4. INNLANDSFISK
4.4. KULTIVERINGSSONER
4.4.2. Regelverk og retningslinjer for kultiveringsarbeid med innlandsfisk
O meu contato com o ciclo festivo da Paixão de Cristo da cidade de São João del Rei se sucedeu como anteriormente dito, no ano de 2009, por ocasião da pesquisa Nos rastros
81 Texto apresentado na ST02
Mestre em Sociologia pela UFMG; pesquisadora do Centro de Estudos de Religião Pierre Sanchis,
UFMG.
82 Esse percurso culminou em uma dissertação de mestrado defendida em 21 de março de 2013, mas
de Saint-Hilaire: as festas em Minas Gerais dois séculos depois83. Contudo, o meu itinerário
pelo mundo do sagrado foi bem anterior e, tomando de assalto as palavras de Gianni Vattimo, é “daquele que é comum a tantas pessoas que tiveram a mesma formação que eu” (2004: 8). Fui formada nos preceitos da religião católica por uma família que, até onde posso vislumbrar, foi assim constituída. Quando criança lembro que na casa dos meus avós paternos havia um pequeno altar com uma infinidade de imagens de santos, de escapulários e de orações; e naquele particular multiverso religioso, uma imagem em especial, se destacava sob meu olhar curioso e povoava meu imaginário infantil, causando- me, ao mesmo tempo, um misto de fascinação e de repulsa84. Era a piedosa figura do deus
crucificado, com sua face em agonia e o seu corpo marcado por chagas85. Não podia
compreender, em minha simplicidade juvenil, como a imagem forte do Cristo crucificado podia ser elemento de adoração por parte dos adultos.
Mais tarde aprendi que a compaixão não era somente em relação àquela cena da crucificação, mas a todos àqueles momentos que a precederam e, em especial, àquele que se seguiu e que se liga ao núcleo fundamental da religião ao qual fui iniciada: é por meio do sacrifício do Filho de Deus que emerge o mistério do triunfo sobre a morte através da
83 Nos rastros de Saint-Hilaire… foi uma pesquisa realizada, entre os anos de 2008 e 2009, pelo
Centro de Estudos de Religião Pierre Sanchis sob a coordenação da professora Léa Freitas Perez e com o financiamento do CNPq, e contou com a participação dos seguintes pesquisadores: Ana Paula Lessa Belone, Júlia Goyatá, Marcos Martins, Rafael Barros, Denise Pimenta, Pedro Gondim e da cinegrafista Renata Otto Diniz. Essa pesquisa surgiu dando continuidade a uma pesquisa anterior intitulada “Cartografia das festas em Minas Gerais - por seus viajantes e cronistas”, financiada pela Fapemig e pelo CNPq e também realizada pelo CER - Pierre Sanchis. O desenho daquela teve seus traços esboçados, sobretudo, através dos rastros deixados pelo viajante estrangeiro por meio de seus diários de viagens, contando as experiências no Brasil do século XIX. A leitura interessada de seus relatos resultou em um mapeamento das festas observadas e descritas por Saint-Hilaire e, posteriormente, em uma expedição composta por três viagens, que procurou refazer os passos do viajante francês por algumas das cidades mineiras visitadas por ele a dois séculos passados. Refazendo seus passos, então, viajamos por uma região amplamente descrita pelo estrangeiro e que abrangeu as cidades históricas de São João del Rei e de Tiradentes. Foi precisamente nessas cidades que acompanhamos os ciclos do Nascimento e da Paixão de Jesus, que, no calendário de funções litúrgicas do cristianismo, compreendem, respectivamente, as festas do Natal e as da Semana Santa.
84 O uso do termo multiverso é utilizado a partir de Léa Perez, “no senso que lhe é atribuído pela
física quântica, relativamente ao movimento de um sistema, que tendo num certo instante duas alternativas de percurso seguirá simultaneamente as duas. Cada uma compondo um mundo diferente e irredutível um ao outro. Em uma palavra: indecidibilidade” (2011: 30).
85 A propósito da dimensão do sagrado relacionado à memória, à infância e à vida cotidiana ver
ressurreição86. E a esse acontecimento capital se segue todo um tempo de celebrações
pela lembrança da dor de Cristo e pela sua redenção, que se repete periodicamente ao longo da hi[e]stória87.
Entretanto, na medida em que crescia a religião aparentemente deixava de fazer parte da minha vida. O medo e o fascínio que o multiverso do sagrado ocasionava em mim quando criança parecia ter ficado para trás, vivo apenas no campo das recordações. Assim como Michel Leiris, “dizendo-me ‘é apenas isso’ e não esperando mais milagre, logo abandonei as práticas religiosas, depois parei de crer e não recomecei jamais” (2003: 81). Porém, diferentemente de Leiris, eu não parei de crer [creio eu], e o retorno da religião em minha vida sobreveio precisamente no momento em que eu tateava o terreno, por excelência, da ciência: a universidade88. A partir de minha integração, como pesquisadora,
no Centro de Estudos da Religião Pierre Sanchis iniciei então, a aproximação entre o “profano real” do plano da ciência e o “sagrado mistério” do plano da religião (Perez, 2010: 3).
Contudo, Perez diz, concordando com Vattimo, que “religião é questão não somente de atualidade, mas também de cotidiano e de sentimento. Trata-se, pois, de experiência, de ‘sensibilidade religiosa’ que, diz ele, sente à sua volta, ressurgindo, ‘na
86 Quando falo em cena, logo me reporto a Vincent Crapanzano, para quem ela, diferentemente da
realidade “objetiva” a qual se tenta diferenciar, é um terreno marcado pelo fantasioso, pelo sentimento e pelas emoções, e identificado com o domínio do subjetivo. “Para mim, ao menos a cena é aquela aparência, a forma ou refração da situação ‘objetiva’ em que nos encontramos, colorindo-a ou nuançando-a e, com isso, tornando-a diferente daquilo que sabemos que ela é quando nos damos ao trabalho de sobre ela pensar objetivamente” (2005: 359). De acordo com Denise Pimenta, a respeito da cena de Crapanzano, “a cena não é pura subjetivação, ela é a possibilidade de se enxergar os horizontes imaginários, um passo além, uma possibilidade de se avançar para além do olhar comum (científico)” (2008: 11).
87 O conceito Hi[e]stória foi cunhado por Léa Perez, para quem “o temo história é grafado
propositalmente hi[e]stória para ressaltar o double bind que o tropo comporta e solicita como fato e artefato histórico, como evento e acontecimento sócioantropológico, como real factual e construção imaginária e/ou discursiva. Double bind [duplo vínculo], proposto por Gregory Bateson em 1956, refere-se à existência de injunções paradoxais [aporéticas], dupla postulação. Uso aqui na sua acepção derridiana, que remete ao senso mesmo da diferença e da indeterminação no que tange à solução e ao fechamento de uma questão de pensamento. Em uma só palavra: indecidibilidade” (2011: 23) [grifo do autor].
88 Utilizo a expressão “creio eu”, a partir do “Acreditar em Acreditar” de Gianni Vattimo que, diz
ele, ser uma “apologia do crente não praticante” (1988: 66). “Sobre a complexidade paradoxal da expressão e das dificuldades de sua tradução em outras línguas comenta que [...] ‘tanto pode significar fé, convicção, certeza de alguma coisa, quanto opinar ou acreditar em algo com uma certa margem de incertezas’. Na expressão acreditar em acreditar, diz ele, o primeiro acreditar corresponde ao sentido da dúvida, ao passo que o segundo refere-se à fé, a convicção, a certeza (Perez, 2012: 03).
sua rigorosa imprecisão e indefinibilidade’” (2010: 5). E foi especialmente na viagem a São João del Rei por conta da pesquisa, sobretudo assistindo à cerimônia do Ofício de Trevas, que emergiu outra vez em mim aquele sentimento misto de encantamento e de angústia, uma “corrente dupla, com tudo o que me impele e ao mesmo tempo me retém” em relação ao deus crucificado (Leiris, 2003: 125).