1. Innledning
2.1 Nasjonen, sett gjennom hvems øyne?
As mudanças e revoluções prometidas pelo flower power da década de 1960 não se concretizaram: o que se iniciou como um forte lampejo de esperança terminou rapidamente com um quadro pouco favorável a essa mutação social. A juventude brasileira e fortalezense continuava a militar contra a ditadura, mas esta só caiu em fins dos anos de 1980. Finalmente começavam a surgir em Fortaleza bandas originais de rock, fazendo “rock cearense para cearenses” – e neste quesito não poderia deixar de mencionar a banda O Peso, de importância fundamental para a história do rock “cabeça- chata”.
Outras importantes bandas cearenses surgidas no período setentista do século XX foram Nave, Íris Sativa (formada no fim dos 70’s, na qual a já falecida vocalista Lily Alcalay, que se tornou conhecida intérprete de jazz, começou sua carreira musical) e Perfume Azul (liderada pelo vocalista Lúcio Ricardo), Gang da Cidade (também formada em fins dos 70’s), que praticavam mais ou menos o mesmo estilo, hard rock (MENDONÇA, 1998).
A banda O Peso surgiu com intensidade e se destacou em nível nacional, comandada pelo vocalista Luís Carlos Porto, hoje uma “figura folclórica” do rock alencarino. A banda foi formada por Luís Carlos Porto (voz), o argentino Gabriel O'Meara (guitarra), Constant Papineau (teclado, já falecido, era cearense), Carlos Scart (baixo) e Carlos Graça (bateria) na cidade do Rio de Janeiro, no ano de 1974. A história do seminal grupo iniciou-se em 1972, quando Luís Carlos e seu parceiro Antônio Fernando foram do Ceará para o Rio para participar do "VII Festival Internacional da Canção", com a música "O pente". O nomadismo das bandas cearenses de rock tinha se iniciado...
Após essa participação no evento carioca, o duo se dissolveu, mas Luís Carlos fez vários contatos com músicos da Cidade Maravilhosa. Dois anos depois, Porto retornaria ao RJ e formaria O Peso. Já em 1975, o grupo assinou com a gravadora Polydor (uma major23 de então), lançando o LP, hoje clássico, Em busca do tempo perdido, no qual hibridizavam elementos de blues e rock, resultando num hard rock (ou rock pesado) que instigava os jovens da época – e trazia o hit “Cabeça Feita”, que foi
muito executado em rádios Brasil afora e rendeu vários shows para O Peso. No mesmo ano, lançou também um compacto, que continha as faixas “Sou louco por você” e “Me
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Diz-se major quando uma gravadora é de grande porte e oferece contratos e estruturas vultosos aos artistas. Exemplos: Polydor, Sony, BMG, Som Livre etc.
chama de amor”. No final dos 70’s o grupo encerrou as atividades, retomando-as em 1984, com o grande boom do rock nacional, contando apenas com Porto da formação original. Nesse período, apresentou-se em alguns shows, nos quais rememorava seu antigo repertório e algumas composições solo. Não lançaram mais discos desde então.
travar contato com este vocalista (Porto também toca guitarra, violão e gaita). A década de 1970 é essencial para uma imersão nos primórdios do rock original do Ceará.
Mas nem só de hard rock e “paz e amor” tardios vivia o rock e a sociedade fortalezenses: a revolução não ocorreu e a ressaca disto foi potente. Surgiam outros estilos de rock no mundo (glam, metal, progressivo etc.), mas os herdeiros dessa “ressaca rocker” foram mesmo os punks. O movimento eclodia no Brasil após 1977, quase que simultaneamente com o que ocorria nos EUA, Inglaterra, Alemanha e outros países. Mesmo que de forma um pouco defasada em relação ao ritmo das mudanças roqueiras, o Brasil (Fortaleza inclusa) pegava carona nas vertentes que nasciam nos 70’s.
O fenômeno punk tomou o Brasil de assalto e tomou corpo em São Paulo (capital e ABC Paulista), no Rio de Janeiro e em Brasília (o que geraria o embrião de bandas que explodiram nos anos 80 influenciadas pelo punk e pelo pós-punk/dark: Legião Urbana, Plebe Rude, Capital Inicial, Mercenárias, Escola de Escândalos, Detrito Federal, Arte no Escuro etc.). Em meados de 1978/79 já havia adeptos do punk em Fortaleza (MENDONÇA, op. cit.), já caracterizados com a atitude e o dress code que fizeram do punk uma corrente ético-estética no rock e na sociedade.
O som punk chegou a Fortaleza com a pioneira Ramortes, a primeira a fazer punk rock na capital cearense e que inspirou muitas outras que surgiram posteriormente. Os punks vieram com seu desencantamento niilista para “pisar nas flores da revolução” e resgatar o rock para suas raízes mais espontâneas, algo de primitivas, sem os arroubos virtuosísticos que pautavam o rock setentista em gêneros como o hard rock e o rock progressivo. Para o autor argentino Juan Kreimer (2006), 1977 foi “o ano em que o rock comeu a si mesmo”, se referindo à autofagia (e também à antropofagia) que a “música selvagem” praticada pela nascente onda punk causou nas estruturas do rock. O punk é o “back to the basics” do qual o rock foi feito e até hoje é dos estilos roqueiros mais
tocados, pesquisados e vivenciados.
Após o boom do punk surgiram novas vertentes roqueiras impulsionadas pelo espírito “faça você mesmo”: new wave (com Blondie, Television, Devo, Stray Cats etc.) e o pós-punk, que desembocou no gótico/dark (Joy Division, The Cure, Siouxsie and
the Banshees, Bauhaus, Sisters of Mercy, Asylum Party etc.). Não há registros que em Fortaleza tenha tido bandas nos estilos. Em uma de minhas conversas com Amaudson Ximenes, guitarrista de uma das mais antigas bandas de metal cearense em atividade (Obskure), este me disse:
Bicho, no fim dos anos setenta, como falo em minha monografia, havia bandas de hard rock, progressivo, blues rock e punk, mas new wave e gótico não tinha; mas havia uma galera que curtia esse tipo de som, que nas tertúlias e eventos antigos e precários colocavam fitas k-7 pra escutar e dançar. Só lá pela década de 80 e 90 que o rock aqui foi se diversificando mais, aparecendo outros estilos... Eu acompanhei o punk e o metal nascerem aqui e até hoje eles são estilos influentes, tanto é que ainda tô nessa...
Outro personagem importante para a consolidação do rock no Brasil foi o cultuado Raul Seixas, que seria como um “padroeiro” para a vindoura geração de
rockers que nos anos de 1980 iriam dar o que falar e influenciar levas subseqüentes de bandas nacionais, inclusive em Fortaleza: há pelo menos um cover de Raul Seixas, a banda Salt, e outros grupos, como Arte Proibida, também se inspiram no roqueiro baiano. Estas bandas fortalezenses estão em plena atividade; ambas tocam muito em calouradas e festivais de pequeno porte.
Leudo Jr., vocalista e guitarrista da Arte Proibida afirma: “Raul, ao lado de Mutantes e Secos & Molhados é totalmente necessário pro desenvolvimento do rock daqui, ele é referência absoluta. Não canso de ouvir o som dele; sou malucobeleza e me identifico”. A prova da fidelidade de Leudo para com o falecido roqueiro é notória: ele ostenta uma tatuagem que estampa o rosto do cantor em seu braço direito. Arthur Dapieve, jornalista e crítico musical, aponta Seixas como o “pai do BRock”, o rock brasileiro como é conhecido hoje. Cito-o:
(...) Raul se tornaria um ponto de referência, tanto para aqueles que insistiam
em fazer rock ‘n’ roll no Brasil quanto para aqueles que insistiam em ouvir
no ritmo as trombetas do apocalipse musical local. Raul fazia rock ‘n’ roll temperado por seu sotaque nordestino, com os pés na Terra e não em algum outro planetóide, menos hermético, em seu misticismo do que os grupos progressivos (DAPIEVE, 1995: 19).
Raul Seixas, Made In Brazil (que fez show em Fortaleza em outubro de 2008), Mutantes, Secos & Molhados formaram a linha de frente do rock brasileiro neste período setentista, dando a deixa para a realmente “primeira” explosão em larga escala desta música na década de 80. Vamos a ela, assim como a seus desdobramentos nas duas décadas seguintes.