Conforme já mencionamos, a pesquisa em Linguística Aplicada, até a década de 1960, era predominantemente quantitativa. De acordo com Cohen (1989), no final da década de 1970, dois pesquisadores Cook & Reichart, ao definirem a metodologia quantitativa e qualitativa como limitadas, alertaram sobre a importância da combinação das duas concepções de pesquisa, a saber, a qualitativa e a quantitativa, a fim de resultar estudos mais completos com convalidação convergente. Assim, a harmonia de tais métodos em uma mesma pesquisa utilizaria dados estatísticos e também estudos etnográficos com a descrição detalhada da situação com estudos de caso e fornece um exemplo:
Se, por exemplo, estamos trabalhando com uma população de 150 alunos podemos, ao mesmo tempo, selecionar um grupo pequeno de 10 alunos para fazer estudos de caso, entrevistas aprofundadas e observação participante. Além do mais, tanto um quanto outro tipo de pesquisa apresenta progresso, como é o caso da análise estatística de relações estruturais lineares que mede com maior precisão a relação entre os elementos de uma taxonomia (COHEN, 1997, p.1).
Por meio de tais exemplos, o autor mostra como a utilização das metodologias quantitativa e qualitativa podem enriquecer um trabalho de pesquisa. Cohen ressalta ainda que, no final dos anos setenta, no que diz respeito à pesquisa da área de Linguística Aplicada, também surgem mudanças em relação ao foco de investigação científica, como na comparação da leitura, escrita e conversação entre a língua materna e língua estrangeira, o ensino em sala de aula, bem como as relações entre os alunos e professores, entre outros.
Holmes (1992) também destaca que, por muitos anos, a Linguística Aplicada seguiu o modelo positivista de pesquisa, baseando-se na objetividade, ou seja, argumentava-se que não deveria haver qualquer envolvimento entre o pesquisador e o fenômeno estudado, pois acreditava-se que, caso houvesse, a pesquisa poderia ser prejudicada. Dentre outras características do modelo positivista estão, podemos ressaltar: a causalidade (todo fenômeno pode ser explicado), a quantificação (só o que pode ser medido é base verdadeira para testar hipóteses), generalização (as pesquisas têm um valor maior se retiradas de um grande número de diferentes casos e populações, ou seja, há mais valor se há a descoberta de uma lei universal para explicar determinado fenômeno).
Todavia, de acordo com Holmes, surgem muitos problemas com relação ao uso do modelo positivista, porém a principal questão é o fato de a Linguística Aplicada estudar relações humanas, implicando certo grau de complexidade e, por essa razão, esta área tem
necessidade de dialogar com outras áreas para entender melhor como se dão essas relações. Assim, o autor faz referência à pesquisa etnográfica, que antes era utilizada apenas na Antropologia, passa a ser empregada na Linguística.
Tal método de pesquisa apresenta características contrárias ao modelo positivista: possui linha de bases humanas, fundamenta-se na subjetividade, na interpretação e problematização de um fenômeno, onde a principal preocupação é amenizar um problema e não resolvê-lo, visto que visa fazer análises mais aprofundadas e não somente medir um fenômeno e fazer generalizações, como no modelo positivista, pois ter apenas números não é suficiente para uma pesquisa que lida com relações humanas.
Dessa maneira, Holmes alerta para as mudanças ocorridas nos perfis de pesquisadores e de professores na pós-modernidade. Essas mudanças dizem respeito a muitas questões como: quem faz pesquisa, o que é investigado, quem está interessado na pesquisa de outras pessoas, quem lê sobre pesquisa e o que tudo isso afeta nos resultados. Para ele, o modelo positivista de fazer pesquisa, que se baseia principalmente no objetivismo, pertence à modernidade.
Se traçarmos um paralelo entre o modelo positivista de pesquisa e o modelo moderno de educação descrito por Gadotti (1993), que valoriza o conteúdo, a eficiência, a racionalidade, os objetivos, as técnicas, priorizando instrumentos e não a finalidade da educação, podemos encontrar traços de similaridade. Ao tratar da educação, o autor faz algumas considerações acerca da Modernidade e da Pós-Modernidade. Salienta que a pós- modernidade teria surgido num momento de total caos de referência e de perda de identidade, trazidos pela invasão da tecnologia eletrônica, pela automação e informação, culminando na desintegração da sociedade e do indivíduo.
Desse modo, ao tentar explicar o que seria a educação pós-moderna, o autor afirma não existir ainda uma definição exata, mas que tal nomenclatura representa a negação do modernismo. Na modernidade, o homem era “cimentado” no social, com a participação das massas na política, resultando, às vezes, em conflitos e até mesmo guerras. Já o homem pós- moderno se dedicaria ao cotidiano e às metas individuais, almejando sua afirmação como indivíduo.
Contudo, Gadotti destaca o paradoxo existente dentro da educação pós-moderna, pois ao mesmo tempo em que almeja a individualidade, constitui-se como multicultural, ou seja, caracteriza-se pela diversidade e pluralidade de doutrinas, etnias, etc., eliminando estereótipos, ampliando horizontes de conhecimento e visões de mundo. Dessa forma, busca a
igualdade sem eliminar a diferença, valorizando a relação, o envolvimento, a solidariedade, contra a educação clássica (moderna), que priorizava o conteúdo, a eficiência, a racionalidade, os métodos e técnicas, os instrumentos, enfim, os objetivos e não a finalidade da educação.
Além disso, pelo fato de a educação pós-moderna ter como característica o conhecimento com caráter prospectivo, ou seja, o sujeito é participante crítico em suas produções. Também tem como principal meta, tornar o sujeito, dentre outros aspectos, um ser autônomo, a fim de que construa seu próprio conhecimento e aprenda a buscar fontes diversificadas acerca de um determinado assunto, para que possa discuti-lo e dialogar com outras áreas. Assim, ele próprio “aprende a aprender”, no processo de construção do conhecimento.
Dessa forma, concluímos que, ao contrário do modelo de educação moderna, o modelo de educação pós-moderna (que de acordo com a nomenclatura proposta por Giddens, conforme vimos, diria respeito à Modernidade Radicalizada), descrita por Gadotti, apresenta características bem próximas aos objetivos da pesquisa interpretativista: a relação, o envolvimento, a autogestão, a solidariedade, visando à finalidade da educação e não o conteúdo em si. Podemos confirmar essa comparação por meio da afirmação de Holmes, que aproxima o modelo interpretativista de pesquisa da pós-modernidade.
Ao tratar dos dois modelos de pesquisa (positivista e interpretativista), Holmes, assim como outros autores já mencionados, também afirma ainda que ambos se complementam e podem encontrar, com maior complexidade, como as pessoas aprendem e fazem uso de línguas, por exemplo. Além disso, os dados da pesquisa positivista podem ser mais bem descritos e compreendidos pela investigação interpretativista, já que esta se serve de outras áreas para aprofundar suas investigações científicas.
Acreditamos, dessa maneira, que a combinação das duas concepções está presente em nossa pesquisa, visto que realizamos a coleta de dados e, ao mesmo tempo, procuramos interpretá-los de acordo com os critérios que caracterizam a metodologia interpretativista de pesquisa. Todavia, é importante destacarmos que em nosso trabalho predomina a metodologia qualitativa, dentro da qual optamos pelo modelo epistemológico ou paradigma indiciário , do qual trataremos em seguida.