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Para as Igrejas, para as religiões, os meios tecnológicos não são vistos como problema, mas como solução. Ai está o principal problema para as religiões. Ou seja, elas não compreendem ainda, em profundidade as patologias que os meios tecnológicos produzem, levando-as a um relacionamento ingênuo com os mesmos, fato que as transforma em reféns dos aparatos tecnológicos e do processo de midiatização em curso na sociedade com o seu projeto de totalidade. Para Gomes, "o que está em jogo, fundamentalmente, é a relação estabelecida pelas Igrejas Cristãs com a comunicação" (2010, p. 154). Ele levanta

"a hipótese de que ela não é vista como problemática, mas como solução. O importante não são os meios, mas a transmissão da mensagem. (...) O importante é a mensagem a ser anunciada. Estão convencidas de que não podem cumprir o mandato do Senhor Jesus nos dias de hoje se não utilizarem os modernos meios de comunicação social" (GOMES, 2010, p. 154).

Para as igrejas, o dispositivo comunicacional é visto como mero instrumento e não como um desafio conceitual pelas quais passam as práticas midiatizadas. No caso da Igreja Católica, a mais produtiva em documentos sobre comunicação, os dispositivos comunicacionais são vistos qualitativamente como espaços a serem utilizados como os novos areópagos56 da contemporaneidade, fruto do engenho humano que possibilitarão

a expansão da mensagem cristã por toda a terra. Em relação a estes novos areópagos,

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É muito fácil ser católico no Brasil, pois se exige muito de uns poucos, diáconos, padres, bispos e religiosos, e, quase nada da grande maioria dos fieis, que podem escolher entre serem católicos praticantes ou não praticantes e ainda se observam ou não aquilo que a Igreja lhes ensina a praticar. Para ser católico basta ser batizado na Igreja Católica e pronto; a pertença está garantida, mesmo sem compromissos a serem assumidos. Os católicos em geral não são cobrados por sua própria Igreja em relação à vida que vivem, de modo que se pode realmente viver um catolicismo “a lá carte”.

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Bento XVI na mensagem enviada à Assembleia Plenária dos presidentes das conferências episcopais da Europa, reunida em Esztergom, Hungria, de 30 de setembro a 3 de outubro de 2008, diz que evangelizar exige utilizar os "novos areópagos". O papa anima os pastores da Igreja Católica a fazer o melhor uso possível das oportunidades tecnológicas colocadas à disposição para semear a Palavra de Deus às pessoas de seus respectivos países. Esses novos areópagos, diz o Papa, merecem uma atenção especial dos pastores da Igreja (Cf. BENTO XVI, 2008).

assim se refere o papa Joao Paulo II, quando fala dos âmbitos da missão ad gentes e das áreas culturais, ou modernos areópagos na encíclica Redemptoris missio sobre a Validade permanente do Mandato Missionário de 07 de dezembro de 1990:

"Paulo, depois de ter pregado em numerosos lugares, chega a Atenas e vai ao areópago, onde anuncia o Evangelho, usando uma linguagem adaptada e compreensível para aquele ambiente (Cf. At 17, 22-31). O areópago representava, então, o centro da cultura do douto povo ateniense, e hoje pode ser tomado como símbolo dos novos ambientes onde o Evangelho deve ser proclamado.

O primeiro areópago dos tempos modernos é o mundo das comunicações, que está a unificar a humanidade, transformando-a — como se costuma dizer — na « aldeia global ». Os meios de comunicação social alcançaram tamanha importância que são para muitos o principal instrumento de informação e formação, de guia e inspiração dos comportamentos individuais, familiares e sociais. Principalmente as novas gerações crescem num mundo condicionado pelos mass-média. Talvez se tenha descuidado um pouco este areópago: deu- se preferência a outros instrumentos para o anúncio evangélico e para a formação, enquanto os mass-média foram deixados à iniciativa de particulares ou de pequenos grupos, entrando apenas secundariamente na programação pastoral. O uso dos mass-média, no entanto, não tem somente a finalidade de multiplicar o anúncio do Evangelho: trata-se de um facto muito mais profundo porque a própria evangelização da cultura moderna depende, em grande parte, da sua influência. Não é suficiente, portanto, usá-los para difundir a mensagem cristã e o Magistério da Igreja, mas é necessário integrar a mensagem nesta « nova cultura », criada pelas modernas comunicações. É um problema complexo, pois esta cultura nasce, menos dos conteúdos do que do próprio facto de existirem novos modos de comunicar com novas linguagens, novas técnicas, novas atitudes psicológicas" (JOÃO PAULO II, 1990, n. 37c).

Quando lemos atentamente os documentos da Igreja Católica sobre comunicação social, como o trecho da encíclica Redemptoris missio acima, não percebemos um viés crítico sobre o processo específico de cada meio e tampouco sobre as interferências que estes ocasionam na mensagem, modificando-a, isto devido as leis autorreferentes que caracterizam os processos midiáticos em curso. Os dispositivos midiáticos não precisam da religião para se consolidar, mas as religiões não sobreviverão se estiverem ausentes da mídia. Partindo do princípio da visibilidade, ou seja, o que não é visto, o que não fica visível, é como se não existisse. Para a religião, estar, fazer e se apresentar na mídia na atualidade é questão de vida ou morte, é o que nos diz o grande antropólogo e estudioso das imagens:

“Para a religião, a maneira de se apresentar na mídia é hoje em dia uma questão de vida ou morte. A religião oferecia um verdadeiro campo de treinamento para o uso da mídia, a qual ela alternadamente consagrava e condenava. Ela exigiu dos teólogos teorias que definiam a fé à luz da mídia que merecia preferência ou desprezo. (...) Foi justamente através do uso da mídia que a religião ganhou poder na sociedade, a qual, por sua vez, aprendeu a pôr a mídia ao seu próprio serviço, para dirigi-la contra a religião” (BELTING, 2008, Centro Interdisciplinar de Semiótica da Cultura e da Mídia, CISC).

Assim, entramos noutra questão fundamental, relacionada à mídia e à religião, ou seja, que religião emergirá da mídia? Gomes, em seu pertinente trabalho retorna ao questionamento de Hoover, sobre que religião emerge da mídia. Esta questão em nenhum momento aparece nos documentos eclesiais, sobretudo nos católicos, revelando que os líderes e os agentes religiosos que utilizam de forma crescente os dispositivos tecnológicos e espaços midiáticos, desconhecem o potencial de interferências ou influencias que a mídia gestará nos processos religiosos das Igrejas. A Igreja Católica é profícua na produção de documentos sobre a comunicação social, como já dito, mas nenhum dos seus documentos reflete sobre as práticas midiáticas em vigor.

"Os homens das Igrejas carecem de um meta-discurso, o que os levaria a objetivar sua prática e a analisá-la de maneira coerente, questionando seus pressupostos e consequências. A ausência dessa reflexão (autorreflexão) faz com que os tele evangelistas, de certa forma, tornem-se reféns dos processos midiáticos e sua ação tenha consequência não previstas por eles. Parafraseando São Paulo, não constroem a Igreja que desejam, mas o individualismo que condenam" (GOMES, 2010, p. 154-155).

Portanto, a comunicação midiática não é vista pelas Igrejas como problema, mas sim como solução. Os meios de comunicação, a mídia, são considerados apenas como dispositivos tecnológicos, dos quais elas se servem para ampliar suas ações religiosas, no desejo intrépido de aumentar fiéis e de transmitirem suas mensagens religiosas. "A Igreja Católica, confissão que mais refletiu e escreveu sobre

comunicação e sobre os meios de comunicação, não escapa dessa convicção"

(GOMES, 2010, p. 157).

Mesmo nos seus momentos mais críticos, por ocasião das Conferências Episcopais do continente americano, de Medellín (1968), Puebla (1979), Santo Domingo (1992), e até a mais recente de Aparecida, cuja abertura foi realizada com a presença do Papa Bento XVI (2007), a Igreja Católica continuou uma prática funcionalista e uma visão instrumentalista dos meios de comunicação.

A Igreja Católica continua muito empenhada no desenvolvimento de grandes redes de comunicação, tanto de rádios quanto de televisões, de sites católicos de relacionamentos e aconselhamentos na internet, mas sem uma autorreflexão sobre o que tudo isso vai gerar na vida das pessoas. Diversos organismos, paróquias e movimentos também entraram com tudo nessa onda virtual, considerando a rede mundial de computadores como uma extensão a mais de sua ação, mas sem uma reflexão profunda sobre os processos midiáticos que nessa rede estão envoltos.

Quando abordamos a relação das Igrejas com a mídia eletrônica, constatamos que elas ainda não compreendem o que está acontecendo na contemporaneidade com o processo de midiatização da sociedade. Isto se confirma no fato deles não verem problemas na mídia, mas apenas solução. Gomes chama nossa atenção para a discussão da midiatização da sociedade nesse início de século XXI, com a emergência da sociedade em rede, potencializada pela conjugação de satélites, internet, telefone e televisão digital – processo que produz um novo ambiente, para o qual as Igrejas ainda não despertaram. Esta é a trilha que a pesquisa capitaneada por ele, deixa em aberto. Evidente que se as Igrejas não veem a utilização da mídia como problema, mas como solução, elas não colocarão a sua relação com a mídia como objeto de discussão e análise, não promoverão uma autorreflexão sobre sua relação com a mídia e as consequências disso para as pessoas e também para as Igrejas envolvidas no processo midiático.

Aborda-se em seguida, um tema que está fora da pauta das discussões e autorreflexões das Igrejas nas suas relações e apropriações que fazem da mídia. Trata-se do processo de midiatização da sociedade, trazendo no seu bojo também, o da midiatização da religião, entre tantas outras midiatizações em curso.