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4 Analyse:Refleksjonensmangefasetter

4.2.4 Refleksjonsmarkører

Aron tem especial interesse pela obra de Clausewitz, que comporta, em seu âmago, questões interessantes sobre paz e guerra, de certa forma em sintonia com as concepções do sociólogo francês. Clausewitz define a guerra como o emprego da violência, diferenciando, sob esse aspecto, o estado de guerra do de paz, uma vez que a guerra é a política executada por meios violentos, e a paz, a política empregada sem o uso da violência.22

Embora Clausewitz reconheça o controle político sobre todas as atividades guerreiras, ele não consegue entender a noção de estratégia fora do âmbito militar. Como elucida Aron: “Clausewitz usa a palavra estratégia no sentido militar e somente neste sentido”.23 Dessa forma, ele não diferencia tática de estratégia, senão pela amplitude da visão, pensando que a meta da estratégia é a vitória militar. Ora, segundo Aron:

(...) a guerra é outra de conjuntura em conjuntura, complexa em cada conjuntura – a tarefa do homem de Estado é determinar a natureza própria de tal guerra singular que lhe incumbe compreender ou conduzir.24

A natureza da guerra depende justamente da vontade política: nem sempre os objetivos da guerra estão no aniquilamento do adversário ou na vitória do conflito armado. O não perder, em determinadas situações, tem o mesmo valor de uma vitória, pois a finalidade da guerra é o atendimento aos interesses nacionais. Aron analisa a concepção de estratégia em uma perspectiva mais ampla, que atende aos interesses civis e militares em tempos de paz e em tempos de guerra. Assim, a estratégia atua fora dos campos de batalha, fazendo parte do cotidiano político no tratamento de questões de segurança nacional. Para Aron, é a estratégia quem:

21MAQUIAVEL, op. cit. nota 13, p. 28.

22ARON, Raymond. Sur Clausewitz. Paris: Éditions Complexe, 2005. 23id., ib., p. 119.

(...) fixa onde, como e quando os combates ou batalhas serão travados, mas em função do objetivo último da campanha, sendo este objetivo mesmo diretamente ligado à finalidade política da própria guerra. (...) a estratégia pensa e combina os diversos tipos de operações em vista do objeto militar e (ou) do fim político.25

Clausewitz percebe a guerra como a política por outros meios; já Aron, ao analisar a complexidade da guerra, pensa ser a política, a guerra, por outros meios.26 Daí a importância atribuída por Aron ao estudo das entidades políticas, visto que elas são os agentes propulsores da guerra. Nessa direção, antes de analisar a guerra em âmbito geral ou específico, Aron examina o tipo de estado e de força política que a produz. Acredita que, para compreender a guerra, é preciso analisar a política, a estratégia e a tática.

Clausewitz desenvolve seus estudos sobre a guerra a partir dos conhecimentos que detém sobre Napoleão Bonaparte. Em sua obra, analisa a estratégia e a tática napoleônica em muitos combates travados pelo exército francês, examinando as suas idéias sobre mobilidade e concentração de tropa. O autor enfatiza o valor moral que Napoleão atribuía ao soldado, a ponto de considerar o número do efetivo e ponderar a qualidade guerreira do combatente.

O autor prussiano fundamenta suas idéias sobre guerra a partir do esforço de guerra napoleônico, resgatado freqüentemente para estudo pelos generais franceses e alemães. De acordo com Aron, Clausewitz tem uma grande parcela de influência sobre líderes militares e políticos, tais como Marx, Engels, Lenin e Mao-Tsé-Tung:

Quanto a Clausewitz, o mais notável dos escritores militares da burguesia de quem Marx, Engels, e depois Lenin e Mão-Tsé Tung, retiraram as verdades parciais e corrigiram os erros idealistas, permanece sendo o mestre comum dos três interlocutores - russo, chinês e americano.27

Apesar de Clausewitz ser um prussiano, seus ensinamentos são difundidos no exército francês, o que torna relevante analisar a visão dos líderes militares franceses, para, então, compreender a conduta do alto comando e a doutrina militar defendida nas escolas e nas grandes unidades francesas. Aron considera que os generais da Primeira Guerra Mundial retiveram de Clausewitz apenas uma idéia: a batalha decisiva.28

25ARON, op. cit. nota 1, p. 175.

26 CHACON, Vamireh. Raymond Aron na UnB: conferências e comentários de simpósio internacional realizado de 22 a 26.08.1980. Brasília: UNB, 1998. p. 5.

27ARON, op. cit. nota 1, p. 253. 28ARON, op. cit. nota 1, p. 18.

Mas, afinal, que influência tem Clausewitz sobre a doutrina militar francesa? Para responder à questão, Aron analisa a conduta e as obras do gen. Ferdinand Foch, um dos chefes da Primeira Grande Guerra, aluno da escola militar do maj. Lucien Cordot, que ministrava conferências sobre a obra de Clausewitz. Através dos ensinamentos desse comandante, Foch e seus pares conhecem e têm a oportunidade de examinar as idéias de Clausewitz, o que se torna, no futuro, decisivo para a execução dos trabalhos do alto comando francês. Segundo Aron: “Clausewitz entre 1885 e 1900, contribuiu para formação daqueles que redigiram os planos de estado maior no início do século e conduziram os exércitos franceses em 1914”.29

Mas, quando Aron passa a estudar a forma como as concepções de Clausewitz são absorvidas pelos estudiosos franceses, descobre que ele não fora bem compreendido, principalmente por Foch, a quem Aron faz pesadas críticas, ao identificar os pontos errôneos de interpretação apresentados por esse general em suas obras, principalmente no livro Princípios de guerra: “(...) incapazes de compreenderem o pensamento global do prussiano, acabavam por caricaturá-lo quando pensavam compreender sua essência”.30

Na interpretação de Aron, Clausewitz é um defensor do valor histórico, devido à falta de acesso existente, no período, às batalhas, aos conflitos, às guerras e a todos os temas ligados à preservação do fato histórico. Foch entende de forma conservadora esse princípio, considerando que os valores passados devem subsistir, transcendendo, na análise de Aron, a idéia de retenção dos fatos como objeto de estudo e defendendo a continuidade dos valores passados no tempo presente. Para Aron, essa conclusão de Foch, entre muitas outras, é errônea e confusa31, estando longe de fazer jus à genialidade militar de Clausewitz.

Foch confunde os conceitos de guerra absoluta, com os de guerra nacional, adotando uma posição incoerente em suas análises, pois acredita na guerra única, na qual se aposta toda a sorte da nação em uma só batalha. Segundo Aron: “não fez distinção entre

29ARON, op. cit. nota 1, p. 28. 30id., ib.

31Sobre as idéias de Foch faremos um estudo detalhado, pois suas obras compuseram o pensamento da alta cúpula militar francesa, independente do prisma que Foch analisou e entendeu Clausewitz.

guerra absoluta e guerra real, e o conceito de guerra absoluta o levou em direção da guerra total”.32