A estudante indígena Cecília ingressou na UFSCar em 2010, aos 25 anos, pertencente à etnia terena, natural da aldeia Limão Verde, que integra a Área Indígena Limão Verde, localiza-se na porção Noroeste do Estado de Mato Grosso do Sul, inserida em terras do Município de Aquidauana79. De acordo com dados da FUNASA de abril de 2005, a população
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Os nomes citados são fictícios para preservar a identidade dos sujeitos participantes.
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total correspondia a 1.164 habitantes, divididos em 599 homens, 565 mulheres, constituindo 295 famílias. Atualmente, conforme os dados do Sistema de Informação da Atenção à Saúde Indígena – SIASI80 de 2012, a etnia terena possui um total de 22.979 indígenas.
Assim como a maioria dos colegas indígenas, Cecília mostrou timidez e bastante reserva no início de nossos primeiros contatos. Também é de origem humilde e a escolha de seu curso tem relação com a necessidade de haver em sua comunidade um profissional da área da saúde que se dedique ao cuidado com o idoso indígena. Segundo Cecília, em uma de nossas conversas iniciais, durante o atendimento individualizado, momento em que perguntei por quais razões ela havia escolhido seu curso na área da saúde: “Nossa aldeia tem muitos
idosos que precisam de ajuda, programas com atividades, porque eles não fazem nada lá. Vão pra roça até quando o corpo aguenta, mas depois não fazem nada. Eu acho que também nem se alimentam direito, uns nunca fizeram exames, acho que há idosos com depressão
(...)81”.
A aluna falou sobre diversas carências de sua comunidade, porém a questão dos idosos lhe chamou mais atenção devido à demanda ser grande e também por ter vários parentes idosos. Por meio de sua fala, podemos inferir que há a necessidade de diversos profissionais da saúde, assim como na área da educação. Por isso, quando perguntei sobre a motivação de Cecília para sair de sua aldeia tão distante da cidade de São Carlos, e ela justificou: “Precisamos continuar nossa luta, mesmo sendo longe e difícil para nós. Os jovens precisam
ajudar a manter a comunidade. Mas não há como viver na aldeia só da caça, pesca, agricultura, porque não há quase nada mais. Por isso, os mais velhos aconselham a gente a sair e a voltar para a aldeia para manter nosso povo”. Assim, Cecília fala a respeito do
crescimento nos últimos dois anos na procura de jovens indígenas por universidades de todo o país, a fim de ajudar suas famílias, mesmo que isso signifique ficar longe de suas famílias, aldeia e adaptação a língua e culturas diferentes.
Após alguns encontros, acabei me aproximando mais de Cecília e, logo, começamos a conversar sobre diversos assuntos, realizávamos nossos encontros na UFSCar, às vezes na casa dela, onde havia outros estudantes indígenas. Nossa relação se tornou mais estreita e nasceu entre nós um laço de amizade, que favoreceu este processo de aprendizagem em todos os sentidos para ambas. Dessa maneira, pude acompanhar toda a trajetória acadêmica de Cecília de 2010 a 2013, auxiliando-a em suas produções acadêmicas, tais como relatórios, resenhas e TCC.
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http://dw.saude.gov.br/gsid/servlet/mstrWeb. Acessado em: 13 de Novembro de 2013.
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No início dos atendimentos individualizados, Cecília mostrou pouca familiaridade com a Língua Portuguesa padrão, principalmente em relação à escrita acadêmica, que requer domínio da norma padrão da língua portuguesa. Ao mesmo tempo, a estudante demonstrava muita vontade de aprender e, assim, dedicava-se muito às tarefas relativas à escrita. Acredito que tudo era muito novo para ela dentro do contexto acadêmico, bem como as práticas discursivas e sociais envolvidas nesta esfera. Logo quando as aulas começaram, foi complicado para Cecília conciliar todas as matérias de seu curso, leituras, trabalhos e provas. Em seus desabafos, dizia não compreender o que os professores ensinavam, visto que muitos conteúdos, considerados pré-requisitos para o ingresso na universidade, não eram compreendidos por ela.
Do mesmo modo, o universo indígena era totalmente desconhecido para mim, e, a partir da convivência com todos, em especial com a Cecília, a quem eu mais atendi e de quem mais me aproximei, pude, aos poucos, compreender melhor suas aspirações, necessidades, temores, conhecimento e cultura. Porém, surgiram adversidades neste processo, no início, assim como com os outros indígenas, Cecília não apresentava muita assiduidade, tanto nas ACIEPEs quanto nos atendimentos individuais. Muitas vezes o desânimo tomou conta de mim, após esperar pelos alunos nos encontros e não aparecer nenhum deles, assim como ocorria com o grupo de pesquisa nas ACIEPEs.
Entretanto, em nossos diálogos entre pesquisadores do Grupo de Pesquisa LEETRA, discutíamos este fato como um dado, ou seja, esta ausência era representativa. Desse modo, a partir de várias leituras teóricas acerca das transformações culturais, identitárias, pude estudar mais e aprender sobre estes aspectos tão peculiares e significativos acerca dos povos indígenas.
Toda esta problemática, que envolveu Cecília, culminou em sua reprovação em algumas disciplinas no decorrer de seu curso, porém, aos poucos, após muito esforço e estudo, conseguiu recuperar suas notas e seguir com sua graduação. Assim, em sua caminhada a aluna teve muitas conquistas, uma delas quando foi selecionada para participar do Programa de Educação Tutorial para Indígenas (PET Saberes/Indígenas)82, que tem como objetivo a construção de um grupo de aprendizagem coletiva e interdisciplinar, constituído por estudantes indígenas de diferentes cursos de graduação da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e de diferentes etnias, e tem como foco a problemática da proteção e
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valorização do conhecimento indígena, no intuito de contribuir para a permanência e o sucesso acadêmico do aluno indígena na instituição.
Além disso, o projeto tem como propósito incentivar uma maior integração entre a instituição superior e as comunidades populares, propiciando trocas de conhecimento, experiências e demandas. Desse modo, dentro de cada área, o programa oferece aos graduandos indígenas de origem humilde a possibilidade de produzir conhecimentos científicos e de interferir em território popular. Cada participante deste projeto recebe uma bolsa com valor total de R$ 4.248,00 (quatro mil, duzentos e quarenta e oito reais) para o período de 12 meses, para que possa realizar a pesquisa, análise e articulação da universidade com as comunidades locais. O bolsista deve dedicar-se 20 horas semanais ao projeto e parte desta carga horária pode ser cumprida ao final de semana.
Juntamente a este projeto, a universidade oferece ainda bolsas de alimentação e moradia para estudantes de baixa renda, características comuns dos estudantes indígenas. Assim, com o apoio acadêmico, torna-se menos árduo o caminho destes estudantes, como o caso de Cecília. Sua aldeia, Limão Verde, situada em Aquidauana, Mato Grosso do Sul, atualmente, além do cultivo de milho e mandioca e o trabalho com o artesanato local, tem investido na economia agropecuária, mais especificamente na atividade de avicultura.
A aldeia foi incluída em 2010 para participar do programa “Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares” – ITCP, que caracteriza-se como um projeto de extensão da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Este projeto visa oferecer serviços necessários para o início e desenvolvimento de cooperativas ou grupos de trabalho associativo, denominados de Empreendimentos de Economia Solidária – ESS. A aldeia Limão Verde está incubada pela ITCP em parceira com o Governo Municipal de Aquidauana e a FUNAI com o apoio e assessoria da UFMS por um período de quatro anos83. Assim, segundo Cecília, a aldeia precisou aderir a este projeto por necessitar de apoio financeiro, pois a diversidade de suas culturas agrícolas, a pesca e a caça foram bastante prejudicadas com a diminuição do espaço territorial da aldeia, devido a guerras com outros povos indígenas, a expansão das cidades e a diminuição da fertilidade da terra.
Dessa maneira, estes dados revelam algumas das razões que têm levado os indígenas em direção às universidades, à procura de formação profissional. Na região do Mato Grosso do Sul, onde situa-se a aldeia Limão Verde, há universidades em parceria com a comunidade indígena, como a UEMS (Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul), UFMS
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http://www.aviculturaindustrial.com.br/noticia/aldeia-limao-verde-ms-aposta-em-incubadora-tecnologica-para- producao-de-frango-caipira/20120210101012_O_941. Acessado em: 09 de Novembro de 2013.
(Universidade Federal do Mato Grosso do Sul), Uniderp (Universidade Anhanguera), Unigran84, em conjunto com cursos técnicos, que têm contribuído para o aprimoramento da mão-de-obra cada vez mais capacitada, além de contínuos investimentos em ensino, ciência e tecnologia, que são fundamentais para o desenvolvimento da comunidade Limão Verde.
Neste contexto, entre auxílios, dificuldades e superações na esfera acadêmica e social, no final do mês de junho de 2013, após nossas reuniões, entre duas e três vezes por semana, durante dois meses, a graduanda apresentou seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) acerca da fragilidade do idoso indígena, levantando aspectos fundamentais em seu trabalho, ainda não estudados na academia, que foram muito elogiados pela banca avaliadora. Ao assistir sua apresentação, pude constatar a transformação de Cecília que, apesar de sua timidez, demonstrou muito conhecimento e amadurecimento em relação a sua entrada na UFSCar. A estudante conseguiu falar adequadamente, seguindo todos os padrões referentes ao contexto em que se encontrava, fato que comprovou sua habilidade e fluência tanto no que diz respeito à Língua Portuguesa padrão quanto ao gênero acadêmico apresentação de TCC.
Assim, podemos inferir que todo o trabalho desenvolvido desde 2010, em ACIEPEs e atendimentos individuais, foi bastante significativo na formação acadêmica de Cecília, que soube aproveitá-lo, apropriando-se da Língua Portuguesa padrão e dos gêneros acadêmicos. Do mesmo modo, os eventos promovidos dentro da universidade contribuíram de algum modo para sua adaptação na universidade, por meio destas práticas sociais, que envolvem discursos e ações peculiares deste ambiente de aprendizagem. Podemos dizer, a partir de Bazerman (2009), que Cecília soube como agir dentro desta situação de comunicação, coordenando seus atos de fala, agindo de um modo típico, ou seja, suas ações puderam ser facilmente reconhecidas como realizadoras de determinados atos em circunstâncias específicas.