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No geral, a orientação pedagógico-terapêutica no âmbito de uma intervenção psicomotora, orienta para: dar iniciativa à criança, deixá-la exprimir espontaneamente o seu desejo, entrar depois no seu jogo, para progressivamente fazê-la evoluir através de contributos sucessivos na dinâmica estabelecida (Aucouturier & Lapierre, 1934). Este foi o princípio utilizando durante o período de intervenção.

Numa fase inicial, a sugestão de atividades partia da terapeuta, e o D aderia à maior parte das mesmas, demonstrando prazer e curiosidade. No início da intervenção, o D era uma criança que não comunicava corporal ou verbalmente, apresentando uma linguagem expressiva incompreensível e imatura.

Numa fase seguinte, o D reproduzia as atividades “aprendidas”, apresentando-as como se fossem suas. Após se verificar esta interiorização das atividades, sugeriam-se outras ou variações às mesmas.

Numa fase posterior, o D já se movia com segurança no espaço e com os objetos, apresentando espontaneamente as atividades que queria realizar, mas observou-se que mantinha dificuldades em criar atividades novas. Contudo, mostrou-se como fator positivo, utilizar partes de atividades que já lhe eram familiares (capacidade de memorização e rechamada), e introduzirem-se variações.

Durante a intervenção, o D demostrou interesse por atividades como:  Jogos com pinos;

 Percurso de obstáculos;  Luta de bolas;

47  Jogos de “toca e foge”;

 Plasticina;

 Lançamentos ao cesto;

 Construção de fortes e castelos,  Jogos de representação topográfica;  Contorno do corpo, etc.

O D gostava particularmente de atividades de desafio, onde se pretendia derrubar ou acertar num alvo. Recorreu sempre à terapeuta como parceira de jogo, e dividia as vezes de jogar e o material com ela, numa dinâmica de colaboração e competição. Os pinos foram o objeto mediador e preferencial de quase todas as atividades (ex. derrubar pinos com o corpo, utilizar os pinos como alvo, fazer malabarismos com os pinos, etc.).

Num primeiro momento de intervenção, o D assumiu uma postura passiva, aderindo às atividades sugeridas, mas sem participar na elaboração das mesmas. Com o decorrer das sessões, foi-se observando uma presença mais ativa. Começou por apontar para os objetos que queria utilizar e observava-se uma cópia das atividades já realizadas, mas com o decorrer da intervenção, foi-lhe solicitado que indica-se oralmente o objeto pretendido, e introduziu-se modificações nas atividades. Gradualmente foi conseguindo cumprir estas solicitações, e atualmente indica autonomamente e organiza as atividades que quer realizar. Porém, ainda se encontra dependente de atividades familiares, e já não adere tão facilmente a sugestões, observando-se o surgir de uma personalidade mais segura e vincada.

Constatou-se que mantém uma postura de “fuga”, perante uma nova variação às atividades ou inserção de uma nova, caso não sejam explicadas com recurso à demonstração (dificuldades de compreensão). Em situações/atividades de maior necessidade de atenção ou mentalização, o D evita-as, e tenta dirigir a atenção da terapeuta para outras atividades.

Como se observou, estas dinâmicas e comportamentos ocorreram na intervenção individual. O D não integrou as sessões em grupo, não tendo adquirido autoconfiança suficiente para a interação com os pares.

6.5.2. Resultados da Intervenção

De uma forma global observou-se evoluções ao nível sócio-emocional, cognitivo e psicomotor. Estas conclusões podem ser verificadas no Anexo E.

o Ao nível da noção do corpo: pelos resultados do DAP, o D apresenta atualmente um desenho do corpo mais completo, revelando integração dos limites e de outros segmentos corporais, contudo continua com algumas dificuldades na localização topográfica de alguns segmentos. Observou-se maior investimento ao nível das faces e extremidades, mas o tronco contínua inexistente. No reconhecimento bilateral direita-esquerda, já é capaz de indicar em si estes dois conceitos, mas mantém por vezes algumas dificuldades na identificação. Contínua a não ser capaz de realizar este reconhecimento extracorporal.

o Na estruturação espacial e temporal: apresenta reconhecimento de conceitos espaciais de posição, distância e velocidades. Mantém dificuldades em fazer a transferência entre dados espaciais representados, para dados espaciais agidos, não tendo integrado ainda a localização do seu corpo em relação ao espaço. Mas apresenta também melhorias neste ponto, sendo capaz de identificar as componentes espaciais representadas, fazendo a transferência entre o real e o simbólico, mas não de forma totalmente autónoma.

o Na praxia global: observou-se uma melhor coordenação motora global, verificando-se ao nível óculo-manual um gesto motor mais harmónico, com planeamento da tarefa e sucesso na concretização. O D apresentou no geral um gesto mais intencional, e capacidade de análise e planeamento motor. Ao nível

48 pedal, observou-se um melhor controlo da ação, devido ao desenvolvimento de uma maior estabilidade gravítica, mas a capacidade de execução ainda não é concluída com sucesso. Atualmente apresenta capacidade de equilíbrio, e realização de movimentos com apoio unipedal.

o Ao nível da praxia fina: não se verificaram alterações na preensão e controlo do material de escrita. Mas a capacidade gráfica está mais percetível, observou-se uma melhor coordenação entre a análise visual e o ato motor.

o Ao nível da atenção: tem-se observado que o focalizar da atenção depende em parte do nível de motivação. Contudo o D apresentou melhores resultados neste âmbito, verificando-se na BASC dos pais e escola um valor melhor que o inicial, mas ainda se mantém nos valores de risco.

o Na mentalização: observou-se que o D com o decorrer da intervenção foi conseguindo definir e planear as atividades, mas mantém dificuldades na avaliação e verificação da ação. Verificou-se maior uso da linguagem verbal como organizadora da ação, e esta apresenta-se atualmente compreensível em termos expressivos. A capacidade de representação apresenta-se melhor, pois até então devido à pobreza de experiências motoras, o interiorizar das “imagens mentais” estava deficitária. A melhor capacidade de representação pode ser resultado da maior capacidade de exploração e experiências motoras vivenciadas, apoiando- nos nas teorias de Piaget sobre o desenvolvimento cognitivo.

o Nas competências e relações interpessoais: verificou-se o desenvolvimento da capacidade de iniciativa e participação espontânea. Porém na BASC dos pais, mantém os valores da tendência para o isolamento elevados, mas na BASC da escola apresentou evolução positiva.

De uma forma mais específica, e de acordo com os instrumentos aplicados, verificou-se o seguinte (Anexo E):

o DAP: apresentou melhorias significativas na representação de si e da mulher, passando de um perfil Deficitário para Bordeline. Mas no geral mantém um perfil final deficitário. Numa análise mais qualitativa, observou-se um maior investimento ao nível das faces, e o surgimento de mais segmentos, ainda que topograficamente mal localizados.

o BASC-pais: apresentou melhorias na Hiperatividade, Agressividade, Somatização, e nos Problemas de Atenção. Nas Competências Adaptativas, assim como na Tendência para o Isolamento mantém um perfil negativo.

o BASC-escola: observou-se melhorias significativas na Tendência para o Isolamento e Problemas de Atenção, mas mantêm valores de risco. A Depressão também apresentou evoluções positivas, a quais podem ter resultado de uma maior autoconfiança por parte do D. Contudo, mantém dificuldades nas competências sociais

o BPM: não foi realizada a avaliação final com este instrumento.

Em conclusão, verificaram-se evoluções positivas nos objetivos propostos, nomeadamente ao nível da consciência corporal, focalização da atenção, capacidade de iniciativa e participação, coordenação global e organização espacial. Estas aquisições, refletiram-se de forma positiva em ambos os contextos. Contudo, a interação em grupo e a inibição relacional com os pares, não foi totalmente ultrapassada. Mas atualmente, o D tem ferramentas suficientes (autoconfiança e habilidades motoras) para ser capaz de estabelecer relações seguras com o envolvimento.

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