Kapittel 5: Analyse
5.1 Refleksjon rundt kvantitativ datainnsamling
A primeira aparição do eterno retorno no caderno de anotações se encontra num esboço contendo uma exposição de cinco tópicos, acompanhado da inscrição à qual Nietzsche faz
referência em Ecce Homo (“A6.000 pés acima do nível do mar e muito mais acima de todas as
coisas humanas!”).
O eterno retorno do igual (Die Wiederkunft des Gleichen) Esboço
1)A incorporação dos erros fundamentais. 2) A incorporação das paixões.
3) A incorporação do saber e do saber que renuncia. (Paixão do conhecimento). 4) O inocente. O particular enquanto experimento. A facilitação da vida, rebaixamento, debilitação – transição.
5) O novo centro de gravidade: o eterno retorno do mesmo. A infinita importância do nosso saber, do nosso errar, dos nossos hábitos e maneiras de viver, para tudo o que está para vir. Que fazemos nós do resto da nossa vida – nós que passamos a maior parte dela na mais essencial ignorância? Ensinamos a doutrina – é o meio mais poderoso de a incorporarmos nós próprios. O nosso gênero de felicidade, como doutores da maior doutrina. (KSA 9 11[141])
Podemos observar que nenhum destes cinco tópicos fazem alusão direta a aspectos cosmológicos. O eterno retorno do igual é apresentado como “o novo centro gravidade” (Das neue Schwergewicht) e acompanhado por uma série de prescrições que mais se aproximam de um
programa existencial. Porém, é clara a correlação destes tópicos com o pensamento nietzschiano acerca da vida orgânica em sua articulação com a teoria do erro, além de suas considerações acerca da paixão do conhecimento, entre outros temas que repercutem questões fundamentais da filosofia de Nietzsche nesse contexto. O filósofo se questiona: “Que fazemos nós do resto da nossa vida – nós que passamos a maior parte dela na mais essencial ignorância?” A saída apresentada pelo filósofo é ensinar a doutrina do eterno retorno do igual, como forma de incorporá-la. A dimensão autoformativa do eterno retorno é destacada e o ensino da doutrina é entendido como a melhor forma de “autoincorporação” desse pensamento. Na continuidade do esboço, Nietzsche desenvolve o quarto tópico onde faz alusão ao particular como experimento (Der Einzelne als Experiment):
Sobre 4) filosofia da indiferença. O que outrora mais atraía, atua agora de modo totalmente distinto, se considera e se aceita só como jogo (as paixões e o trabalho), se recusa por princípio como vida no não verdadeiro, mesmo que se desfrute e se cuide esteticamente pela sua forma e encanto, nos situamos como alguns meninos diante do que antes constituía a parte séria da existência. A aspiração de seriedade que temos consiste em entender tudo como devir, negar-nos como indivíduo, ver o mundo se é possível através de muitos olhos, viver ocupados com as pulsões, para assim assombrar- nos, entregar-nos de vez em quando à vida para logo descansar com um olho posto nela: conservar as pulsões enquanto fundamento de todo conhecimento, mas saber quando passam a ser suas inimigas: esperar, em suma, para ver em que medida o saber e a verdade conseguem incorporar-se - e até que ponto se dá uma transformação no homem quando este chegue por fim a viver só para conhecer. – Isto é consequência da paixão do conhecimento: não há para sua existência meio algum salvo conservar também as fontes e os poderes do conhecimento, os erros e paixões de cuja luta extrai ele a força de conservação. Que efeito terá essa vida com respeito ao conjunto da saúde? Um jogo de meninos, que o olho do sábio mira, ter poder sobre esta e aquela condição – e sobre a morte, quando algo assim não seja possível – Mas agora vem o mais difícil dos conhecimentos e faz com que todos os modos de vida resultem cheios de inconvenientes: um excesso absoluto de prazer tem que ser algo que se possa provar, senão, deverá eleger o aniquilar a si mesmo olhando a humanidade como meio de aniquilar a humanidade. Ainda assim: temos que pôr na balança nosso passado e o de
toda a humanidade e também sobrepesá-lo (überwiegen) – Não! Esta parte da história
da humanidade tem que se repetir e se repetirá eternamente, isso podemos dar por certo, a respeito não temos poder algum: ainda que lhe pese nossa igual compaixão e a tome contra a vida. E para que isso não nos transtorne, não há de ser grande nossa compaixão. A indiferença tem que ter agido profundamente em nós, assim como também o gosto pela contemplação. Tampouco deve afetar-nos em nada a miséria da humanidade futura. Mas a questão é se ainda queremos viver: e como!
O que equilibrar: os distintos estados elevados que tenho tido, que sirvam de base aos diferentes capítulos e matérias – como regulador da expressão, exposição, pathos dominante em cada capítulo – e obter assim uma ilustração de meu ideal, como se disséssemos, por adição. Então, para cima! (KSA 9 11[141])
Como “novo centro de gravidade”, o eterno retorno atrai para si temas importantes que povoam a reflexão de Nietzsche nesse contexto. Assim também ocorre com muitas questões trabalhadas ao longo do caderno de anotações, como podemos observar no próprio texto apresentado pelo filósofo ao quarto tópico que recebe o título de “Filosofia da indiferença”
(Philosophie der Gleichgültigkeit). A indiferença, caracterizada anteriormente como um fundamento do espírito científico que se transforma progressivamente em gosto, encontra-se articulada com uma mudança de disposição com relação ao que antes atraía intensamente, recusando-o por princípio como vida no não verdadeiro e considerando-o somente como jogo, mesmo que sua forma e encanto sejam objeto de cuidado e fruição estética. Nietzsche classifica essa atitude como a de uma criança diante das questões sérias da existência. Como argumenta o filósofo, sua aspiração de seriedade (Streben des Ernstes) volta-se para a compreensão da totalidade como devir, ao negar-se como indivíduo, à atitude de “ver o mundo com muitos olhos” e às pulsões, para assombrar-se e entregar-se à vida periodicamente. Nietzsche também reivindica que se deve esperar para saber até que ponto o saber e a verdade podem ser incorporados, até que ponto o homem se transforma quando passa a viver somente para conhecer, classificando essa disposição como uma consequência da paixão do conhecimento. Deve-se avaliar as consequências dessa paixão e de que modo opera uma transformação na vida humana. O filósofo, então, se refere ao mais difícil dos conhecimentos, aquele que revela os inconvenientes de todos os modos de vida e conduz a uma revisão de todo o passado da humanidade sem que possamos alterá-lo. Como defende Nietzsche, para que este pensamento não nos transtorne é necessário que a indiferença arraigue fundo em nós assim como o gosto pela contemplação. A questão fundamental não é modificar a miséria futura da humanidade e sim como ainda queremos viver. Ao final desse primeiro esboço, o filósofo faz uma breve indicação de que deseja escrever uma obra para expressar os distintos estados elevados que tem experimentado, para ilustrar o seu ideal.
Ao contrário de Dühring e Caspari, que acentuam o caráter não vital do eterno retorno do mesmo, Nietzsche encontra neste pensamento o potencial para produzir uma nova forma de vida. Porém, o filósofo entende que este potencial somente se efetivará na medida em que o eterno retorno, o maior dos pesos (das größte Schwergewicht), puder ser incorporado, o que está vinculado à disposição de querer a repetição (11[143]). Nietzsche vincula esta disposição à inocência e argumenta que seria terrível afirmar a repetição sem abandonarmos a culpa propagada pela velha doutrina do pecado original (11[144]). No entanto, reconhece que uma nova doutrina “alcança por último seus melhores representantes”, as naturezas seguras nas quais as novas ideias crescem com “a fecundidade de uma selva virgem, fazendo-se impenetrável” (11[147]); os primeiros adeptos são os mais débeis, vazios, necessitados, enfermos, aqueles que recebem a “infecção do novo” e nada provam contra uma doutrina (idem). Nesse contexto, logo após o esboço, nos deparamos com a primeira exposição cosmológica do eterno retorno, na qual, como
observa D’Iorio, Nietzsche retoma o título do livro de Caspari, Der Zusammenhang der Dinge (“A Correlação das coisas”)60.
O mundo das forças não é passível de nenhuma diminuição: pois senão, no tempo infinito, se teria tornado fraco e sucumbido. O mundo das forças não é passível de nenhuma cessação: pois esta teria sido alcançada, e o relógio da existência pararia. O mundo das forças, portanto, nunca chega a um equilíbrio, nunca tem um instante de repouso, sua força e seu movimento são de igual grandeza a cada tempo. Seja qual for o estado que esse mundo possa alcançar, ele tem de tê-lo alcançado, e não uma vez, mas inúmeras vezes. Assim este instante: ele já esteve aí uma vez e muitas vezes e igualmente retornará, todas as forças repartidas exatamente como agora: e do mesmo modo se passa com o instante que gerou este, e com o que é filho do agora: Homem! Tua vida inteira, como uma ampulheta, será sempre desvirada outra vez e sempre se escoará outra vez, - um grande minuto de tempo no intervalo, até que todas as condições, a partir das quais vieste a ser, se reúnam outra vez no curso circular do mundo. E então encontrarás cada dor e cada prazer e cada amigo e inimigo e cada esperança e cada erro e cada folha de grama e cada raio de sol outra vez, a inteira conexão de todas as coisas (den ganzen Zusammenhang der Dinge). Esse anel, em que és um grão, resplandece sempre outra vez. E, em cada anel da existência humana em geral há sempre uma hora, em que primeiro um, depois para muitos, depois para todos, emerge o mais poderoso dos pensamentos, o pensamento do eterno retorno de todas as coisas: - é cada vez, para a humanidade, a hora do meio dia. (KSA 9 11[148])61
Podemos observar como, nessa primeira elaboração da cosmologia do eterno retorno, Nietzsche mobiliza, assim como Caspari, o argumento da infinitude a parte ante para dispensar a tese de um equilíbrio final. Mas, a partir desse argumento, o filósofo constrói a tese do eterno retorno do instante que, como veremos a seguir, aponta para a ruptura com o pensamento do autor de Die Thomson’sche Hypothese (A hipótese de Thomson). Em um tempo infinito, um determinado instante retorna e com ele também toda a cadeia de instantes que lhe são anteriores e posteriores ao seu aparecimento. Este encadeamento dos instantes e seu eterno retorno fazem com que as próprias condições que produziram uma determinada vida se “reúnam outra vez no curso circular do mundo”. A partir disso, apontando para os desdobramentos dessa tese sobre a vida humana, Nietzsche argumenta que o transcorrido em uma vida inteira se repetirá e com isso a “inteira conexão de todas as coisas”. O curso circular do mundo repercute no transcorrer da vida humana, um grão num anel que volta sempre a se repetir, revelando a correlação de todas as coisas. Podemos observar, então, que Nietzsche não só retoma a ideia de Caspari, mas se apropria dela pensando-a a partir da tese do retorno do instante através da qual o filósofo procura construir um vínculo entre o devir circular do mundo e o transcorrido no intervalo de uma vida humana. Diante disso, Nietzsche chega ao ponto de afirmar que em cada ciclo no qual se desdobra a existência do homem, aumenta cada vez mais o número de indivíduos para os quais o pensamento
60
Cf. D’IORIO, 2007, p. 245
do retorno surgirá. Na redação do aforismo 341 de Gaia Ciência, primeira comunicação desse pensamento na obra publicada, Nietzsche utiliza parte desse fragmento.
O maior dos pesos. – E se um dia, ou uma noite, um demônio lhe aparecesse furtivamente em sua mais desolada solidão e dissesse: “Esta vida, como você a está vivendo e já viveu, você terá de viver mais uma vez e por incontáveis vezes; e nada haverá de novo nela, mas cada dor e cada prazer e cada suspiro e pensamento, e tudo o que é inefavelmente grande e pequeno em sua vida, terão de lhe suceder novamente, tudo na mesma sequência e ordem – e assim também essa aranha e esse luar entre as árvores, e também este instante e eu mesmo. A perene ampulheta do existir será sempre virada novamente – e você com ela, partícula de poeira!”. –Você não se prostraria e rangeria os dentes e amaldiçoaria o demônio que assim falou? Ou você já experimentou um instante imenso, no qual lhe responderia: “Você é um deus e jamais ouvi coisa tão divina!”. Se esse pensamento tomasse conta de você, tal como você é, ele o transformaria e o esmagaria talvez; a questão em tudo e em cada coisa, “Você quer isso mais uma vez e por incontáveis vezes?”, pesaria sobre os seus atos como o maior dos pesos! Ou o quanto você teria de estar bem consigo mesmo e com a vida, para não desejar nada além dessa última, eterna confirmação e chancela? (FW/GC § 341)
Nietzsche convida seu leitor a imaginar o que ocorreria se em sua mais solitária solidão (einsamste Einsamkeit) aparecesse um demônio dizendo que tudo o que já foi vivido até o presente instante retornará eternamente na mesma ordem e sequência, sem nenhuma subtração, nem acréscimo. A forma de exposição busca acentuar a dramaticidade envolvida na aceitação ou recusa de tal hipótese e seus efeitos. Nietzsche apresenta dois estados despertados pela hipótese lançada pelo demônio, dois estados distintos que apontam para duas atitudes distintas: o estado de pavor e horror que levaria a amaldiçoar o demônio que assim falou, ou então, a vivência de um instante imenso (ungeheuren Augenblick )62 capaz de gerar um estado no qual o demônio seria divinizado, uma atitude afirmativa diante da hipótese da eterna repetição do transcorrido numa vida. Neste cenário dramático, Nietzsche afirma que se esse pensamento exercesse poder sobre seu interlocutor, ele poderia aniquilá-lo ou transformá-lo, pois querer a repetição do transcorrido na mesma ordem e sequência “pesaria sobre os seus atos como o maior dos pesos”, ou então seria a confirmação de que não deseja nada além dessa vida.
Nesta primeira comunicação do eterno retorno na obra publicada, Nietzsche utiliza somente a passagem do fragmento 11[148] que se refere à eterna repetição dos eventos transcorridos numa vida, inserindo-a, porém, no contexto dramático de configuração da hipótese demoníaca, praticamente ocultando a tese cosmológica que lhe dá sustentação no texto que a antecede. Em sua
62 Podemos confrontar esse instante imenso (ungeheuren Augenblick) com o instante infinitamente pequeno (der unendlich kleine
Augenblick) na qual o indivíduo se depara com sua condição mutável, apresentado no fragmento 11[156]. Nessa passagem do caderno de anotações, o individuo se descobre como um erro sutil na vivência de um instante infinitamente pequeno, uma imagem- relâmpago (Blitzbild) do devir, um flash da realidade. Na vivência do instante imenso, porém, conforme a passagem de Gaia Ciência, o indivíduo potencialmente divinizará o demônio que lhe apresenta o desafio de querer a repetição de todos os eventos de sua vida na mesma sequência e ordem. Esse cenário também é evocado em “Da Visão e do Enigma”, seção de Assim Falava Zaratustra que apresenta o personagem dialogando com o espírito de gravidade sobre o instante-portal, em sua mais extrema solidão.
primeira aparição na obra publicada, Nietzsche substitui o argumento da infinitude a parte ante e a teoria das forças, importantes pilares através dos quais a tese cosmológica do eterno retorno é erigida, por uma ficção que investe na imaginação e na fantasia do leitor. Nessas primeiras aparições do eterno retorno já podemos observar evidentes diferenças, que posteriormente se confirmarão, entre a forma de exposição desse pensamento na obra publicada e nos fragmentos póstumos. Essas diferenças foram muitas vezes tomadas como evidências de que, no material publicado, Nietzsche estaria mais interessado nos efeitos ético-existenciais e psicológicos do eterno retorno, sendo que para esse fim seria totalmente dispensável sustentá-lo como uma tese cosmológica.
Na exposição que segue o primeiro esboço (11[148]), a tese da eterna repetição da vida na mesma ordem e sequência se encontra vinculada à tese cosmológica do encadeamento dos instantes que na infinitude do tempo formam um grande anel. A partir da experiência do instante como repetição, se constrói um vínculo entre o transcorrer da vida humana e o devir circular do mundo. Esta ideia de que existe um vínculo entre a transitoriedade da vida humana e o eterno devir do mundo persegue o pensamento nietzschiano desde seu período de juventude63, mas, na primeira comunicação do eterno retorno na obra publicada, essa vinculação é apenas timidamente insinuada, a não ser pela menção a um certo instante descomunal no qual a hipótese demoníaca seria aceita. Acompanhando o desenvolvimento gradual desse enigmático pensamento nietzschiano no caderno de anotações, podemos demarcar o papel fundamental que a tese do retorno do instante possui para a cosmologia que Nietzsche visa construir, cujo principal objetivo é dissolver toda teleologia. O fragmento 11[202] nos permite identificar onde Nietzsche encontra embasamento para essa tese.
A medida da força total é determinada, não é nada de “infinito”; guardemo-nos (Hüten wir uns) de tais desvios de conceito! Consequentemente, o número das situações, alterações, combinações e desenvolvimentos dessa força é, decerto, descomunalmente grande e praticamente “imensurável”, mas, em todo caso, também determinado e não infinito. O tempo, sim, em que o todo exerce sua força, é infinito, isto é, a força é eternamente igual e eternamente ativa: - até este instante já transcorreu uma infinidade, isto é, é necessário que todos os desenvolvimentos possíveis já tenham estado aí. Consequentemente, o desenvolvimento deste instante tem de ser uma repetição, e também o que o gerou e o que nasceu dele, e assim por diante, para frente e para trás! Tudo esteve aí inúmeras vezes, na medida em que a situação global de todas as forças sempre retorna. Se alguma vez, sem levar isso em conta, algo igual esteve aí, é
63Em um de seus primeiros escritos Fatum e História, redigido em 1862, o jovem filósofo diz: “Por acaso, não seria o homem
simplesmente a evolução da pedra por intermédio da planta, do animal? Não teria ele já conseguido aqui a sua plenitude, e não se enraizaria aqui também a história? Este devir eterno precisa de um fim? Quais são as molas desta grande obra de relojoaria? Estão ocultas, mas são as mesmas nesse grande relógio que chamamos história. O mostrador são os acontecimentos. A cada hora os ponteiros avançam para começar novamente a sua ronda a partir das doze; irrompe um novo período do mundo...” (NIETZSCHE, 2005, p.61). Em um fragmento póstumo do verão de 1872 e inicio de 1873 diz o filósofo: “Considerar a filosofia como a astrologia: isto é, ligar o destino do mundo com o do homem, ou seja, encarar a suprema evolução do homem como a suprema evolução do mundo” (KSA 7 19[151]) .
inteiramente indemonstrável. Parece que a situação global forma as propriedades de modo novo, até nas mínimas coisas, de modo que duas situações globais diferentes não podem ter nada de igual. Se em uma situação global pode haver algo de igual, por exemplo, duas folhas? Duvido: isso pressuporia que tiveram uma gênese absolutamente igual, e com isso teríamos de admitir que, até em toda eternidade para trás, subsistiu algo de igual, a despeito de todas as alterações de situações globais e de toda criação de
novas propriedades – uma admissão impossível! (KSA 9, 11[202])64
A tese da repetição do instante se apóia numa teoria das forças. Nietzsche argumenta que tanto a medida da força quanto suas combinações, apesar destas últimas serem “imensuráveis’, são determinadas. A partir disso, mobilizando mais uma vez o argumento da infinitude a parte ante, o filósofo afirma que todos os desenvolvimentos possíveis já se processaram até o instante atual. Como podemos observar, é esta articulação entre o argumento da infinitude a parte ante e a teoria da determinabilidade da medida e das combinações da força que oferece a base para a tese nietzschiana da repetição do instante. Como afirma o filósofo: “Se todas as possibilidades que existem na ordenação e na relação das forças não estivessem já esgotadas, não haveria transcorrido já uma infinitude. E como isso tem que ter se dado, já não fica nenhuma possibilidade nova e tudo já tem que ter sido, inumeráveis vezes.” (11[152]). A força não é capaz de produzir infinitos casos, por isso se repete: “Outrora se pensava que a atividade infinita no tempo requer uma força infinita, que nenhum consumo esgotaria. Agora pensa-se a força constantemente igual, e ela não precisa mais tornar-se infinitamente grande. Ela é eternamente ativa, mas não pode mais criar infinitos casos, tem que se repetir: essa é a minha conclusão.” (11[269]). Nietzsche, no caderno de