A experiência do estágio de vivência é um resgate de experiência que a Federação dos Estudantes de Agronomia no Brasil (FEAB) vem promovendo desde o final da década de 1980, em parceria com os movimentos sociais: os universitários passavam as férias trocando saberes com as famílias de agricultores nas comunidades rurais.
Era também um momento de redemocratização, e a FEAB vinha se reafirmando e se posicionando politicamente para o modelo de desenvolvimento que defendia - agricultura alternativa – em que gostariam de atuar, com a classe trabalhadora do campo
(SEMINÁRIO NACIONAL DOS ESTÁGIOS INTERDISCIPLINARES DE VIVÊNCIA, 2010).
Com base nessa antiga experiência e com o apoio da FEAB na discussão inicial
do Projeto Residência Agrária, o estágio de vivência foi reconhecido como peça primordial para a compreensão social, política, econômica, cultural e humana da vida não só dos(as) estagiários(as), mas também da vida das famílias que os(as)recebem.
O estágio de vivência, enquanto processo educativo, veio incrementar a proposta da Residência Agrária e segundo Casimiro (2009, p.30), “a ideia era promover um compartilhar de olhares, de saberes, quebrar a distância muitas vezes evidenciada na postura dos técnicos e reforçada pela Universidade através da hierarquização do conhecimento”.
E para a proposta Residência Agrária, o subprojeto da UFPB descreve a importância desse momento de formação:
O estágio de vivência tem como objetivos, aprofundar o debate e a compreensão da realidade agrária brasileira, problematizar o modelo de desenvolvimento para a agricultura, e aproximar a universidade dos movimentos sociais e das comunidades de trabalhadores rurais. Compreender a dinâmica da pequena produção, compreender o histórico conflito de terras
no Brasil, a partir de experiências de assentamentos rurais [...], vivenciar e experienciar juntamente com os pequenos agricultores e trabalhadores rurais, num processo de aprendizagem mútua, o cotidiano de luta pela terra, pela produção, pela vida digna e pela construção do território. Trata-se de um trabalho de conscientização e sensibilização da comunidade acadêmica acerca da problemática da questão agrária brasileira, sua especificidade [...], na elaboração de novas metodologias para o estágio de vivência e a interação com comunidades de trabalhadores rurais (UFPB, 200?, p.10).
A possibilidade de vivenciar a realidade do campo, por meio do estágio de vivência, só vem a aproximar a prática da teoria e vice versa, além de compreender o campo como espaço de cultura, de conflitos, de sabres construídos por meio da experimentação natural e da relação entre os seres vivos (homem, mulher e recursos naturais).
Esse reconhecimento, percepções e processo de aprendizagem também aparecem nas entrevistas, pelos egressos:
O estágio de vivência foi feito no município de Ouricuri (PE), junto ao Caatinga, é uma ONG que trabalha com caprinos, abelhas, enfim. Eu fiquei muito tempo hospedada na casa de dois agricultores que eu lembro que até hoje foi, uma das fases mais importantes da minha vida. Fiquei muito tempo lá fazendo as atividades que eles faziam. Lá, eu não era a médica veterinária. E muito do meu conceito de aprendizagem de respeito ao ser humano, ao ambiente, aos animais, eu aprendi nesse período, foi uma experiência muito rica que a gente tentou fazer uma intervenção sem uma agressão aos hábitos deles aos costumes e a cultura (PEME, 2013, p. 6).
O Estágio foi no Assentamento Santa Vitória do MST, foi uma experiência riquíssima, porque é um dos primeiros assentamentos aqui da região, de muita história, o conflito de terra lá, foi intenso teve até morte, inclusive o nome do assentamento se deve a morte em homenagem a menina que faleceu lá. O Assentamento Santa Vitória, foi um aprendizado grande, no convívio, nas reuniões, também a expectativa que eles tinham em relação a assistência técnica, até a presença da universidade lá, a gente era a universidade lá, eles nos viam como alguém que vinha da universidade que poderia fazer uma coisa por eles, então foi um tempo mesmo, de aprendizado, de conviver, de amanhecer lá com eles, de almoçar e tomar café, de aprendizado (PBHE, 2013, p. 6).
A experiência que os(as) educandos(as) puderam vivenciar por meio dessa ferramenta pedagógica, mas também enquanto processo educativo mediante o estágio de vivência, pôde proporcionar uma reflexão sobre as contradições entre uma ciência cartesiana e elitista e a realidade concreta da maioria da população, a diversidade de sujeitos que resistem e lutam por uma vida digna no campo.
O estágio de vivência foi constituído de três fases: Preparação – em que, por meio de leituras e metodologias participativas, são discutidos e aprofundados temas que podem contribuir para o entendimento dos processos vivenciados em campo, o contexto agrário, agrícola, as relações de gênero, geracional, políticas públicas; Vivência, a
realização do estágio propriamente dito, em que os(as) educandos(as) ficaram durante período de tempo convivendo com a família agricultora e camponesa; e Avaliação, reunião com todos os(as) educandos(as) e demais participantes (representantes das famílias agricultoras e camponesas) para socializar as experiências adquiridas no período da vivência.
A primeira fase da formação Residência Agrária foi desenvolvida individualmente em cada instituição: localmente foi feita uma seleção por meio de edital para o estágio de vivência. Nesse estágio, foi desenvolvido em parceria com os movimentos sociais locais e ONGs que trabalhavam com a agricultura familiar, os(as) educandos(as) foram indicados para uma área rural e tiveram de conviver com a família por mais ou menos seis meses (primeiro semestre de 2004), aprendendo e vivenciando as alegrias e as dificuldades. No segundo momento, levando em consideração o que foi vivenciado e conversado com as famílias, construíram um projeto de pesquisa para ser amadurecido e desenvolvimento durante o curso de especialização (UFPB, 2008b).
É importante ressaltar que, antes e após o período do estágio de vivência, os grupos de discentes e docentes das universidades, se reuniam com certa constância para estudo, seminários, encontros regionais e nacionais, reflexões e discussões sobre os eixos temáticos e as trocas de experiências. Assim, levou-se demanda da realidade para a academia e promoveu-se o diálogo entre conhecimento popular e conhecimento científico com suas teorias.
No relatório parcial, consta que tais encontros, eram momentos de
fortalecimento para as políticas de formação e qualificação que estavam em desenvolvimento no país, considerando-se que essa política, ao articular os aspectos educacionais, culturais, políticos e econômicos na construção de outro modelo de desenvolvimento, pode contribuir para o fortalecimento e a reinvenção de conhecimentos e práticas sociais mobilizadoras de outra realidade para o campo.
A dinâmica de conhecer primeiro a realidade para depois associá-la às teorias acadêmicas foi importante no processo de reflexão crítica da realidade rural brasileira, bem como a valorização do diálogo entre a universidade (saber científico) e a sociedade (saber social), além de proporcionar à aproximação de educandos(as) e educadores(as) das universidades e da realidade socioeconômica, política e cultural brasileira, em especial as necessidades das camadas sociais menos favorecidas presentes nos assentamentos e comunidades rurais.