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OS CADERNOS NA SALA DE AULA

[...] o que se ensina e a forma como se ensina tornam a tarefa de ensinar e de aprender uma sucessão de atividades sem sentido que todos, professora e alunos, executam visivelmente contrafeitos e desinteressados. A professora cumpre com a sua obrigação realizando diariamente um ritual, sempre o mesmo, destituído de vida e significado que a mortifica [...]. Os dias são todos iguais.

PATTO, 1990, p. 233.173

Conforme pudemos acompanhar no primeiro capítulo, os cadernos são produtos de um saber que veio se configurando na tomada de muitos outros saberes, que organizados e colocados sob uma função foram ganhando as mais diferentes formas, à medida que determinados momentos históricos exigiam suas remodelações. Será portanto, sob esse olhar foucaultiano, que tentaremos analisar os cadernos que tomamos como estudo na Escola de Educação Básica Lauro Müller.

Assim sendo, consideraremos os cadernos como uma sofisticada estratégia, ligada a um campo de saber específico que, construído nas dobras de diferentes tempos, alcança o status de prática e recebe o prêmio da naturalização. Estudá-los como um dispositivo, talvez seja uma das únicas vias para recriá-los, como algo muito diferente daquilo que nos foi ensinado sobre ele, desde os nossos primeiros

173 PATTO, Maria Helena de Souza. A produção do fracasso na escola. São Paulo: T. A. Queiroz,

rabiscos.

Na complexidade do exercício de um dispositivo, buscaremos desmembrá-lo em três partes:174 primeiro, sobre a prática que introduz a partir de sua utilização massiva como suporte da escrita. Segundo, sobre os tipos de saberes nos quais se apóia para concretizar sua ação e permanência. E, por último, quais os efeitos que a organização do conjunto de seus elementos, na sua maioria, práticos, são capazes de produzir nos sujeitos e na própria escrita, quando submetidos à sua precisão e sua invejável didática.

Para realizar esse estudo, no qual os cadernos de classe são tomados como um dispositivo escolar, escolhemos como estratégia de pesquisa, a análise documental, ou seja, tomaremos os cadernos em sua estrutura e funcionamento como um documento.

Por considerarmos que seus movimentos e efeitos são produzidos em perfeita sincronia e articulação com outras peças e engrenagens que o integram, colocando em funcionamento o espaço da sala de aula, utilizamos como estratégia, além da análise documental, a observação dos mesmos em seu “habitat natural”, a fim de constatar que práticas são desencadeadas a partir desse dispositivo.

O lugar escolhido como referência empírica foi o espaço de uma primeira série do ensino fundamental composta de 27 crianças, sendo 7 meninos e 20 meninas, na escola pública acima referida, localizada em Florianópolis. A procedência social desse grupo de crianças caracteriza-se por ser de classe social

174 Esses três aspectos, práticas, saberes e produção de subjetividade, são os componentes que

popular175. O período de observação em sala de aula ocorreu em espaços de tempos alternados, entre o final do primeiro semestre de 2001 e o término do segundo, do mesmo ano, em horário diário integral, para que pudéssemos acompanhar e registrar em vários e diferentes dias, a trajetória e o movimento dos cadernos no cotidiano da sala, desde a chegada das crianças e da professora, até o encerramento de cada aula, totalizando aproximadamente trinta períodos de observação..

Como fruto da própria observação e contato com a realidade a ser trabalhada, embora esse grupo de crianças utilizasse três cadernos, de deveres, caligrafia e diário, logo pudemos fazer a escolha do “caderno de diário” como o caderno a ocupar a centralidade dos estudos, por ser ele, conforme poderemos constatar mais adiante, o fio condutor de todas as atividades desenvolvidas no dia- a-dia da sala de aula e objeto-suporte a abranger praticamente todos os registros.

1 OS CADERNOS DE DIÁRIO: ESTRUTURA E FUNCIONAMENTO

O caderno de diário recebe uma divisão temporal bastante particular. Como procedimento didático, a professora o desdobra em dois, ou seja, um para cada semestre. De março a julho, as crianças escrevem em seu primeiro caderno e, ao final do primeiro semestre, é aberto o segundo que irá até o final do ano letivo. Utilizaremos essa cronologia semestral para diferenciarmos os dois cadernos.

Numa conversa informal antes do início de nossa observação em sala de

175 Esses dados, sobre o nível sócio-econômico das crianças da primeira série em estudo, foram

coletados através de um questionário simples, onde se pode observar que a maioria dos pais desempenha profissões cujo salário varia entre um a três salários mínimos e cuja escolaridade oscila entre primeiro e segundo grau.

aula (final do primeiro semestre), a professora apresentou o caderno de diário da seguinte forma: “Não gosto de muitos cadernos, as crianças só têm dois cadernos. Um diário, que parece um borrãozinho, que inclusive, amanhã, eles vão trocar todos juntos por um novo, pois estão com ele desde primeiro de março”.

Ainda, falando sobre o caderno de diário, ou seja, o primeiro caderno de cada criança, contou algo curioso sobre o significado que ele contém para ela como professora: “Eu costumo guardar o primeiro caderno de cada aluno, porque pelo caderno dá prá ver a ´linha do tempo` da criança; como começa, onde tem problemas, e como chega”. E prossegue observando: “Se daqui a alguns anos, alguns desses alunos se tornarem famosos e procurarem quem foi sua primeira professora, eu tenho o caderno.”

Também, nessa primeira fala, em resposta à escolha do tipo de caderno que utilizava com o grupo de crianças, a professora deixou claro que o caderno de diário é o mais importante dos três, pois é apenas sobre ele que deposita todo seu imaginário, não fazendo referência alguma ao de deveres176 e de caligrafia. Mais um motivo a afirmar nossa escolha para tomar o caderno de diário como referência principal nesta pesquisa.

Das capas

A primeira imagem dos cadernos, em sua estrutura física, que podemos ver é

176 HÉBRARD, 2001, op. cit., p. 136. Embora o caderno de deveres não ocupe nesta pesquisa a

centralidade, sublinhamos sua especialidade funcional trazendo a contribuição desse autor sobre o mesmo: “Do lado do controle do aluno, o ‘caderno de deveres mensais’, obrigatório desde 1882, permite juntar as provas realizadas durante toda a escolaridade elementar de um mesmo aluno e de verificar assim, numa só olhada, seus necessários progessos. [...] É isto portanto que permite o caderno:’apresentar’ o trabalho escolar para que ele se ofereça ao controle”.

a capa, lugar onde se inscrevem e se cruzam muitas linguagens, diferentes sentidos e sutis simbologias.177 Diante dos vinte e sete cadernos fechados, o que se pode ver como primeira imagem são as suas capas.

Num primeiro olhar, as capas não parecem apresentar nenhum tipo de uniformidade, pois cada caderno é bem diferente do outro. As capas coloridas e personalizadas nos dão a impressão de que conseguirão escapar à rigorosa uniformidade, que caracteriza esse suporte da escrita. Cada criança encapou ou não o seu caderno, segundo seu gosto ou interesse.

No entanto, quando começamos a fazer uma observação mais específica, percebemos que essa diversidade aparente é desmentida quando lemos as etiquetas coladas e centralizadas na parte inferior da capa de cada caderno. Elas, sim, são padronizadas e, geralmente, já estão impressas nos próprios cadernos, ou são escritas e vendidas em papelarias como adesivos, adiantando esse trabalho inicial da escola ou da família, que precisará apenas preenchê-la, tal é a autonomia desse dispositivo escolar. Boa parte dele se auto-estrutura, independente da própria escola, já está incorporado como saber social. Seus itens-chave são:

FIGURA 1178

Fonte: Etiquetas dos cadernos pesquisados

177 Essa abordagem foi inspirada em CUNHA, Maria Teresa Santos. Armadilhas da sedução: os romances de M. Delly. Belo Horizonte: Autêntica, 1999. p.51-72. A autora, nesse texto, descreve as

diferentes combinações e os múltiplos segredos que compõem as capas dos livros.

178 Gostaríamos de destacar que a questão de gêneros está marcada nas etiquetas dos cadernos,

ocorrendo a identificação, como regra, sempre pelo nome no masculino, o que pode ser observado na figura 1.

ESCOLA:___________________________________________ ALUNO: (sempre no masculino)_________________________ DISCIPLINA ou MATÉRIA:______________________________ SÉRIE:_____________________________________________ TURNO:____________________________________________

Através dessa etiqueta identificadora colada às capas dos cadernos, são apresentados os cruzamentos de muitas instâncias e personagens. Embora se trate de um objeto de uso pessoal, apesar de seu cunho igualmente coletivo, o nome de seu autor ou autora, ao contrário do autor de um livro, é apenas mais um dado colocado entre o nome da escola e a série a qual pertence. Tal identificação de conjunto servirá como um verdadeiro espelho ou mapa que irá indicar a que rede esse aluno está preso.

Silvina Gvirtz,179 ao analisar os finos e complexos encadeamentos utilizados para identificar um simples caderno, chama nossa atenção para o aspecto altamente hierárquico e institucionalizado a que está submetido esse “material escolar”. De forma que, na capa de cada caderno, ficam estampadas as evidências que comprovam o seu lugar de dispositivo.

Ao contrário das capas dos livros com suas ilustrações e títulos, estudadas e criadas como estratégias-chave para seduzir e atrair seus leitores ao texto,180 as capas dos cadernos são desprovidas de títulos, pois eles são nomeados coletivamente pelo conteúdo ou disciplina a que estão destinados. Seus títulos geralmente são assim estabelecidos: “caderno de matemática,” “caderno de deveres”, “caderno de português”, “caderno de exercícios”, etc. Os cadernos em estudo deixam evidente essa despreocupação com a linguagem de capa. Dos vinte e sete cadernos do primeiro semestre, vinte são encapados, “cobertos” por diferentes tipos de plástico, a maioria não transparente, tornando difícil a sua

179 GVIRTZ, op. cit., p. 27-29. Em sua pesquisa, a autora mostra que nos cadernos pesquisados (na

Argentina, pertencentes ao período anterior a 1920), nas etiquetas do primeiro caderno do ano, constava o registro completo da seguinte hierarquia: primeiro, o nome da escola, segundo, o nome do inspetor, terceiro, o nome do diretor, quarto, o nome do professor e, por último ,antes das outras identificações, o nome do aluno.

visualização, três com papel, três de capa dura e plastificados e apenas um sem capa. Isso deixa claro que todo o destaque ou evidência deverá ser dado por uma detalhada e bem escrita identificação, o resto é simplesmente fundo.181

Ainda sobre a presença do plástico, que se inclui como elemento-padrão e primeiro invólucro desses cadernos, podemos inferir que talvez isso diga respeito à sua função, até mesmo simbolizar os cuidados para sua durabilidade e permanência, já que eles precisarão durar um ano, tempo em que se expira sua vida útil182. Ou seja, o término de um caderno, não importando seu integral preenchimento ou não, terá necessariamente o prazo de validade esgotado com o final do ano letivo. Não há continuidade entre um ano e outro; novo ano, novos cadernos.

Esse aparente descaso pelo conteúdo e ilustração das capas, tão valorizadas em épocas anteriores, chegando ao extremo de reduzi-las a estampas de plástico indiferenciado, faz par com outra curiosa constatação. Trata-se da predominância (mais de 80%), na ilustração das capas, de personagens ligados à cultura americana, ou seja, as capas dos cadernos para o aprendizado de português trazem palavras e expressões escritas como: Kids, Mickey Mouse, Baby Friends, Pokémon, 101 Dálmatas, king, Speed, entre outras. Como que fugindo a essa regra, um dos cadernos que chegou às nossas mãos tinha como ilustração de capa a bandeira de Santa Catarina (o dono do caderno cobriu-a, colando um cartão- postal

181 A indiferença e o desprestígio atual das capas e suas mensagens são constatadas desde os

tempos do início da República, com a criação dos grupos escolares, em que eram decoradas com a imagem da escola a qual pertenciam, sendo, portanto, um veículo-símbolo e de propaganda, tanto da instituição como da moderna pedagogia que se implantara nela, elevando significativamente os preços desse recurso didático, ao ser tratado como um rentável produto, para o mercado editorial. Essa decoração das capas dos cadernos emerge de uma tradição pedagógica francesa que, a partir do século XIX, valia-se delas para repassar conteúdos nacionalistas. Ver em: SOUZA, op. cit., p. 236- 7.

de uma tartaruga marinha), acompanhada por uma grande etiqueta, tendo no verso, o Hino deste Estado. Cinco cadernos estampavam no verso a letra do Hino Nacional e um último, de capa dura, mostrava a imagem do tenista catarinense Guga Küerten com a taça ganha em Roland Garros.

Assim, o concorrido espaço das capas, com seus conteúdos nacionalistas e regionalistas, mapas e hinos, de algumas décadas atrás, atualmente, está desaparecendo para dar lugar à linguagem e os símbolos da atual cultura americana, ou seja, a presença de uma cultura predominante que, em relação ao mundo infantil, emerge não somente nessas estampas, mas também nos filmes, brinquedos e livros. Essas mudanças de conteúdo e forma talvez possam ser registradas como um fragmento novo em deslocamento e que, de certa forma, podem ser consideradas como pequenas rupturas entre os cadernos de décadas anteriores e os atuais.

A escrita da primeira página um ritual de passagem

Ao abrirmos os cadernos na primeira página, podemos observar uma certa continuidade ou um tipo de reforço, nos dados identificadores da capa, com alguns elementos repetidos e outros novos. Três nomes aparecem como padrão nessa primeira página: o nome da criança (com e sem sobrenome), o nome do caderno e o nome da professora (somente nome).183 Ainda, integrando a composição dessa página inicial, estão presentes: um desenho que varia de caderno para caderno e a palavra “parabéns” escrita a caneta com a rubrica da professora.

183 Todos os alunos escreveram o nome da professora no caderno I, no II, o nome dela já não

Porém, mais importante que o resultado final na elaboração da primeira página foi o ritual que o produziu. Na passagem do caderno do primeiro semestre para o do segundo, em relação à escrita da primeira página, pudemos acompanhar bem de perto o acontecimento de um ritual em que promessas e juras foram firmadas tanto no nível individual quanto coletivo. A abertura desse segundo caderno que iria nortear as principais práticas em sala de aula até o final do ano letivo, seria acompanhada, como podemos verificar em seguida, do estabelecimento de diversos acordos e pactos entre o grupo de crianças e a professora.

Alguns dias antes do término do primeiro semestre, a professora tratou de criar uma certa expectativa, preparando os alunos em relação à introdução do segundo caderno de diário. E, exatamente, no dia marcado, a professora começou a aula perguntando: “Não tem um evento para hoje?” E antes que as crianças respondessem, começou a contar a esse grupo sobre as promessas que os alunos da primeira série do turno matutino184 fizeram diante do novo caderno. As juras, segundo a professora, haviam sido as seguintes: “Todo mundo vai fazer letra bonita. Não vão arrancar folhas. Não vão deixar derramar nada sobre os cadernos. Vão escrever tudo certinho“.

Após essa conversa, a professora recolheu o primeiro caderno dizendo que na próxima semana iria olhar todos os já preenchidos, escrever neles uma mensagem para que pudessem ser mostrados em casa. Nessa passagem, uma criança, ao entregar seu primeiro caderno, despediu-se dele dizendo que sentiria saudade, enquanto uma outra abraçou com emoção o caderno novo.

Assim que cada criança recebeu seu caderno, a professora passou a comandar o preenchimento da primeira página: “Todo mundo abre o caderno na

184 A jornada de trabalho dessa professora como alfabetizadora abrange dois turnos na mesma

primeira página e dobra essa folha na diagonal”. E prosseguiu: “cada um faz um desenho nessa ´orelhinha`, o nome completo e depois a palavra DIÁRIO”, a qual foi escrita no quadro pela professora em letra de forma. Ainda se referindo ao desenho, a professora orientava: “Bem caprichadinho, desenhar primeiro aqui”, fazendo um gesto apontando para a cabeça, para explicar que o desenho primeiro precisava ser visualizado internamente: “primeiro de olhos fechados e depois no papel. Escrever bem bonito com letra grande a palavra DIÁRIO”.

As crianças começavam, então, a realizar o solicitado e a professora ia passando de carteira em carteira para orientar o trabalho de cada uma, fazendo essas observações com muito carinho. Todas as crianças copiavam do quadro em absoluto silêncio, só se ouvindo o barulho dos lápis, parecendo completamente absorvidas por essa atividade.

O silêncio era, às vezes, quebrado por algumas perguntas como:

É para pular linha?

Professora, já pode pintar?

Professora, é para fazer o nome todo? Professora, aqui não cabe mais!

Ao passar nas carteiras, a professora ia elogiando e dizendo que muitos corações estavam sendo desenhados. Entretanto, assim como elogiava também reclamava daquelas que não conseguiam escrever o nome completo e necessitavam copiar do modelo que estava escrito no caderno de caligrafia. “Não vou mais deixar pegar o caderno de caligrafia, tem gente que está com preguicinha e só faz o primeiro nome”. Porém, mesmo sob essa advertência, vai até o armário e distribui o caderno de caligrafia para aquelas crianças que não conseguiam escrever

o nome completo. E, assim, diante dessa observação da professora, muitos alunos levantavam seus cadernos de onde estavam para mostrar a professora que já sabiam escrever seus nomes completos sem precisar copiar.

Enquanto a professora estava envolvida em sua minuciosa correção, carteira a carteira, algumas crianças se levantavam com seus cadernos para mostrar à mestra sua produção. Para a correção inicial dessa primeira página, a professora usou a borracha para apagar os erros de escrita ou de organização espacial que encontrava. No caso particular de uma criança, a professora arrancou a primeira página, dobrando outra, solicitando-lhe que escrevesse novamente. Dessa forma, foi preparada a introdução do segundo caderno. Sua primeira página, assim homogeneizada, abriria margens, linhas e pautas para as principais escrituras desse grupo de meninos e meninas até o final do ano.

2 PRÁTICAS E ROTINAS DA SALA DE AULA

Depois de termos feito a análise das capas e da primeira página, invólucros desse objeto reprodutor e multiplicador de práticas escolares, não nos resta outra alternativa do que adentrarmos em sua objetiva e organizada estrutura. As palavras de Gvirtz, em sua clareza e densidade de interpretação, levam-nos diretamente ao ponto que estávamos buscando para penetrarmos nas sutilezas de suas articulações. Diz a autora: “A partir de la Segunda página el cuaderno se estructura

en función de tres ejes centrales que se presentan subordinados entre sí: el tiempo, la actividad y el contenido disciplinar“. Estas três vias, tempo, atividade e disciplina

que a autora utilizou para definir a imbricada composição que estrutura os cadernos remete-nos diretamente à cuidadosa e bem calculada rotina da sala de aula,

conduzindo-nos a uma inevitável pergunta: Que práticas foram introduzidas ou foram se estabelecendo em sala de aula a partir da chegada dos cadernos?

Apenas como ilustração e ponto de apoio para aguçar mais nosso entendimento quanto às múltiplas alterações que a introdução dos cadernos provocou no espaço da sala de aula, citaremos um pequeno e antigo texto, que mostra exatamente as dimensões e as principais implicações que eles trouxeram ao mundo escolar:

Ele é caro e utiliza-se muito, é consumido rapidamente; [...] além disso, exige uma mesa e todo um aparato: tinteiro, pena, régua, lápis, sem contar o hábito de se servir de um equipamento também complicado, hábito que se somente após numerosas desventuras.185

Como dispositivo que funciona em rede, sua complexa ação só poderá ser descrita juntamente com a descrição das ações que constituem a rotina diária da sala de aula. Dessa forma, baseados na transformação que o seu uso permanente e definitivo foi capaz de provocar, passaremos, daqui para frente, a relatar as práticas escolares que nitidamente pudemos conferir na sala de aula em estudo, relacionadas de forma direta ou indireta a eles.

O Começo da Aula

As crianças, ao escutarem o sinal para o início da aula, formavam uma fila em frente à porta da sala, meninas de um lado, meninos de outro, menores na frente, maiores atrás, entrando primeiro a fila das meninas. Algumas crianças

185 Segundo o Nouveau Dictionnaire de Pédagogie et d’Instruction Primaire (1911, apud SOUZA, 1998,

p. 238), essa citação objetiva mostrar as desvantagens dos cadernos em relação a outros suportes, como por exemplo, a lousa.

dirigiam-se diretamente aos seus lugares, porque já lhes estavam fixados, enquanto