No período que estávamos fazendo o levantamento das discussões teóricas que abordassem o nosso objeto de estudo, observamos uma precária interlocução entre a Literatura e o desenvolvimento emocional de crianças de educação infantil na prática pedagógica. O incipiente diálogo entre esses dois campos do saber reflete a precária relação entre os problemas que emergem da prática pedagógica e as produções teóricas e metodológicas no campo educacional.
Essa assertiva é decorrente das observações de que nas propostas educacionais atuais, ressalta-se cada vez mais a necessidade de promover e assegurar o crescimento e o desenvolvimento das crianças, ampliando permanentemente suas experiências e seu universo de conhecimento sobre sua realidade (Parâmetros de qualidade para a Educação Infantil, 2004). Entretanto, essas orientações não se refletem na prática pedagógica, pois, esta se fundamenta em situações de ensino que privilegiam o desenvolvimento cognitivo em detrimento ao desenvolvimento emocional dos educandos.
As emoções, mesmo assumindo um lugar secundário nas práticas desenvolvidas em contexto escolar, constituem-se como parte significativa do desenvolvimento infantil, sendo necessário pensar em situações de ensino que compreendam o sujeito em sua globalidade, complexidade e nuances (BEE, 2003; MUSSEN, 1982; WALLON, 2007). No que diz respeito ao desenvolvimento emocional, percebemos o crescimento de estudos que abordam essa temática, afirmando que esse processo ocorre orientado por sucessivas aprendizagens que os sujeitos estabelecem com o meio, tendo as suas interações papel essencial nesse processo. Por esse motivo, propomos neste estudo a leitura de literatura infantil para o enriquecimento das experiências emocionais e problematização dos conflitos da criança.
A partir dessa interface que nós propomos a realizar neste estudo, nossas pesquisas constataram que apesar de autores como Bettelheim (2004) e Held (1980) discutirem a importância da leitura de literatura infantil para o desenvolvimento emocional das crianças por meio do processo de exteriorização que pode resultar no enriquecimento e na formação interior e emocional dos sujeitos, os referidos autores não abordaram essa relação na prática pedagógica desenvolvida em sala de aula. A precariedade de pesquisas nessa área se
configurou como um dos fatores que nos impulsionou a elaborar este trabalho, que resultaria na construção de um corpo teórico com análises de práticas pedagógicas de leitura de literatura que subsidiassem a ação docente no trabalho sistemático com a literatura e que apontassem para suas contribuições na problematização dos conflitos emocionais de crianças na educação infantil.
Assim, como as relações entre Literatura e desenvolvimento emocional são incipientes, encontramos apenas algumas pesquisas que se aproximam a nossa, porém apresentam abordagens diferenciadas. Destaca-se os estudos desenvolvidos na Base de Pesquisa O Ensino de leitura e de Literatura, coordenada pela Professora Marly Amarilha, que tem como foco a formação do mediador de leitura e as contribuições da leitura de literatura infantil em sala de aula, ressaltando aspectos pertinentes da influência que esses tipos de textos podem oferecer para a formação do leitor em vários aspectos formativos: emocional, cognitivo, estético, imaginativo e social.
Em pesquisas realizadas em escolas públicas de Natal-RN, Amarilha (1991; 1993; 1994; 2003; 2006) constatou que a literatura infantil na sala de aula contribui significativamente para a formação de crianças, pois, com sua linguagem simbólica e natureza experiencial e humanizadora, possibilita a seus leitores a experimentação na ficção e a renovação de seu horizonte de expectativas.
Tomando como referência esse norte teórico, as pesquisas orientadas por Amarilha ressaltam justamente a natureza formativa desses textos. Os estudos de Freitas (2002; 2005), realizados com alunos de Educação Infantil, destacaram a importância da leitura de literatura para a formação de crianças, valorizando seu potencial como leitor de literatura e competência para interagir com textos dessa natureza. Por se desenvolver em contexto de Educação Infantil, suas pesquisas contribuíram para percebermos a importância da literatura para a formação de crianças e compreendê-las como sujeitos capazes de se envolverem e participarem ativamente de momentos em que ocorre o processo de ensino e aprendizagem da literatura. Entretanto, esses estudos se diferenciam do nosso na medida em que ressaltam como aspectos formativos da literatura o desenvolvimento da linguagem e do potencial argumentativo da criança em uma aula de literatura.
Apoiamo-nos também na pesquisa de mestrado realizada por Silva (1996), que afirma que o potencial formativo da literatura é norteado por sua natureza lúdica, que permite ao leitor, através do jogo de máscaras, o envolvimento e
experimentação na ficção, que poderá resultar na compreensão de sua realidade interior e exterior, bem como construir conhecimentos específicos para se ler literatura. Suas proposições nos assinalam que o trabalho com a literatura infantil em sala de aula é fundamental por promover o desenvolvimento crítico e analítico do leitor, além de lhe possibilitar vivenciar um jogo lúdico norteado pelo prazer e pelo conhecimento.
Recentemente, em pesquisa desenvolvida por Souza (2009), constatamos que a literatura também assume uma perspectiva inclusiva ao possuir especificidades e atrativos lúdicos e de fantasia que permitem que o leitor possa mobilizar suas experiências de vida e leitora para penetrar na ficção e sair-se renovado dela. Nessa imersão na ficção, o leitor pode se incluir no texto, cooperar com a construção de sentido da história, vivenciar prática socializante de aprendizado, compartilhando suas emoções, seus dramas e experiências com o grupo de alunos da sala, resultando no desenvolvimento do leitor e na construção de uma comunidade de leitores.
Nessa perspectiva de leitura literária, nosso trabalho se estrutura à medida que também concebe o texto como fonte de prazer e aprendizado, entretanto se diferencia dos demais por abordar em especial uma das potencialidades do texto literário: a formação emocional do leitor e a problematização dos seus conflitos emocionais. É pertinente destacar que os estudos que citamos anteriormente ressaltaram que a literatura contribui para o desenvolvimento emocional do leitor, entretanto não enfoca essa temática especificamente.
Ainda ressaltando a interface Literatura e Educação, o Centro de Educação, Leitura e Escrita (CEALE), apresenta estudos que nos possibilitaram refletir sobre as especificidades da leitura de literatura infantil e a recepção de livros que alcançam crianças e jovens. Apesar de não se constituírem como interlocutores diretos para nossos estudos, essas pesquisas nos permitiram pensar no potencial formativo da literatura e a perceber sua influência na integração emocional, cognitiva e social dos membros que compõe o cenário educativo. Nesse sentido, os alunos aprendem a se perceberem como uma comunidade, unidos pela experiência individual e coletiva permeada pelo texto literário, o que poderá auxiliar os leitores a compartilhar suas experiências emocionais e a entender sua realidade interior.
A escassez de estudos sobre a interface que nos propomos a realizar induziu- nos a procurar referenciais que nos auxiliassem na construção de um corpo teórico
que nos permitisse elaborar um estudo que dialogasse com várias áreas do conhecimento. Para discutirmos sobre emoções, recorremos aos estudos de Damásio (1996), Leite (1978), Bee (2003), entre outros. Aliamos os estudos desses autores com os referentes ao surgimento de conflitos intrapsíquicos como parte do percurso formativo dos sujeitos, descrito por Del Nero (2003), Wallon (2007) e Telles (2006). Para as referidas autoras, os conflitos fazem parte da dinâmica da vida, aparecendo durante o grau de evolução dos indivíduos e das suas necessidades adaptativas ao meio. Entretanto, por envolver a experimentação de sentimentos e emoções contraditórios, emerge a necessidade de compreensão dessas experiências emocionais para o desenvolvimento equilibrado dos indivíduos.
Tomamos como base esses pressupostos teóricos e os articulamos aos estudos referentes ao papel da Educação Infantil no desenvolvimento emocional de crianças, utilizando como referenciais os documentos que regem essa etapa de ensino, entre eles os Parâmetros de Qualidade para a Educação Infantil (2004) e os Referenciais Curriculares para a Educação Infantil (2001), além de autores como Bassedas (1999), Kramer (1992), Zabalza (1998), Oliveira (2005) para ampliar a discussão sobre a Educação Infantil como responsável por criar estratégias de ensino que possibilitem propiciar o desenvolvimento das capacidades das crianças.
No que concerne as pesquisas sobre a literatura infantil, ampliam-se os estudos que se dedicam ao potencial formativo da literatura na escola, no entanto essas pesquisas pouco se refletem na sala de aula, o que perpetua uma prática de leitura reducionista e com foco na “pedagogização” do ensino de Literatura. Para estudarmos o potencial formativo da Literatura e sua influência no desenvolvimento emocional do leitor, utilizamos as pesquisas desenvolvidas principalmente por Bettelheim (2004) e Held (1980).
Para Bettelheim (2004), uma das maiores contribuições da Literatura destinada às crianças é em termos emocionais, pois a leitura desses textos auxilia as mesmas no processo de exteriorização dos medos, angústias e desejos, materializados nos conflitos apresentados nas narrativas, através da fantasia, escape e consolo que as histórias oferecem. O processo de identificação do leitor com o texto possibilita-lhe compreender que os conflitos que fazem parte de suas vivencias são passíveis de um final feliz, se ele mobilizar suas forças para enfrentar os obstáculos, tendo como referência as estratégias utilizadas pelos personagens das histórias lidas. Dessa forma, a leitura de literatura ajuda a criança a entender
melhor a natureza de suas emoções e conflitos, dando-lhe alternativas para enfrentar suas dificuldades.
Para Held (1980), a literatura infantil auxilia o leitor a realizar descobertas essenciais sobre a condição humana, relacionadas às emoções, aos sentimentos, as angústias e aos conflitos vivenciados. Essas descobertas ocorrem de forma progressiva e proporcional as forças da criança, através da objetivação de seus conflitos e de suas emoções em formas exteriores a si, libertando-se deles e tendo a oportunidade de compreendê-los melhor. Nesse processo, a experimentação emocional do leitor e o enfrentamento de conflitos no plano simbólico ajudarão na elaboração de bagagem antecipatória para lidar com a vida e na compreensão mais lúcida e flexível da sua realidade.
Eco (2003; 2006) afirma que essa relação do leitor com o texto é permeada pelo jogo simbólico proposto pela narrativa que permite a esse construir sentido sobre suas experiências já vivenciadas ou as que poderão vir a acontecer, através da mobilização de suas vivências e a projeção na ficção.
Apoiamo-nos em Culler (1999) e Fiorin e Savioli (1991), para discutir as especificidades do texto literário que permite ao leitor se envolver, se projetar e se experimentar na ficção, saindo-se renovado dessa relação. Baseamo-nos também em estudos sobre a estética da recepção para compreender e descrever a relação e acolhida das crianças a leitura de literatura, utilizando como referências teóricas as pesquisas de Iser (1996), Jauss (2002), Stierle (2002), Jouve (2002).
É nesse diálogo de teorias que construímos este estudo, que se aproxima dessas pesquisas quando destaca o potencial formativo da literatura e suas contribuições para o desenvolvimento do sujeito, ao mesmo tempo que se distancia a medida que propõe o estudo aprofundado de uma das especificidades da leitura de literatura infantil, ao ressaltar as contribuições desses textos para o desenvolvimento e enriquecimento emocional do leitor, ao investigar a relação entre literatura e emoções na prática pedagógica de educação infantil.
A escassez de estudos sobre a interface proposta, destinada a investigar a relação literatura, desenvolvimento emocional e conflitos emocionais, reafirma-se como necessária à construção de um corpo teórico com análises práticas que auxiliem os professores a orientarem sua ação docente tendo como foco a leitura de literatura em sua natureza lúdica, simbólica, artística e formativa, que possibilita a problematização das experiências e conflitos emocionais de crianças.