9. Regional filmsatsing
9.6 Regionale filmsenter
Como acabámos de ver, “a formação escolar acumulada e a integração num posto de trabalho constituem dois fatores balizadores da autodefinição pessoal dos indivíduos” (Alves, Cantante, Baptista e Carmo, 2011: 9). Estes dois elementos, juntamente com a formação de base adquirida durante o processo de socialização primária, são os pilares da individualidade, tendo por isso uma importância extrema na formação da identidade pessoal. Mas são também etapas cruciais para a definição de trajetórias de mobilidade social, pois é através delas que se estruturam os modos e estilos de vida, os padrões de consumo e as expetativas e aspirações face ao futuro.
Marinho Antunes (1981: 20), referindo-se à forma como os emigrantes (neste caso, os portugueses) são retratados, refere a sua “iniciativa pessoal, a capacidade de sacrifício e de trabalho, a vontade de melhorar de vida, de «ser alguém», ou seja de subir na escala social”. E refere ainda que “o emigrante representa alguém que, pelo seu próprio esforço, sacrifício e trabalho, é capaz de vencer o peso da hereditariedade do status social dos seus pais, reunindo os bens económicos que lhe permitam ser mais na sua comunidade”. Ora todos os imigrantes são também emigrantes em relação ao seu país de origem, pelo que estas características, sendo tidas como verdadeiras, se poderiam aplicar aos imigrantes que se encontram em Portugal.
No entanto, esta asserção é hoje demasiado generalizadora e está demasiado imbuída de valores tradicionais que advêm da condição histórica dos portugueses, que saíam dos meios rurais em busca de um destino melhor e voltavam às suas terras com uma condição social de topo nas suas pequenas comunidades, erigindo-se quase como heróis que enfrentavam perigos e viviam aventuras, tendo conseguido triunfar (resquícios da glória dos Descobrimentos ainda latente). Para além disso, esta representação dos emigrantes de conotação social positiva servia também intentos políticos no sentido da adoção de uma ideologia que, por um lado, fomentasse o investimento dos capitais dos emigrantes no país de origem e, por outro, camuflasse os problemas que esse
79
empoderamento poderia causar à manutenção da ordem social de um Estado Novo insidioso e arbitrário. A forma como os emigrantes e imigrantes são representados e, consequentemente, percecionados é, por isso, uma construção social que depende do contexto e das motivações subjacentes.
Bem diferente da dos emigrantes portugueses é a forma como os jovens adultos descendentes de imigrantes são percecionados. Eles veem-se muitas vezes na encruzilhada da sua própria condição: a de jovens e a de descendentes de imigrantes (ambas com determinado grau de problematicidade). Como se não bastassem os riscos e as incertezas próprios da juventude na modernidade tardia (com a complexificação e maior precariedade na transição para a vida adulta), a sua condição de descendentes de imigrantes traz consigo a marca da alteridade, que os coloca numa posição de desvantagem face aos autóctones. Por sua vez, os media tendem a veicular uma representação do jovem de origem imigrante que, associada a uma imagem distorcida dos bairros sociais, faz com que seja visto como “uma figura urbana que não se interseta com outras figuras urbanas juvenis, como os «estudantes», os «jovens empresários», os «jovens operários», os «jovens quadros»” (Machado e Silva, 2009: 8) e apareça vinculada sobretudo à delinquência, ao desemprego e aos problemas relacionados com a imigração.
No entanto, como já se disse anteriormente, estes jovens são jovens cujos percursos já não se podem equiparar aos dos seus pais. Enquanto os pais se reveem na condição de imigrantes (condição essa partilhada por muitos outros indivíduos em todo o mundo), os filhos, muitas vezes já nascidos no país de acolhimento e sem terem vivido o processo de imigração, encontram-se numa realidade muito diferente. Os descendentes de imigrantes já não têm como ponto de referência o país de origem dos pais e, ao contrário destes, muitas vezes nem colocam a hipótese de lá morar. Ainda que apoiados numa herança cultural difusa no seio familiar, em que “a transmissão geracional do sentido do passado cultural e étnico e o posicionamento dos pais em termos de recursos em poder social se constituem, à partida, enquanto fatores mobilizadores dos recursos à disposição dos filhos com vista à consubstancialização da sua inserção social”
80
(Contador, 1998: 2), estes jovens já não têm o mesmo modelo de socialização dos pais e vão construir a sua identidade com alicerces outros, diferenciados e diferenciadores. Sem dúvida que falar de imigrantes e dos seus descendentes é falar de uma condição de “não-norma”, de minoria, de “outro” em relação à norma, à maioria e ao “eu” nacional. E ter que nomear é sempre uma tarefa complexa, e implicando um posicionamento em relação a um centro, sobretudo quando falamos de desigualdades ou diferenciações. Nem o saber científico escapa ao processo interminável de construção, reconstrução e desconstrução de “juízos recíprocos, avaliações positivas e negativas, estratégias de afirmação e estigmatização, disputas de gosto, concorrência de estilos, lutas de poderes, processos de construção e destruição de identidades” (Costa, 1998, 67). Estamos, portanto, “perante um jogo de diferenciação e significação sem fim, onde continuamente os sujeitos sociais, ao lutarem pela mais-valia da sua identidade, definem o lugar daqueles que entendem como outros, pois que apenas pela definição da alteridade a identidade se define (Vasconcelos, 2004, 54). Deste modo, são produzidos mecanismos ou sistemas de classificação que muitas vezes se traduzem em processos discriminatórios ou de racismo, que servem para diferenciar e dominar, negando a participação ativa na vida económica, social, política e cultural (Anthias e Yuval-Davis, 2005: 10).
Estes processos discriminatórios estruturam, portanto, um espaço classificatório em que as lógicas da distinção e do valor apercebido se organizam em hierarquias. Nessas hierarquias, o valor identitário de uns alcança-se pela denegação do valor de outros – este é um processo de apropriação do valor pela distintividade identitária. (Vasconcelos, 2004: 57)
O nacional é valorizado em detrimento do que é considerado estrangeiro e, por conseguinte, a maioria, na tentativa de manter a sua condição dominante, desvaloriza o que é diferente. Deste modo, a identidade dos jovens descendentes de imigrantes é construída por oposição à dos autóctones. As identidades adversariais ou reativas nascem dessa rejeição, da dificuldade sentida em sentir-se aceite e de conseguir construir uma identidade plena e inteira (Minces, 1997: 201). Permanecer diferente traduz-se na assunção de uma falta de integração, e essa noção da própria exclusão social por meio da rejeição em relação ao que é diferente pode levar à revolta.
81
É também pela oposição entre imigrantes e descendentes em relação aos autóctones, criada e mantida através de mecanismos sociais, que muitas vezes se definem as identidades adversariais. Na impossibilidade de se sentirem incluídos, muitas vezes estes jovens veem-se enredados em percursos que denotam o desgosto de si e dos outros (que normalmente se reflete em trajetórias marcadas pela instabilidade emocional, o consumo de drogas, alcoolismo e prostituição) ou o desrespeito pelas regras e normas da sociedade pela qual se sentem rejeitados (Minces, 1997: 208).
No entanto, também se pode dar o caso do desenvolvimento de “identidades míticas”. Estas identidades são de alguma forma exacerbadas por um sentimento de pertença em relação às origens familiares, que tem origem na delineação de grupos e na aceitação ou rejeição sentidas a par dessa diferenciação. A consciência adquirida da não pertença ao grupo maioritário faz com que a identidade étnica, percetível muitas vezes através de características físicas como o tom da pele, seja adotada como uma forma natural de inclusão em grupos minoritários. Contudo, como refere Alejandro Portes:
Children of Asian, black, mulatto, and mestizo immigrants cannot easily reduce their ethnicity to the level of a voluntary option. Their enduring physical differences from whites and the equally persistent prejudice based on those differences, especially against black persons, throw a barrier in the path of occupational mobility and social acceptance. Immigrant children’s ethnic identities, their aspirations, and their academic performance are affected accordingly. (Portes, 2001: 255 -258)
A questão da ‘raça’ e do racismo já tem uma longa história na literatura científica, e não se pretende aqui rever toda a discussão a seu propósito. Contudo, é de referir que, embora a raça e a etnicidade sejam características que ganham consistência na sua relação com determinados contextos e na construção das diferenças entre grupos, elas são fatores importantes nas trajetórias de mobilidade, pois podem constituir-se como barreiras, afetando os desempenhos, as aspirações e a própria identidade dos jovens descendentes de imigrantes. Estas características podem determinar a sua inclusão ou exclusão de um contexto particular. Já Duncan (1969) e Featherman e Hauser (1978) referiam nos seus estudos que a estratificação racial não estava de acordo com as
82
expetativas do modelo assimilacionista9, devendo-se isso sobretudo a uma discriminação de cariz histórico e essencialista.
Partindo do princípio de que o termo “raça” tem a desvantagem de agrupar indivíduos muito diferentes em vários aspetos (nacionalidade, religião, cultura, língua, etc.), aspetos esses essenciais para a formação de uma ‘identidade’, sendo que essa mesma identidade não é também um dado adquirido, mas antes um processo em permanente construção e desconstrução, talvez devamos falar de identidades (no plural) e não de uma identidade única.
No caso dos descendentes de imigrantes, a profusão de identidades torna-se ainda mais evidente. Falamos de identidades plurais e de pluralismo cultural (Minces, 1997). Para além das referências culturais do(s) país(es) de origem dos pais, estes têm também a referência do país de acolhimento, vivem numa modernidade onde o acesso à informação e a outros mundos é feito de maneira célere e facilmente acessível, e muitas vezes desenvolvem outras referências, individuais ou grupais, espelhadas em modelos exteriores (como é o caso dos jovens que adotam o hip hop e o rap como forma identitária por identificação com a cultura negra americana), que pensam adequar-se mais à sua condição de jovens, ‘marginalizados’ou discriminados e socialmente excluídos. Poderia talvez dizer-se que estes são os verdadeiros ‘cidadãos do mundo’, com todas as ressalvas que esta afirmação poderá suscitar.
A ostentação étnica e cultural torna-se um meio de auto-afirmação, de demarcação de uma posição e de se fazer reconhecer pela positiva enquanto sujeito identitário e social, na tentativa de romper o espaço social. É no interior do grupo que encontram o seu lugar e que desenvolvem novas formas de ser, quer a nível individual quer a nível coletivo, e deste modo fabricam uma identidade própria (Wallet, Nehas e Sghiri, 1996: 22). E esta nova identidade, original, nada tem a ver com a dos seus pais, embora se
9 Segundo este modelo, estudado nos EUA sobretudo em relação aos imigrantes de origem europeia, os
imigrantes deviam experimentar um processo gradual de progresso e um esbatimento das disparidades. Os negros americanos eram vistos como imigrantes (Karl Taeuber, 1964), na medida em que estes se deslocavam do sul rural para as cidades do norte, mas, ao contrário dos imigrantes europeus, estes não conseguiam progredir a nível socioeconómico. Perante tal disparidade de percursos, foi impossível negar a evidente discriminação por eles sofrida (ver Hirschman, 1982).
83
ampare nas origens dos mesmos. É uma identidade que reclama a sua autenticidade apoiando-se na memória coletiva, mas distanciando-se dos símbolos e valores parentais, que deixaram de fazer sentido na sociedade de acolhimento.
No entanto, segundo alguns autores (Ogbu,1992/2003; Portes, 1993/2006), a manutenção da identidade cultural de origem pode ser uma mais-valia nos percursos de mobilidade social ascendente, através do uso do suporte material e do capital social que estas comunidades podem disponibilizar aos seus integrantes. Contrariando a ideia clássica assimilacionista de que os imigrantes e os seus descendentes devem primeiro aculturar-se para depois tentarem uma integração na sociedade e a consequente mobilidade em sentido ascendente, os estudos empíricos realizados neste sentido demonstraram que a assimilação não é resposta para o problema.
Segundo Portes e Zhou (1993), o que se verifica é uma segmentação no processo de absorção de grupos imigrantes para setores particulares da sociedade consoante os tipos de adaptação10. Contrariamente ao que seria de esperar, o único tipo de adaptação que impulsiona percursos de mobilidade ascendente de forma mais célere e evidente é o que é sustentado pelas redes comunitárias dos imigrantes, as quais beneficiam os seus integrantes por preservarem valores de comunidade e exercerem laços de solidariedade que facilitam a sua inserção na própria comunidade e na sociedade em geral. O tamanho e a estrutura da comunidade co-étnica é, por isso, considerado um fator de extrema importância. Quanto maior for a comunidade co-étnica e quanto mais esta preservar os laços de solidariedade entre os seus membros maiores são as chances de estes terem uma melhor “integração” socioprofissional e, consequentemente, de desenvolverem percursos de mobilidade ascendente.
Contudo, a mobilidade social ascendente não depende da necessidade de “integração” social, mas antes resulta de uma combinação de um conjunto de fatores individuais, familiares e conjunturais (Santelli, 2001: 31). Na verdade, os percursos de
10 Na assimilação segmentada de Alejandro Portes existem três tipos de adaptação: (1) o perfil esperado,
por via da aculturação/assimilação e que se faz de forma progressiva; (2) o perfil oposto, que culmina em extrema pobreza; (3) e o perfil da rápida progressão económica através da preservação dos valores e dos laços de solidariedade entre as comunidades imigrantes.
84
mobilidade ascendente dos integrantes de uma comunidade imigrante podem afetar essa comunidade na medida em que, ao causarem a diferenciação social dos seus membros, podem ocasionar a emergência de uma comunidade completamente nova culturalmente (Camilleri, 1991; Vermès, 1991; Manço 1999:65). Através de negociações que se vão dando pari passu com as aquisições e os ganhos (sobretudo a nível económico e cultural) que a mobilidade ascendente pode proporcionar, a comunidade em questão pode efetivamente construir um imaginário ou uma ideologia que lhe permita justificar a sua nova condição e as transformações pelas quais passou (Kastoryano, 1991; Manço 1999:65). Tendencialmente, a mudança de status ou de classe social pode implicar uma mutação nos modelos comportamentais, nos hábitos culturais, nos estilos de vida e até nos valores e aspirações. Por isso, a probabilidade de estas transformações influenciarem também a própria construção da identidade individual e coletiva, enquanto apropriação progressiva de normas, atitudes e papéis sociais, bem como da ação em contexto específico, não deixa de ser uma hipótese muito plausível.
Podemos concluir, assim, que as identidades resultam de processos contínuos de negociação entre variados fatores: os coletivos, relacionados com o social, o cultural e os seus desenvolvimentos, bem como os individuais e do self, enquanto dimensão pessoal e reflexiva (dos quais voltaremos a falar mais detalhadamente no próximo capítulo). Como os indivíduos estão em permanente mudança, a sua identidade, construída a partir das dinâmicas individuais (alicerçadas no desempenho de papéis múltiplos) e grupais (inseridas e apoiadas em comunidades diversificadas), vai estar dependente da multiplicidade de mundos com os quais os indivíduos vão estar em contacto.
Por sua vez, essa profusão de imbricamentos manifesta-se nas várias etapas de vida de que já falámos, nomeadamente a infância (vivida sobretudo no seio familiar), a transição para a escola (primeiro contacto com a institucionalização) e a transição para a vida adulta (marcada até pouco tempo através da entrada no mercado de trabalho), estando, pois, na origem da diversidade de percursos de vida. A identidade, ou se assim o quisermos, as identidades (uma vez que esta parece ser a forma mais adequada de utilizar este conceito), enquanto produto da construção da individualidade ou da
85
coletividade (consoante o prisma de observação), assentam também nos discursos e nas práticas sociais dos indivíduos, pois só existem, subsistem e resistem em sociedade. A interação é, por isso, uma dimensão crucial na constituição das identidades, uma vez que só pela alteridade estas se podem definir (Pinto, 1991; Vasconcelos, 2004). Sendo que a agência e as experiências dos indivíduos (através da incorporação dinâmica de disposições), a sua posição social na estrutura e as suas aspirações de futuro sustentam as identidades individuais e sociais, estas estão também intimamente ligadas à gestão dos percursos de mobilidade social de sentido ascendente.
Os imigrantes e os seus descendentes vivem imersos em contextos de dupla referência ou até de pluralismo cultural. As suas identidades, plurais (construídas e reconstruídas a partir de heranças e cenários múltiplos, ambivalentes e muitas vezes contraditórios), quando relacionadas com percursos de mobilidade ascendente, podem originar novas realidades ainda mais complexas.
86