Results and discussion
6.5 Refrigeration system performance
Durante a era republicana, a primeira organização negra a pleitear espaço no campo político foi a Frente Negra Brasileira - FNB, surgida em São Paulo, nos anos 30. Neste período, se fortalecia a percepção de que a segunda grande leva migratória que se passou nas primeiras décadas do século XX havia trazido mais desigualdade para o Brasil, já que estes imigrantes europeus acabaram por ocupar os melhores postos de trabalho no mercado brasileiro, e, livres da discriminação racial, puderam prosperar livremente e ascender social e economicamente. Por outro lado, a FNB era refém de vários estereótipos negativos relacionados aos negros e negras. O reflexo disso em sua ação política era a busca permanente por elevar o padrão ético e cultural da comunidade negra do Brasil, que era vista como aculturada e incapaz de participar ativamente da sociedade de classes.
Além disso, o discurso da FNB assumiu também um caráter nacionalista e, por vezes, quase xenófobo, contra os novos imigrantes, e ao assumir a valorização da mestiçagem como valor de nacionalidade. Posteriormente, Guerreiro Ramos (década de 50) iria trabalhar o nacionalismo a partir de uma outra possibilidade, ou seja, ele atribuiria a negritude como característica do povo brasileiro, fazendo com que a aceitação da negritude fosse um pré- requisito para ostentar a brasilidade.
Desde o surgimento do Teatro Experimental do Negro - TEN10, em 1944, já existiam
críticas sobre a postura do movimento negro relacionadas a tensões com o pensamento marxista. Estas críticas relacionavam o pensamento do TEN com idéias de classe média, desvinculadas do proletariado, principalmente em virtude da dimensão culturalista fortemente arraigada aos
9 Ao comparar negros e nordestinos, não busco omitir o fato de que ambas a categorias se entrecruzem, já que o
nordeste possuía naquele tempo o maior contingente negro do país. A intenção aqui é discutir categorias nativas de raça (no caso, negros) e categorias explicativas ou teleológicas (nordestinos).
10 Também participou do grupo fundador: Aguinaldo Camargo, Sebastião Rodrigues Alves, Tibério Wilson, José
Herbel, Teodorico dos Santos, Aranda Serafim, Marina Gonçalves, e logo depois vieram Ruth de Souza, Claudiano Filho, Haroldo Costa, Léa Garcia, José Maria Monteiro, José Silva, e muitos outros” (Nascimento, 1980: 126).
movimentos negros. Aquele pensamento marxista, com um viés fortemente pragmático, acreditava que a militância negra deveria ser colocada a reboque da luta de classes, argumento comum até os dias atuais. Assim sendo, a vertente culturalista do movimento negro brasileiro representaria um empecilho para esta assimilação dos negros à luta de classes.
Contudo, o pensamento do TEN rompia com o integracionismo da Frente Negra Brasileira e buscava reivindicar a diferença e os valores culturais e simbólicos da herança africana.
O TEN continuava a tradição de protesto e organização político-social [das décadas anteriores], mas integrava a essa dimensão a reivindicação da diferença: o negro não procurava apenas integrar-se à sociedade “branca” dominante, assumindo como sua aquela bagagem cultural européia que se impunha como “universal”. Ao contrário, o TEN reivindicava o reconhecimento do valor civilizatório da herança africana e da personalidade afro-brasileira. Assumia e trabalhava a sua identidade específica, exigindo que a diferença deixasse de ser transformada em desigualdade (Nascimento e Nascimento, 2000: 206-207).
O equívoco do pensamento marxista brasileiro seria o de acreditar que a perspectiva política socialista estaria despida de valores étnicos e de preconceitos contra os negros e negras. Certamente, a construção de valores e perspectivas políticas marxistas estava atrelada àquela série de valores e padrões de exclusão da classe trabalhista inglesa e de maneira geral, do ocidente colonizador, como já foi evidenciado pelo pensamento de Cedric Robinson (1983) e agora pelo de Abdias Nascimento e Elisa Larkin Nascimento. Por fim, o discurso de integração de negros e negras à modernidade luso-brasileira ia de encontro aos interesses da comunidade negra já que colocava como pré-requisito para a sua aceitação, a desvinculação do grupo de seus valores simbólicos, tão importantes para a luta política, como veremos no próximo capítulo com o pensamento de Bourdieu.
Somente na década de 50 é que os argumentos que colocavam a militância negra em oposição à intelectualidade brasileira são contrapostos pelo pensamento de Oracy Nogueira, Florestan Fernandes e Guerreiro Ramos, que vão mostrar de dentro da academia que as barreiras de raça estavam presentes dentro e fora das classes sociais. Por trás destes conflitos estava a tradicional negação dos negros como agência política típica do pensamento marxista, presente
tanto no tratamento dado por Marx à escravidão (como agente meramente pré-capitalista), quanto no pensamento dos marxistas brasileiros, que negavam a idéia de raça como forma de invisibilizar uma diferença que para eles não representava uma questão política, mas sim um resquício da escravidão.
Por outro lado, o pensamento político da militância negra atuou de maneira contraditória, principalmente quando negava a postura culturalista de alguns intelectuais e aceitava a postura anti-racialista de outros, como Gilberto Freyre que defendia violentamente a mestiçagem como forma de se conduzir a criação da identidade nacional. Para Guimarães (2002: 95), a postura de intelectuais como Guerreiro Ramos, Correia Leite e Abdias Nascimento se justifica em virtude dos conflitos que estavam em campo naquele período:
No plano da identidade nacional, tratava-se de definir o negro como uma não minoria estrangeira – tal como fazia o mainstream da intelectualidade paulista -, mas como maioria, como o povo. Mas, tal postura, por outro lado, pressupunha o negro como categoria no plano político, o que não era reconhecido pelo mainstream da intelectualidade nordestina, que via o negro como categoria apenas no plano da cultura, enquanto objeto de estudo. Mas, apesar dessas diferenças marcantes, na disputa entre aqueles que pensavam o Brasil como mestiço e aqueles que o viam como branco, a simpatia dos negros tendia para os primeiros (GUIMARÃES, Idem).