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Esta pesquisa teve como objetivo dar visibilidade aos cadernos escolares em sua aparente opacidade e inércia. Ao tentarmos problematizar sua impregnada naturalidade, descobrimos ao folhear suas páginas e práticas, funções e imagens latentes, embrenhadas nas penumbras e dobras de seu fazer pedagógico.

O método genealógico ao ser aplicado sobre os cadernos escolares faz ranger sua leitura habitual como um simples e natural suporte de escrita, prezo a sua evidência cristalizada, a dispensar e impedir qualquer dúvida ou questionamento. A exemplo do processo de revelação de um filme fotográfico, a genealogia consegue retirar os cadernos de seu estado em negativo, ao conseguir revelar traços e relevos até, então, invisíveis ou disfarçados, no jogo de sombras e imagens da chapa fotográfica, ainda, em negativo.

A imersão dos cadernos de classe no líquido da revelação fotográfica (genealogia) traz, como primeira e direta revelação, a conexão desse objeto escolar com a Pedagogia Ativa dos Jesuítas e a Pedagogia das Escolas Cristãs, fundadas por La Salle, oficinas forjadoras, portanto, de seus primeiros regulamentos e configurações. Não esquecendo, porém, que os saberes mercantis, em seus minuciosos e caligráficos registros, também irão emprestar saberes e práticas aos cadernos escolares. Essas duas pedagogias, que emergiram, respectivamente, nos séculos XVI e XVII, mesmo após seu desaparecimento oficial, continuaram vivas e permanentemente aperfeiçoadas nos séculos posteriores, a ponto de serem consideradas por diversos autores como protótipos do ensino elementar moderno. Por conseqüência, os cadernos não sofreram desde esse tempo qualquer supressão ou alteração, ao contrário, multiplicaram-se, foram adaptados e

reajustados, conforme cada momento histórico escolar, até chegarem aos dias de hoje.

Essa referência histórica nos ajuda a estabelecer um jogo de relações e contrastes a oportunizarnos uma nova leitura dos cadernos, pois indica seu lugar específico como instrumento, que ultrapassa os propósitos meramente pedagógicos. Ao articularem-se com outros materiais e regulamentos, perfeitamente harmonizados com eles, os cadernos irão compor uma maquinaria escolar moderna e refinada, assumindo uma desafiadora tarefa de conjugar forças e saberes na forma de governar e produzir novos sujeitos.

Assim, revelado o palco do nascimento dos cadernos, podemos compreender com mais clareza os saberes e as práticas que os inventaram, ou melhor, de que são feitos e para que são criados. O que significa dizer que, embora os cadernos tenham servido como instrumento singular a permitir e consolidar um irreversível lugar de acesso à escrita pelas classes populares, por outro lado, exigirão das mesmas um preço alto para tal apropriação. Isso porque, em sua aparente simplicidade e materialidade gráfica, trazem embutidas práticas e saberes capazes de produzirem obediência, silêncio e trabalho ininterruptos, efeitos que em si não apresentam ligação objetiva ou direta com a aprendizagem da escrita.

O segredo dos cadernos alcançarem tão refinados efeitos está no complexo processo que eles são capazes de instalar e gerir em sala de aula, ao contarem com mecanismos de forças capazes de normatizar e controlar, de forma meticulosa, o

fazer e a atividade, tanto dos alunos como dos professores, tentando homognizá-

los ao máximo. Reunir e colocar em funcionamento todos esses efeitos, confere- lhes o status de dispositivos com todas as letras e talvez a ponte para um das prováveis explicações para sua invejável permanência.

Entre os três efeitos-chave que destacamos neste estudo, a obediência, o silêncio e o trabalho, gostaríamos de dar ênfase neste texto final ao efeito silêncio, por considerar que os cadernos entrelaçados a outros dispositivos incidem e controlam diretamente a produção desse silenciamento. Dar prioridade ao silêncio, significa retirar a fala e a palavra das crianças da sala de aula, com toda força de significado que essa expressão possa nos comunicar. O espaço da fala é ocupado de forma cheia pela palavra escrita que, ao ser mecanizada pelas permanentes cópias, deixa de ser palavra, pois o escrevente está implicado, apenas, como mão ou olho, corpo passivo, que precisa produzir um quantun de escrita num determinado tempo e dentro de um determinado espaço. Como fala permitida, estão, somente as estereotipadas respostas em coro às perguntas de sondagem e controle do professor, diante da tarefa que está sendo realizada. Levantar a mão para falar, é uma das primeiras lições que os alunos precisam aprender assim que chegam à escola, pois sua palavra, a partir daí, está condicionada à autorização do professor. O que nos deixa a idéia de que talvez os cadernos também possam ser considerados um eficiente aparelho didático para privar as crianças de sua linguagem e de seu dizer.

A presença massiva dos cadernos nas salas de aula traz também como efeito simbólico importante na constituição das novas subjetividades a ruptura com os castigos físicos, estratégias que os professores anteriormente podiam lançar mão para controlar a disciplina e o rendimento de seus alunos. A chegada dos cadernos suaviza e transfere, para a escrita, as punições físicas, que passam a ser enquadradas como delitos, abrindo espaço para formas bem mais sutis de castigos que nem por isso são menos violentas, inaugurando de certa forma, um outro modo de governar a sala de aula.

Outro traço que diferencia e especifica os cadernos como dispositivo diz respeito ao seu caráter de documento e arquivo. Desde a capa até a última página, é impresso minuciosamente o registro, progressivo e cumulativo, dia-a-dia, tema a tema, exercício a exercício, num estilo bastante semelhante a um relatório. Ali fica escrito de preferência, sem rasuras, erros ou espaços em branco, o conteúdo aprendido e ensinado, trajetória grupal e individual de uma série.

Portanto, olhado sob esse ângulo, o caderno pode também ser comparado a um espelho, pelo poder que possui em refletir seu próprio dono, assim como a prática de sua professora. Conhecer o aluno, através de seu caderno, é uma estratégia pedagógica bastante comum, dispensando, na maioria das vezes, sua própria presença. De certa forma podemos dizer que grande parte do fazer escolar está ali, espelhado e enquadrado em suas atividades, textos e conteúdos, sendo impossível não identificar a vigilância panóptica como um de seus principais traços constituidores. Assim, alunos e professores permanecem, em forma de registro, como reféns desse dispositivo do qual a escola não consegue se desprender.

As revelações do caderno como dispositivo levam-nos a problematizar e ir em busca de outras formas para resistir a essa maneira estereotipada e burocratizada de aprender e de ensinar a escrever, cujos efeitos essa pesquisa nos permite, ao menos, descobrir algumas peças e armadilhas. Porém, como aprendizagem, num nível mais abrangente, essa pesquisa possibilita também colocarmos os cadernos escolares como ferramenta, ajudando a romper nossas cristalizadas certezas pedagógicas, abrir novas trilhas, buscar outras formas de ver e compreender o universo escolar, tantas vezes, interpretado por nós de forma ingênua, totalitária e redutiva.

seja uma forma concreta de dar início a essa resistência necessária, que nós educadores precisamos potencializar em nossas práticas, tão carentes de estranhamento, dúvida e problematização. Nas palavras de Costa,

[...] pensar com Foucault, é jamais parar de pensar. É perguntar, sempre e uma vez mais: por que tem de ser assim? Por que não poderia ser de outra maneira? Por que devemos acreditar no que nos dizem, agora, se, antes, já nos disseram tantas coisas, tantas vezes, tão diferentes?235

Para iniciar nosso exercício de recusar o que aparentemente parece inquestionável, perguntamos:

- Que outras forças e práticas poderíamos descobrir e inventar, para tentarmos descolar a escola da matriz cristã que ainda a governa com tanta força?

- Como fazer uma alfabetização em que o ensino da escrita não receba a lógica perversa236 que inventou os cadernos?

- Que outras formas e saberes podem combinar-se neste importante momento de acesso às letras, para dar lugar ao prazer, imaginação e outras formas de subjetivação?

- Por que os cadernos ainda permanecem com tanta força no interior da escola. O que é que nós educadores temos a ver com essa permanência?

235 COSTA, Jurandir Freire. Prefácio a título de diálogo. In: ORTEGA, F. Amizade e estética da existência em Foucault. Rio de Janeiro: Graal, 1999. p. 20.