A questão que se faz necessária é a seguinte: de que maneira ironia e subjetividade se relacionam no interior do pensamento de Kierkegaard? Para o pensador de Copenhague tal relação ocorre quando o indivíduo afasta-se de tudo para aprofundar-se em si mesmo, pensando o eu que é em detrimento da exterioridade que vive.
Nesse sentido, podemos lançar pelo menos três afirmações que nos ajudam a compreender a questão: A primeira, para ele, a ironia é o excitamento da subjetividade ou uma de suas expressões maiores, é uma liberdade que transborda infinitamente. A segunda, a ironia é um momento de reflexão em que o indivíduo se dá conta, não somente de um ou outro aspecto da existência, mas da existência como um todo e a ironiza, polemiza indiretamente. A terceira, o irônico possui, como é o caso do filósofo Sócrates, uma visão de conjunto o suficiente para ―desdenhar a realidade e exigir a idealidade‖ (1991, p. 165). Aliás, como afirma Valls:
A performance socrática, irônica, é o salto que se lança para as alturas sacrificando tudo, decola, sai do chão, abandona o finito, as belezas, as riquezas, os belos corpos, as belas ideias, a bela ciência, abandona tudo e fica só com a ideia, abstrata, do bem (VALLS, 2012, p. 123).
Desse modo, é necessário lançar mão do seguinte questionamento: é possível no pensamento do filósofo dinamarquês, uma vida autenticamente humana sem ironia? De acordo com Álvaro Valls (2012, p. 119) ―a ironia não tem, para Kierkegaard, o direito à última palavra, muito embora seja sem dúvida a primeira norma de uma vida autenticamente humana, primeira afirmação decidida da subjetividade.‖
Na estrutura do conjunto da obra do pensador dinamarquês, a ironia apresenta-se como uma espécie de saber existencial, um saber que liberta e que aproxima o indivíduo dele próprio, ―o sujeito bate em retirada constantemente, contesta a realidade de todo e qualquer fenômeno, para salvar a si próprio, na independência negativa em relação a tudo‖ (KIERKEGAARD, 1991, p. 223). Por isso, podemos afirmar que a ironia interroga, questiona, ela é crítica, pois tem a função de revelar o Individuo a si mesmo, uma vez que trata-se do conhecimento e do aprofundamento do eu. ―A ironia ensina a colocar a ênfase adequada na realidade‖ (SAMPAIO, 2001, p. 61). Assim como outrora Sócrates havia feito em uma tentativa de ―libertar o sujeito da vinculação à qual está preso pela continuidade das condições de vida‖ (KIERKEGAARD, 1991, p. 222). É com o filósofo grego de Atenas que a ironia primordialmente apareceu na história universal como uma das maneiras de incitamento da subjetividade. De acordo com Farago, para Kierkegaard a ironia:
Não é mais uma região do ser, mas é a única maneira fundamental de se relacionar com o ser, o que faz com que nos tornemos alguma coisa, em vez de voar por cima de todas as coisas em um pensamento ―‗objetivo‖‘ que, no fim de contas, não pensa verdadeiramente nada (FARAGO, 2006, p. 119).
A ironia é uma das atitudes mais políticas de Kierkegaard, pois é por meio dela que ele filosofa e, sobretudo, questiona a tese de um dos seus interlocutores principais, Hegel33 que tentou superar o dualismo entre o subjetivo e o objetivo, isto é, em seu esquema ele identifica pensamento (razão) com o ser (existência), ou seja, uma relação entre o interno e o externo que produz uma noção de verdade como identidade (GUEVARA, 2005, p. 29). No entanto, a verdade para o pensador dinamarquês é a verdade como subjetividade e não como identidade, por isso se nega a aceitar tal identificação, entende que o pensador alemão aboliu com o seu conceito de verdade o princípio de contradição, não compreendeu que o subjetivo e o objetivo estão separados na existência. Portanto, segundo ele, o Indivíduo, em si, nada é por conta da racionalidade hegeliana que fica melhor enfatizada, a partir das palavras do próprio Hegel, em sua Enciclopédia das ciências:
A autoconsciência, ou seja, a certeza de que as suas determinações são tanto objectais, determinações da essência das coisas, quanto seus pensamentos próprios, é a razão; enquanto tal identidade, a razão é não só a substância absoluta, mas a verdade como saber. Com efeito, a verdade tem aqui por determinidade peculiar, por forma imanente, o conceito puro que existe para si, o eu, a certeza de si mesmo como universalidade infinita. – Esta verdade ciente é o espírito (HEGEL, 1992, p. 61, § 439).
Ao indagar: o exterior é o interior? ou o contrário: o interior é o exterior? o pensador dinamarquês põe em cheque a teoria pensamento e existência, pois a ―ironia indica que o fenômeno não é o ser e bem poderia ser o contrário da essência, por isso não se pode dizer que todo real é racional e todo racional é real‖
33 Hegel, em Enciclopédia das Ciências, uma obra de 1817, aborda o problema das relações entre
pensamento e objetividade. Para ele o intuito é construir uma filosofia que pretende se apresentar como a própria expressão da realidade, eliminando a tradicional distinção entre a ideia e o real, pois segundo ele, ambas seriam facetas de uma mesma coisa, o que equivale dizer o real é racional e o que é racional é real.
(SAMPAIO, 2001, p. 53). Em uma passagem do livro ―A Alternativa?‖, editado pelo pseudônimo Victor Eremita, o filósofo de Copenhague mostra as suas desconfianças com relação à proposição: ―o exterior é o interior‖.
Querido leitor, alguma vez, em sua mente, já teve vontade de duvidar da exatidão da conhecida proposição filosófica: o exterior é o interior, ou o interior é o exterior (...). Uma dúvida como essa vem e vai e nada sabemos de onde vem e para onde vai. De minha parte, sempre tenho tido uma disposição herética a respeito deste ponto da filosofia e por ele me acostumei desde o princípio a realizar eu mesmo e o melhor possível minhas próprias observações e investigações (...). Paulatinamente o ouvido se converteu no sentido mais precioso, pois assim como a voz é a revelação da interioridade incomensurável para o fórum externo, assim também o ouvido é o instrumento mediante o qual esta se apropria. Cada vez que encontrava uma contradição entre o que via e o que ouvia, se reforçava a minha dúvida e o meu desejo de observação se incrementava. Um confessor está separado do confessante por uma grade, não o vê, somente o ouve. Na media em que se ouve, crê em um exterior que se corresponda com ele, a saber não entra em contradição. É diferente, no entanto, quando se vê e se ouve ao mesmo tempo, sem, no entanto, uma grade entre o ouvinte e o orador. (...). As vezes tenho a sorte do meu lado e as vezes não, ela é necessária para ter algum benefício neste caminho. No entanto nunca perdi o desejo de prosseguir com minhas investigações (KIERKEGAARD, 2006, p. 29-30).
Como é notório, no pensamento do nosso autor, que é o uso da ironia enquanto chave mestra que o instiga a desconfiar e a problematizar a relação que o interior mantém com o exterior, ou seja, com a ironia, Kierkegaard faz uma teoria do conhecimento34, tendo em vista o problema: como dizer a existência, o ato de existir, isto é, a interioridade? Diante da grande dificuldade de pensar uma exterioridade social e comum a linguagem frente à intimidade de um existente singular (CLAIR,
34 O que denominamos aqui como teoria do conhecimento de Kierkegaard são as críticas que ele
remete ao pensamento objetivo de Hegel para quem o real é racional. Para Kierkegaard o real, existência é muito contraditória para se tão racional como afirma Hegel.
1997, p. 14). Pois compreende, usando aqui termos praticamente sinônimos, que a palavra não é a ideia, que o fenômeno não é a essência.