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5. DRØFTING

5.2 Rekreasjon i behandlingshverdagen

A presença anarquista n'A Lanterna era marcante. Segundo Fernando Antonio Peres, A Lanterna pode ser caracterizada como “um periódico anarquista que congregava o apoio dos anticleticais”. Já Boris Fausto caracterizou a folha como sendo “um irreverente órgão franco-maçom, com uma linguagem insólita”. Para Peres deveria ser aplicada somente à terceira fase, pois ao analisarmos o primeiro número de sua terceira fase, do dia 13 de julho de 1933, verifica-se a seguinte inscrição:

O nosso não é o anticlericalismo que, com algumas medidas anódinas e inofensivas contra o “poder eclesiástico”, procura, não favorecer a liberdade e o povo, mas fortalecer outro poder, outro privilégio, prolongando a vida e salvando-o das

25 Para mais informações ver o trabalho de Silva, PEREIRA, Victor. Pedro Augusto Mota: Militância Libertária e verbo de fogo, dissertação de mestrado, UFC, 2013.

26A VOZ DO TRABALHADOR. A Voz do Trabalhador - Órgão da Confederação Operária Brasileira.Rio de Janeiro, ano VII, n. 63, 1 de outubro de 1914, p.1.

ameaças de um movimento reivindicador de justiça social. Esse anticlericalismo, que repudiamos com asco, é instrumento de governo e de opressão, é o último refugio dos regimes na agoniza.27

Na década de 1930 em São Paulo – mas podemos dizer, em todo o Brasil – existiam dois tipos de anticlericalismo. Um deles era esse negado pela Lanterna, ou seja, um tipo de anticlericalismo defendido pelos republicanos, que não representava nenhuma ameaça ao poder eclesiástico e que acabava por fortalecer outra forma de poder, o governo. Assim sendo, tal anticleticalismo atacado pela Lanterna, não se opunha à opressão e dominação do povo.

Já o anticlericalismo defendido pelos anarquistas era aquele que viam na Igreja e nos padres os grandes dominadores ideológicos da sociedade capitalista, e o Estado como sendo a instituição detentora do poder político. Por isso, A Lanterna apresentava ao leitor um outro tipo de anticlericalismo, do qual chamaram de

anticlericalismo integral:

Nada tem de comum com o nosso anticlericalismo integral – contra a Igreja, como poder político, econômico e religioso, como força material e espiritual, como sustentáculos de tiranos e apoio de privilégios, como estorvo à emancipação social. Nós não queremos consolidar privilégio algum, defender a “supremacia” de poder algum. Somos por todas as liberdades contra todas as opressões.28

O anticlericalismo integral via assim a Igreja como uma instituição que concentra em si tanto o poder político, quanto econômico e religioso. Tal poder era de ordem material e ideológica, sustentando os tiranos e mantendo os privilégios, elementos contrários a completa emancipação da sociedade. O anticlericalismo integral era, portanto, à favor de todas as liberdades, individuais, coletivas, morais, econômicas e políticas. A integralidade desse anticlericalismo confundia-se, portanto, com o projeto anarquista, pois este

visa precisamente a construção de uma nova civilização por meio de relações econômicas igualitárias, uma estrutura social libertária e um comportamento moral

27 A LANTERNA, O nosso anticlericalismo. Jornal A Lanterna, 13 de junho de 1933. 28 Idem.

adequado.(JOYEUX, 1999, p.37)

Desassociar a esfera política, da econômica e moral, é impossível para a perspectiva anarquista. Para o anarquismo a dominação estatal se realiza através da dominação econômica e moral, legitimada pela burguesia, grande guardiã da propriedade privada; e, no contexto da primeira metade do século XX, pela Igreja Católica, bastião da resignação cristã, onde ante a negatividade da existência humana, causadas pela exploração e dominação capitalista, assume uma posição positiva e conformada esperando a vida pós-morte.

Os anticlericais integrais do jornal A Lanterna criaram, assim, três estratégias de combate à Igreja e ao anticlericalismo de Estado:

a) Luta contra os padres, para mostrar as contradições da sua vida com a sua doutrina, o seu sacerdócio como profissão, tendo o interesse material por base, etc.. [O] que é importante para as camadas mais simples da população, que vêem o padre e não os dogmas e mitos, como importante foi, para o povo que lia os enciclopedistas, a propaganda pelo libelo, pelo panfleto, contra a realeza, a nobreza e o clero.

b) Luta contra a influência política da Igreja – pela ação direta, pela propaganda extraparlamentar.

c) Propaganda para mostrar o poder da Igreja, a Igreja como empresa, como auxiliar da exploração capitalista, como divisora do proletariado, fautora de crumirismo. Este ponto é importantíssimo.29

O anticlericalismo integral muito se assemelhava ao sindicalismo revolucionário para a luta sindical. A luta levada a cabo pelos anarquistas nos sindicatos tinha como estratégia a utilização do sindicalismo revolucionário, pois este possibilitava que um maior número de pessoas pudesse entrar nos sindicatos independente de sua posição política ou religiosa – neutralidade política. O critério de adesão ao sindicato era definido a partir de sua condição de trabalhador. Por isso, o uso da ação direta – boicote, sabotagem e greves parciais e gerais – como ferramenta de pressão, reivindicação e construção social. Da mesma forma, os anarquistas faziam uso do anticlericalismo integral como estratégia de ação,

agregando os livres-pensadores de toda estirpe, desde o franco-maçom até o espírita, ateu ou cientista. Pela abrangência do movimento, muitos trabalhadores também aderiam à ele, na medida em que, para Lanterna, a dominação moral se destinava, principalmente, para esta classe social.

A ação direta contra a Igreja se materializava através de conferências, palestras, construções de escolas racionalistas e em campanhas contra a impunidade de padres e da Igreja. Neste último aspecto, os anticlericais integrais atacavam as dissonâncias da doutrina cristã com as ações dos sacerdotes, mostrando que os padres eram avarentos, corruptos, incoerentes etc., mas também colocando os clérigos como pessoas que exerciam sua função simplesmente para terem mais poder político e econômico. Tal propaganda contra os sacerdotes, no geral, era tão fundamental quanto foi a propaganda iluminista realizada antes da derrubada do Antigo Regime na França.

O ataque foi feito não apenas contra os padres, mas também, e inclusive, contra a instituição Igreja em si, sendo este aspecto “um ponto importantíssimo”. Mas por que essa era uma questão tão importante? Através de suas análises os anarquistas anticlericais integrais associavam o poder da Igreja ao próprio sistema capitalista, por isso a Igreja era tida como uma empresa que auxiliava a exploração do proletariado na medida em que os dividia e infiltrava no movimento operário os “crumiros”, ou seja, pessoas que furariam as greves levadas a cabo pelos anarquistas. Este ponto é fundamental, pois reconcilia a luta anticlerical com a luta sindical. Em outras palavras, era impossível pensar numa luta contra o capitalismo sem levar em consideração os aspectos culturais que o constitui.

Esse traço, Leuenroth carregou até a terceira fase d'A Lanerna, e, justamente por isso, o periódico foi rigorosamente vigiado pelo Departamento de Ordem Política e Social (DEOPS), criado em trinta de dezembro de 1924. Os investigadores do DEOPS apreenderam uma série de materiais produzidos pelos libertários, tais como livros, jornais, panfletos cartas trocadas entre militantes, manuscritos e fotos particulares. Segundo o pesquisador Rodrigo Rosa da Silva, utilizando-se dos documentos produzidos pela polícia política e social de São Paulo, o DEOPS apontava a folha anarquista como um “perigo à ordem social”. Sendo assim,

“podemos medir a ameaça sentida pelas autoridades e os motivos que desencadearam os mecanismos de repressão a esses livros e jornais como meio de atingir o movimento anarquista como um todo, para além do castigo aos indivíduos, buscando golpear de maneira severa sua produção intelectual e uma de suas principais formas de expressão pública. Assim, julgava-se diminuir a circulação de informações contrárias aos interesses do governo, ceifando de vez as “idéias proibidas”, que tinham esses “papéis impressos” como um dos seus mais importantes meios de divulgação e popularização.” (SILVA, 2005, p.51)

Silva, ao analisar os prontuários do jornal A Lanterna, coloca que a presença de policiais infiltrados nas palestras e meetings anarquistas era comum. Os “secretas” tinham como missão cobrir cada grupo suspeito. Os investigadores localizavam os mais aguerridos militantes e a polícia logo começava seu trabalho de repressão. Com isso foi levada à cabo uma perseguição às diversas Ligas Anticlericais

em novembro de 1935, sob o temor das agitações comunistas, a Liga [Anticlerical de Campinas] foi fechada e seu responsável Atílio Pessagno preso. Na sede, a polícia encontrou diversos números do periódico A Lanterna, assim como dezenas de outros jornais e livros de teor anarquista. (Idem, p.53)

Portanto, o jornal A Lanterna não era “um irreverente órgão franco-maçom, com uma linguagem insólita” em sua terceira fase, como escreve Boris Fausto. Isso seria reduzir por demais sua abrangência política. O jornal, de tendência claramente anarquista, servia como espaço político de organização das Ligas Anticlericais, de debates entre militantes, da realização de campanhas contra os padres e a Igreja, assim por diante. Tal jornal, era tão importante que os órgãos de repressão do Estado da “República Nova”, no governo de Getúlio Vargas, continuariam a vigiá-lo. E, nesse contexto, os anarquistas já sabiam que como a “velha” República, a Igreja Católica iria conservar as mesmas intenções:

“É excusado tentar escapar, pois serás minha, como a 'velha' o foi”30