Trata-se da concepção de cultura na perspectiva de Ivan Bystrina, o theco que foi exilado na Alemanha por mais de 20 anos e era participante como cientista do movimento conhecido como “Primavera de Praga”.
O ambiente mais importante no qual nos inserimos é a cultura. É importantíssimo estudar o ambiente cultural. Como opera a cultura humana? Como ela interfere no ambiente anterior, que é o ambiente da vida? Cultura em termos gerais é tudo aquilo que é feito pelo homem, tudo aquilo que não é natural (conceito antropológico). Contra esse conceito, Bystrina se insurge, por achar que ele não chega ao cerne da cultura.
O ser humano tem uma existência imaginária, simbólica. O imaginário é visto pela semiótica da cultura como segunda realidade (BYSTRINA, 1989, 1995). Bystrina definiu a cultura como a segunda realidade do homem. A palavra “realidade” em alemão, Wirlichkeit, de Wirklich, de Wirker e que significa “isto funciona, tem efeitos”. É uma coisa que funciona, que tem vida, uma entidade funcionante, que atua sobre algo, que confere uma vida própria. Que tipo de vida é esta? É uma vida semiótica, que significa, o signo não está lá na estratosfera e nem nos tratados semióticos, mas, está na relação. A vida das coisas, a vida dos meios, atua, porque carregada de energia, de história e faz parte de um ambiente pulsante da vida que se chama cultura.
A segunda realidade é de natureza psíquica, simbólica, imaginária, de natureza sígnica e constituída por textos culturais codificados a partir do imaginário, do sonho, do lúdico, da arte, do sagrado. É outra realidade, só que imaginária, a partir do momento em que ele se desprende dessa realidade. O nosso imaginário nem sempre está lá onde nós estamos. São estes processos psíquicos que geram a segunda realidade. E o incrível de tudo é que todos os problemas insolúveis da primeira realidade podem ser vencidos por meio da segunda realidade, pela capacidade humana da imaginação. Superar o insuperável, simbolicamente, imaginariamente. Lévi- Strauss em sua Antropologia
Estrutural (1970) já profetizava sobe a eficácia dos símbolos. Os símbolos (quando se acreditam neles) exercem fortes efeitos sobre o corpo das pessoas, e atuam diretamente sobre o sistema imunológico. Nosso sistema imunológico está intimamente ligado com o processo da segunda realidade. A segunda realidade é uma realidade criada pelo homem com força estupenda de recriar o próprio homem (ao receber poderes dele).
Cria-se uma coisa que passa a ter poder sobre o seu criador. Bystrina, portanto, define cultura como o conjunto do imaginário de todas as épocas.
O núcleo da cultura é a existência imaginária, simbólica, na qual o homem também passa a viver sua realidade física, biológica, social. Trata-se de outra realidade que é imaginária. Essa é a proposta do conceito de cultura a ser trabalhado pela semiótica da cultura de Bystrina. No momento em que o homem se desprende dessa primeira realidade é um momento de alta tensão imaginária. Trata-se de uma superposição de tempo, muito comum devido a nossa capacidade de imaginação. O nosso imaginário raramente está lá onde nós estamos. Como lidar com estes processos que geraram uma segunda realidade? Por isso, o conceito amplo de cultura não nos ajuda a entender a segunda realidade, que é uma realidade tão importante como a primeira. Só o homem possui esta segunda realidade operando, funcionando, plenamente constituída. O conceito de segunda realidade nos oferece lentes, filtros para lidarmos com a primeira realidade que é complexa e multifacetada. Nos seus núcleos mais profundos a segunda realidade é autorreferente, basta a si mesma, não precisa de justificativa para a sua existência. Sua existência é sua própria justificativa. Aquilo que Bystrina chama de primeira realidade, Edgar Morin chama de natureza, a qual ele deu o nome de noosfera, que passa a ter um grande poder sobre os seres humanos.
A primeira realidade nunca se separa da segunda. Um primeiro pressuposto é a vida; não existe segunda realidade sem a vida, sem a existência de um corpo vivo. Sem o aparelho fonador, sem as mãos não é possível criar segunda realidade. Todas as coisas imaginárias exigem um suporte e o suporte está na primeira realidade. A cultura é, portanto, a segunda realidade, criada pela mente humana nos seus profundos cernes. Quem define o que é cultura é a própria cultura. Para Bystrina a cultura é o conjunto do imaginário de todas as épocas, é a manifestação do imaginário histórico e global.
Os ambientes nos determinam. Nós criamos os deuses para que eles nos recriem. Na visão científica os deuses são criações do nosso imaginário. Já para a teologia não; os deuses nos criam, somos criaturas deles. A teologia propõe que Deus exista na primeira realidade. A segunda realidade é um ambiente que tem tanto poder sobre o homem de modo que ela pode gerar, recriar o ser humano. Deste modo, existem dinamismos simbólicos que dão razão à teologia.
Os seres da mídia são seres da segunda realidade, seres da cultura, da noosfera, que a sociedade criou coletivamente, que se realimenta deles através dos vínculos
constantemente fortalecidos. Neste trabalho estudamos a segunda realidade como ambiente midiático. O ambiente é um espaço vivo, tem uma dimensão espacial, mas não se trata de um espaço geométrico. É um espaço tempo sem a necessidade da materialidade.
No caso do catolicismo, estar nos ambientes que este gera, implica em estar integrado neles, e como diz assertivamente Baitello, configurando-os e sendo configurados por eles. Esta perspectiva se faz presente nesta abordagem sobre o catolicismo nas televisões católicas.