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Musikkterapi i gruppe ved et behandlingsfellesskap i TSB

3. TEORI

3.2 Musikkterapi i gruppe ved et behandlingsfellesskap i TSB

A educação discutida não apenas por Kropotkin, mas também por Elisée Reclus e diversos anarco-comunistas, ganhou uma nova tonalidade ao introduzir, de maneira mais profunda, a questão da ciência. Apesar de Paul Robin já ter ressaltado a importância da ciência para a educação, os comunistas libertários irão potencializá-la ao máximo. A ciência, e mais especificamente o positivismo, possuía como principal, mas não única finalidade, o combate à visão religiosa do mundo, na busca de uma laicidade do conhecimento. Os coletivistas também realizaram o

8 Este tema é debatido com maior profundida na tese de doutorado do pesquisador SILVA, Rodrigo Rosa, op. Cit.

combate à religião, partindo, contudo, de uma perspectiva filosófica, como podemos observar no livro de Bakunin, Deus e o Estado.9

Os anarquistas comunistas debateram a ciência não apenas no campo da educação, mas também no próprio seio do anarquismo. Através dela, revisaram os princípios que fundamentavam suas ações e interpretações da sociedade, e assim os rearranjaram de tal forma que os aspectos da sociedade futura também foram modificados. Vale lembrar que o contexto do qual estamos nos referindo é aquele do final do século XIX e começo do século XX, onde o discurso científico ganha força em todas as áreas do conhecimento, e mesmo antes de Kropotkin e Reclus, Marx e Engels haviam buscado alçar o socialismo ao pedestal de científico, relegando a todos os outros tipos de socialismo a pecha de “utópicos”, inclusive o anarquismo. Mas, como nos coloca o pesquisar Rodrigo Rosa da Silva:

Acreditamos que para compreender melhor a percepção anarquista em relação à ciência devemos mover essa balança numa direção contrária àquela observada ao longo do século XX nas interpretações acadêmicas. É necessário demonstrar que os anarquistas estavam inseridos num contexto histórico, político e social do final do século XIX tanto quanto os marxistas e, qualquer um que dedique alguns minutos para estudar diretamente as fontes deixadas pelos anarquistas, ou seja, seus livros e jornais, ao invés de repetir fórmulas prontas propagadas por terceiros, carregadas de preconceitos e disputas políticas, poderá comprovar que o silenciamento referente aos anarquistas do campo científico é, no mínimo um erro de análise histórica, quando não uma mentira difundida e reproduzida sem a necessária verificação ou crítica. Grupos importantes de socialistas em sua gênese nos anos da Primeira Internacional dedicavam-se à ciência como ofício ou como método de compreensão do mundo. Marxistas e anarquistas buscavam, ambos, legitimar suas teorias no campo científico. A explicação científica do mundo, dos fenômenos e das relações era um desejo comum à época entre socialistas, livre-pensadores e ateus, por um lado para se contrapor às visões deístas, religiosas ou mesmo metafísicas recorrentes naqueles anos, e por outro, para ganhar força de argumento quase isento de refutação. Tal era a autoridade do discurso científico. (SILVA, 2014, 87-88)

Mergulhados no debate acalorado sobre a ciência, socialistas, anarquistas e marxistas criaram interpretações da realidade que buscavam se legitimar. Na

procura dessa validação, promoveram a própria transformação do socialismo. Se antes para os coletivistas “quem não trabalha, não come” e, portanto, cada qual deveria receber de acordo com o fruto de seu próprio trabalho, para o comunismo libertário cada indivíduo deveria trabalhar segundo as possibilidades e forças que cada um possui, pois a criança, o doente e a pessoa idosa, não conseguem trabalhar igualmente a uma pessoa de idade mediana e perfeitamente saudável, por isso, seria injusto forçar estas pessoas a trabalharem muito mais para ganharem a mesma quantia do que uma pessoa jovem e saudável, mesmo porque, na maioria dos casos, aqueles doentes e debilitados fisicamente, poderiam necessitar muito mais do que as pessoas sem essas limitações, fossem elas físicas ou não. Portanto, a frase que resume o princípio anarco-comunista e que o distingue do coletivismo é: “A cada qual segundo suas possibilidades, a cada um segundo suas necessidades”.

Apesar de parecer que ambos os pontos de vista, coletivista (retribuição segundo o trabalho realizado) e comunista libertário (o trabalho e o consumo livre), estivessem debatendo sob a mesma esfera, a econômica, esta última residia num “lugar” diferente e que podemos observar através dos escritos dos geógrafos e anarquistas Kropotkin e Reclus, por exemplo. Ambos, antes de começarem sua militância no anarquismo, eram cientistas e importantes debatedores da teoria da evolução, e que levaram tal discussão para o interior da perspectiva anarquista.

Reclus, em seu livro A Evolução, a Revolução e o Ideal Anarquista nos diz que a evolução nada mais é que

o movimento infinito de tudo o que existe, a transformação incessante do Universo e de todas as suas partes desde as origens eternas e durante o infinito dos tempos. (…) Em comparação com este fato primordial da evolução e da vida universal, o que são todos estes pequenos acontecimentos denominados revoluções: astronômicas, geológicas ou políticas? (…) É por miríades e miríades que as revoluções se sucedem na evolução universal; mas, por mínimas que sejam, elas fazem parte deste movimento infinito. (RECLUS, 2002, p.21)

E assim, Reclus integra o ser humano à natureza, as transformações

nos coloca o historiador Eduardo A. S. Cunha, ao estudar sua concepção de História, o geógrafo e anarquista francês

compreende que o espaço pode ser dividido em dois níveis. O meio-espaço, constituído pela relação entre as ações humanas (suas conformações sociais, políticas, econômicas e culturais) e as forças da natureza (desde o clima até as correntes magnéticas, passando pela conformação do solo e a hidrografia, não se esquecendo até dos fluxos de energia solar). Desta reflexão sobre o meio-espaço, vale salientar a ligação feita por Reclus entre Natureza e Sociedade e, em consequência disso, Reclus não enxerga a divisão entre 'Geografia Física' e 'Geografia Humana', divisão adotada com frequência por muitos geógrafos, pelo contrário, a sua geografia social tem como cerne a relação entre as duas esferas. (CUNHA, 2013)10

O outro nível trabalhado por Reclus, e que Cunha nos apresenta, é o meio- tempo, onde o espaço é fruto de uma evolução histórica de diversos processos, ou seja, de um movimento ininterrupto da ação de homens e mulheres no tempo que se gestam em diferentes contextos e que podem ser observados, apesar de terem acontecido em outros períodos, no presente. O que Reclus propõe, então, é buscar estudar a interação entre o ser humano e a natureza, o que fica mais evidente em sua obra O Homem e a Terra, escrito ao longo de seis volumes.

Da mesma forma, porém se utilizando de uma abordagem bem diversa, Kropotkin realiza os mesmos deslocamentos. Quando ainda jovem, tendo sido muito influenciado pelas leituras de A Origem das Espécies de Charles Darwin, em seus estudos na Sibéria Oriental e no norte da Manchúria, Kropotkin pôde estudar uma série de animais. Em seu livro Apoio Mútuo, um fator de evolução, diz que buscou em suas observações as ferozes lutas que os animais travavam entre si pela sobrevivência, todavia, o que encontrou foi algo muito diverso. Ao invés de luta, pôde observar que os animais colaboravam entre si, e logo ficou espantado. A conclusão a que chega é que pelo fato do ambiente estudado por ele ser hostil à maior parte dos animais que ali vivia, aqueles que cooperavam entre si tinham a maior chance de sobreviverem do que aqueles que buscavam sozinhos seus alimentos, isto porque, a escassez de alimentos forçava os indivíduos da mesma

espécie a se ajudarem mutuamente. O que era muito diferente das descrições de Darwin, pois os lugares que este visitou não havia escassez, mas sim abundância. No entanto, Kropotkin ainda ressalva que mesmo em regiões de abundância de alimentos, ao olharmos para o interior de cada espécie e não da relação de uma com outra, vemos a colaboração, já que as leoas, lobos e os seres humanos, caçam em bandos, por isso a Ajuda ou Apoio Mútuo era um elemento importantíssimo para a evolução dos animais.

Dizendo isto, Kropotkin não negava que houvesse competição entre as espécies e seus indivíduos, mas ressaltou que os estudos até então realizados tinham dado maior importância para a competição do que para o apoio mútuo.

Partindo dessa visão científica do mundo, o anarco-comunismo de Kropotkin e Reclus, fundamentaram as bases do novo anarquismo. Quando diziam que cada indivíduo deveria trabalhar segundo suas possibilidades, afirmavam que cada indivíduo possui capacidades naturais que lhes são próprias, sendo assim impossível quantificar o resultado de seu trabalho quando este é parte integrante da sobreposição e relação de outros trabalhos, intelectuais e manuais, do passado e do presente. Portanto, se a quantificação do trabalho é impossível de ser realizada através de cálculos, cada um deve consumir aquilo que lhe é necessário, ou seja, o suficiente para a satisfação física e cultural.11

A educação anarquista, então, dentro do contexto da ciência, busca fazer com que todas as potencialidades naturais das crianças possam ser desenvolvidas dentro de um ambiente que se inspire a prática do apoio mútuo. Da mesma forma, o anarquismo transforma-se de maneira decisiva sob o olhar da ciência, fazendo com que seus militantes passem a refletir muito mais sob o ponto de vista das necessidades, do que das capacidades de trabalho de cada um. E sob este aspecto o anarco-comunismo olha não apenas para a esfera da produção, mas também, e inclusive, para o consumo que cada indivíduo e coletividade necessitam.