3.1 Samarbeid som utviklingsstrategi
3.1.2 Regionale nettverk
Na mais tenra infância, Deise Salim foi enviada ao internato, Tufic Salim se posiciona contrário a essa proposta, mas a influência da mãe foi decisiva para que a filha aos oito anos de idade fosse internada no colégio das Irmãs Servas de Maria Reparadoras. A experiência do internato, como pode ser observado no depoimento, marcou profundamente a infância de Deise Salim. Quando adulta, diante de uma dura batalha travada contra o câncer, agarrou-se
aos valores e à fé católica ensinada pelas freiras do Colégio Divina Providência, permanecendo na atualidade como uma católica devota e praticante. Da religiosidade do pai, permaneceu na memoria o fato que este era Druso81 e, muito discretamente, costumava rezar
conforme sua crença, ao amanhecer e ao por do sol, mas aparentemente não deu maiores explicações para os filhos e muito menos os incentivou a praticarem algo que não fosse o Catolicismo dominante em Xapuri.
Na data da entrevista, Deise Salim estava com oitenta anos e com muita clareza, retornou às memorias de sua infância, em particular ao internato do Colégio Divina Providência82. Obviamente que sua infância não se restringe ao Divina Providência, mas esta
é uma fase intensa que ficou marcada, como se percebe ao longo do depoimento. O que nos serve de alerta enquanto educador no sentido de fazermos uma autocrítica constante sobre nossa praxe em sala de aula. Não foi o ensino Superior ou o Normal Regional que marcaram significativamente as memorias de Deise Salim, foi o ensino fundamental, ministrado pelas Irmãs Servas de Maria no internato, que delinearam os valores que Deise carregou ao longo da vida. A fase entre os oito e os quinze anos de internato está marcada de maneira indelével em suas memórias.
A sólida formação católico-cristã, apreendida no colégio foi como uma gigantesca força centrífuga que em sua dinâmica a impediu de se afastar dos valores e princípios tão profundamente incutidos. Mesmo sentindo-se humilhada por não lhe ser permitido participar do baile de formatura, por ter desobedecido às freiras e apoiado o candidato do PTB, nem por isso Deise se afastou da orbita das freiras, pelo contrário, iniciou o Normal Regional no mesmo Colégio. A vida profissional tem início no colégio das irmãs, onde leciona por muitos anos. A luta contra o câncer, também significou uma reafirmação da fé católica, em que
81Os drusos são uma pequena comunidade religiosa autónoma que reside, sobretudo em Líbano, Israel, Síria,
Turquia e Jordânia. Eles usam a língua árabe e seguem um modelo social muito semelhante ao dos Árabes da região. Não são considerados muçulmanos pela maioria dos muçulmanos da região, apesar de alguns drusos dizerem que a sua religião é islâmica. A maioria dos drusos considera-se árabe, apesar de alguns drusos israelenses não se considerarem como tal. Existem cerca de um milhão de drusos em todo o mundo, a maioria dos quais vivendo no Médio Oriente. Os drusos auto intitulam-se em árabe como Ahl al-Tawhīd "o povo do monoteísmo". A origem do nome druso é debatida, mas costuma ser ligada com Maomé al-Darazi, um antigo mensageiro da comunidade, que é considerado um herético pelos drusos hoje em dia. Disponível em: < http://dicionarioportugues.org/pt/drusos>. Acesso em: 29 Dez. 2014.
82Fundado em 1928, pelo Padre Felipe Galerani e administrado pelas Irmãs Servas de Maria. Inicialmente
funcionava como internato apenas para moças. Posteriormente passou a admitir crianças do sexo masculino em regime aberto. Disponível em: < http://xapurinews.blogspot.com.br/2008/12/colgio-divina-providncia>. Acesso em: 29 de Dez. 2014.
assume o “compromisso” de ter uma postura ativa em prol dos serviços da igreja. Quando Deise veio morar em Rio Branco, para cursar a graduação em Pedagogia, foi lecionar no Instituto São José, um colégio que também pertence às freiras Servas de Maria. Deise só parou de trabalhar em colégio de freiras quando foi contratada pala Universidade Federal do Acre, em 1976, mas após sua aposentadoria em 1994, dedicou-se intensamente aos serviços da igreja católica, embora com idade avançada, permanece bastante atuante neste serviço.
A memória que Deise guarda do pai é nítida e intensa. Tufic Salim emerge como um homem de poucas palavras, de aspecto rustico, afeiçoado ao trabalho, que criara em torno de si uma aura de mistério. Não tinha documentos, nunca revelou sua idade para a esposa e os filhos. Não mantinha vínculos com familiares ou amigos no Líbano. Inclusive após sua morte, os familiares procuraram entre seus objetos pessoais por alguma carta, documento ou endereço que o vinculasse aos familiares no Líbano, mas nada foi encontrado. Parece que Tufic Salim, de forma deliberada, optou por obliterar de seus familiares, em Xapuri, suas origens libanesas. Mas era também um homem que, segundo palavras de sua filha, era capaz de demonstrar afeto através dos gestos, de agradar preparando um prato especial de comida e o ofertando aos filhos em ocasiões oportunas. Que costumava demonstrar hospitalidade através da mesa farta, mesmo sendo uma pessoa humilde.
Na velhice, Tufic Salim parece ter narrado suas memórias em diversas ocasiões para Deise. Fica claro o “ranço” que carregava dos turcos, mas as lembranças do Líbano que transmitiu a filha estavam impregnadas de saudosismo e adoçadas pelo tempo, lembranças repletas de paisagens, aromas, sabores e odores que parecem impregnar a memoria. As conservas em azeite de cebola e azeitona preta, as conservas de carne de carneiro frita e imersa em gordura, cachos de uvas suculentas, cachos de tâmaras doces e tão grandes que um homem não consegue comer sozinho. A imagem de uma terra farta foi o Líbano que as memorias de Tufic Salim legaram a Deise.
Essa memoria se traduz e se materializa em culinária exuberante, exótica e rica em aromas e sabores. Lentilha, quibe frito e cru, charutos, esfirra, húmus, tabule, berinjela recheada, pasta de berinjela e grão-de-bico, coalhada síria, queijos, doces, entre outros, que Deise Salim descreve minuciosamente em suas narrativas, como se toda a memoria de um passado distante, dos antepassados que já se foram, pudesse ser revisitada ou relembrada no processo de elaboração de um prato típico de comida libanesa.
Deise Salim continua a revisitar o espaço da memoria ao reproduzir um gesto tantas vezes feito pelo pai. Sempre que possível, quando está em Xapuri, assiste ao por do sol de frente da antiga casa que fora de seu pai. O contraste de cores avermelhada do sol se pondo com o verde da floresta, o conjunto se refletindo nas águas do Rio Acre, bem no ponto em que este se junta com o Rio Xapuri, produz um expectro de cores, que desencadeiam as memorias que Deise guarda do pai. Memoria viva, produto de uma existência, repleta de experiências e significados.
Essas belas imagens pouco enfatizam o processo de “tornar-se brasileiro” daquela trajetória, exceto no que diz respeito à substituição de alguns ingredientes da culinária (dificuldades de acesso às folhas de parreira, por exemplo). Tendo vivido no Brasil, esse homem é mais lembrado pela herança libanesa anterior.
Indiretamente, todavia, o trajeto da própria Deise repõe a brasilidade, temperada pela memoria.