Sem dúvida alguma, o estudo das disposições está intrinsecamente ligado ao trabalho de Bourdieu e ao seu conceito de habitus. Embora o conceito já remonte a Aristóteles e mais tarde tenha sido trabalhado por São Tomás de Aquino, Marcel Mauss e Maurice Merleau-Ponty, foi com Bourdieu que ganhou maior sistematicidade.
À luz das teorias de Bourdieu, uma boa parte da Sociologia que se tem feito tem-se preocupado com a análise do social em função das disposições enquanto elementos de determinada consistência e estabilidade. No entanto, alguns autores advogam que o fundamental será olhar para as disposições como um conjunto de características individuais e tentar perceber a pluralidade de disposições que pode estar na origem de determinada resposta a determinado contexto. Por isso, embora o habitus seja um conceito incontornável neste tipo de estudo, autores como Lahire e Archer (os quais têm em comum o facto de se oporem a Bourdieu e contestarem a sua teoria do habitus e da durabilidade e transponibilidade das disposições) têm vindo a contrapô-lo com novos olhares e novas teorias merecedoras de grande atenção.
Bourdieu parte da conceção de estrutura internalizada para explicar a capacidade de agir dos indivíduos, a qual sublinha como existente, independentemente dos efeitos que produz. Os indivíduos são condicionados pela estrutura, e da sua adaptação a esse condicionamento nasce o habitus.
Uma vez recriadas as condições para o seu aparecimento, é com base neste passado internalizado que o sistema de disposições que o constitui é constantemente ativado. Para este autor, os modelos do mundo são construídos a partir da informação de que
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dispomos, ou seja, os recursos de que dispomos podem constranger a nossa visão do mundo e assentam em disposições. O habitus, enquanto “structured structure predisposed to function as structuring structure” (Bourdieu), confirma a internalização como um processo que torna nosso algo que era exterior, negando assim a diferença entre o externo e o interno. Isto coloca o problema de as disposições e as crenças, que são propriedades essencialmente humanas, poderem passar a ser vistas também como algo que já não é diferenciável das estruturas sociais.
É inegável também a elevada importância dada ao passado que se encontra na base do próprio conceito de habitus, uma vez que este assenta na conservação e no reforço de disposições ou capacidades pré-adquiridas. Assim sendo, o futuro torna-se pré- determinado, uma vez que não há espaço para alguma ação que seja deliberativa sem que este sistema esteja na sua base. Se o sistema é subconsciente e assenta no passado interiorizado, então como poderá haver alguma novidade no que diz respeito a situações futuras? Este é um dos problemas mais apontados à teoria de Bourdieu.
Por sua vez, Lahire adota uma perspetiva que reclama uma nova postura em relação aos modelos teóricos existentes, os quais, segundo ele:
Would seem satisfactory if their notions (and their counterparts in the real world) of cognitive, psychological, or mental structure, schemes, dispositions, habitus, embodiment, and internalization did not have a key position, but were only necessary, in reporting on surveys, to account for particular practices by giving a global idea of how past socialization is stored in the body (Lahire, 2003, 332).
Segundo Lahire:
We should envision that social agents have developed a broad array of dispositions, each of which owes its availability, composition, and force to the socialization process in which it was acquired (Lahire, 2003, 329).
Lahire interessa-se pelos indivíduos enquanto seres socializados, enquanto produtos complexos de vários processos de socialização (Lahire, 2005), privilegiando a realidade
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social na sua forma internalizada. Partindo do princípio de que o indivíduo é um ser em constante mutação, sem, contudo, perder de vista o importante papel das disposições na sua atuação, o autor vai contrapor-se a Bourdieu pelo facto de não conceber o habitus como uma realidade empiricamente comprovada, e vai sublinhar que o processo de durabilidade e transferência das disposições, ao contrário do que foi proclamado por Bourdieu, não é um processo linear e contínuo, mas antes um processo que está dependente dos numerosos contextos de atualização, reforço ou transformação dessas mesmas disposições, as quais podem determinar a sua capacidade de sere agir ou de crer e sentir, o que talvez possa ser o fator diferencial nos percursos de mobilidade social. Lahire ressalva ainda que:
[…]the problem of the nature and the organization of the personal heritage of dispositions should be solved by conducting empirical research. One should not try to settle the problem before posing it by an a priori use of such coercive terms as ‘system of dispositions (Lahire, 2003, 345)
reclamando assim a necessidade de uma nova exigência metodológica (Lahire, 2004). Ainda na lógica da internalização, Lahire defende que as disposições enquanto habitus são questionáveis, até porque não existe prova empírica do seu funcionamento, durabilidade ou transferência, mas propõe que as disposições em si sejam um conceito válido, podendo ser a chave para o conhecimento do social na sua forma interiorizada. A proposta do autor enquadra-se numa vertente que vê as disposições não como um sistema automático e inquestionável mas como “guidelines” da ação, exercendo influência na escolha e na decisão dos indivíduos “as complex products of multiple processes of socialization” (Lahire, 2003, 332-333).
Assim, com estudos como os de Lahire (2005, 2004, 1995) sobre crianças de diferentes classes sociais na escolarização primária e, principalmente, com estudos em que, dando primazia a abordagens biográficas, a trajetórias singulares e a “trajetos de contratendência” enquanto retratos sociológicos, o autor desenvolveu uma “sociologia à escala individual”, privilegiando sobretudo a realidade social na sua forma interiorizada
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e o indivíduo enquanto produto complexo de vários processos de socialização, em que vai gradualmente adquirindo, substituindo ou transformando disposições sociais (Lahire, 2005). Desta forma, é possível reconstruir a rede de conexões sociais em que cada individuo está inserido, alcançar e compreender a pluralidade de pertenças sociais e simbólicas, chegando à caracterização das diferenças internas de cada individuo e evitando assim generalizações culturais abusivas a propósito de determinados grupos. Seja como for, e como disse Lahire, “discussing mental structures, schemes, dispositions, habitus or embodiment necessarily entails the risk that other researchers will pay attention and make critical comments” (Lahire, 2003, 332).
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