SECTION 3: FIELD WORK
2. Contexto histórico y cultural
A arte médica de José Pinto de Azeredo, físico-mor de Angola, expressa em sua obra “Ensaios sobre algumas enfermidades D’Angola” de 1799, pode ser identificada como um manual exemplar, que identifica importantes doenças do circuito transcontinental do tráfico de escravos como as disenterias, as febres, o tétano, a sarna, a bexiga, os vermes, o escorbuto entre outras. Destacar-se-á neste tópico a disenteria, uma doença letal do tráfico Atlântico, como afirmado por Mary Karasch323 e outros autores anteriormente citados.
O tratamento da disenteria era importantíssimo, diante do grande número de óbitos de negros durante o trânsito Atlântico Angola/Brasil. A disenteria estava presente em Luanda, no interior dos negreiros e também no Brasil em finais do século XVIII e princípios do XIX. O físico-mor em Luanda, José Pinto Azeredo estava preocupado com esta enfermidade, partindo de seus conhecimentos acadêmicos da conjuntura do final do século XVIII, tendo consciência
322 ARAÚJO, Carlos Benjamin da Silva. Boticas e boticários no Brasil colonial. Anales de La Real Academia de
Farmacia. Madrid, volume XXXVI, no. 2, 1970, p. 324.
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das influências da ilustração, que geraram novas ideias para o tratamento das doenças em voga. Em seu ensaio ele remete ao trato das disenterias e o uso de plantas do Brasil e de Angola para o trato dessa enfermidade. Como verificado anteriormente, o contexto estudado trouxe uma valorização da botânica e da ideia de coleta de informações e conhecimentos úteis ao Império ultramarino português.
Com relação ao tratamento das disenterias e demais doenças Azeredo, em 1799, expõe seu ponto de vista, deixando evidente seu conhecimento acadêmico, empírico e sua observação da natureza no cuidado com as enfermidades, estando atento para profissionais de cura em voga. Segundo Azeredo:
Esse meu trabalho não é fruto de imaginação, mas de experiências. A obra que eu pretendo consta de observações feitas por mim, tanto na natureza das enfermidades, como seu método de cura; não pretendo engrossar volume fazendo uma monstruosa recopilação[...] depois de estar o público tão servido com as instruções de Pringle, de Lind, de Cleghorn, de Badenoch, de Clark, de Blane, de Hunter, e de outros muitos sábios...324
A preocupação com as disenterias é verificada no texto de Azeredo, cujo relata os estragos que ela havia feito em Angola e os poucos sucessos em sua busca pela cura: Conforme Azeredo:
... Na cura das disenterias não fui tão feliz como as das febres, apesar de fazer os maiores esforços, que me foram possíveis. A prática de Sydenhão falha quase sempre; as observações de Pringle não tem sido bastante; as tentativas de Hunter ainda não decidem. É horroroso o estrago que em Angola fazem as disenterias, e os seus ataques são sumamente temíveis, porque logo desde o princípio se reputam incuráveis. O prejuízo dos profissionais que achei, era tal que deparava os enfermos; julgando inútil o seu trabalho, e fraca a sua arte...325
Azeredo ao descrever as disenterias fez uma conexão com as constantes febres de Angola. Segundo o Físico-mor:
A disenteria as vezes vem antes das febres, outras vezes a acompanha por todo o seu curso, outras vezes aparece no meio, e outras no fim. Esta complicação não deixa de ser perigosa, e particularmente a última, que é muito respeitável, e requer uma grande atenção e ciência do professor. Os convalescentes são muito sujeitos a recaídas frequentes, que são ainda mais
324 AZEREDO. Ensaios sobre algumas enfermidades D’Angola. op. cit; p. 10 e 11. 325 Ibidem, p. 13.
113 perigosas que o primeiro ataque. A recaída de ordinários é de febres intermitentes, que não conservam regularidades nos seus períodos.326
Em algumas estações reina a disenteria que, que parece de tal modo epidêmica; porém nos meses quentes, que são em Angola desde outubro até maio, as disenterias prevalecem mais, e são mais funestas. O qual possa o calor contribuir para esta queixa ainda não pude descobrir. Principia a disenteria por muitas vezes por uma revolução no ventre, a qual excita pela região umbilical leves dores de vez em quando, que terminam evacuando alguma coisa [...] no fim apenas lança muco a maneira de clara de ovos, envolvido em raios de sangue...327
No combate a disenterias e as demais doenças em Angola, Azeredo usava a concepção miasmática das doenças e a teoria de Hipócrates e Galeno, trabalhados no primeiro capítulo. Conforme Azeredo:
Para eu entrar em um particular, exame das causas remotas das febres e mais enfermidades de Angola, não posso deixar de ocupar a atenção dos leitores com uma pequena deferipção do mesmo país. O seu terreno, as suas águas, as suas plantas, a atmosfera, os seus ventos, os seus costumes, os seus alimentos, oferecerão um espírito indagador interessante, noticias pelas quais descubra um meio mais eficaz de prevenir, e de remediar tantos males. Estou bem persuadido que as enfermidades endêmicas dependem de uma causa comum que existe na atmosfera, e nos é sempre oculta...328
...As terras que ficam submergidas lançam de si um ar, que sendo respirado sem se misturar como ar atmosférico, é mortal. Não é fácil acertar a que distância podem chegar os miasmas das águas encharcadas. Ainda que Clark e Robertson, afirmam que não chegam a duas milhas, contudo depende-se muito da extensão do charco, da disposição e altura dos montes, da velocidade, e direção dos ventos.329
José Pinto Azeredo como um homem das letras, foi impactado pela ilustração do final do século XVIII, e através do empirismo e observação passou a valorizar como, os outros agentes históricos de cura no momento estudado, as plantas úteis ao Império ultramarino português destacando plantas de Angola e plantas que circulavam entre o Brasil e Luanda para a cura das enfermidades. As plantas eram uteis para utensílios, vestimentas e até para a cura de doenças. Azeredo destaca o uso do embondeiro. Segundo o físico- mor de Angola:
Atendendo ao uso e utilidade de que as árvores se prestam aos colonos, e habitantes da conquista, podemos com maior excesso insistir por sua conservação, e ainda animar a sua multiplicação: por quanto achamos dos poucos e destroçados embondeiros, que existem tiram o pobre morador
326 Ibidem, p.17. 327 Ibidem, pp. 94 e 95. 328 Ibidem, p. 36. 329 Ibidem, p. 48.
114 cordéis para diversos usos [...] a sua mesma casca cobre a nudez do industrioso quissama, e do pobre escravo que não há dúvida resistir a fome, e ao escorbuto comendo a poupa farinácea, que dentro de sua siliqua conserva-se sempre fresca a semente.330
Azeredo, em alguns trechos de seu “Ensaio sobre as doenças de Angola” menciona plantas que circularam os dois lados do Atlântico. Destacou - se plantas do Brasil como a ipecacuanha e o ruibarbo, sendo utilizadas para curar as disenterias de Angola. Conforme Azeredo:
A disenteria requer ser acudida logo no seu princípio [...] logo que ela aparece eu costumo administrar um emético ligeiro, que quase sempre move alguma evacuação interior [...] a ipecacuanha não tem virtude específica, como vulgarmente se pensa: ela produz o mesmo efeito que o antimônio.331
Cullen não admite o uso do ruibarbo, por ser adstringente o que é pernicioso na disenteria. Eu tenho usado dele algumas vezes, e com efeito eu não me atrevo a decidir se a adstringência do ruibarbo tem embaraçado a cura. Contudo eu prefiro administra-lo combinado com o mercúrio, segundo o método de Pringle; e desta combinação um purgante suave e próprio para a disenteria.332
Cabe destacar nos trechos de fonte acima citados, que José Pinto de Azeredo foi um homem conectado a seu tempo histórico, com o pensamento correspondente a medicina da época, miasmática, hipocrática, galênica, a qual foi influenciada pela valorização da botânica, um movimento global, gerado pela ilustração que atingiu a racionalidade científica do final do século XVIII analisado por Abreu333. Azeredo como agente conectado ao Império
Ultramarino português, estava na prospecção de materiais úteis ao desenvolvimento das possessões ultramarinas como afirmado por Dias334 e Domingues335. A trajetória desse agente
histórico foi prova concreta de que o conhecimento chegava às possessões do além-mar português, se reelaborava e produzia novo conhecimento, justamente de acordo com a teoria
330 Ibidem, p. 43. 331 Ibidem, p. 112. 332 Ibidem, pp. 115 e 116.
333
ABREU, Jean Luiz Neves. A colônia enferma e a saúde dos povos: a medicina das luzes e as informações sobre as enfermidades da América portuguesa. História, Ciências Saúde-Manguinhos, Rio de Janeiro, v.14n. 3, jul- set 2007.p. 761-778.
334 DIAS, Maria Odila da Silva. Aspectos da ilustração no Brasil. Revista IHGB. Rio de Janeiro, v.278, 1968. p.
105-170.
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Global transcontinental das ciências defendida por Secord336, Raj337 e Patiniotis338. Produzia-
se ciência em Angola e também no Brasil, onde as plantas e os conhecimentos circulavam.
Pelo circuito Atlântico, muitas doenças chegaram ao Brasil e esse contato com diversos lugares e diversos povos foi capaz de fazer as informações circularem. Rodrigues339
compartilha da visão de Domingues, Kury340 e Bastos341, e no que diz respeito à circulação do
conhecimento, admitindo que no interior dos navios, em contato com os africanos e suas terapêuticas, aliados com conhecimentos de sua formação europeia, havia uma intercessão entre a medicina europeia do século XVIII e XIX com as práticas médicas populares e as experiências dos embarcadiços. O conhecimento médico estava em trânsito, chegando às novas localidades, se reelaborando e se adaptando diante dos novos contatos. Dentro dessas rotas atlânticas do tráfico que é possível perceber as doenças corriqueiras, que atingiam a escravaria e que se disseminavam tanto na América portuguesa quanto em Angola. Como esses conhecimentos eram propagados nessas rotas podem-se identificar semelhanças de cura nas doenças compartilhadas entre Brasil e Angola.
336SECORD. Knowledge in transit. Knowledge in transit. op.cit.
337RAJ. Beyond Postcolonialism… and Postpositivism: Circulation and the Global History of Science. op.cit. 338PATINIOTIS. Between the local and the global: History of science in the european periphery meets. op.cit.
339 RODRIGUES. De costa a costa: escravos marinheiros e intermediários do tráfico negreiro de Angola ao Rio
de Janeiro (1780-1860). op. cit., p. 254.
340 KURY. Homens de ciência no Brasil: impérios coloniais e circulação de informação (1780-1810). op. cit.
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