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SECTION 3: FIELD WORK

6. Relaciones de confianza

Pretende-se neste tópico visualizar agentes da arte de curar no interior dos navios como cirurgiões não escravos e sangradores escravos. Busca-se também observar os remédios e utensílios ligados à cura das doenças nos dois lados do Atlântico, através da análise de botica em hospital, loja particular e interior de navio, nas regiões da América portuguesa (Mato Grosso, Minas Gerais, Bahia, Rio de Janeiro) e Angola. E por último visualizar os ingredientes oriundos da África através do estudo de inventários de boticas mineiras do século XVIII e XIX, a fim de compará-los com a botica de outras regiões.

Baseando-se na certeza da existência de boticas no interior dos navios, inclusive dos negreiros, é possível identificar medicamentos que eram comuns na América portuguesa e na costa africana. Tais remédios e utensílios ligados à cura poderiam ser verificados nos dois lados em boticas em terra e no interior de navios.

Também é possível encontrar em documentos referências a algumas embarcações, nos quais constavam a botica e a relação de medicamentos. Esse foi o caso do bergantim D. João Carlos431, de 1821, que continha raízes de plantas como a de chicória, macela, fedegoso,

cidreira, quina em pó, canela, malvas, alfazema, folhas de alecrim, salsaparrilha, goma arábica, mel rosado, vinho d’ antimônio, ácido nítrico, nitrato de prata, emplasto mercurial,

431 Caixa 1199 (cx.471, pc.2), Fisicatura-mor, AN. Apud PIMENTA, Tânia Salgado. A arte de curar: um estudo

a partir dos documentos da Fisicatura-Mor no Brasil do começo do XIX. Dissertação (Mestrado em História) - Instituto de Filosofia e Ciências Humanas/Unicamp, Campinas, 1997. p. 62.

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elixir estomático. Também havia instrumentos como seringas de estanho, copo graduado, tesoura, panelas, espátula.

Boa parte desses medicamentos e objetos médicos encontrados em embarcações na América portuguesa ao final do século XVIII e princípios do XIX, poderia ser encontrada no outro lado do Atlântico, na região de Angola, o que comprova a circulação desses medicamentos e ideias relacionadas ao tratamento de doenças. Em documentação oficial referente a Angola por volta de 1824, encontradas no IHGB, pode-se verificar o uso dos mesmos medicamentos existentes na América portuguesa, como o caso da relação de medicamentos do, já citado, Hospital de Luanda, que convém nesse momento destacar a presença de plantas da América portuguesa que eram precisas para o curativo dos doentes no Hospital de Luanda, Reino e Angola:

Relação dos medicamentos precisos para o curativo dos doentes no Hospital de Luanda Reino de Angola: 100 arrobas de quinina paravianna [sic] amarela, 6 arrobas de raiz de almeirão, [...]16 libras de almecega do Brasil, [...] 32 libras de terebintina, 4 libras de casca de raiz de mizirião, 4 arrobas de amoras,[...] 4 libras de óleo de copaíba, [...] 18 libras de ruibarbo, [...] 2 libras de cocleária [...] tipos de pano de linho para o curativo dos enfermos...432

Destacam-se aqui plantas e medicamentos usados na América portuguesa (quinina, almeirão, almecega, terebintina, copaíba, ruibarbo, cocleária e pano de linho) os quais estão presentes em vários agentes sociais ligados a cura, atuantes no século XVIII e princípios do XIX.

No caso do cirurgião-barbeiro Luís Gomes Ferreira, que atuou na Bahia por volta de 1707 e depois na região de Minas Gerais entre 1710 a 1747 era comum o uso da Almécega, panos de linho e terebintina quando pretendia tratar de algum deslocamento. Segundo Ferreira:

A primeira coisa que se deve fazer é aparelhar os panos, ataduras, aguardente, emplastos e talas... Os emplastos podem se preparar do modo seguinte: terebintina quatro onças... se for junta grande será necessário mais; pós de toda a bisma, que são breu, incenso, mirra, sangue - de - dragão e almécega uma oitava ou duas... Ou este, que é mais fácil de se fazer em qualquer parte das Minas e do Brasil... olho de embaúba limpo das cascas... isso se pica em miúdos e se pisa em almofariz... essa se lança em tacho com aguardente do reino... com a qual ferverá a fogo brando até que fique uma massa capaz de se estender no pano...433

432 Relação feita por Manuel de Sá Vasconcelos, secretário do Governo sobre medicamentos necessários para o

tratamento de doentes no hospital de Luanda. 1824. IHGB (RJ) DL347, 30.11.

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No caso das receitas dos Colégios Jesuítas da Coleção de receitas e segredos particulares das principais boticas de nossa companhia de Portugal, da Índia, Macao e do Brasil, compostas e experimentadas pelos melhores médicos e boticários. Roma: Companhia de Jesus 1766 era comum o uso de terebintina e goma amoníaco na cura de tumores na Bahia. Segundo a coleção:

[...] fazer-se do seguinte modo... em um tacho se deite o sumo, o sebo, a cera, [pouco] da resina feito em bocados, ponha-se no fogo a ferver brandamente, e consumida toda a humidade se esse com forte e pressão é coado, se lhe ajunte a goma amoníaco e a terebintina, e se necessário for para incorporar tudo muito bem torne a fogo brando e se guarde para o uso[...] serve este emplasto para virtudes desfazer tumores duros externos e internos ainda que sejam cirrosos do baço ou do fígado...434

No caso de viajante Alexandre Rodrigues Ferreira, que atuou na região do Mato Grosso por volta de 1791, o uso da quina para tratar a febre terçã. Segundo Ferreira:

Reconhecendo-se em que a inflamação predomina, fazem-se duas sangrias antes de se recorrer aos eméticos e purgantes brandos, e segue-se com os diluentes e os refrigerantes. Prescreve-se lhes, fora do acesso, o uso das limonadas e do ponche. Observa-se que para este gênero de febre, o melhor veículo da quina é o suco de limão, ou de laranja agra, usando-se de limonadas quinadas. A quina só tem lugar depois das evacuações universais. A mudança de ar e exercícios tem curado muitos.435

No caso do funcionário do ultramar, Físico-mor de Luanda em 1799, também podemos perceber o uso de plantas e medicamentos também utilizados no Brasil. Com relação ao tratamento da disenteria em Angola, Azeredo menciona:

Eu tenho usado dele algumas vezes e com efeito não me atrevo a decidir se a adstringência do ruibarbo tem embaraçado a cura. Contudo eu prefiro administrá-lo combinando com o mercúrio; Segundo o método de Pringle, e desta combinação sai um purgante suave, próprio para a disenteria.436

No caso do médico Sigaud, atuante na corte do Rio de Janeiro por volta de 1840, o uso importante da quina para a cura das febres, doença característica tanto da América portuguesa, quanto em Angola. De acordo com Sigaud:

O sulfato de quinino é hoje administrado em doses elevadas pelos práticos brasileiros. É indistintamente aplicado nas apirexias e nas remissões [...] Tirou-se grande partido da associação do sulfato de quinino e do calomelano nas febres cerebrais perniciosas; e a sua reunião em doses fracas de sais de

434 Coleção de receitas e segredos particulares das principais boticas de nossa companhia de Portugal, da

Índia, Macao e do Brasil. op. cit., Livro1, pp. 128 e 129.

435PORTO. Enfermidades endêmicas da capitania de Mato Grosso. op.cit.,p.80.

157 morfina triunfou igualmente sobre os vômitos ou repugnância que certos estômagos conservavam contra esse medicamento.437

É importante destacar que não era apenas o fato dos conhecimentos da arte da cura viajarem da América portuguesa para Angola, o movimento também era inverso, o que pode ser comprovado por Sigaud em 1844, quando este médico se refere ao uso do arsênico branco nas febres intermitentes na Bahia. De acordo com Sigaud:

Os práticos da Bahia constataram a eficácia médica do arsênico no tratamento das febres intermitentes[...] o doutor Azeredo Pinto diz em sua obra: “Fui obrigado a recorrer a outros remédios além da quina, na falta desta última, e encontrei no arsênico branco um poderoso antídoto para as febres intermitentes[...] o mesmo prático introduziu no Brasil o seu método curativo, que tinha experimentado com sucesso em São Paulo de Luanda. É a ele que se deve o tratamento seguinte[...]Administra-se a seguinte decocção na dose de uma xícara de chá três vezes por dia: casca de palmeira pisada, dez onças; água pura, quatro libras; ferver até reduzir à metade; escorrer em seguida. Dá-se o mesmo tempo a noz-vômica em pílulas[..] associar um amargo, como a genciana; começa-se com três pílulas de dois grãos cada[...] se a febre persistir, passar ao emprego do arsênico...438

Com relação ao estudo dos medicamentos inseridos nas boticas da América portuguesa, Figueiredo e Abreu439 através da analise dos documentos cartoriais, inventários e

avaliações de bens médicos, de boticários e práticos de saúde em Minas Gerais nos séculos XVIII e XIX conseguiram, através dessa rica documentação, analisar o espaço físico da botica, as mudanças e permanências com relação à composição dos remédios, o conhecimento científico aplicado a esses, e a adesão de substancias de outras regiões, como a africana, corroborando para a ideia de conhecimento médico circulante. Segundo as autoras, as receitas de remédios preparadas por boticários, cirurgiões e práticos eram anexadas aos testamentos para os herdeiros dos defuntos, evidenciando os ingredientes das receitas e aplicações. Em muitas das receitas médicas citadas anteriormente é possível identificar medicamentos que estavam presentes na lista da botica do Hospital de Luanda, como o caso da receita do boticário Antônio Pereira Ferreira440, de 1798, que possuía funcho, salsaparrilha, chicória,

437 SIGAUD. Do clima e das doenças do Brasil ou estatística medica deste império 1844. op.cit., p.186. 438 Ibidem, pp.187 e 188.

439 FIGUEIREDO, Betânia Gonçalves & ABREU, Deise Marinho de. Os documentos cartoriais na História da

Farmácia e das Ciências da Saúde. Cadernos de História da Ciência, São Paulo, Instituto Butantan/Laboratório de História da Ciência, v.6, n.1, jan./jul. 2010, pp. 9-25.

440FERREIRA, Antônio Pereira. Caixa 7118, no 8384, AN, 1798. Apud FIGUEIREDO, Betânia Gonçalves &

ABREU, Deise Marinho de. Os documentos cartoriais na História da Farmácia e das Ciências da Saúde.

Cadernos de História da Ciência, São Paulo, Instituto Butantan/Laboratório de História da Ciência, v.6, n.1, jan./jul. 2010. p.13.

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bardana, tártaro emético, sal de Glauber, Artemísia, losna, catártico, cremor tártaro, coloquintidas, dormideira, terebentina e tamarindos.

Figueiredo e Abreu441 acrescentam que nas boticas de Antônio Pereira e do Capitão

Antônio de Matos Pereira constavam de elementos da medicina excrética como: olhos de caranguejos, pós e sais de víboras, banha humana, pontas de veado, âmbar, cantáridas, lixo de lagarto, almíscar, carmim de cochonila, dentes de javali, sal de leite, nácar de pingos finos e ordinários, múmias de animais entre outros.

Através dos estudos realizados nos estabelecimentos de botica no século XIX, os ingredientes excréticos ainda apareciam em algumas receitas, porém em menor quantidade. Isto porque ao final do século XVIII além da existência da teoria dos humores hipocrático- galênica em muitas boticas (que baseou sobre os saberes da doença e do corpo durante a Idade Média e o Renascimento baseada no equilíbrio dos humores) pairava no mundo a visão miasmática da concepção de doenças, que relacionavam os produtos de origem animal ao impuro. Outro dado importante levantado pelas autoras, cujo também é ideia central deste trabalho é o fato de substâncias de origem africana e oriental estarem presentes nos inventários das boticas do século XIX, caso da mirra, benjoim, pimenta da Índia, almíscar, canela, noz moscada, sândalo, que comprovam que o conhecimento médico viajava entre as duas bordas do Atlântico. O que pode ser verificado na documentação acima relatada, pois muitos dos remédios e utensílios, que circularam na América portuguesa e em Angola eram similares, e os tratamentos nos dois lados do Atlântico correspondiam a uma visão médica do contexto do final do século XVIII e início do século XIX, que envolvia a teoria hipocrático- galênica, farmacopeia de Galeno, iatroquímica, química de Paracelso, conhecimentos botânicos da América portuguesa, Europa, África e Oriente.

Enfim por meio do presente capítulo constatou-se a importância espacial e social no interior das embarcações e as amplas possibilidades de sociabilidades nesse ambiente através das comunidades marítimas, população circulante, linguajar, cujo facilitavam a circulação dos conhecimentos médicos e científicos. Também foi possível identificar a valorização dos colégios jesuítas e hospitais militares como parte integrante da rede de informação e ordenamento dos domínios do ultramar português, um tipo de funcionamento comum, na conjuntura do final do século XVIII, ao contexto europeu ilustrado, destacando a fundamental contribuição médico-farmacêutica dessas instituições. E por fim constatar a presença de medicamentos e informações médicas circulantes no recorte espaço temporal desta pesquisa.

441 FIGUEIREDO. & ABREU. Os documentos cartoriais na História da Farmácia e das Ciências da Saúde.

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Ou seja, América portuguesa e Angola, compartilhando conhecimentos médicos, reelaborando-os com seus contextos locais, produzindo ciência, informação médica, ao final do século XVIII e princípios do século XIX, em regiões antes observadas como simples receptoras e ou reprodutoras de ideias e tecnologias europeias.

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Capítulo 4

A prática popular da arte da cura dos barbeiros, sangradores e