Depois da publicação da primeira reportagem, mostrando um Ibsen Pinheiro, atordoado, com uma foto sugestiva na capa, como se ele fosse aplicar um golpe de artes marciais, descontrolado, aparentemente, Veja puxou o freio à ‗saga‘ de acusações.
Na edição de 24 de novembro, a revista trouxe mais uma reportagem sobre o
243ROSA, 2007, p. 513.
escândalo, mas não foi a manchete de capa. O assunto parecia se esgotar. ―Um milhão de dificuldades‖ foi o título da matéria da página 43. O título era um trocadilho para lembrar a acusação de que teriam surgindo um milhão de dólares nas contas do deputado. Até aquele momento não havia sido comprovada a denúncia. E mais: a revista publicou matéria reconhecendo que a CPI errou244 na contabilidade dos valores divulgados no caso Ibsen. Não era um milhão de dólares.
Mesmo já sabendo que havia errado no número, a revista disponibilizou essa informação no meio do texto, quase no fim. Não abriu a matéria com essa informação. Apenas na linha fina (olho da matéria) constava que a CPI errou na conta de Ibsen Pinheiro. Veja trecho da reportagem. ―(...) Já no caso do ex-presidente da Câmara Ibsen Pinheiro, a quem atribuiu a movimentação bancária de 1 milhão de dólares nos últimos quatro anos, a subcomissão (da CPI da Câmara) errou feio e colocou em risco a credibilidade da CPI‖245.
Nesse caso, para a Veja, quem ‗errou feio‘ foi só a CPI. A revista se eximiu de culpa. Mais um trecho em que a revista faz uma ‗mea-culpa‘ e tenta se justificar:
O erro é de ordem semântica: ―movimentar‖ é um termo bancário de significado amplo demais. Movimentar 1 milhão de dólares não significa ter, ou ter tido, riqueza equivalente. A subcomissão confundiu depósitos novos com transferências de uma conta para outra, ou aplicações financeiras. Ibsen Pinheiro não teve dificuldade de explicar 400.000 dólares de seus depósitos. ―Vieram de meu salário como deputado, de minha aposentadoria como jornalista e de minhas diárias internacionais‖, diz246.
No trecho anterior então percebe-se que existe um erro, mas a revista tenta ‗amenizar‘ o equívoco chegando a dizer que ele é de ordem semântica. Tenta explicar que ‗movimentar‘, não é ‗movimentar‘. Ter dito que a pessoa tem um milhão de dólares, ou não dizer são as mesmas coisas, na visão da revista.
Há uma hipótese para certo comportamento da grande imprensa: jornalistas têm dificuldade em aceitar que erram. Basta ler os jornais diários da grande imprensa e é possível observar a pouca ou quase nada sessão destinada para os equívocos cometidos pela imprensa. Dentro de uma ótica realista, é preciso dizer também que, mesmo involuntariamente, o
244 Aqui nota-se que a revista não reconhece seu erro, apesar de ter publicado na edição anterior o valor de um
milhão, ela diz que o equívoco foi da CPI. Ora, se a informação está errada não importa nesse momento saber se foi a CPI ou a Veja que conseguiram esse número. O fato é que a informação saiu errada. E, se saiu errada, ela foi deturpada, manipulada. Seja com ou sem intenção, houve sim a manipulação da informação. Aliás, a manipulação, a meu ver, ocorre mesmo que o jornalista a faça com ou sem intenção, por processo culposo ou doloso. Na edição seguinte, Veja também deixou de publicar qualquer nota de correção ou errata, como se diz no jornalismo.
245 Veja, 24 de novembro de 1993, p. 43. 246 Veja, loc.cit.
jornalista que erra comete ‗pecados‘ incalculáveis quando o caso envolve figura pública. Ou seja, o erro pode e destrói a vida pública de uma personalidade política, ou até mesmo de uma artista ou qualquer figura conhecida do público.
Na opinião de Mário Rosa, existe certa arrogância nessa atitude por parte da grande imprensa e, mais especificamente, dos jornalistas. Ele diz que sempre que há um erro cometido por parte da imprensa, o meio de comunicação que o cometeu tenta relativizar esse equívoco.
(...) ser jornalista é tentar acertar mais do que errar, é tentar acertar mais do que a concorrência, é tentar acertar mais sobre temas mais importantes. Ser jornalista, portanto, é tentar ser preciso. Quem sobrevive nesse jogo duríssimo da informação passa naturalmente a confiar mais em si mesmo. Daí nasce o perigo: uma espécie de arrogância do acerto que procura relativizar o erro, ou simplesmente negá-lo. Jornalistas não costumam aceitar facilmente que estão errados, principalmente durante as crises. Até porque muita gente tenta enganá-los dizendo que estão errados, quando os fatos posteriores provam que não. Por isso, jornalistas resistem em dar o braço a torcer e, quando dão, muitas vezes é tarde demais, quando a crise já passou247.
Luiz Martins da Silva, já citado nesse trabalho, tem uma postura enfática sobre os erros da imprensa, principalmente quando eles são propositais. Para ele, erros conscientes deixam a esfera jornalística para ser um crime, isso porque houve o dolo. ―Quando a imprensa erra conscientemente, tipifica ação dolosa. Já não é erro, é crime. Já não é jornalismo, é delinquência248‖.
Fica a pergunta: o jornalista então não pode errar? Pode cometer equívocos desde que sejam reconhecidos e que sejam reparados. Essa é a questão: a reparação, seja por meio do reconhecimento do meio de comunicação ou até mesmo na Justiça.
Eugênio Bucci, também é claro ao afirmar que os jornalistas torcem o nariz para o tema: os erros da imprensa. A ética é deixada de lado. Nas redações, segundo ele, a ética é tratada como uma ‗alienígena‘. Jornalistas são considerados ‗independentes‘. Parecem viver num mundo à parte, por isso consideram-se intocáveis.
(...) a recusa em discutir ética em público se manifesta como se fosse afirmação de independência. Os jornalistas se recusam a prestar contas a quem quer que seja. O paradoxo, contudo, é apenas aparente: o não-falar de ética parece querer exprimir uma atitude de autonomia perante esferas externas, como a do poder e a dos negócios, mas no seu fundamento essa pretensa autonomia é apenas arrogância. Pode-se dizer que a arrogância jornalística não é outra coisa senão a afirmação de uma auto-suficiência ética. É como se a imprensa proclamasse: minha função é
247ROSA, 2007, p. 278.
248SILVA, Luiz Martins. Por que a imprensa erra? – 100 casos e algumas hipóteses. X Encontro Anual dos
informar o público, mas os meus valores não estão em discussão, os meus métodos não são da conta de mais ninguém – eles são bons, corretos e justos por definição249.
E porque a imprensa age desta maneira? Porque é arrogante? O próprio Bucci dá uma primeira pista. Essa atitude pode ter uma explicação histórica. No embate com lobistas de grupos econômicos, por exemplo, e com mensageiros do governo dispostos a interferir no curso das coberturas jornalísticas, a grossura no trato às vezes é uma maneira eficaz de manter a distância devida.
Diante de forças que agem em surdina, que não admitem o menor grau de transparência quanto a seus próprios métodos, a imprensa não teria outra maneira de resguardar sua independência que não fosse fechar-se, ela também, em barricadas, torres e muros bem altos e espessos. Isso é ainda mais verdadeiro quando se leva em conta que, entre 1964 e 1985, o Brasil viveu sob o estado ditatorial imposto pelo regime militar, que incluiu a censura à imprensa – e também a prisão, a tortura e o assassinato de jornalistas. Não há o que conversar com gente que defende a censura. Não há o que dialogar com quem quer subornar. E, num momento histórico em que é impossível distinguir quem é quem, não há porque perder energias procurando canais de diálogos deontológicos. A ―casca grossa‖ é útil. Ou, no mínimo, tem razão de ser 250.
Francisco Fonseca vai além de Bucci. Ele defende categoricamente que a grande imprensa é um aparelho privado de hegemonia251. Ou seja, uma parte da mídia funciona como organismos sociais privados – voltados à propagação de ideias tendo em vista a obtenção de hegemonia (esse tema foi detalhado na introdução do trabalho). Então por estarem inserido dentre de uma superestrutura, jornalistas acreditam que exercem uma função de caráter público e coletivo, mesmo não sendo seres ideais.
3.6.1. Cinema
De acordo com Mário Rosa, o cinema ajudou a entender as características dos jornalistas. Diria mais, o cinema contribuiu, inclusive, até mesmo para compreender e
249BUCCI, 2000, p.41. 250BUCCI, loc. cit.
251Em seu livro Consenso Forjado, Fonseca cita o escritor Antônio Gramsci para sintetizar os aparelhos
―privados‖ de hegemonia. Segundo ele, são organismos sociais privados, o que significa que a adesão ao menos é voluntária e não coercitiva, tornando-se assim relativamente autônomos em face do Estado em sentido estrito [no contexto, portanto, de sua configuração ampliada, isto é, sociedade política + sociedade civil, possível nas conformações sociais do tipo ―ocidente‖ – FF ]; mas deve-se observar que Gramsci põe o adjetivo ―privado‖ entre aspas, querendo com isso significar que – apesar desse seu caráter voluntário ou ―contratual‖ – eles têm
verificar uma certa ―arrogância‖ em não querer assumir que erram. Os jornalistas acreditam que são seres superiores.
O trabalho de Stella Senra foi importante para identificar o que Mário Rosa chama de arquétipo dos jornalistas. Foram alguns identificados.
Um dos elementos é o poder do jornalista. Sim o jornalista acredita que tem poder, ou até super-poder. Publicando uma reportagem, como ocorreu em relação à Ibsen Pinheiro, Veja e uma parte da grande imprensa sentem-se no lugar mais alto. Acredita que a maioria do leitor ou da opinião pública vai ‗acreditar‘ em qualquer história que for publicada. Ela faz uma indagação.
Você sabe dizer o nome do jornalista mais famoso de todos os tempos? Não, nada de Walter Cronkite, Dan Rather, Cid Moreira ou William Bonner! O jornalista mundialmente mais conhecido atende pelo nome de Clark Kent. Sim: o personagem que encarnava o super-homem à paisana. ―Nos seus traços essa mitologia confere à face superdotada do personagem uma série de traços comumente atribuídos ao jornalista‖, observa a professora Senra.252
O que a Senra quer dizer nesse trecho é chamar atenção para essa comparação muito pertinente de o jornalista achar que tem super-poder e está acima do bem e do mal.
O jornalismo, não só o praticado por Veja no episódio Ibsen Pinheiro, mas o de outros órgãos da grande imprensa se assemelha ao ―super-homem‖, engajado na defesa dos direitos do cidadão e em protegê-los dos perigos. De que perigo Veja então gostaria de defender seus leitores? A resposta é simples: ―de corruptos como Ibsen‖. Assim como Clark Kent, a grande
imprensa ‗combate sem temor os vilões, os agentes do mal‘. Essa, na verdade, é uma visão caricatural do jornalista.
Mesmo não voando ou parando trens – acreditam que exercem uma função de caráter público e coletivo. É claro que não são seres ideais. São movidos pela ambição, querem crescer profissionalmente para ganhar mais e ter mais influência, como em qualquer outra atividade. Mas em maior ou menor grau, jornalistas sentem-se no exercício de uma missão social, combatendo e corrigindo vícios (por intermédio da denúncia). Esse é um dos aspectos do super-homem mais belos dessa profissão. ―Antes de ser um negócio, jornal deve ser visto como um serviço público‖, define Ricardo Noblat, um dos mais respeitados jornalistas do País, em seu livro A arte de fazer um jornal diário (editora Contexto) (...) 253
uma indiscutível dimensão pública, na medida em que parte integrante das relações de poder em dada sociedade (2005, p.30).
252ROSA, 2007, p. 269. 253 Ibid., p. 270.
E se o jornalista tem super-poder, ele precisa saber controlá-lo. Dosar suas atitudes para não cometer injustiças ou não correr o risco de tornar uma cobertura perigosa para quem está sendo investigado. Quando esse controle sobre a cobertura não existe e o super-poder é extrapolado pode provocar danos. Ou quando a grande imprensa nega que cometa abusos, ela mais uma vez pode estar ―plantando a semente da arrogância‖.
Segundo Mário Rosa, existe um forte sentimento dos jornalistas de atingir uma missão, de atuar em favor da coletividade, usando os ‗super-poderes‘ que lhe são conferidos no combate aos erros e aos vilões. Só que em muitas vezes esse enorme poder é usado de forma desmedida.