O encaminhamento para a psicomotricidade é definido pelo médico pedopsiquiatra responsável pelo caso, e em algumas situações pontuais, é aconselhado o seguimento por outros técnicos. Mas cabe ao médico pedopsiquiatra a decisão final sobre o seguimento ou não. Este encaminhamento é realizado, quando após avaliação, reconhecem a psicomotricidade, como uma terapêutica capaz de organizar os sintomas e funcionamento da criança. Assim, as crianças são encaminhadas para a psicomotricidade quando apresentam problemáticas de incidência corporal, cognitiva ou relacional, que se manifestam pela expressão motora desorganizada/desadequada, tais como: alterações da noção do corpo, perturbações da lateralização e estruturação espácio-temporal, dispraxias, problemas psicossomáticos, problemas de comportamento, dificuldades de comunicação e contato, instabilidade psicomotora, dificuldades de processamento, dificuldades de atenção, entre outros.
Quando é iniciado o acompanhamento pela psicomotricidade, de uma forma geral, realiza-se uma primeira entrevista com os pais e com a criança, em contexto de gabinete, e em seguida um momento de observação informal com a criança no ginásio. Na segunda sessão, a criança permanece todo o tempo no ginásio em contexto de observação livre. Após estas duas observações toma-se a decisão sobre a viabilidade do acompanhamento ou não, e procede-se à definição do tipo de intervenção (grupo ou individual). O mês seguinte é ainda um período de avaliação informal, e se necessário realiza-se a avaliação formal. A intervenção é continuada até Junho/Julho, momento após a qual é interrompida, e no início do ano letivo seguinte, procede-se à reavaliação do caso, e redefinição das linhas de intervenção.
Na Clínica da Encarnação, a intervenção realiza-se sobretudo sobre a forma de dinâmica grupal, de acordo com a linha terapêutica desenvolvida na clínica. As intervenções em grupo tiveram o seu início na década de 70, e pretenderam, por um lado, suprimir ou rentabilizar os recursos terapêuticos para dar resposta a um número cada vez mais acrescido de pedidos, e por outro lado surgiram, devido à incapacidade das terapias individuais darem respostas a um conjunto generalizado de patologias, nomeadamente as perturbações do comportamento e patologias da mentalização (Vidigal, 2005). Na psicomotricidade de base relacional privilegia-se a qualidade da relação que se estabelece com a criança, onde a participação da criança é espontânea, livre e aberta. Livre porque a motivação vem da própria, e aberta porque se desenvolve
28 segunda uma metodologia dinâmica e flexível, à disponibilidade e interesses, das outras crianças e do adulto (Costa, 2008).
Assim, a intervenção em psicomotricidade desenvolve-se preferencialmente sobre a dinâmica de grupo, mas em situações específicas, desenvolvem-se também intervenções de cariz individual. A justificação para tal é apresentada de seguida.
1.1. Intervenção em Grupo e Intervenção Individual
A intervenção psicomotora na clínica decorre maioritariamente em grupo. Os grupos são formados segundo critérios de: tamanho corporal (estatura e coordenação), nível de comunicação e relação, nível simbólico, e organização da personalidade da criança. O tipo de patologia e escalão etário, são também fatores importantes a ter em conta na formação dos grupos. Mas como muitas vezes a idade cronológica não reflete a idade mental, e como uma mesma patologia não se manifesta de forma igual em todos os indivíduos, estes dois critérios não são considerados como prioritários.
Os grupos são assim organizados, de acordo com o tipo de dificuldades que as crianças apresentam, o tamanho corporal, a organização da personalidade da criança e o nível de comunicação e relação, tentando-se formar grupos mais ao menos equitativos, nestes fatores.
Estão a ser intervencionados, um conjunto de nove grupos, definidos segundo os critérios anteriores. Os grupos 1 e 2 correspondem na generalidade a crianças com dificuldades instrumentais, o grupo 3 é composto por crianças com dificuldades no planeamento motor e impulsividade, o grupo 4 corresponde a crianças instáveis, o Grupo 5 é o grupo das Perturbações da Ansiedade com indicação para relaxação, o Grupo 6 engloba adolescentes com alterações do comportamento, o grupo 7 agrega crianças com sintomas de PHDA, e o grupo 8 e 9 é composto por crianças com problemas de oposição e relacionais/sociais.
Contudo, por vezes há crianças que não têm indicação imediata para a integração em grupo, devido a questões relacionadas com a sua funcionalidade, por discrepância prática, psicológica e social acentuada em relação aos elementos do grupo, ou em casos de problemas de separação-individuação. Com estas crianças, desenvolve-se uma intervenção individual, até alcançarem maturidade psicossocial para a integração em grupo. Atualmente, é seguido em acompanhamento individual, uma criança de 6 anos de idade, que no início da intervenção, apresentava elevada discrepância social/psicológica em relação aos pares (inibição relacional).
1.2. A Sessão-Tipo
A sessão de psicomotricidade está dividida em quatro momentos principais: o diálogo inicial e momento do quadro, o desenvolvimento das atividades, o retorno à calma, e o diálogo final. Tenta manter-se esta estrutura ao longo das sessões, proporcionando à criança, uma rotina que lhe traz segurança, ao puder prever e anteceder, o que irá decorrer no espaço de sessão. À entrada no ginásio, procede-se ao descalçar do calçado por parte de todos os elementos, sendo este um fator inerente e contínuo ao longo das sessões.
As sessões têm uma duração média de 45-50 minutos por grupo.
No diálogo inicial, as crianças verbalizam sobre acontecimentos importantes da semana (positivos ou negativos), e discutem entre si, atividades realizadas por uns e que outros também fizeram ou gostariam de fazer. É o momento de recuperar memórias e recontá-las, e favorecer a organização temporal das mesmas. Neste momento da sessão estabelece-se também como serão desenvolvidas as atividades, e cada um refere o que gostaria de realizar, e negoceia-se qualquer inconveniente. Em seguida expõe-se no
29 quadro as atividades escolhidas, elaborando-se o plano de sessão. À vez cada criança coloca o seu nome e por baixo deste, escreve ou desenha o que pretende realizar na sessão. Muitas vezes após escolhidas as atividades, as crianças decidem alterá-las ou juntarem-se a atividades dos pares, isto é permitido, mas têm de referir (consciencializar) o porquê da mudança.
O desenvolvimento das atividades, corresponde ao período de sessão onde as crianças realizam as suas intenções motoras e relacionais. Desenvolvem as atividades previamente definidas, dão-se sugestões de variações à mesma, estimulam-se estratégias perante as dificuldades, ocorrem conflitos e a resolução de problemas, entre outros. É o momento da sessão onde se desenvolvem os objetivos da intervenção, partindo do interesse e desejos da criança, tendo o psicomotricista o papel de proporcionar meios de expressão securizantes e que favoreçam o desenvolvimento.
O retorno à calma corresponde à atividade final da sessão, e consiste num momento de atividades de relaxação. Pretende-se organizar os ciclos respiratórios e consciencializar para os estados do corpo, da mesma forma, pretende-se que seja um momento de regulação da agitação antecedente, e preparação para a finalização da sessão. Ajuda também à consciencialização corporal favorecendo a organização do esquema corporal, e é também um momento que favorece a regressão, pela proximidade, contato, ação sobre o corpo, e continuidade que o envolve. Numa fase inicial as crianças não conseguem perceber a necessidade do retorno à calma ou o “descansar”/”massagens”, mas com o decorrer das sessões, começam a integrá-lo nos momentos de sessão, pedindo espontaneamente a sua realização.
Por fim, no diálogo final, pretende-se desenvolver na criança uma maior consciencialização sobre as atividades realizadas e aplicações no quotidiano. Enumeram-se por ordem as atividades, e o que se realizou em cada, pergunta-se por dificuldades sentidas e estratégias que foram aplicadas. Finaliza-se a sessão com o calçar do calçado e saída da sala em conjunto.
Esta é a sessão-tipo desenvolvida na maioria dos grupos, contudo há grupos em que tal não é possível de aplicar.
Assim, no grupo 3 que é composto por crianças da UPI, com perturbações sobretudo regulatórias e da comunicação e relação, as sessões pretendem favorecer o contato com os materiais e a auto-organização das aferências sensoriais, a verbalização dos afetos, e devido às suas dificuldades relacionais e de mentalização, as sessões são livres e abertas, respeitando-se apenas o ritual do calçar/descalçar. Ocasionalmente procede-se a um momento final de retorno à calma, quando a iniciativa surge da criança, pedindo esta o “dormir”. Aproveita-se então este momento, para trabalhar a consciência corporal de si e o estabelecimento de relação proximal com o outro.
No grupo 6, que corresponde ao grupo de adolescentes com alterações do comportamento, muitas das sessões consistem na realização de projetos, de acordo com os seus gostos e vontades. Para tal, não se reproduz a estrutura de sessão inicialmente apresentada. Contudo o diálogo inicial e final estão sempre presentes. Ocasionalmente realizam-se sessões integrais de relaxação, em momentos de maior desregulação emocional e comportamental, baseando-se toda a sessão no retorno à calma.
1.3. Contexto de Intervenção
A intervenção psicomotora desenvolve-se no ginásio, localizado na ala da UPI. Contudo com o grupo 6, por vezes utiliza-se o espaço exterior à clínica, a copa, ou mesmo o gabinete para o desenvolvimento das sessões. O gabinete da psicomotricidade é maioritariamente utilizado, para as entrevistas e avaliações com os pais e/ou crianças, devido à função contentora, focalizadora, e profissional que transmite.
30 O ginásio é amplo, com grande incidência de luz natural, e artificialmente climatizado. Contém uma grande variedade de materiais, visualmente expostos, que permitem as mais variadas expressões, apelando ao espírito criativo do indivíduo. No que concerne à caracterização física do espaço, a sala apresenta duas fachadas opostas compostas por janelas, permitindo a entrada da claridade natural. Na outra parede localiza-se o espelho e o quadro branco, e oposta a essa parede encontra-se a porta. É livre de móveis e obstáculos, contendo apenas uma mesa pequena e duas cadeiras, e um conjunto de cacifos para arrumação, ambos localizados junto da parede. As janelas possuem estores, os quais permitem regular a intensidade da luz natural, e permite mesmo escurecer totalmente a sala, situação utilizada em algumas dinâmicas de sessão.
O quadro branco é peça fundamental para a organização das sessões. Nele é realizado o planeamento conjunto da sessão, e a inscrição do nome dos elementos do grupo, mas permite também a expressão gráfica livre da criança. O espelho permite a visão de corpo inteiro, e pelo facto de ser articulado possibilita à criança visualizar-se repetidamente. É um instrumento imprescindível, pois é
através da imagem especular que a criança integra a imagem e o reconhecimento de si.
Além deste material, contém também um conjunto variado de outros materiais:
As bolas, de diferentes cores, texturas e tamanhos, continuam a ser objeto de eleição privilegiado;
A bola terapêutica favorece entre outras situações, estimulações vestibulares, relaxação e aferição dos reflexos primitivos da criança;
A piscina de bolas, é o local de eleição para os momentos de descarga energética;
Os colchões, com várias cores, permitem o contraste duro/mole, mas também serve como instrumento de proteção ou contenção;
As esponjas de diversas cores, tamanhos e formas, favorecem as atividades de construção e o jogo simbólico;
Tapete, Placas sensoriais, estimulam os propriocetores pedais;
O papel de cenário permite a realização conjunta e possibilita o contorno real do próprio corpo maximizando o autoconhecimento;
Arcos de várias cores e tamanhos, baloiços para pendurar no teto, prancha de bodyboard, banco sueco, prancha de equilíbrio e minitrampolim, favorecem situações de estimulação vestibular e ajuste gravítico, além das mais variadas funções que podem assumir; O escorrega e o espaldar, proporcionam momentos de coragem e desafio;
O túnel de tecido e os panos proporcionam estimulação propriocetiva e a transformação de personagens no jogo simbólico;
As cordas, puzzles, jogos de tabuleiro, bonecos e fantoches, entre outros, completam o material das sessões, e assumem a função que o individuo desejar.
Figura 1. O ginásio das sessões de psicomotricidade
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