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Rekonstruksjon av monsterfilm

3. Metode

4.11 Rekonstruksjon av monsterfilm

das sociedades tradicionais, sempre me atraiu muitíssimo o diferente, o estrangeiro. Fui, aos poucos, por meio de diversos diálogos, com- preendendo as razões da atração. Entendi, ainal, que ela, de certo modo, era fruto de minha empatia pela estrangeira que enxergava em mim mesma.17

A casa do outro, a vida do outro, o pensamento do outro, a dor do outro e todas as coisas do outro sempre estiveram no alvo do meu interesse e da minha curiosidade. Católica e sedenta de revelações e epifanias, estava sempre atrás de mais explicações sobre a existência. Busquei tais explicações mesmo quando não entendia ainda que era isto que fazia e o iz de vários modos: nos romances aos quais me en- tregava sem reservas; nas arrumações de gavetas e baús; na atenção aos cochichos e segredos dos adultos; na apreciação inocente da pintura; nas viagens à casa da minha vó; nas visitas às casas de tias e amigas. Cada segredo que se me revelava era como o achado de mais uma peça de um imenso quebra-cabeça cujo desenho inal até hoje não enxerguei.

A verdade é que, embora incada em Sumé, vivia entre muitos mundos, sendo o da minha imaginação aquele em que me sentia mais segura. Sentia uma curiosidade quase doentia pelo que habitava o outro, mas somente muito depois descobri que, ainal, era a mim mesma que buscava desvendar. Era o meu sentimento de desconforto em relação

às coisas estabelecidas que me lançava à compreensão de outros uni- versos. Em A consciência das palavras, Canetti (1990, p. 27) apresenta o problema de forma semelhante quando, a propósito da sua relexão sobre o “inquietante fenômeno do espírito humano de esquivar-se do concreto”, airma que o “entusiasmo dos gestos, o aventuroso e ousado das expedições a lugares distantes, é ilusório quanto a seus verdadeiros motivos: não raro trata-se simplesmente de evitar aquilo que está mais próximo, porque não nos sentimos à altura dele”.

Tempos depois, entendi que não é apenas uma questão de não se sentir à altura do que está próximo, mas de ter recursos para supor- tá-lo. Seja fugindo de si ou buscando a si, todos os antropólogos que se aventuraram na compreensão profunda do outro, acabaram por se de- parar com a própria profundidade, os próprios enigmas. Acima, Canetti sugere que o esquivar-se do concreto é muito mais comum e, portanto, muito mais humano do que a antropologia gostaria de crer.

Provavelmente pela necessidade de me esquivar daquele “con- creto” insuportável que, de certo modo, havia ajudado a construir na Faced, reaproximei-me do meu marido e ilhos, meio abandonados du- rante o período do conlito, e juntos homeopaticamente imergimos no sonho da saída para o doutorado. Sentia-me tão paranoica depois de dois anos na linha de combate que acreditava que, dada a extensão do poder dos meus “inimigos”, não tinha qualquer chance de passar na seleção de um programa de doutorado no Brasil.

O apoio de Sérgio, meu marido, deu-me combustível para voltar a sonhar com o “mundo vasto mundo” que eu divisava quando ainda estudava Ciências Sociais na Paraíba. Voltei a sonhar com a antro- pologia também como um refúgio da minha diferença. Era sobretudo esta que urgia compreender, uma vez que experimentara sua perigosa força. Excluída a possibilidade de estudar no Brasil, voltei a pensar na França, onde, já na época do mestrado em Sociologia em Campina Grande, eu pretendia fazer o doutorado. Consultei amigos e colegas que haviam estudado lá. Apesar das coisas boas, eles enfatizavam as diiculdades dos estudantes que tinham ilhos pequenos. Achavam que, nesses casos, era melhor ir para os Estados Unidos ou Canadá cujas universidades ofereciam moradia para os estudantes com família e

DOS RISCOS DA DIFERENÇA: etnografia de um percurso acadêmico 67

onde boas universidades podiam ser encontradas em cidades pequenas. Além disso, por que se esforçar tanto para aprender o francês quando poderia aproveitar a oportunidade do doutorado para me tornar proi- ciente no inglês, a língua imperial, a língua franca?

Mergulhei simultaneamente no estudo do inglês, da antropo- logia americana e na busca de universidades com programas na minha área de interesse, o campesinato. Passei muitas tardes na companhia de Clifford Geertz, que me seduziu com uma antropologia mais próxima da realidade e da política do que aquela com a qual eu me deparava nas de Malinowski e Lévi-Strauss.

Além dos insights dessas leituras, a experiência do conlito na arena proissional não mais me permitia a inocência de antes. Foi nesse período, numa das viagens de campo à Fazenda Califórnia, que comecei a me dar conta de que o conlito que aqueles trabalhadores viviam em torno do “coletivo” e do “individual” era muito semelhante ao conlito que eu própria estava vivendo no meu ambiente de trabalho.

Intuitivamente percebia, tal como depois aprendi em Bourdieu e Wacquant (1992), que não havia qualquer diferença entre as ações da- queles camponeses, na política da associação comunitária, e as nossas, na política da Faculdade de Educação. Não nos orientava, a nós intelec- tuais “orgânicos” e professores, nenhuma lógica diferente daquela que orientava aqueles camponeses em disputa. Tanto quanto eles, nós nos guiávamos pela lógica da prática, pelo que Bourdieu chama de “senso prático”. A ilusão da diferença era apenas uma expressão da separação existente entre a lógica da prática e a do conhecimento teórico. Ou seja, à política dos camponeses, eu aplicava as regras do conhecimento teórico que, então, não aplicava ainda à política da minha instituição.

Próxima do sentido da objetivação do observador, de Bourdieu, a noção de práxis revolucionária, de Karl Marx, também pressupõe a ca- pacidade daquele que relete sobre o mundo de se enxergar criticamente e de modiicar sua prática em função dos insights que o investimento da teoria nos “dados” oferece. Mas, como eu já havia chamado a atenção no meu artigo “A educação popular entre a ciência e a fé: novas ques- tões de um velho dilema”, não era ciência que ali se fazia, mas proseli- tismo e recrutamento de militantes.

Era tudo isto que percebia enquanto buscava compreender a ló- gica da política daqueles trabalhadores rurais e, à distância, também a da nossa política. Não tinha ainda, porém, elementos para compreender de que se constituía o desaio da objetivação do próprio pesquisador. Também não tinha condições de antever todas as consequências do “in- cidente” do qual me havia tornado protagonista, mas uma coisa perma- nece certa: eu não teria ido parar tão longe caso não tivesse subvertido as regras do silêncio e do segredo, preciosas em qualquer política.

RIVERSIDE: REDESCOBRINDO-ME