Estudar a memória é trabalhar numa fronteira permanente entre “objetividade e subjetividade”. A memória nos aponta fatos, eventos, percepções, acontecimentos,
espaços, instituições e vivências cotidianas que não podem ser negadas, é essencialmente subjetiva. Ela é atemporal e a-histórica. Podemos observar sua presença nas diversas manifestações do inconsciente, seja através da fala, das lembranças, das fantasias, dos sonhos e dos delírios dos sujeitos. A lógica das recordações é o da emoção. É o aspecto subjetivo, o recorte particular em que se misturam épocas, assuntos, sentimentos ligados ao objeto investigado. Essas emoções/sentimentos são aqui entendidas inclusive como sendo constituintes do sistema sensorial que, por sua vez, é parte não só do aparelho psíquico responsável pela recepção dos estímulos/sensações, mas também do registro da memória.
Em alguns trechos dos seus estudos sobre a memória, Freud (1889) destaca que:
[...] o conteúdo mais frequente das primeiras lembranças da infância constitui-se de um lado, das situações de medo, vergonha, dor física etc. e, de outro, de acontecimentos importantes com doenças, mortes, incêndios, nascimentos de irmãos e irmãs etc. Poderíamos, portanto inclinarmos a presumir que o princípio que rege a escolha das lembranças é o mesmo, tanto no caso das crianças, quanto no caso dos adultos. É compreensível, embora este fato mereça ser explicitamente mencionado de que as lembranças retidas da infância evidenciem, necessariamente, a diferença entre o que desperta o interesse da criança e do adulto (p. 333).
Dando continuidade à concepção de Freud a respeito do funcionamento da memória, Tanis (1995) acrescenta que “é importante ressaltar que a memória, bem como o aparelho psíquico, obedece a um processo de constituição que não é exclusivamente maturativo, mas depende das experiências do sujeito” (p.46).
Nessa perspectiva, a memória imprime a constituição da subjetividade après-
coup3, haja vista que é no processo de rememoração e ressignificação das lembranças
que o sujeito se constitui. Trata-se de recuperar a dimensão do passado vivo no presente. É a tomada de consciência do sujeito daquilo que ele é – sua verdade histórica e sua constituição.
3
Traduzido do francês como ao-depois, que repete e transforma por um mesmo gesto. Sinônimo de a
Em 1889, no texto Lembranças Encobridoras, Freud escreve que a recordação
de um acontecimento infantil, caracterizada pela insignificância de seu conteúdo, permanece na memória com surpreendente nitidez, contudo, essa lembrança que não é esquecida encobre outros fatos de maior importância. Desse modo, ela funciona como um roteiro sobre o que foi recalcado, esquecido. Alguns fatos dentro das lembranças são omitidos, por razões que fogem à consciência do homem. Muitas vezes isso ocorre devido à resistência do indivíduo em trazer de volta o recalcado, fazendo com que se consiga um equilíbrio e consequentemente um alívio para o aparelho psíquico, reconhecendo que tal acontecimento poderia ter sido demasiadamente doloroso. Por isso transferimos a cena principal para algo, às vezes, sem significado, mas que com uma análise mais profunda, acaba nos levando para a fonte do conhecimento. Freud (1889) chama esse fenômeno também de “lembrança encobridora”. Seguindo essa linha de raciocínio, podemos afirmar também que a memória pode ser falseada, ou seja, possa vir a sofrer mudanças, sendo ela, portanto, constantemente remodelada.
Com efeito, sempre que numa lembrança, o sujeito assim aparecer como objeto entre outros objetos, esse contraste entre o ego que age e o ego que recorda pode ser tomado como uma prova de que a impressão original foi elaborada. Nessa perspectiva, as lembranças são elaboradas e reelaboradas constantemente. Em cada processo de rememoração, essas lembranças são ressignificadas, ou como o próprio Freud dizia, são fantasiadas ou falseadas.
Freud liga as fantasias aos encontros e desencontros entre experiências efetivamente vividas e os movimentos pulsionais (desejo de vida e de morte) em jogo no sujeito. O que nos interessa nisso tudo é que a partir dessas lembranças o sujeito se constitui, constituindo, assim, sua verdade histórica. Verdade esta, que não necessariamente seja igual ao que se deu no passado, mas que seja o “que” e “como” o sujeito acredita que se deu no passado.
A atualização do passado no presente torna-se possível uma vez que ambos coexistem temporalmente no psiquismo humano, subvertendo qualquer tipo de cronologia temporal. Contribuindo com esse olhar, Prazeres (2007), acerca da importância da memória na constituição do educador, acrescenta afirmando que:
[...] a memória é, a um só tempo, a lembrança e seu relato. Assim, pensamos ser a memória dinâmica porque se inscreve em cada um de nós. É, esta, portanto, anacrônica; é evocação. A memória é um exercício de subjetivação, ao passo que alguma coisa na escrita é reveladora do sujeito. Memória: é pura reativação, o sentido do investimento, ou ainda da rememoração. Ela põe em evidência as inscrições, o que insiste, pois que se repete; aquilo que já foi inscrito e como está sendo lido (p.132).
O campo da memória é o campo da subjetivação. A memória remete-nos àquilo que nos constitui nisso que somos hoje. Diz respeito à nossa realidade psíquica uma vez que nela se encontra nossa verdade. Ainda segundo a autora, “a verdade psíquica é a verdade do sujeito, a qual está obstaculizada, chegando-nos distorcida em sua expressão do que um dia fora o amor pela mãe e ódio pelo pai” (p.119). Prazeres (2007) continua dizendo que “é sobre esse pensamento, que utilizamos memória como via de acesso à identidade e à subjetividade do sujeito” (Idem, Ibidem).
Lajonquière (1999), citado por Almeida (2003), ao tratar sobre as relações do adulto com o seu passado, traz à baila a necessidade de se saber do passado para não morrer subjetivamente. Em outras palavras, é preciso sustentar-se numa história, construir sua “verdade histórica”, produzir uma nova relação com o vivido, enfim, historiar o passado. Nesse sentido, é possível concluir que a memória está intimamente relacionada com a constituição da subjetividade do homem. É a partir dela, ou melhor, de sua ressonância que o homem é capaz de se ressignificar se constituindo enquanto sujeito, autor e ator de sua própria história.