dissemos, é esclarecer o projeto da lógica da ação, apoiandoEnos sobre textos posteriores à Ação (1893). Tal procedimento deve enfrentar o fato inegável de um deslocamento ou evolução no pensamento de Blondel e assumir o risco de que a luz buscada e retrospectivamente projetada sobre nosso objeto o desfigure. Há, no entanto, um certo consenso no campo dos estudos blondelianos no que concerne a uma evolução do pensamento de Blondel, cuja orientação de conjunto permanece a mesma até 1913. Segundo este consenso, sobre o qual nos apoiamos, os textos que passamos a estudar, escritos respectivamente em 1906 e 1900 pertencem à produção cujo centro de gravidade era ainda a
Ação (1893)81.
81 Sobre a unidade da obra blondeliana, Cf. BERGER, G. La cohésion architecturale de la doctrine de Maurice
Blondel. In: ARCHAMBAULT, P. (Org.). Pour un cinquantenaire: hommage à Maurice Blondel. Paris: Bloud & Gay, 1945. p. 107E113. (La Nouvelle Journée, 12) ; VIRGOULAY, R. De L’Action à la Tetralogie: continuité ou rupture? In: FOLSCHEID, D. (Org.). Maurice Blondel : Une dramatique de la modernité. Paris: Editions Universitaires, 1990, p. 112E124. Atas do colóquio Maurice Blondel, AixEenEProvence, 1989 ; TROISFONTAINES, C. Présentation du Tome II. In : BLONDEL, M. Oeuvres complètes II: 1888E1913: la philosophie de l’action et la crise moderniste. Paris: P.U.F., 1997. p. XXIXEXXXVI.
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Dividimos este capítulo como segue: 4.1 Posição do problema da relação entre teoria e práxis no pensamento blondeliano; 4.2 A proximidade entre a filosofia e a vida; 4.3 Prospecção e retrospecção no ponto de partida de toda investigação estritamente filosófica; 4.4 A retrospecção estritamente filosófica analisa o conteúdo da ação efetiva; 4.5 A prospecção estritamente filosófica recolhe os resultados da análise numa nova síntese; 4.6 Conclusão.
A civilização ocidental, desde seu surgimento na Grécia antiga, afirmouEse como civilização da razão. Essa afirmação de si, que se processou na história em meio a crises e transformações, tem sido acompanhada pela recorrente questão da relação entre o logos discursivo e o ethos vivido, sobretudo, nas seguidas crises éticas que se abateram sobre nós. Tal problema que, em termos já mais formulados pela reflexão, apresentaEse como o problema da relação entre teoria e práxis, talvez constitua o mais grave desafio teórico de nossa civilização, ou seja, o desafio de erguer e reerguer constantemente uma ciência do ethos, encontrando a lógica original capaz de articular razão e liberdade82. Nós vimos em nosso estudo da Ação (1893) o lugar central que tal relação ocupa no pensamento de Blondel e os termos sucessivos em que o problema reaparece: assim, no contexto da fenomenologia, trataE se da relação entre a ciência prática e a ciência da prática, com seus métodos direto e indireto. E, no contexto da ontologia, trataEse da relação entre conhecimento necessário, que é da ordem da representação, e conhecimento possuinte do ser, que é da ordem da presença.
TrataEse, sem dúvida, e numa primeira abordagem mais abstrata do problema, de lidar com uma tensão entre os pólos da universalidade e da particularidade, da necessidade e da contingência, da demonstrabilidade e da espontaneidade. Pólos cujo equilíbrio é a tal ponto delicado que, não raro, na especulação ou na vida, se proponham soluções que tendem a pôr o acento mais sobre um deles, conduzindo o outro a um papel subordinado de mero instrumento. Surgem, assim, concepções em que a liberdade se apresenta como instrumento de uma razão clarividente que espalha suas luzes no mundo, fazendo recuar as trevas; ou em que a razão é reduzida a serva da liberdade onipotente, razão meramente estratégica em vista dos caprichos da liberdade, que, por sua vez, identificaEse então ao livre arbítrio.
Essa caricatura de lógica, no entanto, não é uma fatalidade; ela vem sendo constantemente superada por relações mais complexas e mais concordes com a realidade do agir moral, segundo dois vetores que predominaram, o primeiro, na filosofia clássica e, o segundo, nos tempos da razão moderna inspirada pelo cristianismo. Se considerarmos tais vetores a partir da compreensão do sujeito autônomo em seu agir, podemos caracterizáElos, respectivamente, como segue: de um lado, o sujeito compreendeEse predominantemente a partir da causação formal e final da razão, no horizonte unívoco do Bem ou analógico dos bens, mas partindo sempre da práxis para superáEla, finalmente, na contemplação. De outro lado, o sujeito livre é autodeterminação e a práxis desenvolve a dimensão de sua causalidade eficiente como autoErealização do sujeito83. Seguindo essas duas órbitas, cujos centros de gravidade são Aristóteles e Kant, têmEse organizado as principais correntes da ética contemporânea.
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Duas cartas de Blondel, a primeira dirigida a seu diretor de tese, Émile Boutroux, em setembro de 1886, e a segunda, de março de 1887, dirigida ao senhor Lantoine, na época decano da Sorbonne, esclarecem o desígnio de nosso autor, situandoEo entre as duas posições antitéticas acima mencionadas. De um lado, está Aristóteles que, segundo Blondel, considera a prática, engajada nas contingências da polis, como inferior à teoria voltada à imutabilidade do ser; e, de outro, Kant, que estabelece o primado da razão prática sobre a razão teórica, opondo uma certeza moral a toda consideração de ordem metafísica.
Entre essas duas posições, Blondel considera haver “algo a definir: é bem verdade que para agir bem é necessário pensar bem; é ainda mais verdade que para pensar bem é necessário agir bem. In operibus lux” 84. A ação reaparece, portanto, não simplesmente como algo a ser determinado pela razão, ou inferior à contemplação, mas como uma fonte de inteligência, de “luz”.
O contexto da investigação blondeliana na Ação (1893) é o mesmo do surgimento de todas as grandes doutrinas filosóficas da história. TrataEse de uma crise intelectual e moral, e, portanto, de pôr em movimento a solução ocidental para esses momentos, a reflexão filosófica. Mas, ao retomar o mesmo labor de outros, o filósofo inova, recolhe o ensinamento do passado e dá um novo passo, busca um novo centro. Esse centro mais unificante e, por assim dizer, mais expandido é a ação.
Vimos anteriormente como Blondel recolheu os elementos da crise já em sua maneira de formular o problema da ação, enfrentando duas vias de dissolução da moral, o diletantismo e o pessimismo. Na conclusão da Ação (1893) nosso autor defenderá que a solução para o problema da vida encontraEse na própria ação livre, na medida em que esta realiza uma ciência prática, tornandoEse assim ação moral. A ciência da prática, por sua vez, viria iluminar o caminho que conduz à prática e confirmar a ciência prática. Há, portanto, dois métodos existenciais ou duas atitudes que permitem resolver o problema da ação, um método direto, dos simples e generosos, e outro indireto, para os que devem e desejam enfrentar com os meios da razão a crise que os envolve e abala seus contemporâneos. Blondel retomou tal questão na introdução da Ação (1893), caracterizando estas duas atitudes contrárias. Sigamos inicialmente esta caracterização, pois o “método indireto” é o da atitude filosófica, que une teoria e práxis, ciência da prática e ciência prática.
A solução imediata do problema da ação consiste em enfrentar o que ameaça o nosso ser e resistir à dissolução moral aceitando agir segundo um sentido dado. É a resolução direta, o método prático, que permite ao sujeito religar a necessidade do agir ao ato da vontade. Esse método é, na verdade, uma atitude feita de docilidade e obediência à moral histórica, ao ethos. Ela requer o homem inteiro, sua simplicidade e generosidade conduzidas até o extremo. Ela é o homem como experimento vivo, confirmação, se preciso a preço de sangue, de um sentido oferecido. Com efeito, não se pode avaliar uma moral, que supostamente deve fornecerEnos o sentido da prática, senão a partir de dentro. A solução
prática do problema que põe a ação é a ação sensata num sistema de referência já dado. “A
ação é uma necessidade; eu agirei. A ação me aparece como uma obrigação; eu obedecerei”85. No entanto, o “método dos simples e generosos”, sua “feliz e corajosa simplicidade”86, encontraEse enfraquecido pela crise antes mencionada. E toda nossa tradição parece solicitar as razões de se fazer o que se faz, e conduz a questionar o simples fato, pelo
direito. Se a solução do problema da ação se encontra na própria ação isso não nos dispensa
de justificáEla racionalmente, reflexivamente. Ademais, o enfrentamento voluntarista da crise pode estar contaminado de particularismos, de partidarismos, de intolerância. Ele não serve para o diálogo, ele não se abre à universalidade requerida quando o problema envolve tantos e tantas dimensões. A “ciência”, ao contrário, seria capaz de socializar o conhecimento ético, dar as razões da boa vontade, esclarecer e justificar o seu esforço quase heróico87.
O método da ciência é indireto. Ele fecha todas as saídas menos uma, posicionando o espírito em face das condições necessárias e suficientes que permitem afirmar a lei de uma realidade dada. A primeira exigência desse método é negar, na ordem do pensamento, o que é aceito na ordem da ação, explorando todas as vias possíveis. Blondel quis “posicionarEse nos extremos dos raios mais divergentes, a fim de captar, no próprio centro, a verdade essencial a toda consciência e o movimento comum a toda vontade”88. Essa verdade seria conclusiva e necessitante, pertencendo à ordem da lógica própria à existência
humana. Ela não poderia impedir o homem de guiarEse pela ilusão, mas permaneceria a lei
íntima que explica os fracassos da existência, que julga a todos “com um rigor soberano”89. E, uma vez constituída, ela possuirá um caráter totalizador, porque pretenderá fornecer o sentido da existência, da ação concreta e completa de todo homem vindo a esse mundo.
A originalidade de Blondel, no entanto, encontraEse em sua decisão de inserir no
método indireto o método direto, defendendo a função propriamente noética da prática. A
investigação filosófica deve tornarEse, assim, desde seu ponto de partida, uma “experimentação moral”. Nós procuraremos, pois, desdobrar este propósito essencial para a explicitação da lógica da ação, estudando o artigo O ponto de partida da investigação
85 Ac, p. XII. 86 Ibid., p. XVI
87 Cf. ibid., p. X e XVEXVIII. 88 Ibid., p. X.
filosófica. Este texto conserva a formulação mais acabada do que é filosofar, segundo o
“Mestre de Aix” 90.
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A filosofia parece ser a presa constante das abstrações, das generalizações, da linguagem técnica hermética afastada do mundo humano e da realidade cotidiana. Freqüentemente instalada na montanha, em seu palácio ideal, pretende ditar normas e limites aos que se encontram fora de suas muralhas e penam na planície do mundo. Em suas origens, no entanto, antes de constituirEse em filosofia acadêmica, o pensamento apodíctico sempre pretendeu estar unido ao real, ser do real e mesmo abarcar tudo o que fosse humano ou, simplesmente, tudo o que é.
Blondel sentia, por exemplo, que os tomismos e kantismos de sua época, embora úteis e verdadeiros, pareciam mais voltados ao comentário técnico, estabeleciam mundos separados e dificilmente apresentavam uma passagem interior à vida, correndo o risco de se constituírem em normas vindas de fora. O filósofo quer dialogar com o seu tempo e, mais ainda, quer constituir uma filosofia que jamais se feche em doutrina acabada, uma filosofia que traga em si mesma o imperativo de sua superação, mas que seja, ao mesmo tempo obstinadamente próxima do concreto. Eis a sua questão, que o método é inseparável do conteúdo da experiência:
Não se pode [...] realizar uma doutrina na qual a matéria humana ou mesmo universal, e a forma específica da filosofia se responderiam de tal maneira que, inteiramente técnica por seu método e, desde seu ponto de partida, separada de toda outra espécie de conhecimento por uma linha de demarcação absolutamente clara, a investigação filosófica estaria em continuidade perfeita com o movimento natural da vida, bem melhor, seria essa vida mesma enquanto ela se enche de luz e realidade, e se subordina expressamente às condições de que depende a solução efetiva do problema de nossa destinação?91.
90 Blondel publicou O ponto de partida em dois artigos aparecidos nos Annales de Philosophie chrétienne nos
meses de janeiro e junho de 1906. Os Annales haviam sido adquiridos em 1905 por Blondel, que entregou a seu discípulo Lucien Laberthonnière o cargo de secretário de publicação. Em maio de 1913, a revista foi posta no
Index e interrompeu sua atividade em outubro do mesmo ano. Blondel lamentará não ter publicado seus artigos
num estudo à parte. E com razão, pois o fato condenou o texto a desaparecer de circulação por mais de meio século!
NotamEse claramente as referências aos resultados da Ação (1893), pois esta desdobrava justamente as condições de que depende a realização do desígnio de nossa vontade. No entanto, a relação que ocupará o centro da investigação levada a cabo no Ponto
de partida é a definição da filosofia como continuidade com o processo da vida, enquanto ela
se enche de luz e realidade. Filosofar não é apenas refletir iluminando, mas também realizarE se. A citação anterior nos coloca diante do desafio de toda a obra blondeliana, em sua busca de uma filosofia do concreto, que seja a vida em reflexão. Examinar a resposta dada a tal questão constitui o esforço das próximas páginas.
Inicialmente, destrincharemos a estrutura do escrito, com suas articulações e passagens. Em seguida, deixando de lado um estudo mais pormenorizado do primeiro artigo, apresentaremos e comentaremos a concepção blondeliana de filosofia, em que teoria e práxis encontramEse intimamente relacionadas.
No primeiro artigo, de janeiro de 1906, após breve introdução cujo centro é o parágrafo anteriormente citado, o filósofo distingue duas formas de conhecimento, pondoEas abstratamente, in esse e não in fieri: o conhecimento reflexivo, que é próprio das ciências abstratas; e o conhecimento prospectivo, que é próprio da vida humana em seu agir e fazer. Surgem assim os primeiros traços de uma compreensão blondeliana de teoria e práxis, mas tratadas como realidades estanques92. O conhecimento filosófico, embora também seja destacado, não é propriamente definido nessa passagem, senão negativamente, pela falta de uma relação conveniente entre um conhecimento direto, próprio da ciência prática, para o qual Blondel forjou este termo “prospecção”, e um conhecimento indireto, próprio da ciência da prática, que nosso filósofo chamará de “retrospecção” ou “reflexão analítica”93. A distinção serve antes para facilitar ao leitor o acesso à parte crítica do artigo. Blondel termina o parágrafo sobre o conhecimento filosófico problematizando o uso quase exclusivo que se faz da reflexão analítica nas investigações filosóficas em geral. Esse fim serve para ligar a distinção entre reflexão analítica e prospecção à parte crítica que se inicia pela avaliação do ponto de partida de duas filosofias eminentemente reflexivas, embora contrárias: o realismo, tratado sob o título “a filosofia procede exclusivamente da reflexão?”; e o idealismo, sob o título “A filosofia procede de uma atitude exclusivamente crítica?”94. A seguir, vem a
92 Cf. Ponto de partida, p. 531E535. 93 Cf. ibid., p. 535E536.
consideração dos excessos da prospecção com a crítica ao intuicionismo95. Esta crítica serve como um aviso ao leitor: não se trata de deixar de lado a reflexão analítica, fazendo da prospecção a busca de uma intuição primeira, mas de encontrar uma relação entre os dois termos. O vício que afeta o ponto de partida das três correntes analisadas é, analogamente, o mesmo96. A filosofia como análise extrai idéias da experiência e gera doutrinas estáticas, afastadas da realidade, orientadas a uma ontologia do ser generalíssimo. Ela é abstrata no sentido em que o ser concreto e singular é esquecido, quando o instinto realista é, fideisticamente, elevado a meio absoluto de acesso ao real. Insatisfeita, porém, dessa metafísica das idéias, a reflexão parte em sentido contrário, em nome da mesma experiência, e, mediante a atitude crítica, lançaEse ao campo da moral e elevaEo a fato privilegiado, tendendo, porém, igualmente, a abstraíElo da corrente da vida, negando valor intrínseco a realidades vizinhas, como a realidade religiosa, que jamais pode reduzirEse à moral97. A última abstração é a que, reagindo ao formalismo e ao essencialismo, voltaEse para a prospecção, excluindo a reflexão analítica, entendida como mero instrumento fragmentador a serviço da técnica, exclusão que, no entanto, realizaEse sempre mediante a reflexão.
O segundo artigo (junho de 1906) pode, então, iniciarEse com um saldo positivo, pois a retirada dos “falsos pontos de partida da filosofia” repõe o problema com maior clareza e encaminha a argumentação no sentido de uma solução completa, ou seja, o conhecimento deve proceder sempre, simultaneamente, por reflexão fragmentária, que é analítica e discursiva, e por prospecção total, que é sintética e inovadora98. Após haver tratado, no primeiro artigo, da impossibilidade de negar um dos termos para afirmar o seu par, tratarEseEá, nessa segunda parte, de afirmar não tanto a compatibilidade de dois opostos, mas a inseparabilidade de dois movimentos inversos que contribuem simultaneamente ao alargamento do conhecimento. Quando se considera a reflexão analítica sobre a vida, encontraEse a prospecção já presente como o conhecimento próprio do vivido; quando se considera a prospecção em sua síntese sempre apontada para o devir e o fim, evidenciaEse o papel insubstituível da reflexão analítica para a realização deste fim, no presente do sujeito que age.
95 Cf. Ponto de partida, p. 541E544. TrataEse, sem dúvida, de uma referência a Bergson, mas Blondel tem o
cuidado de observar que está destacando “um dos aspectos sob os quais esse pensamento pode ser considerado” (p. 543, n.2).
96 Cf. ibid., p. 545E547. 97 Cf. ibid., p. 541. 98 Cf. ibid., p.548E550.
Após essas considerações sobre a estrutura e a maneira de articulação do texto blondeliano, passamos a uma exposição mais pormenorizada do que constitui, formalmente, esse ponto de partida.
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Comecemos, antes de expor a relação existente entre prospecção sintética e reflexão analítica ou retrospecção, por definir o que Blondel entende por esses dois termos. Mas deve ficar claro, como aliás se depreende da estrutura do artigo acima apresentada, que retrospecção e prospecção são conhecimentos distintos do “conhecimento filosófico”. Este, por sua vez, não é uma terceira ordem de conhecimento sem relação com as duas anteriores, não é formado por uma relação extrínseca entre elas, não é o processo de passar da prospecção para atingir a pura reflexão ou viceEversa, mas é o que surge de uma reflexão
estritamente filosófica, isto é, aquela na qual prospecção e reflexão encontramEse
sistematicamente implicadas uma na outra. Quando considerarmos retrospecção e prospecção em seu sentido filosófico este ponto se esclarecerá.
Blondel intitula essas duas apresentações “in esse” de, respectivamente, “o conhecimento direto” (ou prospecção) e “o conhecimento inverso” (ou retrospecção)99. Esses títulos fazem pensar nas duas soluções ao problema da ação acima evocadas, traçam uma linha de continuidade que esclarece o vocabulário blondeliano, e cujos pontos podem ser assim enumerados: o método da ciência prática é o método direto ou prospectivo, e o tipo de conhecimento que está em jogo é chamado conhecimento direto ou prospecção. O método da
ciência da prática inclui o método indireto ou retrospectivo e o tipo de conhecimento que está
em jogo é chamado conhecimento inverso ou refletido100.
O conhecimento direto orientaEse para a ação. Ele é concreto, sintético, prático e finalista. Ele é interior à própria ação enquanto realização de um desígnio e, nesse sentido, pode ser dito imediato. Quando se apresenta, ele é a capacidade de resumir num ato de aparência simples “um grande número de experiências passadas, sob a inspiração de um
99 Cf. Ponto de Partida, p. 531E535.
100 Veremos que o método da ciência da prática não pode ser simplesmente identificado ao método indireto. Por
grande número de idéias e de movimentos projetados”101. Está, portanto, unido a uma atitude que sustenta uma ação. BuscaElhe os meios de sua realização no aqui e agora do agir, ligandoE se à vida em sua unidade e totalidade. VoltaEse para o futuro, antecipandoEo, prevendoEo, evocandoEo e, por assim dizer, nele já se apoiando. Sua precisão e clareza são crescentes, acompanhando a ação realizada e munindo o agente de um poder de determinação. Ele constitui, enfim,
o fundo mesmo da atividade razoável, na simplicidade do age quod agis que