• No results found

Os pseudônimos Johannes Clímacus e Anti-Clímacus são autores que surgem em anos diferentes no pensamento de Kierkegaard. O primeiro é de 1844, autor de Migalhas filosóficas ou um bocadinho de filosofia como também da obra Post-scriptum Conclusivo não científico às Migalhas filosóficas. Já o segundo surgiu cinco anos mais tarde e tornou-se autor de “A Escola do cristianismo‖ e também de uma das obras mais importantes de Kierkegaard, “A Doença para a morte‖.

Tais pseudônimos possuem personalidades completamente opostas, como também os comportamentos e o perfil psicológico, não pelo fato de terem surgidos em momentos diferentes, mas pelo motivo de defenderem pontos de vista diferentes, teses diferentes que se completam diante do conjunto da obra do pensador de Copenhague que se direciona ao devir cristão.

Para Kierkegaard, Clímacus não se vê, de modo algum como Cristão. Na apresentação das ―Migalhas filosóficas ou um bocadinho de filosofia‖, Reichmann e Valls afirmam que:

Clímacus declara-se o único que não consegue ser cristão, no interior da cristandade ocidental e da síntese de cristianismo e filosofia que se supõe ter sido operada por Hegel. Para ele, a cristandade parece ser antes um fenômeno geográfico, e não fruto de opções pessoais. Ele prefere não duvidar de que todos outros sejam, mas explica então simplesmente aos demais por que razões ele não o consegue ser também (KIERKEGAARD, 1995, p. 11). Por outro lado, Anti-Clímacus é o cristão por excelência.

O pseudônimo autor Johannes Clímacus37 é primordialmente uma das primeiras figuras literárias produzidas por Kierkegaard. Clímacus é dinamarquês, no entanto, o seu nome é de origem latinizada. O pensador dinamarquês dedicou-se a narrar o surgimento de Clímacus em “De omnibus dubitadum est” ou “É preciso duvidar de tudo”, um manuscrito considerado inacabado, sem conclusão. Em tal texto, são apresentadas as fases do desenvolvimento do pseudônimo, desde criança quando tem, por meio do pai, uma educação muito rígida, passando pela vida universitária e até o momento em que começa a filosofar.

De acordo com Kierkegaard, Clímacus viveu em uma cidade dinamarquesa chamada Hafnia, uma região onde funcionava uma espécie de porto de mercadores. Um jovem que tentava não se deixar ser percebido em diversas situações, discreto, silencioso e, às vezes, mal compreendido, pois, para algumas pessoas, o motivo dele não se deixar notar estava relacionado a uma certa melancolia ou a uma paixão por uma jovem mulher. Hipóteses que não explicavam o comportamento de Clímacus. Ele era sim apaixonado, aliás, superlativamente apaixonado, no entanto, pelo pensamento, razão de seu silêncio e da sua contrição. Tinha alegria e prazer em perceber e analisar o próprio pensamento, notando o seu encadeamento lógico.

Durante a infância, Clímacus costumava passear com o seu pai, homem severo, rígido, que tinha o hábito de descrever minuciosamente tudo o que era

37 Valls e Reichmann ao traduzirem o texto, Migalhas filosóficas ou um bocadinho de filosofia,

entendem que J. C. é um pseudônimo que possui uma biografia, com psicologia e lógica próprias, ao contrário de outros que não passam de nomes com a única função de distanciar Kierkegaard de seus escritos. O texto inédito ―Johannes Címacus ou De omnibus dubitam est‖ descreve seu nascimento, sua infância e juventude e ainda a maneira como começou a filosofar, o que conseguiu fazer e o que desistiu de fazer neste empreendimento. Clímacus, que mais adiante se define como um humorista, é descrito como um autor jovem, de grande capacidade especulativa, uma cabeça filosófica bastante familiarizada com os gregos, além de leitor atento de Descartes, Leibniz e Espinosa. Começando a filosofar, tentou duvidar de tudo, como recomendavam os mestres de seu tempo, mas tendo observado como estes passavam imediatamente para o sistema (já na segunda aula), acabou restringindo-se à pequena dúvida (ou seja, se estes mestres teriam realmente duvidado de tudo, coisa tão difícil, quando empenhamos a vida toda neste esforço). (C.F. KIERKEGAARD, 1995, p. 10).

percebido no percurso do passeio. Os dois dialogavam, ―para Johannes é como se o mundo passasse a existir no decorrer da conversa com o pai...‖ (KIERKEGAARD, 2003, p. 11), cujo comportamento era o tempo todo objeto de sua observação, sobretudo, os argumentos utilizados em conversas com outras pessoas, devido à dialética fascinante à qual conduzia o interlocutor a chegar exatamente onde ele pretendia. Seu pai, apesar de rígido, era o seu motivador principal.

Clímacus crescia, aos vinte anos tornou-se universitário, sua vida era pensar, mas para um estudante universitário ainda havia lido pouco, aprendeu a gramática latina como também a grega, mas ainda não tinha nenhuma pretensão filosófica:

A ideia de querer tornar-se filósofo e consagrar-se inteiramente à especulação nunca lhe ocorrera; ainda era muito precipitado para isso. Sua alma, com certeza, não era atraída ora para um lado ora para o outro; o raciocínio sempre fora a sua paixão, mas faltava-lhe ainda a reflexão para uma coerência mais profunda (KIERKEGAARD, 2003, p.19).

Tal coerência só pode ser adquirida com a chegada da maturidade. Johannes ocupou-se cada vez mais com os próprios pensamentos e no que diz respeito ao fato de saber ouvir aquilo que outras pessoas diziam, sua atenção redobrou e uma determinada afirmação repetidas muitas vezes, em sua época, o inquietou: ―De omnibus dubitadum est (É preciso duvidar de tudo)‖ (KIERKEGAARD, 2003, p. 22).

Eu sinto com angústia ter sido emancipado jovem demais, tal como uma jovem casada precocemente – mas é assim que deve ser! A proposição De omnibus dubitandum est já se introduziu em minha consciência, dedicarei todos os meus esforços para entender a fundo seu significado, e toda a minha paixão para colocar em prática o que exprime. Aconteça o que acontecer; que me leve a tudo ou a nada, que torne sábio ou louco, porei tudo em jogo, mas não abandonarei esta ideia. Meus sonhos exaltados, de ser um discípulo, desapareceram; antes que me fosse permitido ser jovem, tornei-me velho. Agora navego em alto mar, as perspectivas que me iludiam sobre a relação desta proposição à filosofia foram vedadas; nada sei a respeito desta proposição com qualquer outra coisa; apenas sigo o meu caminho... (KIERKEGAARD, 2003, p. 94).

É por meio desta proposição que o jovem Clímacus por conta própria assume os riscos e propedeuticamente começa a filosofar, sua tarefa daí a diante é refletir sobre as relações que a dúvida pode manter com a filosofia. Para tanto, elencou outros três preceitos os quais julgou necessários para desenvolver suas operações mentais. São eles: ―A filosofia começa pela dúvida; É preciso ter duvidado para poder filosofar; A filosofia moderna começa pela dúvida‖ (KIERKEGAARD, 2003, p. 35).

Com relação ao primeiro preceito, ―a filosofia começa pela dúvida‖, Clímacus reflete que tudo aquilo que não começa com a dúvida não pode ser chamado de filosofia. Nesse sentido, como nomear o pensamento de Platão e Aristóteles que não duvidaram, mas espantaram e admiraram38 e mesmo assim se tornaram filósofos? Tal argumento já contradiz o segundo preceito, pois nem todo indivíduo necessitou da dúvida para poder filosofar. A dúvida é importante, Clímacus entende perfeitamente que ela é companheira do indivíduo, sobretudo, em momentos cruciais, no entanto, não se pode fazer dela a única condição necessária para o ato de filosofar. Já o terceiro preceito, de que a filosofia moderna começa pela dúvida vem acompanhado com a seguinte indagação: a dúvida como ponto de partida para a filosofia moderna é necessária ou contingente? Ou seja, foi por acaso ou por necessidade que a filosofia moderna 39iniciou-se pela dúvida?

38 Os termos espanto e admiração diz respeito a tradução do termo thaumas que é utilizados por

Platão em diálogos como Teeteto e Fédon, no sentido de surpresa, deslumbramento, perplexidade, maravilhamento. Aristóteles também utiliza o termo thaumas no mesmo sentido de seu mestre Platão: ―Os homens começam, e começaram a filosofar movidos pela admiração (tò thaumazein). No princípio, admiramos diante dos fenômenos surpreendentes mais comuns: depois, avançado pouco a pouco e delineando problemas maiores, como as mudanças da lua e relativas ao sol e às estrelas, e à geração do universo. No entanto, aquele que se propõe um problema ou se admira, reconhece sua ignorância... de sorte que, se filosofara para fugir da ignorância, é claro que buscam saber em vista do conhecimento, e não por alguma utilidade.‖ (Met. I, 982b).

39 Para Clímacus a filosofia moderna do ponto de vista histórico é uma etapa do desenvolvimento da

Ele admitiu, entretanto, tão bem quanto podia e até nova ordem, a ideia de que era uma consequência necessária a de que a filosofia moderna tivesse começado pela dúvida. Depois, inferiu que o começo da filosofia devia ser um começo essencial para a filosofia, pois, afinal, não se justificaria por razões históricas e contingentes, enunciar algo essencial sobre um desenvolvimento que ainda não estava concluído; mais tarde, podia bem ser possível que se demonstrasse que esse começo não era absolutamente o começo, mas sim um engano, e nada tinha a ver com o começo da filosofia (KIERKEGAARD, 2003, p. 48-49).

Como se pode perceber, Clímacus é um indivíduo que se desenvolve no momento histórico dos sistemas. Tenta ser lógico, no entanto, apesar de não creditar a dúvida como ponto de partida para o começo da filosofia, ele a utiliza, ou melhor, duvida ―que é preciso duvidar de tudo‖, pelo fato de que a adesão gratuita a determinadas verdades, sem questionamentos, se torna crença. Não é porque alguém duvidou que a dúvida servirá para todos os demais filosofarem, pois determinadas dúvidas são imobilizadoras, isto é, apenas repetir a dúvida não é o suficiente. E nesse caso especificamente não é possível crer sem duvidar, pois não se trata de uma questão religiosa, como, por exemplo: para o cristianismo, Cristo sofreu pela geração, morreu crucificado para a remissão dos pecados e salvação de todos os indivíduos e agora é só necessário crer. E a questão ainda permanece: de que maneira o indivíduo deverá aderir-se a filosofia? Ou qual o caminho o indivíduo deve percorrer para entrar na filosofia? Kierkegaard dá a entender que Clímacus não se torna filósofo pelas condições da dúvida, apesar de gastar o seu tempo duvidando e compreender que a dúvida engendra a reflexão e por ser uma expressão elevada da existência.

significar que todos os demais tenham que fazer o mesmo. Portanto: Descartes começa pela dúvida: vários outros filósofos seguiram seu exemplo. Tal afirmação não suscitaria nenhuma objeção do ponto de vista filosófico. Se tal proposição apresentasse dificuldades, estas seriam de ordem histórica, por exemplo, determinar se realmente era verdade terem dito que o haviam feito ou se realmente era verdade que tinham feito o que diziam que tinham feito. (C.F. KIERKEGAARD, 2003, p. 50).